Cimeira de Montebello acolhida com protestos:
Forças canadianas de ocupação fora do Afeganistão!
20 de Agosto de 2007. Serviço Noticioso Um Mundo a Ganhar.

Milhares de manifestantes em Parliament
Hill, Otava, 19 Agosto 2007
Milhares de manifestantes em
Parliament Hill, Otava, 19 Agosto 2007

(Foto: CP / Jonathan Hayward)

A 20 de Agosto, os chefes de estado do Canadá, EUA e México iniciaram uma cimeira de três dias na cidade-retiro de Montebello (no Quebeque, Canadá). Era esperado que a Aliança para a Segurança e a Prosperidade da América do Norte (ASPAN) se centrasse nas polémicas reivindicações dos EUA e do Canadá sobre o Árctico, no aumento da repressão nas fronteiras dos EUA, sobretudo na cada vez mais militarizada fronteira com o México, e na participação do Canadá na ocupação do Afeganistão encabeçada pelos EUA, onde o Canadá, com 2500 soldados, é uma das principais forças estrangeiras. Convencidos de que qualquer acordo a que Stephen Harper, George W. Bush e Felipe Calderón pudessem chegar sobre essas questões só poderia ser mau para os povos do mundo, incluindo os da América do Norte, manifestantes vindos do Quebeque, da vizinha cidade de Otava e de outros locais do Canadá e da América do Norte – cerca de 2000 segundo a agência noticiosa Associated Press – vieram protestar e/ou perturbar a cimeira. Durante as cerimónias inaugurais no Chateau Montebello, a polícia lançou gás lacrimogéneo e atacou centenas de manifestantes reunidos fora do perímetro de segurança.

O seguinte artigo sobre o Canadá e o Afeganistão fez parte da preparação para esses protestos e explica as raízes da Aliança para a Segurança e a Prosperidade e do Conselho da Competitividade da América do Norte que lhe está intimamente associado. (Os “três amigos”, como os chefes de estado da ASPAN se chamam a si próprios, tinham planeado reunir-se no segundo dia da cimeira com o Conselho de CEOs e presidentes de multinacionais.) Este artigo foi publicado na edição de 18 de Maio de 2007 do Arsenal-Express, uma publicação online do Partido Comunista Revolucionário do Canadá (http://www.pcr-rcp.ca).

Este verão, um contingente das Forças Canadianas de Valcartier (arredores da Cidade do Quebeque) com cerca de 2000 soldados partirão para o Afeganistão. Esses soldados irão substituir as actuais forças canadianas baseadas em Kandahar e na região ao seu redor. Com este contingente, o Canadá passará a ser o mais importante elemento das forças imperialistas de ocupação da NATO no Afeganistão.

Após mais de cinco anos de ocupação militar, o povo afegão continua sujeito aos horrores diários da deterioração da situação no seu país: no Norte, os senhores da guerra desfrutam da complacência passiva das forças de ocupação, impondo a sua própria autoridade brutal à população; no Sul, onde se concentra a resistência, e onde as forças da NATO detêm arbitrariamente homens e mulheres e acusam a população de complacência passiva com os talibãs, usando essa acusação como desculpa para o cada vez maior controlo militar.

Manifestantes contra a cimeira
Manifestantes contra a cimeira
(Foto: bp3.blogger.com)

E há casos mais recentes, como os dos prisioneiros afegãos (a maioria civis inocentes detidos arbitrariamente por motivos menores ou mesmo sem motivos) que foram conscientemente entregues às autoridades locais de Karzai, por quem foram espancados e torturados; os casos provados de corrupção e crimes de guerra cometidos por membros do governo de Karzai e pelos senhores da guerra seus parceiros; o apoio dos governos do Canadá e dos EUA a esse sistema abertamente corrupto e o seu apoio aos violentos senhores da guerra; tudo isto mostra que a contínua ocupação do Afeganistão pelo Canadá e pela NATO apenas traz mais sofrimento ao povo afegão. Traz o domínio militar imperialista e não a libertação. O seguinte facto é irrefutável: o povo afegão não pediu ao exército canadiano que viesse e ocupasse o seu país!

E, hoje em dia, essas forças canadianas de ocupação apoiam as forças nacionais de segurança de Karzai que rotineiramente usam a tortura contra civis, em total desprezo pelos mais básicos direitos internacionais. A 23 de Abril deste ano, o jornal Globe and Mail noticiou que elementos presos pelas tropas canadianas e entregues às autoridades afegãs tinham sido sujeitos a tortura. Esses detidos tinham sido mandados parar por forças canadianas, suspeitos de serem membros dos talibãs ou seus apoiantes. Na vasta maioria desses casos, os presos acabaram por ser libertados por falta de provas do seu envolvimento com os talibãs, mas não sem antes sofrerem um tratamento extremamente violento às mãos das autoridades, que envolveu electrocussão, espancamentos e outras violências físicas cruéis.

Rumo à embaixada dos EUA sob o olhar da
polícia, Otava, 19 Agosto 2007
Rumo à embaixada dos EUA, sob o olhar da polícia, Otava, 19 Agosto 2007
(Foto: CP / Jonathan Hayward)

Estes incidentes são uma clara indicação das mentiras do governo Tory (conservador) e dos seus predecessores liberais: apesar das contraditórias alegações fornecidas nas semanas que se seguiram a esses relatos, os factos mostraram que o entendimento alcançado entre o governo canadiano e as forças de segurança afegãs não garantia nenhum tratamento humanitário aos prisioneiros transferidos. Estas mentiras são um exemplo da história a repetir-se a si própria, com o estado canadiano a tentar justificar os seus actos desumanos com os “tempos de guerra”. Não há diferença nenhuma entre a resposta de Harper, “Quando se questiona o governo canadiano, está-se a defender os talibãs” e as montanhas de mentiras e desculpas de George Bush que serviram repetidamente para justificar a guerra no Iraque. Estas não são nem as primeiras nem as últimas mentiras que ouviremos. Mas nós estamos fartos delas!

Nenhum país tem o direito a impor-se a si próprio ou ao seu sistema político aos povos de outras nações. Nenhum país tem o direito legítimo a impor uma guerra a uma população e a expô-la à miséria e à destruição. Nem pela força das armas, nem pela política, nem pela economia. E contudo esses crimes acontecem diariamente, cometidos no passado pelos imperialistas no Vietname, em África e na América Latina; e cometidos hoje pelos imperialistas no Afeganistão, no Iraque e na Palestina. Os intensos vínculos entre os interesses económicos dos Estados Unidos e do Canadá, que foram a verdadeira força por trás da invasão do Afeganistão, estão a ficar cada vez mais claros.

Em Janeiro de 2003, o Conselho Canadiano de Executivos Principais (CCCE) lançou a sua Iniciativa para a Segurança e a Prosperidade da América do Norte, sob a forma de uma cada vez mais forte parceria militar e económica com os Estados Unidos. Em Abril de 2004, o CCCE continuou a sua cruzada e anunciou: “A forma como nós e outros países respondem à inexorável ameaça do terrorismo e dos estados párias tem implicações vitais para o crescimento económico global tal como tem para o futuro do Canadá tanto como uma economia dependente do comércio como uma sociedade baseada na imigração. Em suma, para o Canadá e globalmente para o mundo, a segurança económica e a segurança física tornaram-se inseparáveis.” (“Construindo uma Aliança Canadá-Estados Unidos na América do Norte para o Século XXI”, Abril de 2004) Hoje em dia, os “terroristas”, bem como as forças armadas do Canadá, e os “estados párias”, como os EUA, destroem a segurança física e económica em todo o mundo, e o seu principal objectivo agora é o Iraque e o Afeganistão.

Polícias preparam-se para mais um ataque
aos manifestantes
Polícias preparam-se para mais
um ataque aos manifestantes

(Foto: bp2.blogger.com)

Basta de ocupação! O nosso apoio não deve ir para o governo canadiano nem para o seu parlamento ou as suas forças armadas! Todos eles têm colaborado para ocupar pela força um dos países mais pobres no mundo, por nenhuma outra razão que não seja proteger os seus interesses económicos e políticos em parceria com o seu grande irmão norte-americano. O nosso apoio, a nossa solidariedade, têm que ir para o povo afegão e para os que resistem à ocupação! Nenhum país pode ser libertado pela ocupação estrangeira. Pelo contrário! A presença das forças da NATO apenas aumentou a popularidade dos talibãs e tornou-os heróis aos olhos de parte da população. Só o povo afegão pode libertar o seu país da opressão, venha ela de fontes externas ou internas.

Nós, aqui no Canadá, temos o dever de nos erguermos e nos opormos a esta guerra de ocupação levada a cabo pelo nosso governo e por toda a burguesia canadiana cujos interesses o governo defende. Temos o dever de exigir a retirada imediata das tropas canadianas do território afegão. E, este verão, teremos que dizer em voz alta e clara que os soldados de Valcartier que se estão a preparar para partir para esta guerra suja têm de permanecer aqui!

Canadá fora do Afeganistão! Soldados canadianos, fiquem nos vossos quartéis!

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese