A Líbia, a França e o tráfico de seres humanos
6 de Agosto de 2007. Serviço Noticioso Um Mundo a Ganhar.

Depois de muitos meses de regateio, a Líbia entregou – directamente para as mãos da mulher do Presidente francês Nicolas Sarkozy – os seis profissionais de saúde acusados de injectarem deliberadamente crianças com o vírus do VIH. No dia seguinte, 25 de Julho, Sarkozy voou até à Líbia, onde assinou com o líder líbio Muammar Khadafi dois acordos de armamento e o contrato de uma central nuclear, deixando atrás de si os representantes das principais empresas francesas de material militar e outras empresas estratégicas a negociar mais contratos.

O chefe dos serviços de informações da Bulgária, General Kirtcho Kirov, explicou assim o caso: O destino das profissionais búlgaras foi “apenas um grão de pó no centro de um enorme furacão onde convergem gigantescos interesses. Eu sabia que dali sairiam enormes contratos de armamento e concessões petrolíferas.” (24-Tchassa, 30 de Julho, citado pelo Le Monde). Ele disse que os serviços secretos de cerca de 30 países estavam envolvidos nas negociações, incluindo os dos EUA, Itália, Israel, organizações palestinianas e estados árabes.

Que este caso foi um sórdido exemplo de tráfico de seres humanos sob disfarce diplomático é bastante óbvio para muita gente. Mas os objectivos dos envolvidos, dos que realmente ficaram à frente, e o que eles ganharam, precisam de um pouco mais de análise.

Primeiro, há Khadafi que se autodenomina “Líder e Guia da Grande Jamahiriya [‘estado do povo’] Árabe Líbia Popular Socialista”. Quando chegou ao poder em 1969 num golpe militar contra a monarquia apoiada pelo Ocidente, o Coronel Khadafi prometeu libertar o país das garras das potências imperialistas que drenavam o seu petróleo. Quão pouco a Líbia mudou sob a sua liderança pode ser visto no seu actual desespero para assinar novos contratos com companhias petrolíferas ocidentais para renovar as envelhecidas instalações petrolíferas do país e manter a sua elite a flutuar no dinheiro da exportação de petróleo que ainda contribui para 80% dos seus rendimentos.

Em 1999, quando as cinco enfermeiras búlgaras e um interno palestiniano foram presos, Khadafi anunciou que eles tinham envenenado deliberadamente mais de 400 crianças líbias como parte de uma conspiração israelita e/ou norte-americana para destabilizar o seu governo. Ao libertar agora esses médicos em troca de acordos comerciais com a França e outras grandes potências, Khadafi ou está a trair as crianças e o povo, ou a admitir que tudo não passou de uma mentira desde o início.

O filho de Khadafi, Saif al-Islma Khadafi, que falou aos jornalistas do diário francês Le Monde, foi mais sincero. Ele disse que as autoridades locais tinham usado os seis como “bodes expiatórios” (Le Monde, 1 de Agosto). Ele chamou ao acordo “um bom negócio” para todos os envolvidos.

O acordo oficial – a parte que ambos os lados estão a admitir – foi que, em troca da entrega dos seis a Cécilia Sarkozy, as famílias das crianças receberiam cerca de um milhão de dólares cada. O facto de nenhum dos governos envolvidos, nem a União Europeia, parecerem saber exactamente de quantas crianças se trata – passados oito anos – é um sinal de que não lhes está a ser dada muita atenção em tudo isto. (Diz-se que são pelo menos 400, das quais até agora mais de 50 morreram de SIDA). Peritos europeus salientaram que um milhão de dólares não seriam suficientes para pagar as contas médicas vitalícias que estas crianças enfrentam, incluindo o tratamento na Europa que lhes foi prometido. Quando o governo de Khadafi foi acusado de envolvimento na explosão em 1988 de um avião por cima de Lockerbie, na Escócia, os EUA obrigaram-no a pagar 10 milhões de dólares por cada uma das vítimas mortas. A preocupação com as crianças e com o seu futuro não parece fazer parte deste acordo. Segundo o filho de Khadafi, Sarkozy não estava a mentir totalmente quando disse que o governo francês não tinha fornecido o dinheiro, mas que tinha “organizado” o dinheiro, presumivelmente de governos árabes amigos da França.

O uso pelo filho de Khadafi da expressão “bode expiatório” parece correcto. A cidade de Bengasi foi o ponto central da rivalidade da classe dominante líbia com Khadafi pai. Em 1989, uma revista gerou um ultraje nacional quando pela primeira vez revelou a história das centenas de crianças que se tinham tornado VIH-positivas no hospital. Os seis foram os bodes expiatórios convenientes porque algumas pessoas tinham ciúmes dos profissionais búlgaros e palestinianos que trabalharam na Líbia durante o embargo ocidental. Uma investigação internacional chegou depois à conclusão que a pior epidemia local de VIH de sempre tinha começado antes dos seis terem começado a trabalhar no hospital. Ela sugeriu que o verdadeiro culpado seria a falta de material médico adequado como cateteres e seringas novas. Uma questão a que o Ocidente parece não querer responder: Terá o embargo à Líbia patrocinado pelos EUA sido um factor importante dessa situação?

Mas não há nenhuma razão para supor que as autoridades locais de Bengasi tenham sido os principais organizadores por trás da perseguição aos profissionais que durou oito anos. A polícia de Khadafi torturou-os ao estilo de Guantânamo, até eles confessarem. O sistema de justiça concedeu-lhes novos julgamentos e depois recondenou-os e reconfirmou repetidamente a sua pena de morte, em conjugação com os altos e baixos das negociações do regime com o Ocidente. A União Europeia abandonou as sanções à Líbia em 2004 e, por volta de 2006, um embaixador norte-americano estava de novo no seu posto, mas houve disputas repetidas sobre as condições da “reintegração” do país no sistema económico e político mundial dominado pelas grandes potências.

O filho de Khadafi disse à revista norte-americana Newsweek de 13 de Agosto: “Trata-se de um jogo imoral, mas eles definiram as regras e agora os europeus estão a pagar o preço.” Também isto é enganador. De facto, é a Líbia que está a pagar o preço, apenas a Líbia e o seu povo, e as potências europeias vão ficar ainda mais ricas e mais poderosas com uma maior extensão do seu controle político e económico sobre o país e a região.

Obviamente, uma das questões a resolver era o que o regime proxeneta líbio queria obter com a sua prostituição do país, mas a maior e mais fundamental questão era qual dos imperialistas ocidentais ficaria com a Líbia, um país com enormes reservas e campos de petróleo e gás, urânio e outros recursos, potencialmente fontes de enormes lucros apenas à espera de serem extraídos. Embora oficialmente a UE tenha terminado há vários anos o seu embargo à Líbia, até recentemente nenhum país ocidental tinha conseguido fazer nenhum grande acordo. A manipulação e o bloqueio mútuo entre as grandes potências parecem ter sido pelo menos parte da razão. Por exemplo, a Alemanha tornou claro que queria que a UE segurasse a França.

Como salientou o próprio Sarkozy quando foi criticado por este acordo sujo, a França não foi a primeira potência nesta corrida ao ouro. “É melhor chegar depois que antes” de os seis terem sido libertados, disse ele, uma bofetada implícita ao primeiro-ministro da Grã-Bretanha, Tony Blair, que tinha visitado Khadafi em Maio para assinar os mega-contratos britânicos. Esta foi a forma de Sarkozy tentar alegar superioridade moral no pântano dos interesses imperialistas. “Por que é que eu estou a ser criticado, por ter obtido trabalho para as empresas francesas?” disse ele em sua própria defesa. Até Sarkozy ter entrado em cena, a Grã-Bretanha, a Alemanha, os EUA e a Itália, todos pareciam estar à frente da França a meter um pé na porta da Líbia, queixou-se o Le Monde. Imediatamente a seguir, a Secretária de Estado norte-americana Condoleezza Rice anunciou que em breve estaria a caminho de Trípoli.

As razões para o aparente sucesso da França até agora têm menos a ver com o charme de Sarkozy e mais com a sua tradicional influência económica e política na Líbia e naquela região de África e com o ajuste entre os seus interesses imperialistas e o que a Líbia tem para oferecer. “Um importante fornecedor de armamento à Líbia antes do seu aventureirismo no Chade ter esfriado as relações franco-líbias, a França está bem colocada para fornecer à Líbia a ajuda de que muito necessita para construir auto-estradas, linhas férreas, sistemas de satélites e projectos de engenharia civil, aeroespacial e defesa”, escreveu a 25 de Julho o International Herald Tribune, de propriedade norte-americana.

Os contratos de armamento, que valem menos de 500 milhões de dólares, são coisa relativamente pequena. O negócio entre o governo líbio e o grupo nuclear francês Areva é muito mais prometedor. Graças ao seu acordo com os EUA para abandonar o seu programa nuclear, a Líbia tem uma grande quantidade de urânio à espera de ser transportada, a qual é particularmente bem-vinda à medida que se reduzem os fornecimentos mundiais de urânio. Além disso, a Areva pode estar muito envolvida não só na construção e operação de centrais nucleares na Líbia, incluindo, segundo o filho de Khadafi, com o objectivo de vender electricidade a Itália, como também na prospecção de minérios a muito maior profundidade. Além disso, a Líbia parece estar a emprestar o seu músculo militar para ajudar a Areva nos seus esforços para manter afastados os EUA e garantir o controlo francês exclusivo sobre o Níger, país vizinho da Líbia e uma das principais fontes mundiais de urânio. No mesmo momento em que Sarkozy estava a comprar barato a Líbia, a Areva estava a pagar muito mais por uma importante empresa canadiana de exploração mineira de urânio, reforçando a posição do monopólio francês como terceiro extractor mundial desse minério estratégico.

As armas francesas para a Líbia podem ser sobretudo uma questão de pôr armas e interesses franceses em mãos líbias para aumentar os interesses franceses nos vizinhos Chade, Níger, Sudão e outros países da região. O envolvimento dos serviços secretos de Marrocos e da Argélia neste caso, segundo o general búlgaro, dois países mais tradicionalmente dominados pela França, apesar dos recentes esforços norte-americanos, parece estar de acordo com as declarações públicas de Sarkozy de tornar a Líbia numa base de uma “União de Estados Mediterrânicos” dominada pela França.

Porém, ao mesmo tempo que faz o seu melhor para manter a superioridade sobre os seus rivais, de qualquer forma possível, no verdadeiro estilo dos gângsteres, a França parece pensar ser mais sensato também incluí-los no acordo. Os contratos de armamento assinados até agora dão à Grã-Bretanha, Alemanha e Itália, em particular, uma parte do bolo. A partida de Sarkozy para umas férias de alta visibilidade nos EUA imediatamente após a sua viagem de negócios à Líbia parecia assinalar uma aceitação da supremacia imperialista norte-americana – nas condições francesas. Isto é um bom exemplo do que Karl Marx quis dizer quando chamou ao capitalismo “uma fraternidade de ladrões em acção”.

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese