A verdadeira face do “milagre chinês”
30 de Julho de 2007. Serviço Noticioso Um Mundo a Ganhar.

A 17 de Julho, o gestor de um forno no norte da China e um dos seus empregados foram condenados a prisão perpétua e à morte, respectivamente. Isto ocorreu depois das chocantes notícias de Junho sobre um escândalo de trabalho escravo terem revelado como as pessoas eram forçadas a trabalhar em fornos de tijolos na província do Shanxi.

Estes homens foram acusados de manterem os operários em virtual escravidão e de os forçarem a trabalhar num forno de tijolos tipo estufa. Segundo os relatos da comunicação social estatal, os donos do forno geriam a fábrica como uma prisão, usando cães de guarda e espancamentos para intimidarem os operários a não fugirem.

Durante o julgamento dos acusados também foi revelado que nesse forno em particular eles mantinham escravizados 34 trabalhadores, entre os quais nove deficientes mentais. No ano anterior à sua prisão, 19 operários tinham sofrido ferimentos. A comunicação social estatal relatou que pelo menos 13 deles morreram de excesso de trabalho e abusos, entre os quais um trabalhador que alegadamente foi espancado até à morte com uma pá. O seu dia de trabalho começava às 5 da manhã e durava entre 16 a 20 horas. Os operários escravizados eram mantidos presos num quarto vazio sem camas nem fogão e apenas eram autorizados a sair para trabalhar nos fornos abrasadores, de onde transportavam nas suas costas nuas pesadas cargas de tijolos acabados de cozer. Muitos ficaram gravemente queimados. Eram alimentados uma vez por dia, recebendo pão cozido a vapor e água fria durante a única pausa do dia, que durava 15 minutos. As testemunhas declararam ao tribunal que o trabalho duro era acompanhado de chicotadas e espancamentos.

Preocupadas com o facto de estas notícias escandalosas poderem manchar a imagem do chamado “milagre económico chinês”, a princípio as autoridades tentaram dar a impressão de que tais incidentes são raros e apenas ocorrem devido à crueldade de alguns indivíduos e dos avaros donos dos fornos. Porém, vários relatos revelaram que o trabalho em condições brutais e por vezes de escravatura parece ser comum, se não em toda a China, pelo menos nalgumas províncias do interior como o Henan e o Shanxi. As autoridades, pelo menos ao nível provincial, conheciam essas situações mas ignoraram-nas deliberadamente por causa do seu empenho em estimular o crescimento económico a qualquer preço.

Centenas de pais andavam à procura dos seus filhos desaparecidos e tinham razões para acreditar que eles tinham sido forçados a trabalhar nos fornos de tijolos. O governo só agiu quando esses pais colocaram na internet uma carta aberta a acusar as autoridades do Henan e do Shanxi de os ignorarem e mesmo de protegerem os donos dos fornos, traficantes de seres humanos. “Um jornalista do Henan que tinha ajudado a expor o caso acusou as autoridades de impedirem os pais de encontrarem as crianças desaparecidas. ‘Na nossa reportagem, o maior obstáculo foi a falta de cooperação de algumas autoridades do Shanxi’, disse o jornalista televisivo Fu Zhenzhong ao The China Youth Daily. ‘Alguns ainda estão a tentar várias formas de impedir os pais de salvarem os seus filhos’.” (Reuters, 17 de Junho) Por fim, cerca de 1000 operários foram libertados numa série de rusgas e buscas policiais em 7500 fornos nas províncias do Henan e do Shanxi, na China central.

Os traficantes ligados aos fornos procuravam crianças nas ruas. Usavam falsas promessas e mesmo o sequestro para conseguirem crianças com menos de dez anos de idade e depois vendiam-nas aos donos dos fornos por menos de 50 € cada.

Como resultado deste escândalo, os tribunais do Shanxi condenaram um total de 29 pessoas pelo seu papel nesta escravatura. Uma outra dúzia de pessoas está à espera de julgamento.

O governo chinês não conseguiu limitar o escândalo a um caso isolado num forno, mas fez o seu melhor para limitar o seu impacto, castigando um grande número de funcionários de níveis inferiores. Os altos funcionários foram ilibados de qualquer comportamento incorrecto. Foram tomadas medidas disciplinares contra quase cem membros do chamado Partido Comunista.

Ao contrário do que as autoridades chinesas e os seus apoiantes no Ocidente possam querer que as pessoas acreditem, há razões para pensar que as condições de trabalho em vários lugares da China não são inteiramente diferentes do que veio à luz do dia sobre a situação nesses fornos. Por exemplo, a 18 de Junho de 2007, o jornal britânico Guardian noticiou: “Das densamente aglomeradas zonas industriais da Província de Guangdong [Cantão] aos mercados de rua, cozinhas e bordéis das principais cidades, às primitivas fábricas das relativamente pobres províncias ocidentais da China, o trabalho infantil é um facto diário da vida, e um facto a que tipicamente o governo fecha os olhos... como disse o professor de economia da Universidade de Tecnologia de Pequim, Hu Jindou: ‘O trabalho forçado e o trabalho infantil estão longe de ser um fenómeno isolado. Estão profundamente enraizados na realidade de hoje, uma combinação de capitalismo, socialismo, feudalismo e escravidão.’ ”

(De facto, embora o capitalismo, o feudalismo e a escravidão se entrosem na actual economia da China, quanto ao socialismo, ele foi aí abruptamente derrubado em 1976, num golpe de estado após a morte de Mao, quando aqueles a quem Mao chamava de seguidores da via capitalista dentro do Partido Comunista tomaram o poder pela força. A continuação da existência hoje em dia de indústrias estatais não é um sinal de socialismo, mas de um sector de capitalismo de estado na economia, em que os trabalhadores são tão explorados como no sector privado.)

O mesmo relato refere-se a um outro caso na província de Guangdong. Os estudantes do ensino secundário da longínqua Província do Sichuan queixaram-se de que estavam a ser abusados por um programa de trabalho e estudo que fornecia jovens trabalhadores da China ocidental a uma fábrica de montagem de produtos electrónicos na cidade industrial em expansão de Dongguan, no sudeste do país, onde é comum a escassez de trabalhadores. Eles foram obrigados a trabalhar, supostamente para reembolsarem as suas taxas escolares. Os estudantes queixaram-se de que trabalhavam 14 horas por dia, incluindo horas extraordinárias obrigatórias. Eles também disseram que a sua remuneração lhes era retida. Nalguns casos, quem queria abandonar o programa não tinha nenhuma forma de telefonar à família ou de pagar a viagem de regresso a casa.

Um relato similar apareceu na revista alemã Der Spiegel de 6 de Fevereiro de 2005. Ullrich Fichtner escreveu que o milagre económico que dura há duas décadas na província do Shenzhen, cuja taxa anual de crescimento económico chegou a 15%, recai sobre os ombros das jovens operárias das fábricas, como a emagrecida Tang Shotsen, que faz máquinas de café de manhã cedo até noite dentro, sete dias por semana, por 500 yuans (45 €) por mês, e as raparigas que montam bonecas de plástico, fazem pulseiras de relógio com couro inacabado, fabricam roupas desportivas e peças de vidro para fotocopiadoras e inúmeros outros trabalhos. Nessas fábricas, o risco de acidente é elevado. Frequentemente, os operários ficam gravemente feridos, perdem um dedo ou queimam uma parte do corpo, mas não há seguros nem cuidados médicos, apenas algum gesso e ligaduras.

O jornalista Fichtner relatou que as mulheres constituem 70 por cento dos 5,5 milhões de trabalhadores sazonais vindos de toda a China para Shenzhen e para as fábricas da vizinhança. Nalgumas zonas da província como Nanshan, um centro de alta tecnologia, esse número é ainda mais elevado. A migração de jovens raparigas começou em 1980 quando Deng Xiaoping chamou a Shenzhen, uma cidade da província de Guangdong, de laboratório da palavra de ordem que ele adoptou para a China: “Ficar rico é glorioso”. A deslocação de raparigas vindas de toda a China para Shenzhen, à procura de uma vida melhor, atingiu o seu máximo entre meados dos anos 80 e o início dos anos 90, quando notícias sobre esse lugar de “sonho” se espalharam por toda a China. Pouco depois, esses sonhos mostraram ser ilusões e Shenzen mostrou ser um lugar onde a vida se esvai dos trabalhadores para os produtos que eles fazem.

Uma consequência disso foi que um vasto número de mulheres acabou a trabalhar como prostitutas na cidade e nas zonas vizinhas. O relato alemão descreve a vida de mulheres como Chou Venil, que trabalha num salão de massagens sete dias por semana, das 8 da manhã às 8 da noite, por 54 cêntimos à hora. O relato continua: “Mulheres mais velhas, com dentes estragados, estão nas calçadas carregando álbuns de fotografias. Esses álbuns são de facto catálogos de prostitutas, com página após página de fotografias tipo passe de caras deformadas e inchadas que indicam os sonhos desfeitos das pobres raparigas. As mulheres idosas sussurram: ‘Meninas, senhor, são jovens, não têm SIDA, senhor...’ ”

A prostituição parece ser integrante desta expansão económica. Essas mulheres enfrentam enormes problemas. Os seus sonhos desapareceram e agora têm que lutar por um trabalho com que nunca sonharam: “No início da semana, na cidade meridional de Shenzhen, milhares de polícias armados foram mobilizados para desmobilizar um protesto de mais de 3000 prostitutas e trabalhadoras das salas de caraoque que ficaram sem trabalho após uma investida contra os salões de massagens e as discotecas” (Guardian, 21 de Janeiro de 2006). A cidade é conhecida não só pelas prostitutas de rua mas também pelo enorme número de concubinas mantidas como “segundas esposas” por homens de negócios estrangeiros, sobretudo de Hong Kong.

Por trás desta realidade está uma outra verdade amarga: muitas destas jovens que vieram para Shenzhen são de famílias onde as raparigas não eram bem-vindas. Elas vêm de lugares onde dar à luz mais uma rapariga é considerado um desastre e é comum o infanticídio de bebés do sexo feminino. Esse mal desapareceu ou diminuiu enormemente depois da revolução de nova democracia de 1949 e do progresso da China rumo ao socialismo. Deflagrou novamente na China nas duas últimas décadas, tal como muitos outros aspectos do capitalismo e outras relações económicas e sociais opressoras.

Estes exemplos do Guangdong são particularmente importantes porque, ao contrário do Shanxi, onde se situam os fornos de tijolos de trabalho escravo, Guangdong não é uma zona isolada e atrasada, mas uma província litoral emblemática do rápido crescimento da China e do sucesso das suas indústrias de exportação. É a província mais rica do país. O sucesso do Guangdong depende da sobre-exploração dos trabalhadores de outras zonas, distantes e mais pobres, sobretudo das zonas do interior, e, em larga escala, das mulheres. Sem o tipo de condições atrasadas das zonas rurais simbolizada na escravatura dos fornos de tijolos, a indústria moderna da China não seria tão lucrativa.

Ouvimos falar frequentemente do “milagre económico chinês” depois do abandono da via socialista que se seguiu à morte de Mao em 1976. Desde então, a economia da China tem atingido uma taxa de crescimento de cerca de dez por cento ao ano. Mas esse crescimento tem sido conseguido à custa de enormes e galopantes disparidades, entre as quais os fossos económicos entre cidade e campo, entre agricultura e indústria, entre as mais bem-sucedidas províncias do litoral e o interior pobre, bem como da inversão da emancipação da mulher. Estas desigualdades são uma fonte de enormes lucros e de um enorme sofrimento. Também são um sinal de um sistema social radicalmente diferente do da época de Mao.

Mao disse que a verdadeira diferença entre capitalismo e socialismo não é aquilo que uma sociedade é chamada mas sim que via segue. O socialismo não pôde simplesmente abolir de imediato tudo o que tinha herdado de toda uma história de exploração, incluindo essas e outras principais diferenças sociais de opressão, sobretudo a divisão da sociedade em classes e todas as ideias, hábitos e práticas que resultam dessas relações de propriedade. Mas quando o proletariado detinha o poder de estado, os revolucionários sob a sua direcção lutaram por reduzir os mesmos fossos que agora se tornaram em profundos abismos na China de hoje. Fizeram-no através de políticas que não se baseavam em saber quem produzia mais riqueza em menos tempo, mas sim no que é que resultaria num crescimento equilibrado, equitativo e emancipador da sociedade no seu todo.

A China socialista conseguiu milagres económicos. A sua taxa de crescimento sustentada era enorme em comparação com a de países comparáveis, como a Índia. Em apenas algumas décadas duplicou a esperança média de vida das pessoas. Mas a questão não era saber como produzir mais, mas qual o objectivo da produção e, por conseguinte, como produzir. Deveria a riqueza produzida pelo trabalho aumentar ainda mais as disparidades e as desigualdades sociais e escravizar os trabalhadores? Ou deveria permitir que cada vez mais os trabalhadores se tornassem mestres da produção e de toda a sociedade? Devem os trabalhadores ser bestas de carga ou devem liderar a vasta maioria das pessoas na transformação revolucionária da China e torná-la numa zona libertada da revolução mundial para libertar a humanidade e fazer nascer o comunismo, um globo livre das grilhetas das desigualdades sociais e das relações que criam tanta miséria e inibem o potencial humano?

As políticas da liderança do partido comunista em relação a estas questões, disse Mao, determinam se um país é ou não verdadeiramente socialista e se esse partido é ou não verdadeiramente comunista. A verdade desta ideia é dramaticamente demonstrada pelo contraste entre a China de hoje e a dos dias de Mao – o contraste entre a China dele a caminho de um futuro imensamente diferente para toda a humanidade e o país a caminho do inferno do século XXI que trouxe de volta tantos dos males do passado.

Desde que os seguidores da via capitalista endeusaram a propriedade privada, tornaram o lucro no objectivo mais importante e aboliram as formas colectivas de propriedade e o modo de vida no campo, a maior parte dos dois terços da população que ainda é rural foi abandonada. Nas cidades, a vasta maioria transformou-se em escravos assalariados – que conseguem ganhar a vida apenas enquanto o seu trabalho enriquecer o capital. Mesmo as indústrias mais lucrativas e de alta tecnologia do país dependem da sobreexploração dos migrantes rurais e a maioria desses negócios está nas mãos de capitalistas estrangeiros. A pobreza e a opressão são uma condição da riqueza que o país produz. A China substituiu o socialismo pelo capitalismo globalizado.

Embora seja certamente verdade que a vasta maioria das pessoas não é mantida num tipo de escravatura literal como o das fábricas de tijolos, o que tem acontecido nas zonas mais pobres e mais atrasadas da China faz luz sobre o tipo de sociedade em que se tornou. Ainda mais importante, mostra que tipo de relações sociais caracteriza hoje a sociedade chinesa. Onde os trabalhadores eram antes mestres e libertadores, são agora escravos de novo.

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese