O Irão continua a expulsar em massa os refugiados afegãos
9 de Julho de 2007. Serviço Noticioso Um Mundo a Ganhar.

Continua sem abrandar uma campanha de expulsão de refugiados afegãos no Irão. Entre o final de Abril e o final de Junho, a República Islâmica do Irão reuniu mais de 100 000 afegãos que trabalhavam no Irão e despejou-os do outro lado da fronteira.

O Irão tinha planeado originalmente deportar 5000 afegãos por dia. Nas três primeiras semanas da campanha, o governo expulsou 80 000 refugiados. Isso gerou oposição no próprio Irão (incluindo uma carta aberta assinada por escritores e outros intelectuais) e no Afeganistão. Houve vários protestos em Cabul, muitos panfletos, comunicados e relatórios, todos a condenar o regime iraniano e o seu tratamento brutal dos refugiados afegãos. Uma manifestação de residentes afegãos na Alemanha teve lugar em Frankfurt a 30 de Junho. A República Islâmica do Afeganistão também se sentiu forçada a emitir um protesto oficial. Face a tudo isto, Teerão teve que reduzir as deportações para 2000 por dia. Mas não as abandonou.

Durante as duas últimas décadas têm ocorrido expulsões de refugiados afegãos com vários graus de intensidade. Elas têm sido parte integrante da política de Teerão de manter uma pressão permanente sobre os refugiados e os trabalhadores afegãos residentes no Irão. Em 2006, o Irão expulsou cerca de 146 000 refugiados e trabalhadores afegãos. No passado, muitos deles acabaram por voltar ao Irão, ao lado de novas pessoas à procura de trabalho. Há um fluxo contínuo de um lado para o outro da fronteira. Agora, o regime iraniano parece estar não só a deportar as pessoas mas a brutalizá-las mais que nunca, num esforço para as desencorajar de voltar.

A actual campanha é certamente uma das maiores e mais brutais. As autoridades iranianas “estão a comportar-se muito mal em relação aos deportados”, disse à agência Associated Press um responsável do Alto Comissariado da ONU para os Refugiados na cidade fronteiriça de Islam Qala. “Os maus-tratos são comuns e há abusos a todos eles” (International Herald Tribune, 18 de Junho). Um médico que faz exames numas instalações da ONU do lado afegão da fronteira disse que tinha tratado pelo menos sete homens que tinham sido severamente espancados, com clavículas, pernas e braços partidos e pontos nos rostos. Quem resistia era espancado. Três homens foram atirados do cimo de um local de construção onde trabalhavam e depois deportados sem tratamento. Eles deram entrada num hospital em Herat, no Afeganistão, que confirmou a morte de pelo menos um deles.

Quando a República Islâmica do Irão iniciou a sua campanha, as suas forças de segurança invadiram os locais de trabalho e as casas dos imigrantes afegãos e espancaram-nos e insultaram-nos como “lixo afegão”. A polícia levou muitos deles sem informar as suas famílias ou lhes dar tempo para recolherem os seus salários ou poupanças. Muitos nem sequer foram autorizados a recolher os seus poucos pertences. Depois, os que foram presos foram agrupados em pátios e centros de detenção imundos e abarrotados onde foram mantidos durante vários dias antes de serem finalmente levados para a fronteira e despejados do outro lado. Depois de trabalharem durante décadas no Irão, muitos acabaram com nada mais que as roupas que traziam vestidas. A maioria não tinha nenhum lugar para onde ir e agora estão sem comida ou sem abrigo. Embora a maioria dos deportados tenham sido homens, também foram expulsas famílias inteiras, e muitas acabaram separadas porque os pais foram arrebanhados enquanto as crianças ainda estavam na escola.

Os responsáveis iranianos alegaram que o seu único objectivo era expulsar os que trabalhavam “ilegalmente”. Isto já seria suficientemente mau se fosse verdade, mas não é. Em inúmeras ocasiões relatadas, os esbirros do regime roubaram os bilhetes de identidade dos refugiados e chegaram mesmo a rasgá-los. Embora o governo iraniano tenha anunciado um plano para expulsar o que diziam ser 1,5 milhões de imigrantes “ilegais”, as suas forças de segurança fizeram pouca distinção entre os “ilegais” e os 950 000 afegãos “legalmente” registados que moram no Irão. Trata-se de um pogrom anti-afegão puro e simples.

O que levou os refugiados afegãos ao Irão

Milhões de habitantes do Afeganistão ficaram sem casa e desalojados devido às guerras das três últimas décadas. A intervenção das potências imperialistas e dos estados reaccionários da região tem sido o principal problema do Afeganistão. Os esforços para influenciarem e controlarem o país levaram à invasão do país pelo imperialismo soviético e a uma ocupação que durou uma década. Desde então, toda uma série de guerras reaccionárias tem sido imposta ou induzida de fora. Os oprimidos do Afeganistão estiveram sob o domínio de governantes islâmicos dependentes de potências estrangeiras (como os talibãs, inicialmente levados ao poder pelo Paquistão com o consentimento dos EUA) ou sob ocupação directas de imperialistas estrangeiros. A mais recente ocupação do país foi em 2001 pelos imperialistas ocidentais (Nato) encabeçados pelos EUA. Como resultado, milhões de pessoas perderam as suas casas, os empregos e a mínima segurança e foram forçadas a abandonar as suas aldeias e cidades. A maior parte delas foi para os vizinhos Irão e Paquistão, onde procuraram refúgio para as suas famílias ou trabalho para que pudessem enviar pelo menos algo com que manter as suas famílias afastadas da fome.

O número de refugiados e trabalhadores afegãos no Irão antes da invasão norte-americana era estimado entre 2 e 3 milhões. Depois de os EUA terem invadido o Afeganistão, o regime iraniano apertou os controlos fronteiriços para impedir que mais refugiados entrassem no país. Ultimamente, usando a desculpa de que a vida no Afeganistão ocupado pelos EUA tinha voltado ao “normal”, o regime iraniano tem posto uma pressão crescente sobre os afegãos para que partam.

Uma característica específica da dura vida dos vários milhões de trabalhadores e refugiados do Afeganistão no Irão durante as três últimas décadas tem sido a violação extrema dos seus direitos fundamentais, a insegurança do trabalho e a extorsão, o roubo e a intimidação que têm suportado às mãos do regime iraniano e dos seus esbirros. Eles também tiveram que sofrer maus tratos e insultos e uma nauseabunda atmosfera de chauvinismo, porque o regime e a sua comunicação social tentaram culpar os refugiados e trabalhadores afegãos por todos os problemas do país.

Os trabalhadores afegãos no Irão têm feito os trabalhos mais duros e nas piores condições em fábricas de tijolos, campos e quintas, avicultura e matadouros, construção e pedreiras, escavação de poços e, nas cidades, limpeza das ruas e recolha do lixo, para poderem alimentar as suas famílias. Em muitos casos, os seus miseráveis salários foram confiscados pelos patrões ou extorquidos por forças de segurança como os guardas fronteiriços ou os Pasdaran (os chamados Guardas Revolucionários) quando são parados para identificação. Agora, os governantes iranianos estão a ir ainda mais longe na sua perseguição e brutalidade.

Uma breve análise da recente campanha

Alguns observadores internacionais crêem que a cruzada do regime contra os afegãos é essencialmente um acto de vingança contra o regime de Karzai no Afeganistão e os seus amos norte-americanos, motivado pela pressão internacional e pelas sanções económicas lideradas pelos EUA e sobretudo pelas recentes acusações de Washington de que o Irão está a dar apoio militar aos talibãs. Embora isso possa ser uma razão, não consegue explicar totalmente um ataque que esteve a ser preparado durante muitos meses.

Por seu lado, o regime iraniano culpa os refugiados afegãos pelo desemprego e acusa-os de gastarem a riqueza e os recursos do país. Como disse o embaixador iraniano em Cabul, “o enorme número de refugiados e migrantes indocumentados afegãos absorve uma enorme parte dos subsidiados cuidados de saúde e infra-estruturas de base do Irão.” (IHT, 18 de Junho). Este meio de comunicação social reaccionário ocidental partilha esse sentimento e aprova implicitamente a actuação do regime ao acrescentar que “os migrantes afegãos são um enorme fardo para a economia [do Irão]”.

Os responsáveis iranianos anunciaram que ao expulsarem os refugiados afegãos estavam a criar cerca de 100 000 oportunidades de trabalho e que estavam a planear aumentar esse número para 300 000 ou 400 000. A República Islâmica do Irão certamente aprendeu um importante estratagema com os governos das potências imperialistas que culpam os imigrantes pelo desemprego e por outros problemas que são parte integrante do seu sistema económico e social. Com esse encobrimento, tentam desviar o descontentamento da população e promover a rivalidade e a hostilidade entre as massas. Embora a recente actuação do regime seja a continuação das políticas antipopulares das épocas dos presidentes Rafsanjani e Khatami, a sua dimensão e brutalidade sugere objectivos específicos imediatos.

O assédio aos imigrantes afegãos tem escalado nos últimos anos. Em 2003, todos os refugiados e trabalhadores afegãos foram obrigados a entregar os seus cartões de residência em troca de um novo cartão temporário. Durante um período de seis meses iniciado no Outono passado, agentes dos ministérios do Trabalho e do Interior e as forças de segurança inspeccionaram mais de 200 000 locais de trabalho à procura de trabalhadores afegãos para serem expulsos. O governo também introduziu novas medidas para pressionar os patrões que empregam trabalhadores afegãos “ilegais”. As novas restrições aos imigrantes afegãos incluem a proibição dos seus filhos estudarem em escolas públicas. Estas medidas vieram somar-se às já existentes, como a negação do direito a movimentarem-se livremente no Irão, a terem um emprego e a terem seguros de saúde.

Aqueles que dizem descaradamente que os imigrantes afegãos “gastam” os recursos iranianos sabem bem que a riqueza que esses infatigáveis trabalhadores produzem é muito maior que os insignificantes recursos que eles e as suas pobres famílias consomem.

Em primeiro lugar, os padrões de vida dos que trabalham no tipo de empregos permitidos aos refugiados afegãos não são assim tão diferentes dos padrões de vida dos desempregados iranianos. Em segundo lugar, sem o já muito barato trabalho dos imigrantes afegãos, essa economia estaria ainda mais paralisada e numa crise mais profunda.

Independentemente de quais sejam as suas ambições, a burguesia burocrata dominante no Irão é economicamente dependente do mercado mundial e do sistema financeiro imperialista. Sobretudo no contexto da competição internacional de hoje em dia, para assegurarem a rentabilidade do capital, precisam de trabalho super-barato. O seu objectivo é tornar mais “eficiente” a exploração dos trabalhadores e refugiados afegãos, criando um estado de terror que, combinado com a sua situação incerta e instável, seja usado para reduzir ainda mais o seu preço de trabalho, mantendo principalmente os que são mais capazes e reduzindo o número de familiares que não trabalham (embora a maior parte das crianças tenha nascido no Irão), ao mesmo tempo que os privam de quaisquer dos serviços disponíveis na sociedade. Como disse o Embaixador do Irão no Afeganistão, Muhammad Bahrami, as deportações continuarão até uma “conclusão satisfatória do nosso projecto” (IHT, 18 de Junho).

O sacrifício das vidas desses trabalhadores e dos seus filhos é uma das razões por que uma estreita camada da sociedade fica cada vez mais gorda. É por isso que os filhos dos imigrantes são privados de educação – para que a pobreza desse sector das massas seja reproduzido e que as condições de escravatura em que trabalham para os capitalistas compradores iranianos e o regime islâmico seja garantido durante gerações. É por isso que dos 2,5 milhões de imigrantes, entre os quais um milhão com residência legal, menos de 1000 tenham obtido licenças de trabalho.

O papel do regime iraniano na crise do Afeganistão

Durante muitos anos, o regime islâmico do Irão manipulou a questão dos refugiados afegãos para expandir a sua propaganda anticomunista e propagar ideias religiosas obscurantistas. Nos primeiros anos após a revolução iraniana, uma grande parte dos imigrantes afegãos eram jihadistas ou pró-jihadistas. Eles foram usados para ajudarem a propagar o fundamentalismo religioso na região. No Irão, o regime usou-os para ajudarem a eliminar comunistas, tanto os revisionistas pró-soviéticos (os falsos comunistas) como as forças genuinamente revolucionárias que desfrutaram de muita popularidade por altura da queda do Xá em 1979, sobretudo entre os estudantes e os intelectuais. Muitos refugiados participaram em actividades que incluíam atacar violentamente manifestações e queimar bandeiras vermelhas.

Durante muitos anos, o regime iraniano apoiou financeira e militarmente os criminosos senhores da guerra do Afeganistão. Tanto durante a resistência à ocupação soviética como quando tomaram o poder com a ajuda do Ocidente no início dos anos 90, esses senhores da guerra tornaram num inferno a vida das massas do Afeganistão. Em conjunto com outros senhores da guerra, os partidos reaccionários como o Shia Hezebe Vahdat-e-eslami (Partido da Unidade Islâmica) e o Hezbe Harakat-e-eslami (Partido do Movimento Islâmico) sempre foram os favoritos do regime islâmico iraniano. O Irão enviou frequentemente os seus agentes e peritos ao Afeganistão para treinarem e organizarem grupos como a milícia xiita Sepah-e-Mohammad da zona de Hazarajat. O regime iraniano expandiu a sua influência militar e política e continuou também a propagar no Afeganistão a sua variante da ideologia fundamentalista islâmica através desses partidos e organizações.

Em conjunto com o igualmente islâmico regime do Paquistão e as potências imperialistas, o regime iraniano tem representado um importante papel nos desastrosos acontecimentos no Afeganistão que levaram esse país à beira da destruição. O regime iraniano finge que a sua principal ligação ao Afeganistão e aos afegãos é ter “albergado” vários milhões de imigrantes afegãos. Isso não passa de uma vergonhosa mentira. Ele tem representado um importante papel ideológico e militar na propagação de perspectivas religiosas medievais e na opressão das mulheres do Afeganistão e na repressão dos comunistas revolucionários desse país. Pelo menos até muito recentemente, tem representado um importante papel facilitador da ocupação do Afeganistão pelos EUA e seus aliados. Em suma, a República Islâmica do Irão é um dos criminosos envolvidos na destruição do Afeganistão e deve ser responsabilizada e condenada por isso, ao lado das grandes potências imperialistas.

Além disso, os operários e outros trabalhadores do Afeganistão, as mulheres e os intelectuais afegãos, os que viveram e os que não viveram no Irão, todos têm um papel a jogar no derrube do antipopular regime iraniano. Os imigrantes afegãos no Irão, os refugiados e outros trabalhadores no Irão fazem parte do sector mais oprimido do povo do Irão e são uma parte integrante da classe operária iraniana.

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese