Irrompendo pela Praça Taksim: O 1º de Maio de 2007 em Istambul
7 de Maio de 2007. Serviço Noticioso Um Mundo a Ganhar.

O Primeiro de Maio deste ano na Turquia testemunhou sérios confrontos com a polícia em muitas cidades em todo o país. Mas o mais intenso ocorreu em Istambul, na Praça Taksim, no coração da maior cidade da Turquia.

Há trinta anos, no 1º de Maio de 1977, uma manifestação de 1,5 milhões de pessoas, numa população total nessa altura de 4 milhões, saiu às ruas e convergiu para essa praça. O país estava a passar por um período de insurreição revolucionária e os generais que verdadeiramente detinham o poder estavam determinados a pôr-lhe fim. O que se seguiu foi uma prova de força desapiedada, quando a polícia abriu fogo sobre os manifestantes e matou 34 pessoas.

A Turquia actual tem vindo a viver um novo período de instabilidade e as autoridades estão determinadas a manter em rédea curta os protestos vindos de baixo. Mais de 20 000 polícias cercaram a zona da Praça Taksim no 1º de Maio deste ano, fazendo um cordão à volta da praça e impedindo o acesso a toda a gente. Os transportes públicos foram parados e mesmo os navios foram proibidos de passar pela zona do porto mais próxima da praça.

Mas milhares de pessoas, entre as quais muitos jovens, estavam determinadas a honrar os que tombaram em 1977 e a fazerem ouvir as suas vozes no Dia Internacional do Trabalhador. Os manifestantes, em cujas fileiras estavam vários grupos revolucionários, incluindo membros e apoiantes do Partido Comunista Maoista (Turquia e Norte do Curdistão), também tinham a intenção de estabelecer uma alternativa revolucionária às duas alas do poder turco: as autoridades laicas, encabeçadas pelos generais, e os políticos islâmicos do Partido Justiça e Desenvolvimento, o Partido AK que chefia actualmente o governo.

Após uma série de escaramuças, um grupo de vários milhares de manifestantes furou os cordões policiais que cercavam a praça e abriu caminho. Havia bandeiras vermelhas a esvoaçar e surgiram cânticos de alegria por o terem conseguido. Irromper pela Praça Taksim teve um grande significado simbólico para os dois lados. Desde os sangrentos acontecimentos de 1977 que o governo turco tinha proibido a realização aí de manifestações de qualquer força progressista, num esforço para apagar qualquer recordação do que tinha acontecido e do que esses acontecimentos mostraram sobre a natureza do estado turco. Mas, ao mesmo tempo que sistematicamente proscrevia eventos progressistas, todos os anos, no Dia Nacional da Polícia, milhares de polícias enchiam a praça, enquanto os generais se ocupavam com o equivalente humano de cães a urinar num poste de rua, para marcarem o seu território.

Por isso, a conquista deste ano foi electrizante. E também foi de curta duração. Num vídeo que foi mostrado pelas televisões de todo o mundo, hordas de polícias de bastão na mão avançaram com uma brutalidade esmagadora, partindo cabeças e obrigando os manifestantes a correr. Segundo a comunicação social turca, foram detidas mais de 900 pessoas. Violentas batalhas de rua com a polícia também tiverem lugar nos bairros degradados de Okmeydani, Tem-oto-yoles e em várias outras partes de Istambul, bem como noutras cidades em todo o país.

O 1º de Maio deste ano ocorreu no contexto de um intenso conflito entre as fileiras das classes dominantes da Turquia. Durante muitos anos, os árbitros finais do poder foram os generais que compõem o Conselho Nacional de Segurança. Em várias ocasiões, eles pura e simplesmente dissolveram governos eleitos. O Partido AK, normalmente descrito como “islâmico moderado”, é agora o partido dominante no Parlamento e lidera o governo. Recentemente, propôs que o presidente do país fosse eleito pelo povo, em vez de ser escolhido pelo parlamento, o que é geralmente visto como uma tentativa de aumentar o poder da presidência. Como o presidente é o comandante supremo das forças armadas, pelo menos nas palavras, isso foi visto com grande suspeita pelas forças armadas, bem como pela maioria dos outros partidos parlamentares, de orientação mais laica. Eles responderam com manifestações de rua que mobilizaram muitas centenas de milhares de pessoas, dizendo-lhes que tinham que escolher entre o modernismo laico e a teocracia islâmica medieval.

Nenhuma dessas alternativas oferece ao povo da Turquia outra coisa senão mais opressão e sofrimento e, na realidade, embora por vezes lutando uns contra os outros, ambos têm actuado como vis opressores do povo do país. De facto, os generais, apoiados pelo imperialismo norte-americano, representaram um importante papel na construção da força das organizações islâmicas do país, particularmente no final dos anos 70 e nos anos 80, para se oporem à influência dos comunistas. Para afastarem as mentes dos jovens do Manifesto Comunista e do Livro Vermelho de Mao, os bairros degradados de Istambul foram inundados com cópias do Alcorão. As mesquitas apareceram como cogumelos após a chuva. Ainda hoje, o Departamento de Assuntos Religiosos do governo, o Diyanet Kurumu, tem o quarto maior orçamento departamental e as escolas estatais fornecem habitualmente educação religiosa.

Por seu lado, o Partido AK no governo, tem liderado um período de modernização da economia e do governo da Turquia e continuamente tem feito esforços para que o país se torne membro da União Europeia. Muitos jovens da classe média, incluindo universitários, têm gravitado sob as suas asas por repúdio e frustração com a sua experiência com o laicismo, o qual basicamente tem significado governos pró-EUA que em última análise respondem a uma junta militar “benevolente”. Embora o Partido AK tenha sido de muitas formas um bastião da modernização do Islamismo, em contraste com o mais extremista islâmico Partido da Virtude, ao mesmo tempo, fez isso em parte combinando o liberalismo económico de mercado livre com uma moralidade reaccionária, incluindo uma tentativa, até agora fracassada, de criminalizar o adultério e de introduzir outras leis reaccionárias de orientação islâmica.

Esta relação desconfortável entre forças laicas e religiosas dentro do poder na Turquia está a ser influenciada por poderosas compulsões internacionais. Nos últimos anos, a Turquia tem tentado entrar para a União Europeia, embora a potência imperialista dominante no país seja o imperialismo norte-americano. O país também tem sido abalado pelas agressões dos EUA na região e pela intensificação da contradição entre o imperialismo norte-americano e as forças extremistas islâmicas. Tudo isto criou uma crescente instabilidade num país que os EUA ergueram como modelo do tipo de democracia laica que querem impor em todo o Médio Oriente. Por isso, os responsáveis norte-americanos viram os recentes desenvolvimentos com um crescente desconforto. Quando o sítio na internet do Conselho Nacional de Segurança avisou abertamente o Partido AK de que, se continuasse no seu caminho actual, poderia ser deposto, o Departamento de Estado dos EUA advertiu que este tipo de linguagem poderia arriscar minar a democracia turca.

A cruel repressão sobre os manifestantes que irromperam pela Praça Taksim deu-nos uma importante lição: que independentemente de existirem discordâncias e conflitos entre os vários sectores das classes dominantes turcas, elas estão todas unidas quanto a fazerem tudo o que puderem para impedir o crescimento de uma alternativa revolucionária que desafie todo o sistema imposto pelo imperialismo no país.

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese