França: Eleições e nuvens negras
7 de Maio de 2007. Serviço Noticioso Um Mundo a Ganhar.

A vitória de Nicolas Sarkozy nas eleições presidenciais francesas representa uma séria mudança para pior para o povo desse país e do mundo. Isto não quer dizer que ele e a sua opositora, a candidata do Partido Socialista Ségolène Royal, representassem duas vias opostas. Uma das razões por que ela perdeu foi que tanto tentou ultrapassá-lo pela direita nalgumas questões chave da campanha como se recusou comprometer-se noutras. Embora os candidatos diferissem de facto nalgumas questões, ambos representaram um certo consenso nos círculos dominantes franceses e esse consenso imprimiu o seu carácter à campanha. Mas a campanha e os seus resultados acarretam uma diferença real.

No seu discurso de vitória, Sarkozy declarou que a sua eleição tinha posto fim de uma vez por todas à prolongada influência da rebelião revolucionária de Maio de 1968. (A sua alegação de que representa o “anti-68” é bem justificada: ele iniciou-se na política como membro dos grupos vigilantes direitistas organizados pelo governo de de Gaulle para lutar contra manifestantes.) Ele comprometeu-se a “dar um maior valor ao trabalho, à autoridade, ao respeito e ao mérito”. No contexto político francês, estas palavras são reconhecíveis por toda a gente como uma combinação do slogan do governo Pétain sob ocupação nazi na II guerra mundial, “Trabalho, família, pátria”, e das políticas thatcheristas (ou reaganistas) de mercado livre, projectada para pôr fim ao pacto social há muito existente entre os capitalistas que governam a França e um sector das classes médias e trabalhadoras de França. Sarkozy declarou: “Quero devolver ao povo francês o orgulho de ser francês – acabar com o arrependimento, que é uma forma de auto-ódio.” Estas palavras visavam os franceses que criticam o passado colonial e esclavagista do país, uma questão muito controversa por causa das suas implicações sobre o papel da França no mundo actual. Ele também declarou: “Gostaria de dizer aos nossos amigos americanos que podem contar com a nossa amizade.” Isto foi amplamente entendido como querendo dizer que a França abandonará as suas críticas à guerra liderado pelos EUA no Iraque (que é a posição de Sarkozy há muito tempo) e que provavelmente apoiará os EUA no seu confronto com o Irão. A França é o único país além dos EUA que possui um porta-aviões nuclear e esse navio está hoje a navegar perto das costas do Irão. À luz da ameaça de um ataque nuclear dos EUA, as críticas de Sarkozy aos EUA sobre a questão do aquecimento global não significam muito.

Os primeiros minutos após o anúncio dos resultados das eleições foram muito reveladores. Antes de aparecer no comício de vitória, o vencedor insistiu em passar pelo restaurante Fouquet nos Champs-Elysées – um conhecido símbolo dos super-ricos franceses, reputado por se recusar servir mulheres que jantem sem homens. Um dos primeiros a beijá-lo quando subiu ao palco foi Faudel, um jovem cantor popular de ascendência argelina. Isso tinha como objectivo mostrar que não é preciso ser-se branco para se gostar de “Sarko”. Como que em resposta, um outro artista avançou com “Argel, essa França onde nasci”, uma celebração do domínio francês da Argélia muito apreciada pelos colonialistas impenitentes.

A atitude triunfal na noite das eleições de Jean-Marie Le Pen, líder da Frente Nacional fascista, foi uma das grandes ironias desta eleição e um amargo exemplo de como realmente funciona o sistema eleitoral. O desmantelamento do “modelo social francês” – um estado com segurança social e empresas capitalistas do estado – teve lugar em grande parte com os governos liderados pelos socialistas. Fartos de não obterem aquilo em que pensavam ter votado, muitos eleitores rejeitaram o Partido Socialista na última corrida presidencial em 2002, em que Le Pen surgiu em segundo lugar na primeira volta. Isso desencadeou um movimento de protesto muito positivo que atraiu muitos imigrantes e outras pessoas dos subúrbios proletários para as ruas de Paris e os centros de outras cidades e para a vida política de que normalmente estão excluídos. Depois, sob a palavra de ordem da unidade para deter Le Pen, a vasta maioria foi induzida a “Apertar o nariz e votar” em Jacques Chirac – o qual fez de Sarkozy o seu principal polícia e ministro mais visível, um poleiro que ele usou para preparar a sua sucessão a Chirac. Nas eleições deste ano, depois da primeira volta em que Royal e Sarkozy ficaram à frente, a mesma palavra de ordem foi reciclada por Royal contra Sarkozy. Mas a lógica que levou as pessoas a porem as suas esperanças no voto levou-as exactamente onde estão hoje: muito descontentes, sobretudo as classes mais desfavorecidas e todos os que têm algum sentido de justiça. Quando saíram os resultados e a comunicação social perguntou a Le Pen como os via, ele disse que considerava estas eleições como uma grande vitória para o seu partido porque os dois candidatos tinham abraçado as suas ideias. As promessas de Sarkozy eram boas, disse ele – a questão era saber se ele as iria cumprir ou não. (Parte da explicação para a exclusão de Le Pen do consenso direitista prevalecente é a sua insistência em que a França deve deixar a União Europeia. Isso pode jogar bem com alguns elementos das classes mais desfavorecidas, e é por isso que alguns “esquerdistas” definem palavras de ordem semelhantes, mas torna-o um pária entre as classes dominantes de França.)

Outra ironia é que Royal e o seu Partido Socialista estavam tão dispostos como Sarkozy a proclamar estas eleições como um símbolo do fim do Maio de 1968. Isto foi explicitamente declarado pelo dirigente socialista Bernard Kouchner, um dos primeiros líderes estudantis a abandonar a política revolucionária há mais de três décadas atrás, que disse que, embora Royal tivesse perdido, a conversão do Partido Socialista a um partido social-democrata europeu “normal” seria uma grande vitória. Foi notado que Royal nunca chegou a usar a palavra socialismo na sua campanha. As suas discordâncias com Sarkozy eram relativamente insignificantes e estreitas. No debate televisivo entre eles, que foi quase universalmente visto em França, ela optou por não o enfrentar em questões onde ele é amplamente odiado. Da mesma forma, ela recusou-se a usar o que poderia ter sido a sua maior vantagem: o facto de Sarkozy, desde muito cedo, deter a liderança em termos do número de pessoas que pretendiam votar nele, cerca de um terço do eleitorado, mas que também tinha a distinção de ser o político mais assustador do país aos olhos de muito mais gente. Em vez de tentar expor as posições dele e de se opor a elas, ela seguiu uma estratégia de assumir que todos os que odiavam Sarkozy teriam necessariamente que votar nela e centrou-se em tentar atrair as mesmas opiniões que Sarkozy estava a tentar atrair, e na mesma base estreita e retrógrada.

Por exemplo, tanto Royal como Sarkozy mantiveram esse debate centrado em torno de duas questões: a semana das 35 horas e o financiamento das reformas. Como salientou Royal, durante os cinco anos anteriores, o partido de Sarkozy tinha liderado um governo que teve o poder para acabar com a semana das 35 horas de trabalho em França e não o fez. Tanto ela como Sarkozy prometeram manter essa lei, com a diferença de que ela falava em “discussões” sobre as “reformas”, sem tornar claro o que isso significava, enquanto Sarkozy falava em “pagar às pessoas mais por trabalharem mais”, isto é, eliminar impostos e outros encargos dos empregadores pelo trabalho extraordinário para os encorajar a fazer com que as pessoas trabalhem mais horas. Como salientou Karl Marx há um século e meio atrás, apelando aos trabalhadores para lutarem por um limite legal de oito horas de trabalho diário, numa determinada sociedade há um determinado padrão de vida que é considerado aceitável, e se os trabalhadores o poderem atingir trabalhando mais horas, será menos provável que lutem por salários mais elevados, mesmo que a falta de tempo livre os debilite física e intelectualmente. Além disso, a semana das 35 horas tem sido tanto uma fraude como uma distracção. Tal como aconteceu na Alemanha, quando foi introduzida uma redução semelhante da semana de trabalho através de uma lei, o número de horas que as pessoas de facto trabalhavam tendeu a ser maior. Alguns peritos em estatística alegam que a semana de trabalho média real é mais longa em França que em muitos outros países ricos.

Mais fundamentalmente, o que é mais importante sobre a semana das 35 horas é que representa a promessa do Partido Socialista de uma sociedade capitalista onde os trabalhadores e os funcionários poderiam viver uma vida boa. Há três coisas que estão erradas nisto: 1) qual é o significado de uma vida boa numa sociedade onde reina o lucro e a vasta maioria das pessoas é escrava do capital e nunca poderão concretizar o seu potencial como seres humanos pensantes e actuantes? 2) mesmo quando a França era mais “socialista”, durante o governo Mitterrand dos anos 80, os trabalhadores franceses foram divididos entre aqueles com algum conforto e segurança, mesmo que escasso, e aqueles com nenhum; 3) muita da riqueza de França, como a de todos os países imperialistas, provém da capacidade do capital francês para engordar com o investimento globalizado e a divisão do mundo em nações oprimidas e opressoras.

Estas questões estiveram ausentes do discurso de Royal. Em vez de atacar Sarkozy pelo seu acto mais infame, quando ele chamou “escumalha inferior” aos jovens dos bairros sociais e prometeu “limpá-los com uma mangueira de alta pressão”, ela apresentou como alternativa uma proposta para que os jovens com dificuldades com a lei (outra definição para jovens dos bairros sociais) fossem enviados para campos geridos pelas forças armadas. Ela ousou falar num caso particularmente conhecido em que a polícia, à procura de alguém para deportar de forma a preencher as quotas de Sarkozy, emboscou um imigrante idoso à frente de uma escola onde ele tinha ido buscar a sua neta. Embora Royal não o tenha mencionado, o que esse incidente teve de especial foi que, quando a directora da escola foi presa por se ter colocado entre o avô e a polícia, apareceu muita gente a dizer que ela tinha feito o que era certo e prometendo agir da mesma forma.

Ainda assim, Sarkozy escarneceu de Royal e atacou-a nessa questão exigindo que ela dissesse se era ou não a favor de permitir que todos os imigrantes “ilegais” ficassem em França – ao que ela não respondeu que sim. A declarada intenção de Sarkozy de “limpar” muitos imigrantes foi uma questão central para muitos milhões de pessoas nesta campanha, uma das principais razões por que a percentagem de pessoas que votou foi tão elevada. Além disso, quando se chegou ao papel da França no mundo, ela seguiu Sarkozy, mantendo-se silenciosa, por exemplo, em relação ao neocolonialismo francês em África, questão sobre a qual há pouco debate entre a “classe política” francesa. Ela também se manteve calada sobre a sua posição favorável a Israel, o que representa uma alteração da política tradicional da França de tentar controlar ou influenciar os regimes árabes. (Por exemplo, o Presidente Chirac está a mudar-se para um apartamento propriedade de uma das famílias económica e politicamente mais poderosas do Líbano.) Nem houve qualquer discussão sobre as tentativas da França para assegurar um lugar na “nova ordem mundial” norte-americana. Globalmente, muita gente sentiu que, quer se amasse ou se odiasse, “Sarko” estava a dizer o que pensava, enquanto “Sego” estava a ser evasiva e desonesta.

Soube-se que George Bush foi o primeiro a telefonar e felicitar Sarkozy. Mas Royal, durante o debate, defendeu como seu modelo a Chanceler alemã Angela Merkel – outra aliada de Bush que é a líder dos Democratas Cristãos de centro-direita e que nem sequer alega ser alguma forma de esquerdista. Não que um presidente esquerdista “verdadeiro” seja o que a França precisa – já o teve com Mitterrand e isso também não foi bom. Mas isso foi um notável exemplo de quão para a direita se deslocou o espectro político no Continente e a nível internacional. Mesmo o Partido Comunista de França passou de importante força revisionista (já tinha tão pouco em comum com o comunismo há tanto tempo que tentou esmagar a rebelião de Maio de 1968) a irrelevante, eclipsado por um partido trotskista cujo programa é uma reciclagem de velhas e agora abandonadas promessas socialistas da era Mitterrand.

Mesmo que Royal tivesse ganho, seria improvável que houvesse gente a dançar nas ruas à volta da Bastilha como quando Mitterrand ganhou em 1981. A esperança num mundo novo através das eleições evaporou-se em grande parte entre os que mais desejam essa mudança. O máximo a que muitas pessoas progressistas aspiraram desta vez foi afastar o pior – mas o pior estaria na agenda, independentemente de quem ganhasse. Houve gente a dançar nas ruas na noite das eleições, não na Bastilha, que já foi um símbolo da revolta popular, mas na Praça da Concórdia, na zona rica e direitista da cidade. Nos bairros sociais e nos bairros proletários, onde carrinhas carregadas de polícias de choque armados estavam preparadas para se lançarem sobre as pessoas, o silêncio mal-humorado era quebrado de vez em quando pelo incêndio de um carro. Muitos imigrantes e outros elementos da classe operária viram os resultados como uma ameaça directa e mortal à sua esperança de viver uma vida normal. Apesar do sentimento prevalecente de atordoamento, alguns estudantes e outros jovens organizaram ruidosos protestos de rua em Paris e sobretudo noutras cidades, entre as quais Rennes, uma das praças-fortes do movimento estudantil e juvenil da última primavera.

As promessas de Sarkozy de tornar a França mais parecida com a Grã-Bretanha ou os EUA (e a concordância de Royal com esse objectivo, sobretudo em relação à Grã-Bretanha de Blair) são particularmente irónicas num país onde a vida para muita gente comum tem sido ligeiramente menos severa que nesses dois “modelos”. A França tem conseguido estar ao abrigo de alguns dos ventos económicos, políticos e militares que varrem outros países. Esse período pode estar a chegar ao fim.

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese