Zimbabué – Estará a mudança de regime de novo nos planos imperialistas?
9 de Abril de 2007. Serviço Noticioso Um Mundo a Ganhar.

O brutal tratamento pela polícia do Zimbabué de figuras chave de uma facção do partido de oposição, Movimento para a Mudança Democrática (MDC, na sigla inglesa), recebeu uma surpreendente atenção da comunicação social durante as duas últimas semanas. Curiosamente, diplomatas britânicos e norte-americanos foram vistos a dar comida aos porta-vozes da oposição que estavam feridos num hospital. Por que é que a cara inchada de Morgan Tsvangirai do MDC apareceu em toda a comunicação social – será que ela é a cara maltratada do próximo presidente de um regime prestes a ser deposto? É pouco provável. Porém, a sua conferência de imprensa desencadeou uma série de eventos abertamente destinados a acelerar a destabilização e o isolamento do Zimbabué, com o apoio confesso dos EUA e da Grã-Bretanha. Poucas horas depois de a polícia ter dispersado o seu protesto sob a forma de “reunião de oração”, Tsvangirai anunciou à audiência de microfones à espera que o seu espancamento tinha sido um “ponto de viragem na história do Zimbabué” e, pouco depois, o presidente da Zâmbia Levy Mwanawasa chamou ao Zimbabué um Titanic a afundar-se. Os jornais, a rádio e a televisão de todo o mundo desencadearam submissamente um debate sobre a capacidade do Presidente zimbabueano Robert Mugabe se manter no poder. Muitos repetiram os mais recentes avisos de Condoleezza Rice e, ecoando o próprio Tsvangirai, pediram a intensificação das sanções contra o Zimbabué. A Grã-Bretanha sugeriu à África do Sul que cortasse o fornecimento de energia eléctrica ao Zimbabué. Responsáveis dos EUA propuseram mesmo barrar a entrada de estudantes zimbabueanos no Ocidente. Os dirigentes da SADC (Comunidade de Desenvolvimento da África Meridional) foram persuadidos a reunir-se nessa semana para discutir um aumento da pressão sobre Mugabe. A isso seguiu-se uma não muito bem-sucedida “stayaway” (greve) de dois dias no Zimbabué, coordenada com uma pequena manifestação em Joanesburgo convocada pela federação de sindicatos ligada ao ANC da África do Sul.

Segundo os porta-vozes britânicos, Tsvangirai não é uma opção de relevo para substituir Mugabe. Em 1999, os governos ocidentais, que trabalham directa e indirectamente através de ONGs recém-financiadas, ajudaram a lançar a sua aliança de oposição composta por agricultores brancos, homens de negócios dedicados à liberalização, sindicalistas e alguns sectores das classes médias urbanas cada vez mais descontentes por se sentirem sob ataque. Mas desde essa sua demonstração inicial de força eleitoral, o MDC tornou-se fraco e dividido. As actuais estratégias britânicas parecem favorecer a procura do alargar das divisões políticas dentro da própria ZANU-PF (União Nacional Africana do Zimbabué – Frente Patriótica), o partido no governo desde a independência em 1980. Em resposta, a ZANU-PF acaba de endossar Mugabe como seu candidato às eleições presidenciais de 2008.

A crise no Zimbabué

O Zimbabué está a atravessar uma severa crise económica (e financeira). Os próprios imperialistas desencadearam muita da sua dinâmica há algum tempo atrás e continuam activamente a alimentá-la. Isso criou uma situação económica pouco sustentável. Os empréstimos internacionais foram bloqueados. As multinacionais suspenderam o crédito, impedindo as muito necessárias importações e resultando numa severa escassez de bens como os combustíveis e outros produtos essenciais para a agricultura. O estado do Zimbabué está a tentar ultrapassar esses obstáculos cultivando mais a sua própria alimentação e desenvolvendo novos acordos comerciais. Produtos essenciais como o petróleo, o açúcar e o pão são escassos e prevê-se que a colheita de milho seja muito insuficiente em 2007, depois de uma relativamente boa época em 2006. Os comerciantes estão a ignorar o controlo de preços e a lucrar com a espiral de inflação, estabelecendo os preços muito acima das possibilidades da maior parte das pessoas. Algumas empresas estão a fechar e o desemprego cresce rapidamente. Tudo isto está a criar uma situação muito difícil para as massas, sobretudo os pobres. Um grande número de pessoas está a deixar o país, sobretudo para a muita mais rica África do Sul, à procura de trabalho. Embora através da imprensa os imperialistas falem no sofrimento que eles próprios estão a ajudar a criar, com perspectivas de piorar, de uma forma combinada e algo bem-sucedida tentam culpar o governo Mugabe e a sua “governação” por tudo o que acontece.

A actual crise política e económica não foi inteiramente criada pelos imperialistas, mas também não pode ser separada da manutenção do seu domínio do Zimbabué desde a independência e da sua contínua procura de melhores condições para esse domínio, à medida que crescia durante a última década a relutância do governo e o descontentamento popular. Até finais dos anos 90, Mugabe, à frente do estado da ZANU-PF, alinhou nessas relações. O seu programa, baseado em reformas mas não revolucionário, para o período pós-independência nunca as desafiaram quanto ao essencial. Romper com o domínio imperialista teria significado basear-se nas massas para definir um caminho diferente, nomeadamente destruir o velho sistema colonial de propriedade da terra e transformar as relações agrárias em que se baseava. Essa opção política – e portanto a incapacidade de tentar resolver as questões numa base revolucionária –, bem como os efeitos da crise económica que são o resultado da dependência e do domínio imperialista, gerou uma frustração crescente entre a vasta base social da ZANU-PF, essencialmente rural e sequiosa de terras. Isso também alimentou cada vez mais a oposição organizada entre as classes urbanas e os estratos brancos privilegiados, apesar do apoio inicial dessas forças por ter feito o desenvolvimento do Zimbabué depender do Ocidente e pelo seu relativo desinteresse ou oposição à redistribuição de terras.

Por que é que os abutres imperialistas estão novamente a sobrevoar Mugabe e o Zimbabué, quando há actualmente, só em África, inúmeros conflitos armados que matam às centenas e aos milhares, imensos estados “autoritários”, surpreendentes níveis de pobreza e desnutrição, trabalho infantil, a persistência de formas de escravidão e corrupção, tudo resultado sobretudo do domínio e da exploração do continente pelos países mais ricos? Por que é que estão tão ansiosos em remover Mugabe em particular, quando ele começou o seu domínio como um dos “libertadores” que seguia o modelo neocolonial, cooperando com o Ocidente desde que terminou a guerra agrária e foram negociados os acordos de independência com a Grã-Bretanha?

A relação do Zimbabué com o Ocidente tem sido tensa há mais de uma década. Entre os principais desenvolvimentos que activaram os esforços imperialistas de intensificação da crise estão o abandono pelo Zimbabué dos esquemas de “ajuste estrutural” impostos pelo FMI, a expropriação de grandes proprietários brancos num programa acelerado de redistribuição de terras, uma política de “Olhar para Leste” em relação à cooperação económica e comercial e as políticas ao nível regional e continental – sobretudo com a África do Sul, a principal potência da sub-região. Outro factor de irritação tem sido a amizade de Mugabe com Hugo Chávez da Venezuela e o namorico com o Irão e outros estados párias. Porém, ao usar um arsenal de acusações sobre violações dos direitos humanos e do domínio da lei, eleições pouco transparentes e repressão policial – algumas legítimas e outras exageradas – a investida da comunicação social centrou-se sobretudo na “má governação” e na necessidade de afastar Mugabe do poder e de mudar a ZANU-PF por dentro, uma vez que a aliança de oposição está num caos.

As querelas com o Ocidente aceleraram nos anos 80

O Zimbabué é um país agrícola. Cerca de 80 por cento da sua população vive no campo, embora também haja várias zonas urbanizadas de média dimensão, além da sede do poder político centralizado na capital, Harare. O controlo da terra e a independência total da Grã-Bretanha colonial e a derrota do domínio colonial branco na Rodésia esteve na origem da guerra de libertação nacional de base camponesa que durou até 1979. As forças nacionalistas de Mugabe dentro da ZANU-PF terminaram com a cruel guerra de 15 anos assinando um acordo em que se vendiam à Grã-Bretanha e que continuou a hipotecar as terras e o desenvolvimento económico do Zimbabué ao imperialismo, em troca do direito a governar. A guerra de libertação foi guiada por uma política e uma ideologia nacionalista revolucionária partilhada por dois grupos rivais dentro da frente patriótica composta pela pró-soviética ZAPU (União Popular Africana do Zimbabué) e pela ZANU. Este último grupo estava mais ligado à China de Mao, embora ambos recebessem armas e treino do bloco soviético. As forças que defendiam uma linha e um programa mais revolucionários, inspirados em Marx, Lenine e Mao e visando uma transformação mais radical da sociedade, foram activamente reprimidas dentro do exército camponês, à medida que aumentavam as pressões sobre os líderes nacionalistas para chegarem a um acordo. Mugabe, do grupo étnico maioritário shona, foi eleito presidente do governo conjunto da ZANU-PF após a independência, deixando marcas entre os apoiantes da minoria Ndebele que tendiam a apoiar a ZAPU. (Essa divisão foi depois exacerbada com a repressão do que ele considerou ser um movimento de sublevação no Matabeleland em meados dos anos 80, durante o qual se supõe terem sido mortas 20 000 pessoas.)

A ZANU-PF herdou um sistema de terras em que os colonos brancos (2% da população rural em 1980) controlavam mais de metade da melhor terra arável, enquanto os negros abarrotavam as zonas comunais densamente povoadas (que eram essencialmente reservas tipo Bantustões, mas menos baseadas em etnias que na África do Sul). Por isso, para a maioria negra rural em geral, o cerne da traição no momento da independência foi o acordo da ZANU-PF de não retirar nenhuma terra aos colonos brancos durante um período de 10 anos. Em resultado disso, a reforma agrária baseou-se apenas na compra de terras pelo estado aos vendedores disponíveis ou aos brancos que tinham fugido do país durante a guerra. Pouco depois da independência, os camponeses pobres começaram a “invadir” e “ocupar” as terras de que necessitavam e que, em conjunto com os veteranos de guerra de origem rural que tinham feito grandes sacrifícios durante a guerra, reagiam furiosamente porque os grandes proprietários brancos (e alguns negros) das quintas comerciais continuavam a monopolizar a terra arável.

O ajuste estrutural imposto por instituições financeiras imperialistas no início dos anos 90 foi catastrófico para o povo zimbabueano. Alega-se frequentemente que a actual crise económica teve origem nesse período de preços crescentes, perda de emprego e cortes nos programas sociais, os demasiadamente familiares efeitos dos ajustes estruturais em todo o terceiro mundo. O governo da ZANU-PF levou a cabo várias reformas importantes. Obteve uma taxa de alfabetização muito elevada, construiu escolas e clínicas e criou uma existência essencialmente confortável para as crescentes classes urbanas privilegiadas. No final dos anos 90, quando os cofres estatais estavam quase vazios e houve um retrocesso ou uma diminuição de muitos desses sucessos, alguns sectores dessas classes, em conjunto com sindicalistas e um sector dos agricultores brancos e dos homens de negócios do Zimbabué, tornaram-se na base da actual oposição.

O altamente mediatizado conflito entre o primeiro-ministro da Grã-Bretanha Tony Blair e Mugabe há alguns anos atrás foi então apenas a parte mais visível de uma batalha contínua sobre as condições da subserviência do Zimbabué ao imperialismo. Quando o governo se preparou para adquirir terras a troco de compensações – que esperava virem a ser financiadas sobretudo pelos governos ocidentais – e suspendeu em 1997 o programa de ajuste estrutural do FMI, interveio em 1998 na guerra na República Democrática do Congo e não pagou várias das dívidas do país, os imperialistas apertaram os cordões, tornando as condições de reembolso da dívida ainda mais dependentes de critérios políticos. Embora a Grã-Bretanha e os EUA tenham proporcionado algum do dinheiro prometido há vários anos para a reforma agrária, usaram-no sempre como uma cenoura de resposta ao cumprimento pelo Zimbabué das condições que essencialmente protegiam a existente distribuição de terras e os seus cerca de 5000 grandes agricultores comerciais brancos que cada vez mais produziam colheitas para exportação de lucro mais elevado como o tabaco e as flores, ao mesmo tempo que tornavam as suas terras subutilizadas em quintas de entretenimento. Os imperialistas começaram a implementar sanções informais. A isso seguiu-se a suspensão formal pela Grã-Bretanha das exportações de material militar em 1998 e a sua recusa em apoiar financeiramente o esquema de redistribuição de terras proposto pelo estado de aquisição gradual de quintas e compensação dos seus donos brancos, muitos com cidadania britânica ou dual (o que é ilegal no Zimbabué). O FMI cortou os empréstimos em 1999, restabeleceu-os em 2000 depois de o governo ter concordado com as suas condições de acabar com o controlo dos preços e com os impostos sobre os artigos de luxo e de liberalizar a circulação de moeda estrangeira, suspendendo novamente os empréstimos em 2001 depois das ocupações de terras, mas oficialmente por causa da dívida do Zimbabué.

Reforma agrária: 20 anos atrasada mas uma novidade (e uma provocação) no mundo de hoje

A crise económica dos anos 90 causou mais agitação social e crescentes reivindicações de terra, sobretudo entre os veteranos de guerra e os camponeses que foram os mais duramente atingidos. As dispersas ocupações de terras tornaram-se mais organizadas e sistemáticas, bem como os confrontos em que os veteranos de guerra enfrentavam o governo Mugabe, embora a maioria votasse ou fosse membro da ZANU-PF. Uma série de ocupações militantes de terras por uma série de forças sociais rurais apanhou o regime de surpresa em 1998. As autoridades expulsaram os ocupantes das quintas e prometeram actuar, ao mesmo tempo que ainda esperavam que viesse dinheiro dos doadores internacionais para financiar a reforma agrária – isto é, para pagar as terras aos agricultores brancos e para montar uma nova infra-estrutura e serviços para os agricultores pretos.

Um referendo nacional pouco entusiasmado sobre os poderes centrais foi realizado em Fevereiro de 2000. A oposição derrotou-o. Esse referendo incluía uma cláusula que dava ao estado o direito a desapropriar terras e que Mugabe acrescentou relutantemente apenas depois de múltiplas acções de protesto dos veteranos de guerra. Apesar disso, as ocupações de terras espalharam-se rapidamente pelas quintas comerciais do Zimbabué, envolvendo não só veteranos de guerra e camponeses, mas também chefes tradicionais e alguns funcionários governamentais locais, dependendo da região. As eleições parlamentares previstas para alguns meses depois ajudaram inquestionavelmente a mudar a posição do governo, passando de reprimir as ocupações a gradualmente não só as reconhecer mas a apoiá-las. Um punhado de agricultores brancos e vários trabalhadores agrícolas negros foram mortos durante esse período. Ao mesmo tempo, o estado demorou vários anos a controlar completamente o movimento. Depois de ganhar as eleições de Junho de 2000, o governo lançou um mês depois a sua reforma agrária “acelerada”, expropriando alguns dos maiores proprietários brancos (e alguns negros) de quintas e os muitos que tinham várias quintas. A reforma apenas compensou os antigos donos de melhorias importantes, em vez da própria terra. Em 2004, a maioria das terras, quase 10 milhões de hectares detidas sobretudo por agricultores comerciais brancos, foram transferidas para 130 000 famílias negras de diferentes classes.

Assim, do ponto de vista racial, a propriedade das terras foi significativamente alterada e foi atingido um dos principais pilares do colonialismo. Mas a base de classe dessa alteração não foi essencialmente “a terra a quem a trabalha”. Os trabalhadores das quintas comerciais, alguns de origem estrangeira, não ficaram numa situação nada melhor. Embora cerca de 10% das famílias camponesas pobres e sem terra das zonas comunais densamente povoadas com terras exaustas tenham obtido bem mais de metade das quintas redistribuídas e subdivididas sob a forma de pequenos parcelas, a política global favorece um pequeno número de médios e grandes agricultores de orientação mais comercial. Além disso, desde que a terra foi nacionalizada em 2005 e que o problema da propriedade branca foi mais ou menos resolvido, a burguesia rural negra não é particularmente favorável à redução das desigualdades nas zonas rurais. A questão da propriedade estrangeira das grandes herdades da zona abastada das Eastern Highland também não está completamente resolvida. Com os cofres praticamente vazios, o estado não contribuiu quase nenhum dinheiro para novas infra-estruturas e bens de que os novos agricultores negros necessitam para iniciarem ou alargarem as suas operações, o que, em conjunto com os efeitos gerais da crise na sociedade, contribuiu para reduzir a produção de alimentos, agravada por alguns períodos de seca.

A Grã-Bretanha considerou em particular a expropriação dos agricultores brancos como uma provocação. Além do ataque na comunicação social – montado em conjunto com a diáspora da Rodésia e a crescente oposição da classe média urbana à reforma agrária e ao governo Mugabe depois de 1999/2000 – a Grã-Bretanha aumentou as sanções e mesmo as punições contra o Zimbabué. Os exemplos, entre muitos outros, incluem o bloqueio da ajuda alimentar durante alguns períodos, a imposição de mais condições aos empréstimos do Banco Mundial e do FMI, a proibição de viajar para a Europa aos diplomatas do governo, o congelamento de recursos oficiais e a suspensão do Zimbabué da Comunidade Britânica e de outras reuniões como a cimeira franco-africana. Como parte do processo de destabilização e isolamento, o Congresso dos EUA aprovou em 2001 a reaccionária Lei pela Democracia e a Recuperação Económica para impedir qualquer extensão de crédito ao Zimbabué e para libertar capitais para que novos órgãos de comunicação social independentes floresçam no país. O Fundo Global de Bush impediu em 2004 a saída de dinheiro para medicamentos contra a SIDA no Zimbabué por razões políticas, embora o país tenha uma das mais elevadas taxas de VIH/SIDA do mundo. Estas medidas estão intimamente ligadas às pressões mais vastas exercidas pelos estados imperialistas que visam ajudar o governo a tropeçar de tal forma que já não se consiga manter de pé.

O Ocidente pegou nas crescentes dificuldades para as quais contribui, de forma a enviar a mensagem de que, no mundo de hoje, uma reforma agrária baseada em expropriações levada a cabo por regimes liderados por “dirigentes antidemocráticos” e desobedientes como Mugabe apenas pode levar ao desastre e ao sofrimento das massas. É difícil dizer o que é mais hipócrita: se a súbita postura de preocupação dos imperialistas com o sofrimento das massas do Zimbabué após décadas de pilhagens, roubos de terras, um domínio colonial selvagem e a supressão da soberania nacional, seguido de mais pilhagens, domínio financeiro, etc.? Ou o mascarar da sua própria mão em toda a espiral de punições e crise económica que caracterizaram o queda acentuada do Zimbabué nos anos 90 e nos últimos anos? “Quando os agricultores brancos controlavam a agricultura” (ou seja, nas condições de uma “normal” dependência económica entre a África meridional e o “Norte” industrializado), “o Zimbabué era o celeiro de África”, dizem os artigos. “Agora, nem sequer se consegue cultivar milho suficiente para alimentar o seu próprio povo, já para não falar nos compradores de moeda estrangeira”, como se os problemas do Zimbabué existissem apenas num vazio, desligado dos mecanismos da globalização.

“Olhar para Leste” e sobretudo para a China capitalista

No contexto de uma crescente disputa com a China em África sobre as matérias-primas e o controlo geoestratégico, uma outra política que irrita os imperialistas é a estratégia do governo do Zimbabué de “Olhar para Leste”, baseada na mudança dos investimentos dos antigos parceiros comerciais ocidentais para os do Oriente. No topo da lista está a China tornada capitalista que há vários anos tem investido abundantemente em África, em troca dos muito necessários minérios, petróleo, madeira e algodão. No Zimbabué, a China ofereceu melhores condições para extrair os minérios do país – platina, urânio, carvão, ouro e mais recentemente diamantes. Também investe na energia, nos transportes, nas telecomunicações, na agricultura e noutras áreas, numa extensão tal que tanto os cépticos como os hipócritas ocidentais se questionam sobre se a China já detém o controlo de sectores estratégicos. Vendeu ao Zimbabué autocarros, aviões de combate, aviões comerciais e inúmeros outros produtos. Além disso, esse gigante capitalista em ascensão muitas vezes co-financia projectos com bancos ocidentais – pelo que dificilmente se pode alegar que o Zimbabué está a evitar a alçada e as condições do imperialismo ocidental, mesmo que as negociações para a pilhagem sejam lideradas indirectamente pelos “amigos” chineses.

Embora Mugabe mantenha relações cordiais com o Irão, a Venezuela e outros governos anti-Bush, em contraste com o seu amigo Chávez ele nem sequer fala em “socialismo”, mesmo na forma redefinida pelos actuais populistas latino-americanos. O seu discurso tem muito mais raízes no jargão nacionalista burguês com, na melhor das hipóteses, ênfase na construção do mercado interno, uma maior intervenção estatal e uma reestruturação centrada nas minas e na agricultura. Apesar do seu apelo retórico aos fortes sentimentos anti-imperialistas existentes no Zimbabué e na África em geral, é certamente claro que o actual alvo favorito de Bush e Blair entre os governantes africanos não mudou para uma via revolucionária. Longe disso. Porém, a sua “Atitude” nacionalista face ao Ocidente, a sua recusa em jogar no campo controlado pelos imperialistas segundo as regras normais que regem as relações neocoloniais, fixou cada vez mais o Zimbabué numa rota de colisão com as grandes potências do mundo de hoje e com as suas prioridades. Choca com a dura realidade do domínio imperialista do século XXI e com a sua lógica, incluindo a crescente relutância dos imperialistas a tolerarem os Mugabes mais ligeiros e algo não-conformistas deste mundo. O estado zimbabueano diz que está a tentar abrir um caminho diferente para a independência económica, baseando-se em países capitalistas menores, os quais aparentemente oferecem melhores condições de venda – ou condições que podem fazer entrar dinheiro mais rapidamente nos cofres do estado para o desenvolvimento nacional. Mas essa tentativa de romper com o Ocidente não é de forma nenhuma uma ruptura com as leis da exploração capitalista e certamente não é guiada por uma perspectiva revolucionária que vise desafiar tudo isso confiando nas massas populares e que extirpe as velhas relações sociais e transforme completamente essa sociedade no seu interesse.

Estratégias de mudança de regime

Mugabe, demonizado pela comunicação social ocidental como “libertador tornado ditador”, aumentou o volume da sua linguagem anti-imperialista e de defesa da soberania nacional que ele tomou como vingança desde a sublevação do movimento de veteranos de guerra pela terra e contra o seu governo nos finais dos anos 90.

Muita gente entre a população altamente politizada e educada do Zimbabué e de muita da intelligentsia de África ressente-se fortemente do facto de o neocolonialismo pregar a democracia de estilo ocidental ao mesmo tempo que continua a pilhar África como antes. Por isso, embora a “saída” que o Zimbabué está a tentar fazer possa não ser nada clara (e muito menos libertadora) para muitos dos que odeiam o imperialismo, as potências ocidentais descobriram que é mais difícil do que imaginavam inverter contra Mugabe a maré da opinião pública, pelo menos em África.

No Zimbabué, a situação política está claramente polarizada, mas provavelmente não na extensão ou da forma como a Grã-Bretanha, os EUA e outros detractores do Zimbabué gostariam. Por isso, os britânicos e os norte-americanos em particular estão a preparar formas de acelerar o processo de destabilização e as pressões para afastarem Mugabe. Por que é que a polícia actuou com uma mão tão pesada, aparentemente caindo na armadilha de incitar mais hostilidade antigovernamental e o medo da repressão? Embora menor em comparação com o assassinato gratuito levado a cabo à escala mundial pelos imperialistas ou mesmo por sangrentos regimes reaccionários em África, o Ocidente aproveitou-se disso em grande, divulgando repetidamente exposições da violência, dos espancamentos em custódia policial, da censura da comunicação social, etc. Embora os regimes africanos ataquem habitualmente os pobres urbanos, arrasando barracas e cabanas ilegais (a Zâmbia fê-lo a semana passada), a operação Murambatsvina (“restabelecer a ordem”) de Junho de 2005 foi particularmente brutal e em larga escala, provocando denúncias generalizadas e mesmo uma investigação da ONU.

O diário electrónico da África do Sul Mail & Guardian indicou que os EUA e a Grã-Bretanha estão a erguer activamente um campo de oposição ao mesmo tempo que continuam a pressionar o presidente sul-africano Thabo Mbeki e outros líderes africanos para optarem definitivamente e se virarem contra Mugabe. Alguma comunicação social questiona-se sobre se Mugabe tem o controlo total. Outros ainda afirmam que os recentes espancamentos reflectem a dissidência que já opera dentro das forças de segurança e indicam que os recentes acontecimentos podem de alguma forma ter sido planeados. A imprensa estatal do Zimbabué, The Herald, interroga-se em voz alta se o governo consegue realmente controlar completamente os desejos de vingança contra os atentados e outra violência perpetrada contra o estado e as suas instituições, pela qual culpa os partidos da oposição. Embora os diplomatas dos EUA e da Grã-Bretanha permaneçam em Harare, a BBC há muito que foi expulsa pela sua inflamatória defesa dos agricultores brancos durante a redistribuição de terras, bem como a CNN e o jornal britânico Guardian (todos continuam a noticiar vingativamente sobre o Zimbabué da segurança dos subúrbios brancos da elite de Joanesburgo). A BBC anunciou recentemente que os governos ocidentais estão a elaborar os chamados “princípios de compromisso”, ostensivamente para um Zimbabué pós-Mugabe, depois de expectavelmente engendrarem a sua saída através do encorajamento de uma facção dissidente dentro da ZANU-PF que eles consideram o cenário de partida mais provável.

Apesar da crise que os imperialistas têm feito o seu melhor para encorajar e da recente série de eventos aparentemente não espontâneos, as autoridades britânicas parecem não apostar muito numa “explosão civil”. Ao mesmo tempo, artigo atrás de artigo expressam decepção com os líderes da SADC e com Mbeki em particular por não concordarem em aplicar mais pressão e avisam que todas estas manobras políticas podem acabar por reforçar o estatuto (empolado) de Mugabe entre os africanos como libertador que ainda resiste aos imperialistas, em vez de o condenarem. O embaixador britânico Andrew Pocock tem ordens para não falar em público, admite a BBC, de forma a não dar mais nenhuma munição política aos apoiantes de Mugabe nesta estridente batalha pela opinião pública. Os insultos do presidente – inaugurando lavabos para Blair no seu país, avisando o embaixador norte-americano Christopher Dell de que pode ir parar ao “inferno”, declarando que “Bush se pode enforcar”, etc. –, fazem parte da sua atracção. Mas será preciso muito mais que fugir das garras dos imperialistas.

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese