Haia: Relato da manifestação do Dia Internacional da Mulher
12 de Março de 2007. Serviço Noticioso Um Mundo a Ganhar.

As palavras de ordem “Não à guerra imperialista dos EUA, Não ao regime islâmico do Irão!” ecoaram pelas ruas de Haia (Holanda) enquanto cerca de 700 manifestantes vindos de todos os cantos da Europa participavam na manifestação central organizada pela “Campanha das Mulheres pela Abolição de toda a Legislação e Leis Punitivas Islâmicas Misóginas e Baseadas no Género, no Irão” (Karzar) por ocasião do 8 de Março, Dia Internacional da Mulher.

À medida que a manifestação começava, holandesas e holandeses tocavam tambores com uma força cada vez maior, num crescendo de entusiasmo e também para exprimirem o seu sólido apoio ao segundo ano consecutivo deste evento. Os manifestantes começaram por se dirigirem à embaixada dos EUA para mostrarem a sua oposição ao imperialismo norte-americano que pode vir a usar a opressão das mulheres como desculpa para invadir o Irão. Aí gritaram em inglês “Abaixo o imperialismo norte-americano, Tirem as mãos do Médio Oriente, Não à guerra em nome das mulheres iranianas!” Também gritaram “EUA fora do Iraque e do Afeganistão!”, declarando a sua solidariedade com as mulheres e os povos do Iraque e do Afeganistão. Uma frase numa faixa assinada por apoiantes do Partido Comunista (Maoista) do Afeganistão dizia: “A ocupação piorou a situação das mulheres no Afeganistão”. Depois, os manifestantes – holandeses, turcos, curdos, afegãos, alemães, nepaleses e outros – seguiram em direcção à embaixada da República Islâmica do Irão para protestar contra os 28 anos desse regime de opressão das mulheres iranianas. Gritavam: “Fim às leis contra as mulheres, Venham e juntem-se à nossa causa”, “Abaixo a tirania e o véu obrigatório, a liberdade das mulheres prevalecerá” e “O corpo da mulher é um direito da mulher!”

Segundo os organizadores, foram distribuídos mais de 15 000 panfletos pela cidade nos dias anteriores à manifestação e a distribuição continuou durante a marcha. Os transeuntes paravam para assistir à manifestação e escutavam as palavras de ordem; as pessoas olhavam para fora das janelas das suas casas e escritórios e muitas acenavam com as mãos em sinal de solidariedade. Os trabalhadores da construção interrompiam o trabalho para vir ver a manifestação. Apesar da interrupção do tráfico, os condutores esperavam pacientemente e estavam curiosos por saber mais sobre a manifestação enquanto os activistas lhes entregavam panfletos. A presença de numerosos jornalistas era uma indicação da sensibilidade e da importância do tema.

À medida que a marcha se aproximava da embaixada iraniana, os gritos de “Abaixo o regime islâmico do Irão!” ficavam cada vez mais altos. Um teatro de rua, com mulheres cobertas de negro usando máscaras brancas e uma pesada corrente aos ombros, simbolizava a situação das mulheres no Irão. No pódio montado frente à embaixada, a cantora revolucionária e activista da Karzar, Gisoo Shakeri, cantou a canção dela “É tempo de iniciar a campanha”, no momento em que o entusiasmo entre os manifestantes atingiu o seu ponto mais elevado. Depois, Leila Parnian leu um comunicado da Karzar que salientava a necessidade da luta contra o imperialismo e a reacção e da construção de um novo mundo onde nenhuma mulher seja discriminada pelo seu género. Ania Merlanberg, uma famosa dirigente do movimento das mulheres na Holanda, proferiu uma intervenção em que elogiava as mulheres iranianas pela sua luta em duas frentes, contra a República Islâmica do Irão e contra as leis anti-imigrantes em países como a Holanda. Mulheres do Afeganistão, da Turquia e da Alemanha também leram mensagens de solidariedade. Mina Asadi, também activista da Karzar, leu alguns dos seus poderosos poemas e condenou o regime islâmico do Irão. No final, Azar Shaibani de Londres leu uma resolução da campanha.

A manifestação deste ano da Karzar foi apoiada por muitas mulheres e por outras organizações políticas na Europa e noutros lugares, entre as quais 33 grupos e personalidades holandesas e muitos outros do Irão, da Turquia, da Alemanha, da Bélgica, da Grã-Bretanha e da Suécia. Mary Lou Greenberg, do Partido Comunista Revolucionário dos EUA e que participou na marcha do ano passado, enviou uma declaração de solidariedade.

O facto de o 8 de Março ter calhado a meio da semana tornou mais difíceis as deslocações a Haia. As mulheres imigrantes também enfrentaram restrições nos vistos e outras. Porém, muitos dos que não puderam ir a Haia tiveram oportunidade de erguer as suas vozes e de protestar nos seus países de residência, nas actividades organizadas a 3 de Março pela Karzar em muitas cidades europeias e em Toronto.

Numa Toronto amargamente fria, cerca de 40 manifestantes marcharam ao som das palavras “Não à República Islâmica do Irão, Não aos imperialistas, Nós construiremos um outro mundo”, enquanto procuravam levar a voz das mulheres iranianas ao povo do Canadá. Mais de 100 pessoas assistiram à celebração do Dia Internacional da Mulher organizada pela Karzar num recinto interior. A reunião começou com as palavras de ordem “Ninguém é livre enquanto houver uma mulher oprimida no mundo”. A antiga presa política Anahita Rahmani e Shahrzad Mojab falaram sobre a crítica situação actual em termos da confrontação entre os EUA e a República Islâmica e o que isso significa para o movimento das mulheres. Também houve um enriquecedor programa artístico com teatro, filmes, poesia e dança relacionados com a opressão das mulheres. Representantes de outros grupos, entre os quais o Partido Comunista Revolucionário do Canadá, o Partido Comunista do Irão e mulheres iraquianas, também leram mensagens de solidariedade.

Também a 3 de Março, em Londres, cerca de 80 pessoas marcharam desde a Bush House (sede do BBC World Service, identificado como um símbolo do imperialismo britânico). Gritavam “Não ao imperialismo norte-americano, Não ao regime islâmico do Irão!” enquanto atravessavam algumas das áreas mais apinhadas do centro de Londres, incluindo o Strand, Trafalgar Square e Piccadilly Circus, rumo à Embaixada iraniana. A banda de tambores contra a guerra conhecida como “Ritmo de Resistência” manteve o passo vivo durante todo o percurso.

Em Frankfurt (Alemanha), activistas iranianas e afegãs da Karzar organizaram uma assembleia de 30 pessoas numa praça central. A audiência internacional incluía pessoas do Afeganistão, da Alemanha, da Turquia, do Nepal, do Curdistão e do Irão. Uma acção apoiada por vários grupos anti-racistas teve lugar num bairro “alternativo” em Bremen para divulgar o Dia Internacional da Mulher e preparar a manifestação de Haia.

Na Bélgica tiveram lugar duas reuniões, uma a 5 de Março frente ao edifício da União Europeia em Bruxelas e outra no mesmo dia em Gent.

Turku (na Finlândia) foi o local de uma reunião a 4 de Março onde cerca de 20 pessoas participaram numa acesa discussão sobre o tema da mulher. A distância e as dificuldades financeiras impediram muitos dos participantes de irem a Haia. Uma reunião sobre o Dia Internacional da Mulher prevista para o conhecido centro comunitário juvenil de Copenhaga não pôde realizar-se porque a polícia tinha atacado pouco antes o Ungdomshuset e, depois de uma batalha de rua, consegui ocupá-lo. Outros eventos, cujo objectivo era preparar a marcha central em Haia, tiveram lugar em Estocolmo (Suécia) e Gutingen (Alemanha). A Karzar também organizou uma discussão sobre o tema da mulher na noite de 7 de Março em Haia, no edifício da “Prime”, uma organização de ajuda aos imigrantes da Holanda e que generosamente apoiou a marcha deste ano.

Depois da acção de Haia, cerca de 150 manifestantes que ficaram na cidade reuniram-se para celebrar o seu sucesso e fazer avançar a sua luta. Os destaques da noite incluíram uma mensagem do “Comité Organizador do 8 de Março no Irão”, uma leitura pelo jovem poeta Ziba Karbasi, a “Dança da Liberdade” de Mitra Sarve, canções de Gisoo Shakeri e música revolucionária. Embora exprimindo diferentes perspectivas, a maioria dos que participaram nessa noite enfatizou o papel que a Karzar tem representado como voz do sector radical do movimento das mulheres no Irão. A reunião terminou cerca das 11h da noite, mas a discussão prolongou-se até manhã cedo entre os que passaram a noite no edifício.

A Karzar tem-se salientado como alternativa no movimento das mulheres, oposta ao imperialismo e ao regime islâmico. Isso é de uma importância ainda maior numa altura em que o movimento das mulheres está a assumir uma importância crescente no Irão e em que diferentes forças de classe estão a tentar desviá-lo exactamente rumo a esses dois pólos reaccionários.

Como parte do que foi abertamente chamado de esforço para impedir as acções do 8 de Março, o regime islâmico prendeu 33 mulheres, entre as quais algumas das mais importantes mulheres activistas do Irão, quando elas se manifestavam frente a um tribunal de Teerão a 4 de Março. Um grande número de polícias antimotim e à paisana foram colocados frente ao Parlamento iraniano no próprio Dia Internacional da Mulher, os quais atacaram algumas mulheres que tentavam juntar-se apesar da repressão. Isso foi um indício de que o regime islâmico está pouco disposto a assumir compromissos nas questões das mulheres, uma vez que é uma das componentes básicas da sua ideologia que está em jogo.

Apesar disso, tiveram lugar dezenas de manifestações de celebração do Dia Internacional da Mulher em diferentes partes de Teerão e noutras cidades. Quase não houve uma universidade em que nesse dia não tenha havido uma manifestação de protesto contra a opressão das mulheres, e sobretudo contra o véu obrigatório.

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese