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| Hrant Dink (Foto: Armeniapedia.org) |
Dink viveu toda a vida dele do lado de fora da Turquia oficial. Nascido de etnia arménia na cidade turca de Malataya em 1954, cresceu num orfanato arménio em Istambul, onde conheceu a sua futura esposa Rakel quando ambos eram crianças. Durante a grande agitação revolucionária dos anos 70 que fez estremecer a Turquia até às suas fundações, ele juntou-se às fileiras dos comunistas revolucionários que tinham sido inspirados pela Revolução Cultural na China. A comunicação social turca relatou amplamente que ele era um activista do Partido Comunista da Turquia / Marxista-Leninista, o precursor do actual Partido Comunista Maoista da Turquia e Curdistão do Norte. Foi também nessa altura que ele adoptou uma firme posição tanto contra o racismo turco como contra o nacionalismo arménio tacanho, posição essa que manteve para o resto da vida dele. Ele foi um dos muitos milhares de pessoas presas quando os principais generais do país deram um golpe de estado em 1980 e instalaram um regime abertamente militar.
Os governantes da Turquia nunca deixaram de sonhar com a recuperação da glória dos tempos do Império Otomano, um período em que, durante séculos, controlaram grande parte do mundo, da
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Assassinado em plena luz do dia (Foto: BBC News online) |
As declarações de vários responsáveis governamentais sobre ser intolerável que haja pessoas mortas simplesmente pelo que pensam e apelando à reconciliação entre turcos e arménios apareceram em destaque na comunicação social mundial. Mas foi o sistema estatal turco, a que esses homens presidem, que levou repetidamente Dink a julgamento por continuar a falar abertamente sobre o genocídio arménio. Ele foi considerado culpado disso em 2005 e condenado a seis meses de prisão. A sentença foi suspensa, mas o supremo tribunal da Turquia reafirmou a condenação dele. Também reafirmou o artigo 301, deixando o estado livre para continuar a brandir esse pesado cacete, mesmo contra os intelectuais mais famosos. Quando o jornal bilíngue arménio-turco que ele editava, o Agos, publicou editoriais contra a condenação, ele e três outros jornalistas receberam mais seis meses de pena suspensa por “tentarem influenciar os tribunais”, apesar de a anterior condenação dele ainda estar à espera de recurso. Legalmente, os tribunais poderiam decidir ordenar que ele cumprisse as duas penas, se voltasse a “insultar a turquicidade”. Em 2006, foi novamente levado à presença de um juiz, para responder a acusações de que tinha criticado a letra do hino nacional turco, “Feliz é aquele que é Turco... Sorri para a minha raça heróica”. Essas novas acusações estavam pendentes quando ele foi assassinado à frente do escritório do seu jornal.
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Velas acesas por Hrant Dink na noite do seu assassinato (Foto: Hovaness Avedyan) |
Pouco antes de ter sido morto, Dink havia sido convocado para uma reunião com o vice-governador de Istambul. Quando chegou, o vice-governador anunciou-lhe que dois dos seus familiares estavam por acaso de visita e que ele gostaria que eles se juntassem à reunião com Dink. O que aconteceu a seguir fez arrepiar Dink. O vice-governador tinha pouco para dizer e, de facto, a reunião foi dominada por uma pouco disfarçada advertência do seu “familiar” mais velho: nós sabemos que você não é um mau tipo, Sr. Dink, mas, veja lá, há todos esses cabeças-quentes que, lá fora, estão fora de controlo e, se souber o que é bom para si, acabará com todas essas conversas públicas sobre o genocídio arménio e as suas outras declarações que atacam a “turquicidade”.
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| No funeral estiveram mais de 100 000 pessoas, empunhando cartazes em turco, arménio e curdo, protestando contra os assassinos fascistas de Dink (Foto: Wikipedia) |
Dink disse a amigos que não estava pessoalmente preocupado consigo próprio, mas que tinha de levar as ameaças a sério, por causa do perigo para quem lhe era próximo. Mas para onde ir? Ele tinha estado muitas vezes na Europa para falar, mas após quatro dias de inverno europeu ele não conseguia aguentar a “falta de luz solar” – e com isso ele não estava a falar apenas do tempo. Quanto à Arménia, disse que se fosse para lá continuaria a sentir-se amordaçado, só que de uma forma diferente. Dink não só criticava o chauvinismo turco como também lutava contra os termos nacionalistas com que muitas das principais críticas arménias à Turquia eram colocadas, que tendiam a enquadrar as questões em termos de “turcos” contra “arménios”. Todos nós, curdos, turcos, arménios, gregos, judeus e muitos outros, vertemos o nosso suor e sangue neste país – porque é que eu devo partir, porque é que eu não devo ficar e lutar, disse ele.
E assim o fez. Apesar das repetidas ameaças contra a sua vida, Dink manteve-se firme e tinha assistido recentemente na Turquia a uma conferência de intelectuais e outras proeminentes figuras que se opunham à “solução militar” do governo turco para o “problema” do Curdistão. Em Dezembro de 2006, assistiu a um simpósio sobre “Os deveres dos intelectuais hoje”, organizado pelo Movimento da Juventude Democrática da Turquia, liderado pelos maoistas.
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| (Imagem:
Jornal "Agos") |
Mesmo que o assassinato de Dink não tenha sido directamente organizado por elementos do Estado, como acha muita gente na Turquia e mesmo alguma da principal comunicação social estrangeira, no mínimo os governantes militares do país incitaram o crime. Eles criaram a atmosfera em que o crime se tornou inevitável e deram aos seus perpetradores razões para crerem que o seu acto seria bem-vindo a algum nível. Um jovem desempregado de 17 anos do nordeste da Turquia foi acusado dos disparos, e cinco outros jovens de conspiração. Todos confessaram rapidamente – o que não é nenhuma surpresa num país onde a tortura faz parte do sistema legal e onde os juízes rapidamente condenam pessoas com base nas suas “confissões”. Curiosamente, as autoridades locais alegaram que não podiam ter impedido o assassinato porque não tinham estado a vigiar o chefe da alegada quadrilha, Yasin Hayal. Porém, Hayal era um conhecido nacionalista fascista que havia sido condenado por ter feito explodir um McDonald’s em 2004 e a MIT (a polícia política) e os seus informadores parecem ter estado a vigiar todas as outras pessoas de toda a Turquia. Quando levado a tribunal, Hayal gritou: “Orhan Pamuk, seja inteligente! Seja inteligente” – um aviso ao novelista de que os esquadrões da morte não pretendem parar em Dink.
Num dos últimos artigos dele, Dink escreveu: “Eu olho à minha volta e vejo todos os pombos a viverem lado a lado com toda a gente neste país e hoje sinto-me como eles – sinto-me tão ansioso quanto eles, mas também igualmente livre.” Isto é uma amostra do tipo de forças que controlam a Turquia e o mundo de hoje, e de que a única resposta que têm para um homem que viveu toda a sua vida com esses sentimentos é o assassinato.
| Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese |