A gripe das aves num mundo imperialista
Parte 2: O que é que vamos fazer sobre isso?
22 de Janeiro de 2007. Serviço Noticioso Um Mundo a Ganhar.

O que torna única a actual ameaça de uma pandemia da gripe das aves é que, pela primeira vez na história, a humanidade é avisada com antecedência. Embora muito sobre a futura doença não possa ser previsto com certeza, o perigo é amplamente reconhecido e os passos que poderão ser dados para lidar com ela já foram claramente traçados. Se esses passos ainda não foram dados, foi por causa do sistema social global dominante e não por ignorância científica.

Prevenção

A primeira prioridade agora deveria ser a prevenção, salienta o relatório de 2005 da OMS Respondendo à ameaça da pandemia da gripe das aves. Isso, por sua vez, teria vários níveis, embora nenhum desses níveis de protecção possa ser completamente eficiente:

Neste momento, os patos migratórios parecem ser a principal forma como a doença alastra, embora alguns investigadores também salientem o papel que desempenha o comércio humano de aves vivas e de produtos avícolas. O problema é que, ao contrário das aves domésticas que podem morrer do dia para a noite quando atingidas pelo H5N1, as aves selvagens muitas vezes atravessam distâncias muito longas com a infecção nos seus intestinos sem adoecerem. Muitas regiões do mundo são cobertas por rotas migratórias sobrepostas. (O facto de a migração das aves seguir tipicamente padrões norte-sul pode explicar porque é que a gripe das aves ainda não foi detectada no continente americano. Mas isso pode mudar, e a qualquer momento, se ela se tornar transmissível entre seres humanos, e nenhum país ficará imune.)

Embora provavelmente seja impossível eliminar agora a doença nas aves selvagens, alguns grupos domésticos específicos podem ser vacinados se uma ameaça específica for conhecida com antecedência. Isso torna muito importante a aquisição de um conhecimento detalhado dos padrões de migração das aves selvagens, do curso e da expansão da doença entre essas aves e das interacções entre aves selvagens e domésticas. Houve alturas, na Europa, em que as autoridades pura e simplesmente ordenaram que todas as aves domésticas fossem mantidas em lugares fechados. Mas isso não é uma opção na maior parte do mundo e outras soluções têm que ser desenvolvidas. Se um grupo particular de aves migratórias for descoberto a transportar a doença e se forem conhecidos os vários pontos de paragem ao longo da sua rota, então alguns esforços muito focalizados podem ter algum efeito.

Contudo, um dos especialistas mundiais em gripe das aves parece ter tão pouco financiamento que tem que ser ele próprio a andar pela Europa a apanhar cisnes infectados. No mundo inteiro, incluindo na Ásia e em África, muitos habitantes das zonas rurais sabem muito sobre aves. Com um pouco de treino, eles poderiam ser organizados numa cadeia mundial de observação de aves, reportando presumíveis erupções da doença e recolhendo amostras de fluidos de aves para serem enviadas para laboratórios que poderiam ser montados em todo o globo. Isso não está a acontecer. Pouca informação tem sido recolhida e analisada centralmente sobre as condições e o comportamento das aves selvagens em África, onde muitas passam os meses de inverno, e sobre o ciclo de vida do vírus aí. Já houve casos de H5N1 entre aves domésticas em África, mas não é completamente claro se as aves o apanharam dos seus primos selvagens ou de importações de produtos avícolas. E isso é um grande problema.

Além disso, a chave para a contenção da doença quando ocorre entre aves domésticas é sacrificar todo e qualquer animal infectado ou mesmo potencialmente infectado, bem como proibir a movimentação de animais (mesmo de cães e gatos que podem ter material infectado nas patas) e o tráfego humano e de veículos, e erguer perímetros de vigilância em torno das zonas infectadas. Isso pode ser muito eficiente em países com grandes quintas comerciais e com indemnizações governamentais das suas perdas. Mas na maior parte do terceiro mundo, onde perder as suas galinhas ou patos seria um desastre potencial para os pequenos camponeses e para as pessoas que apenas têm alguns animais no quintal, nas actuais condições essa abordagem seria impossível de aplicar com a necessária cooperação a quase cem por cento. As necessidades imediatas desses pequenos produtores (muitas vezes para alimentação própria) e os interesses globais da comunidade em geral e do mundo estão em conflito agudo, independentemente de que quanta boa vontade possa haver de qualquer dos lados. As suas necessidades têm que ser tidas em atenção, para bem da humanidade.

Uma forma como o actual H5N1 das aves se poderia transformar numa pandemia humana seria através de um processo de mutações lentas e graduais. Isso possivelmente poderia dar tempo à ciência médica para se colocar à frente da curva e desenvolver uma vacina – se houver o tipo de atenção médica exigida para identificar rapidamente o gérmen emergente, o que não é o caso da vasta maioria das pessoas do mundo. Assim, nesse caso, a sorte representaria um grande papel na determinação do que aconteceria a seguir.

A outra forma, e a mais temida, poderia ocorrer se as pessoas expostas à gripe das aves também contraíssem uma variante humana da gripe. Numa situação destas, o material genético das duas variantes poderia combinar-se e dar rapidamente lugar a uma mutação assassina. Esse perigo para toda a gente, e em particular para os indivíduos envolvidos, dá ainda mais importância à educação das pessoas sobre como evitarem ser infectadas pelas aves. A possibilidade de uma recombinação genética também dá uma importância muito especial à vacinação contra as variantes humanas da gripe das pessoas que trabalham ou vivem com aves em zonas onde o H5N1 já surgiu ou onde seja provável isso acontecer. Isto é enfrentar o problema dos dois lados para minimizar a probabilidade de alguém ficar simultaneamente com ambas as formas da gripe.

Porque é que uma vacina pode não ser a solução

É de salientar que a OMS coloca tanta ênfase na prevenção não só porque isso faz sentido cientificamente, mas também porque, como indica o seu Plano de Acção Global de Outubro de 2006, há pouca esperança de que o “mercado livre” possa fornecer vacinas suficientes para inocular mais que alguns dos 6,7 milhares de milhões de pessoas do mundo, mesmo com vários anos de avanço.

Mesmo no melhor dos cenários em que o desenvolvimento e o uso generalizado de uma vacina efectiva sejam possíveis, pura e simplesmente não há suficiente capacidade industrial para a produzir para mais que uma muito pequena porção das pessoas do mundo, a tempo de as salvar. Neste momento, podem ser produzidas cerca de 350 milhões de doses da vacina da gripe por ano. Que indústria farmacêutica, existente ou potencial, pode investir na capacidade para fazer um produto que poderá nunca vir a ser vendido?

“A prevenção vai sair mais barata e mais efectiva que esperar que a pandemia ocorra”, disse o Dr. David Nabarro da OMS em Setembro de 2005, quando foi nomeado chefe do esforço da ONU. “Para impedir uma pandemia de infecção humana, precisamos de intensificar a resposta global à epidemia da gripe das aves.” A OMS avançou com propostas sobre como o fazer. Mas, em geral, elas estão a ser ignoradas.

Nabarro e outros peritos avisaram repetidamente para as possíveis consequências catastróficas desse comportamento egoísta por parte dos países “desenvolvidos”. Isso vai contra “o interesse de todos” e contra “o próprio interesse das nações”, alega o relatório da OMS. Mas os governos capitalistas que dirigem o mundo são incapazes de agir de outra forma ao nível do que é requerido pelo perigo.

Por exemplo, o ano passado, a Organização da ONU para a Alimentação e a Agricultura pediu 6,8 milhões de dólares para estudos de campo e de laboratório sobre as aves selvagens, mas não os obteve. Houve alguns esforços, embora não os suficientes, para se desenvolver programas de treino e de contar com os camponeses do terceiro mundo para afastar a gripe das aves dos seus quintais e para evitar o contacto humano com excrementos de aves selvagens. Os esforços para capacitar países do terceiro mundo a desenvolverem e fabricarem vacinas antivirais têm sido lamentáveis. Porém, como se disse atrás, vacinar as pessoas contra a gripe comum quando for provável que entrem em contacto com a gripe das aves poderia ser uma questão de vida ou morte para a humanidade e, além disso, essa capacidade industrial poderia ser usada para fazer uma vacinação específica contra uma variante humana da gripe das aves quando ela emergisse. Os EUA concordaram recentemente em contribuir com 10 milhões de dólares para esse objectivo – em contraste com os 3 a 10 mil milhões necessários, segundo o Plano de Acção Global da OMS.

Dez milhões de dólares são a quantia que o governo dos EUA gasta com a sua guerra no Iraque em cerca de hora e meia.

O tratamento: A armadilha do Tamiflu

Em vez de lidarem com uma ameaça global numa base global, os governos dos países ricos do mundo têm concentrado esmagadoramente a sua distribuição de recursos na produção e armazenamento do antiviral Tamiflu para uso das suas próprias populações. Só os EUA encomendaram medicamentos no valor de cerca de 100 milhões de dólares, em Março de 2006. A Holanda encomendou o suficiente para cobrir um terço da sua população, enquanto a França está a apontar para uma cobertura mais completa. Em contraste, a ONU tem um orçamento de apenas 7 milhões de dólares para controlar as erupções animais da gripe das aves. Nabarro disse: “No meu novo papel [como chefe do esforço antigripe da ONU], estou muito preocupado que ainda haja uma tal diferença.”

É moralmente repugnante – um sinal da obscenidade do modo como o mundo actual está organizado – que um punhado de nações com uma minúscula proporção dos habitantes do mundo monopolize recursos veterinários e médicos com a perspectiva de protegerem “as suas” populações e dando poucos passos para salvarem o resto da população mundial.

Além disso, a ideia de erguer uma parede entre a saúde das pessoas de qualquer país e as do resto do mundo não irá resultar. É verdade que essa tem sido a abordagem dos governantes do Ocidente face a doenças como a malária, que passou de flagelo de toda a humanidade para um assassino em massa sobretudo dos pobres de África, da Ásia e da América Latina. O capitalismo não tem conseguido arranjar os recursos que seriam necessários para impedir a doença e desenvolver uma vacina efectiva contra esse horror que todos os anos, em condições normais, mata 1,5 a 3 milhões de pessoas, sobretudo crianças. Mas a gripe, por causa da sua comunicabilidade entre pessoas, é diferente. A pandemia de gripe de 1918 mostrou isso abundantemente – e isso foi antes da economia e dos transportes globalizados de hoje.

O Tamiflu pode impedir alguma da actual gripe humana se for tomado durante um período de tempo suficientemente longo em doses suficientemente elevadas; e é largamente usado agora por pessoas que já estão doentes para minorarem a severidade da enfermidade. Mas não é certo que venha a ser muito efectivo no caso de uma pandemia entre os seres humanos de uma nova variante mortal da gripe. A melhor utilização do Tamiflu agora não seria armazená-lo nos países que dele podem dispor, mas torná-lo acessível na Ásia e nas outras zonas do mundo onde apareceu a maior parte dos casos de H5N1 entre seres humanos. (Historicamente, embora longe de exclusivamente, muitas novas gripes humanas podem ter tido origem na China e noutros países onde há um número muito elevado de pessoas que vivem em contacto directo com um grande número de aves domésticas. Até agora, a maior parte das mortes humanas devidas ao H5N1 ocorreram no Vietname, no Camboja, na Tailândia e na Indonésia.) Contudo, como salienta a OMS, em geral os países com os maiores armazenamentos de antivirais são aqueles onde o H5N1 está menos presente neste momento.

Onde quer que haja uma erupção, é aí que o Tamiflu poderia ser mais bem usado, não só para as pessoas directamente envolvidas, mas para a humanidade como um todo. Mas que governo do actual mundo “desenvolvido” poderia sequer sonhar com uma tal coisa? Mesmo que de alguma forma decidisse ir contra os interesses do capital imperialista de base nacional que o seu estado representa – o que seria impossível – também estaria contra a mentalidade de “olhar para os melhores” e desconsiderar as outras pessoas que tanto o funcionamento do sistema capitalista como o das suas instituições sociais e morais tão cuidadosamente têm inculcado. Pelo contrário, os governantes do mundo e os seus defensores estão a encorajar ainda mais uma fortaleza e a mentalidade do “eu primeiro” que poderia, francamente, levar a consequências mais grotescas e criminosas face a mortes em massa e a uma histeria em massa.

Também se põem questões relativamente à produção do próprio Tamiflu. Sob intensa pressão, a Roche, a companhia suíça que até recentemente tinha o monopólio desse antiviral, está a vender licenças para a sua produção a empresas de outros países. No actual sistema social e económico, as fórmulas de composição dos medicamentos, embora desenvolvidas com base nos esforços sociais e históricos da sociedade humana como um todo, são considerados “propriedade intelectual”. (O absurdo desta situação pode ser visto no facto de o Tamiflu ser feito de anis-estrelado, uma matéria-prima retirada de uma árvore que cresce na China e que tem algumas propriedades médicas que foram descobertas por gente comum há muito tempo atrás.) Como as próprias empresas farmacêuticas salientam, no actual sistema, se não puderem ter o monopólio da produção dos medicamentos desenvolvidos nos seus laboratórios, a continuação da investigação torna-se impossível. O problema não tem a ver apenas com as empresas farmacêuticas, mas com todo o sistema económico que só pode prosperar se os frutos do trabalho humano socializado puderem ser apropriados privadamente.

O “auto-interesse iluminado” e os interesses da humanidade

Os primeiros teóricos do capitalismo gostavam de falar no “auto-interesse iluminado” que possibilitaria e mesmo exigiria que os capitalistas se preocupassem com algo mais que extrair o ouro. O controlo de doenças e a saúde pública são frequentemente citados como o melhor exemplo disso e o apelo da OMS ao “auto-interesse das nações” na luta contra a gripe das aves é uma tentativa de estender o conceito a nível internacional. Afinal de contas, as doenças que em séculos anteriores dizimaram a Europa não só ameaçaram tanto as vidas dos ricos como as dos pobres, elas também dificultaram os negócios e a estabilidade política.

A saúde pública progrediu consideravelmente em muitos países abastados, tal como as riquezas acumuladas pelos países imperialistas permitiram que uma grande parte das suas populações alcançassem melhores padrões de vida que as dos países dominados pelo imperialismo. Mas mesmo aí é preciso ter uma posição de privilégio para ter benefícios, como se pode ver pelo doloroso e frequentemente inadequado funcionamento quotidiano mesmo dos mais avançados sistemas de saúde pública da Europa ou do mais problemático sistema de saúde dos EUA. Essas insuficiências – mesmo em coisas mais simples como a falta de camas nos hospitais – poderão vir a ser particularmente perigosas face à ocorrência de algum evento súbito e dramático, como uma pandemia humana da gripe das aves.

Além disso, embora o sistema imperialista tenha sido capaz de lidar com algumas doenças nalgumas partes do mundo durante algum tempo, a malária é um exemplo perfeito de quão limitado isso é. Quando o expansionismo norte-americano necessitou de construir o Canal do Panamá no início do século XX, os EUA forneceram os recursos necessários para eliminar aí a malária, que antes tinha tornado impossível a conclusão do canal. Mas a malária continua a ser um grande flagelo da humanidade e a decisão sobre onde eliminá-la e onde não se preocuparem é ditada, em última análise, pelo funcionamento do sistema de lucro.

Os governantes imperialistas não estão a enfrentar a ameaça de uma nova pandemia de gripe a nível global de uma forma aberta e directa e com o tipo de medidas sérias necessárias. Quão bem-sucedidos acabarão por ser os limitados recursos disponibilizados para lidar com a ameaça, dependerá sobretudo do acaso, e muito pouco do “auto-interesse iluminado” dos imperialistas e dos seus lacaios locais.

Se a pergunta “o que é que nós vamos fazer sobre isto?” parece estranha, é porque no sistema capitalista mundial não há nenhum “nós”. Só há “eles” – os estreitos interesses dos exploradores rivais que dominam um punhado de países e têm a última palavra sobre tudo. Mesmo a ideia do “nós” – de que as pessoas comuns de qualquer país, e a nível global, possam ter algo a dizer sobre as questões do estado ou da ciência – parece impossível num mundo organizado como o é hoje, onde o conhecimento e as capacidades estão nas mãos de alguns e onde a vasta maioria das pessoas é mantida na ignorância e sem poder político. É o funcionamento desumano do próprio capital que está no comando e não os interesses das pessoas, ou mesmo os desejos dos próprios capitalistas, que poderiam realmente temer uma tal catástrofe global. Isto torna-se ainda mais claro quando se lê os relatórios dos cientistas, incluindo os das principais organizações mundiais, que vêem o desastre a chegar e porém estão impotentes para o impedir – e acabam mesmo por o ignorar.

Continuação da Parte 1: O perigo

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese