Maoistas norte-americanos: “As eleições: o que significam – e o que não significam”
13 de Novembro de 2006. Serviço Noticioso Um Mundo a Ganhar.

O texto que se segue é uma versão abreviada de um artigo publicado no jornal Revolution, órgão do Partido Comunista Revolucionário dos EUA (Nº 69, 19 de Novembro – www.revcom.us).

As eleições de meio-termo da última terça-feira marcaram uma reviravolta significativa nos acontecimentos. Pela primeira vez em 12 anos, os Republicanos perderam na Câmara dos Representantes e no Senado e os Democratas regressaram ao poder. Assim que surgiram os resultados, o muito odiado Secretário da Defesa Donald Rumsfeld foi obrigado a demitir-se.

Contudo, a questão do dia mantém-se: qual o verdadeiro significado destas eleições? Que mudanças daí poderão – ou não – resultar? O que é que elas significarão – ou não – para a agenda global de Bush e para a guerra do Iraque? E que desafios e responsabilidades enfrentam os que se opõem a tudo o que Bush e o seu regime significam e que compreendem a necessidade de inverter totalmente o rumo que eles têm imposto ao mundo?

Muitas pessoas vêem as eleições como um referendo popular de repúdio a Bush, à sua administração e à guerra do Iraque. Milhões dos que votaram fizeram-no com base na fúria e na repugnância em relação à guerra. Mas na realidade a guerra não estava em votação – pelo menos não da maneira que muita gente possa pensar.

As eleições marcaram o crescendo de meses de terríveis avisos e críticas – incluindo dentro das forças armadas dos EUA e outras importantes vozes da política externa imperialista – relativamente ao deteriorar da situação no Iraque.

A equipa de Bush tinha pensado que poderia transformar rapidamente o Iraque num estado-cliente pró-EUA, uma plataforma para outras agressões na região e um sinal para o mundo de que o poderio norte-americano era inquestionável. Em vez disso, as forças norte-americanas não têm conseguido eliminar a crescente insurreição nem conseguido construir uma nova classe dominante iraquiana com a força, a coesão e a legitimidade para estabilizar a situação. Tudo isto tem o potencial de transformar o Iraque num centro de instabilidade e de ódio anti-EUA, de fortalecer ainda mais o Irão, de destabilizar a região, de debilitar as forças armadas dos EUA e de abrir a porta a potências rivais. Em suma, exactamente o oposto do que Bush e companhia tinham a intenção de conseguir.

Isto fez com que algumas forças dentro da classe dominante manobrassem para forçar Bush a ajustar a sua estratégia. Essas forças querem evitar um desastre estratégico e salvar o que for possível do Iraque – para manter o domínio militar, político e económico dos EUA sobre o Médio Oriente. Elas não visam um fim imediato da guerra mas, pelo contrário, uma alteração da táctica dentro do Iraque e, talvez, em relação a outras forças da região. Elas não questionam a moralidade ou a justeza da guerra, apenas a sua implementação. Para essas forças, as eleições tornaram-se num meio para criticar a equipa de Bush e forçar (e criar uma cobertura política para isso) uma séria reavaliação da condução da guerra e um ajuste da estratégia.

Os apelos dos Democratas a um “novo rumo” e uma liderança “competente” no Iraque e as suas críticas à “política falhada” de Bush visavam esses objectivos. As denúncias da guerra feitas pelos Democratas eram vagas. Poucos candidatos explicaram especificamente o que fariam e menos ainda pediram uma retirada imediata. Alguns disseram que a guerra era um “erro”, mas nenhum disse o que ela realmente é: reaccionária, criminosa e imoral.

Essas palavras vagas tiveram duas importantes virtudes para a classe dominante. Primeiro, permitiram aos Democratas – que consistentemente votaram a favor e apoiaram a guerra do Iraque e continuam a apoiar os seus objectivos gerais – desviarem a enorme fúria contra a guerra para um enquadramento que não põe em causa toda a natureza da guerra. Segundo, dá aos Democratas a flexibilidade de entrarem num “consenso bipartidário” para “ajustarem”, em vez de acabarem, com a guerra. De facto, o “neoconservador” fascista William Kristol disse ao canal Fox News que a derrota republicana poderia, na realidade, dar a Bush a cobertura política para colocar mais pressão sobre o governo iraquiano e convocar algum tipo de conferência regional (ambas exigências dos Democratas), ao mesmo tempo que também aumenta o número de tropas.

A queda de Donald Rumsfeld tem que ser vista a esta luz. Rumsfeld está muito associado à sua insistência para tentarem conquistar e ocupar o Iraque com um número mínimo necessário de forças. A sua saída é, pelo menos em grande medida, um sinal de que essa estratégia está aberta a uma “reavaliação”. Derrubar alguém numa posição tão elevada acontece para mostrar que Bush reconhece que nem tudo vai bem, que os EUA enfrentam sérios problemas e perigos importantes, que são necessários alguns significativos ajustes e que vai ter que ser moldado um consenso mais alargado entre a classe dominante para lidar com todas estas questões.

As promessas de líderes Democratas como Nancy Pelosi [a nova líder parlamentar dos Democratas] de “civilidade e cooperação” também devem ser vistas a esta luz. Ela promete manter o rumo, não fazer nada que tenha alguma probabilidade de arriscar a estabilidade de todo o sistema e manter “a sua base” – os que olham para o Partido Democrata como agente de mudança – sob controlo firme. As massas podem ter votado a favor do fim da guerra e mesmo a favor da inversão do vergonhoso rumo definido por este governo – mas Pelosi e os outros já estão a reinterpretar os factos e a usar o seu poder para colocar a sua marca sobre o que as pessoas fizeram – para o ajustar e pô-lo ao serviço de todo um outro conjunto de objectivos diferentes do que a maior parte das pessoas pretendia como o seu voto.

Por isso, as eleições não significarão por si só uma inversão profunda e clara da política para o Iraque e ainda menos o repúdio da lógica que levou à invasão. Pelo contrário – na ausência de um gigantesco e determinado movimento de oposição – elas acabarão por ser um veículo para ajustar, sustentar e reabilitar essa odiosa guerra.

Os Democratas e a Política de Bush

Mas o Iraque é apenas uma parte da panóplia de Bush. E os outros horrores de Bush?

Onde estão, por exemplo, os Democratas que estejam contra a tortura legalizada e o esvaziamento do habeas corpus que foi aprovado em Setembro? Onde estão os Democratas que saiam em ofensiva contra as crescentes movimentações rumo a uma teocracia – o domínio dos fascistas fundamentalistas cristãos?

Onde estão os Democratas que soem o alarme contra os planos do regime Bush para invadir o Irão ou que critiquem o apoio à brutal invasão israelita do Líbano este verão? Ou que defendam o direito dos homossexuais a casarem e ousem apoiar a moralidade do direito das mulheres ao aborto?

Pelo contrário, os Democratas não só alinharam tacitamente – e em alguns casos abertamente – com os planos de Bush em relação a estas e a outras questões, como fizeram grandes esforços para reivindicar a “guerra ao terror” como sendo sua, mesmo que essa “guerra ao terror” constitua a espinha dorsal lógica de grande parte da agenda política de Bush. E apesar do sentimento generalizado de responsabilização de Bush pelos seus muitos e horríveis crimes, Nancy Pelosi opôs-se a qualquer ideia de derrubar Bush. Este facto só por si quer dizer que os crimes e os ultrajes do regime Bush – desde a sua doutrina da guerra preventiva ao seu uso generalizado da tortura e de encarceramentos ilegais, entre outras coisas – serão agora legitimados e “normais”.

Muitos comentadores salientaram que estas eleições são diferentes das de 1994, em que os Republicanos ganharam o Congresso com um programa de alterações radicais. Isso aconteceu porque as forças por trás do regime Bush (e também por trás dessa subida ao poder em 1994) desenvolveram um “pacote” que dá resposta a algumas das principais dinâmicas económicas e políticas subjacentes ao mundo actual – e os Democratas não o têm. Esse pacote incluía uma agressiva projecção internacional do esmagador poderio militar dos EUA, uma enorme intensificação da repressão interna, um corte drástico dos programas de segurança social financiados pelo governo e a crescente formação de um movimento fascista cristão na política e na cultura da sociedade (com algumas das forças-chave dessa mistura a exigirem uma teocracia fascista aberta).

Os Democratas, embora alguns deles o tenham tentado, não apareceram com um programa ou não tiveram a força social e política organizada para se oporem a isso – e não têm vontade ou não são capazes, nesta altura, de se lhe oporem com nada mais que aquilo que em tempos Lenine chamou de “dúvidas piedosas e correcções insignificantes”. Os principais líderes democratas escolheram como sua principal prioridade a preservação deste sistema, independentemente dos horrores (e dos horríveis compromissos) que essa preservação possa requerer – e neste momento eles são bastante claros quanto a isso. Durante os últimos anos, eles esforçaram-se por anular a indignação popular e por a desviar para canais que acabam por apoiar o sistema e mesmo o próprio regime Bush. Esta dinâmica não foi significativamente alterada com as eleições.

Além disso, deveríamos olhar para trás e ver todo o sistema que Bush e os Democratas defendem ser o “melhor país do mundo”. Afinal de contas, o que é que as forças militares norte-americanas defendem nos mais de 100 países em o que estão estacionados os seus soldados? Fundamentalmente, é o “direito” do capital norte-americano chegar a qualquer lugar e fazer o que quiser, independentemente de quão monstruoso possa ser, em busca dos lucros mais elevados possíveis; de dominar e despojar países e mesmo regiões inteiras, às vezes só para ter a certeza que os seus rivais imperialistas não o fazem; de expulsar as pessoas das suas terras na sua busca cega do lucro e depois usar essas mesmas pessoas como “mão-de-obra barata”, seja dentro dos seus países de origem, seja nos próprios países imperialistas; de fortalecer uma ordem social e hábitos repressivos enquanto estes servirem as necessidades da expansão imperialista; de esmagar quem se coloque no seu caminho, mesmo os seus parceiros gângsteres reaccionários; e de reprimir violenta e cruelmente qualquer movimento revolucionário ou radical que surja quando as massas ousam libertar-se das suas grilhetas, ou mesmo apenas resistir.

Esta verdade elementar deve ser repetida e explicada às massas, de um milhão de formas diferentes, à medida que com elas discutimos o que significa – e o que não significa – a vitória democrata.

As eleições já terminaram, mas ainda enfrentamos um regime criminoso e a necessidade urgente de o afastar do poder e de repudiar o seu programa. Tudo o que está a fazer CONTINUA a ser intolerável!

Este não é o momento para retiradas políticas ou de esperar-para-ver. A contradição entre, por um lado, o desejo ardente dos milhões de pessoas que votaram contra Bush e a guerra e, por outro, o que Bush e os Democratas na realidade farão, poderia atrair muito mais gente para uma oposição determinada. Mas isso depende de nós – e de ti. Deixada a si própria, essa contradição apenas se transformará numa fonte de desespero e num motivo para mais passividade e paralisia. Nós – e tu que lês isto – temos que encontrar as formas de resistir e de remodelar as condições políticas desta situação.

Temos que insistir em que o que era inaceitável ontem continua inaceitável hoje – e amanhã. Temos que trabalhar com a organização World Can’t Wait [O Mundo não Pode Esperar] no sentido de atrairmos outras pessoas para as principais acusações, bem como para a posição política e a certeza moral expressas no seu muito poderoso Apelo ao Derrube do Governo Bush. Sessões de esclarecimento, uma grande distribuição desse Apelo, a distribuição dos materiais da Comissão Sobre os Crimes de Bush, juntarmo-nos e apoiarmos a resistência – tudo isto está na ordem do dia.

Além disso, há uma necessidade urgente de introduzir os textos de Bob Avakian – em cursos universitários e nos campi universitários em geral, nas comunidades de oprimidos, na rádio, nas livrarias e bibliotecas, entre os intelectuais e nos jornais intelectuais e de centenas de outras formas. Esses textos não só fazem incidir uma verdadeira luz sobre a dinâmica subjacente a toda esta situação e ressaltar muito directamente as grandes questões políticas actuais, também indicam o caminho a seguir – tanto no que diz respeito à forma como poderá ser feita uma revolução como ao carácter verdadeiramente libertador que essa revolução terá que ter –, as formas sobre as quais tem que ser construída mas que a faça ir muito para além das revoluções do passado. E, com isso, também há uma necessidade urgente de distribuir este jornal – para fazer chegar a verdade, todas as semanas, a muitas, muitas mais mãos e construir os alicerces do movimento revolucionário.

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese