Reportagem sobre o movimento para acabar com o governo Bush nos EUA
23 de Outubro de 2006. Serviço Noticioso Um Mundo a Ganhar.

O artigo que se segue contém excertos de um primeiro relato da organização norte-americana World Can’t Wait – Drive Out the Bush Regime [O Mundo Não Pode Esperar – Acabemos com o Governo Bush], retirado do nº 66 do jornal Revolution, órgão do Partido Comunista Revolucionário dos EUA (revcom.us) e intitulado “A Coragem dos Milhares de Pessoas Que Agiram e o Desafio Para Envolver Mais Centenas de Milhares”.

Algo de novo está a crescer – um movimento de milhares de pessoas de origens muito diversas e vindas de centenas de cidades e vilas de todo o país, que percebem a necessidade de afastar o governo Bush do poder e que estão a assumir a responsabilidade de o fazer. Esses milhares de pessoas estão a romper conscientemente com o padrão dominante da acomodação no dia-a-dia a cada nova afronta. Muitas delas sentem muito intensamente que o destino da humanidade depende do que façam agora as pessoas que vivem neste país, mas isso não as está a deitar abaixo. Pelo contrário, elas estão a afastar a negação e o desespero e estão a pisar os terrenos pouco conhecidos do tomar da história nas suas próprias mãos – e a manifestar muita alegria e determinação por se terem integrado num movimento à escala nacional para afastar o governo Bush do poder.

A 5 de Outubro tiveram lugar protestos de costa a costa e fora das fronteiras dos EUA, em mais de 230 locais. Vários milhares de pessoas saíram à rua em Nova Iorque, Chicago, São Francisco e Los Angeles; centenas de pessoas, ou mais, agiram em cidades como Tucson, Portland, Atlanta, Mineápolis e Austin; e em muitas pequenas cidades e vilas, muita gente foi para os cruzamentos, os centros das cidades, as praias locais e para onde quer que pensassem chegar a mais gente com a seguinte mensagem: Este Governo Não Nos Representa e Nós Vamos Acabar Com Ele.

Ao mesmo tempo, é um facto claro que a dimensão destes protestos ficou aquém dos números para que os organizadores correctamente tinham apontado (dezenas de milhares nas maiores cidades do país e pelo menos 100 mil a nível nacional). Inverter o impulso e o rumo para que a sociedade se encaminha, mudar o discurso político para que o afastamento do governo seja debatido e criar uma situação política onde o governo Bush possa ser afastado, tudo isto requeria – e agora requer ainda mais urgentemente – a mobilização política de centenas de milhares de pessoas.

Há ainda tempo para o fazer, mas não muito tempo. O governo Bush não reduziu a velocidade, antes acelerou o seu passo para refazer o mundo de um modo fascista que terá implicações durante gerações e, apesar do enorme número de pessoas que estão horrorizadas e repugnadas com esse rumo, a vasta maioria delas ainda não está a reagir à necessidade de sair para as ruas em grande número para inverter a situação. Entretanto, o governo Bush está a mover-se a cada dia para fechar o espaço da sociedade em que uma oposição ao seu programa possa ser mobilizada. Este enorme problema deve ser enfrentado, compreendido e superado muito depressa pela luta colectiva dos milhares de pessoas que corajosamente se tornaram no núcleo deste movimento.

Isto requererá apreciar profundamente e construir sobre os avanços muito importantes que foram feitos nesta última batalha, bem como compreender e superar as significativas debilidades deste esforço crítico para mudar o curso da história – incluindo desafiar muito urgente e claramente os milhões de pessoas deste país que querem e com os quais o mundo conta para agirem de um modo significativo contra o curso desastroso para que o governo Bush está a arrastar este país e o mundo. Os comentários que se seguem são um contributo para este processo.

Nos meses que precederam os protestos de 5 de Outubro, houve um crescimento significativo do número de pessoas e organizações que tomaram como seu o movimento para afastar o Governo Bush. Vinda de perspectivas diferentes, muita gente nova escreveu e foi para a rádio defender uma acção política de massas com o objectivo de afastar o governo. Algumas pessoas nunca tinham falado publicamente sobre política desta forma, enquanto outras já o tinham feito mas nunca como integrantes de um movimento de âmbito nacional. Isso requereu coragem e definiu um padrão muito positivo e um exemplo para outros.

O debate foi aberto e mostrou ser necessário entre um significativo número de organizações sobre se e como participar no afastamento do governo. Entre os que se envolveram, houve um nível de unidade maior que no passado sobre a necessidade de ir para as ruas para afastar o governo. Contudo, há muitas organizações – sobretudo entre as que estão ligadas ao Partido Democrático – que se puseram de lado e foram contra essa forma de mobilização política porque vêem nisso um obstáculo à eleição de Democratas. Esta noção – a de subordinar os princípios, os direitos fundamentais e o destino de todo um povo – à obtenção de uma “vitória” eleitoral, deve ser ainda mais completa e claramente contestada (qualquer que seja a visão de cada um sobre o Partido Democrático, em geral) e muitas mais organizações devem ser ganhas para actuarem segundo as formas que a política oficial está agora a suprimir.

Um dos pontos fortes mais evidentes foi o rápido crescimento dos protestos planeados em todo o país – incluindo em muitos estados e municípios que em 2004 tinham votado em Bush, bem como noutros. Em lugares como New Paltz, Tucson, Mineápolis e Portland, o número de pessoas que protestaram variou entre 600 e 1500. Em lugares como Tampa, Greensboro e Charlotte, houve 100 a 200 pessoas. Na Florida e na Carolina do Norte houve mais de uma dúzia de protestos em cada estado. No Texas, o estado de Bush, houve 15. No Alabama houve quatro, incluindo em Florence onde 80 pessoas protestaram.

Um excerto de um jornal local de Marietta, no Ohio, dá um exemplo de como muitos desses protestos mantiveram o seu foco na necessidade de afastar o governo Bush:

“Soube do worldcantwait.org há apenas alguns dias, mas as minhas mãos ficaram a tremer com o ‘projecto de lei de tortura’ que o Congresso votou na quinta-feira passada”, disse James Gawthrop, um habitante de Marietta de 53 anos referindo-se à recém-aprovada Lei de Comissões Militares de 2006. “Agora a administração Bush pode deter indefinidamente qualquer pessoa suspeita de ser terrorista. Podem usar evidência secreta para a manter detida. Podem mesmo usar a tortura”, disse ele.

“Algumas pessoas estão aqui para protestar contra a guerra, algumas estão contra o aquecimento global, algumas estão contra o défice do orçamento”, disse Gawthrop. “O nosso objectivo é formar uma onda de gente suficientemente grande para afastar do poder a administração Bush. Há agora um sentimento de urgência. Os meios normais não estão a funcionar.”

“O facto de as pessoas aparecerem a cada dois ou quatro anos e votarem Republicano ou Democrata, desta vez já não serve para isto”, disse ele.

Antes do 5 de Outubro, o WCW [World Can´t Wait] editou um comunicado que dizia em parte: “Pensem em toda a gente que está profundamente aflita com o rumo para que o governo Bush está a arrastar o país – e o mundo... Imaginem se, a partir deste enorme reservatório de pessoas, fosse desencadeada uma grande onda, movimentando-se em conjunto e ao mesmo tempo, constituindo, pela sua posição firme e a sua enorme dimensão, uma poderosa afirmação política que não pudesse ser ignorada, reunindo-se e manifestando-se, fazendo saber que está determinada a fazer parar todo este curso desastroso através do afastamento do governo Bush com a mobilização de uma oposição política de massas. Se isso fosse feito, então a possibilidade de inverter o rumo dos acontecimentos e caminhar numa direcção muito mais favorável assumiria toda uma nova dimensão de veracidade.”

Nas semanas imediatamente antes do 5 de Outubro, o impulso foi-se construindo de tal forma que levou muitos organizadores do WCW, bem como a polícia e alguns analistas, a pensar que os números nas principais cidades seriam muito mais elevados: dezenas de milhares de pessoas. Essa participação mais elevada ainda é o que é urgentemente necessário para mudar o discurso político deste país e as opções que as pessoas vêem como viáveis e que o afastar deste governo através de uma acção política de massas seja um objectivo que milhões de pessoas vejam como valendo a pena lutar para concretizar.

Muitos dos que prepararam o 5 de Outubro começaram já a falar sobre estas questões como parte crucial do avanço. Algumas considerações iniciais sobre o que retém as outras pessoas incluem: falta de conhecimento sobre este dia, medo da repressão, medo de sair da política do costume, falta de esperança, falta de clareza sobre o que o protesto poderia conseguir, a ideia de que tentar mobilizar as pessoas para afastar o governo Bush perturbaria a eleição de Democratas neste Outono, ignorância sobre as actuais políticas e planos da administração Bush e o facto de que as pessoas estão a aprender a aceitar coisas que nunca sonharam aceitar há alguns anos. Mas agora, toda agente dentro e à volta deste movimento deve participar numa aprendizagem muito profunda sobre o que deteve as pessoas para que isso possa ser rapidamente transformado.

As próximas reuniões de massas da World Can’t Wait [O Mundo Não Pode Esperar] devem começar a debater estas questões. Nessas reuniões deveríamos debater e unir-nos sobre uma estratégia e uma abordagem que desafiem as pessoas a romper com a paralisia do medo ou da indiferença, ou outras formas de paralisia que resultem de passagens pelos movimentos da política do costume, em vez de agir, agora, de uma forma que esteja à altura da situação que enfrentamos – no Iraque, no Irão, nas prisões secretas de tortura, na violação dos direitos fundamentais. Começando com o nosso plano de protestos sentados, vestindo de laranja para fazer soar o alarme de que a tortura acaba de ser legalizada e institucionalizada e estando prontos para responder já a qualquer surpresa de Outubro ou de Novembro vinda de [um ataque militar repentino] deste Governo, precisamos de avançar e de lançar as bases para um novo nível de resposta de massas... urgentemente.

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese