Os maoistas do Afeganistão e os confrontos entre sunitas e xiitas em Herat
1 de Maio de 2006. Serviço Noticioso Um Mundo a Ganhar.

Há muitos indícios de que as forças norte-americanas de ocupação actuaram de modo a encorajar a luta sectária entre xiitas e sunitas no Iraque. Elas instalaram um governo fantoche assente em linhas étnicas e religiosas. Basicamente, os ocupantes reavivaram e aliaram-se aos senhores da guerra feudais, aos xeques tribais e às autoridades religiosas, cada um deles lutando pela supremacia. O seguinte artigo analisa o modo como a ocupação do Afeganistão encabeçada pelos norte-americanos está a ter semelhantes efeitos desastrosos nesse país. O artigo é reproduzido editado do número de Março de 2006 (Nº 11) do Sholeh, o jornal do Partido Comunista (Maoista) do Afeganistão.

O feriado religioso xiita do Ashura (9 de Fevereiro) deste ano foi cenário de um tipo de guerra religiosa que o Afeganistão nunca antes conhecera. Calcula-se que, durante os três dias de sangrentos confrontos entre xiitas e sunitas na província noroeste de Herat, foram mortas mais de 50 pessoas, sobretudo sunitas, e que mais de 300 ficaram feridas, algumas delas pelas forças de segurança.

Como começaram os confrontos

Uma procissão religiosa xiita seguia em direcção ao centro da cidade e à maior mesquita da cidade, a Jamme, onde iriam ouvir um discurso do novo governador de Herat, Seyed Hussein Anvari, um xiita. Quando se aproximavam, surgiu um rumor de que os hazaras (uma minoria nacional do Afeganistão que é sobretudo xiita) tinham destruído bandeiras sunitas. Seyed Hussein Husseini, que nessa altura era o responsável provincial pelos assuntos laborais e sociais, levantou-se e disse: “foram mortos dois sunitas e insultadas as suas santas convicções e eu matarei os responsáveis com as minhas próprias mãos”. Este comentário acirrou a audiência sunita presente na mesquita a atacar os xiitas que chegavam e a expulsá-los da mesquita.

Isto desencadeou os confrontos. A intervenção das forças de segurança fez piorar a situação e prolongar a violência. Provocaram os sunitas, ao mesmo tempo que não impediam os hazaras armados de entrar na cidade. O governo central de Karzai em Cabul enviou uma delegação encabeçada pelo senhor da guerra Ismail Khan, antigo governador de Herat, para acalmar a situação, mas ela não o conseguiu fazer. Durante três dias, todas as lojas estiveram fechadas e o caos completo varreu a cidade. Os sunitas patrulharam as ruas em grupos de entre 5 a 50 pessoas. Quando encontravam um hazara, espancavam-no com varapaus e apedrejavam-no tão ferozmente que é difícil imaginar como conseguia escapar vivo. Visavam sobretudo jovens vestidos de negro (um símbolo xiita).

O Exército foi colocado em todos os cantos da cidade. As forças de segurança tomaram todos os principais pontos de passagem, supostamente para proteger a cidade. Todas as portas da cidade foram fechadas. A lei marcial foi imposta durante os três dias seguintes. Apesar dessas “medidas de segurança”, foi iniciado um protesto contra o governador de Herat. As autoridades enviaram 400 elementos das Forças Especiais da Guarda – que tinham chegado para proteger os edifícios governamentais e que depois se concentraram exclusivamente em proteger a Câmara Municipal onde fica o gabinete do governador – contra os manifestantes que exigiam a sua demissão. Essas forças estavam equipadas com escudos e protecção corporal. Três tanques norte-americanos e vários soldados dos EUA também foram colocados frente à Câmara Municipal. Os manifestantes também atacaram a embaixada iraniana, mas foram dispersos quando as forças de segurança dispararam por cima das suas cabeças. No sábado, houve protestos noutras partes da cidade, como Bakrabad e Ghor Darwaza, e os manifestantes atacaram a polícia com pedras, garrafas e paus. Quando os confrontos se intensificaram, um comandante do Exército foi morto e alguns polícias ficaram gravemente feridos. A multidão atacou mesquitas xiitas, o mercado, lojas, carros, motos e riquexós que pertenciam a hazaras.

Raízes e causas imediatas

Este incidente tem raízes há sete meses, quando Anvari foi nomeado governador de Herat. Anvari começou a distribuir certidões de nascimento a xiitas nascidos noutras regiões. Isso enfureceu alguns funcionários sunitas em Herat e também em Cabul. Karzai acabou por ir a Herat para pôr um fim a isso.

Anvari também começou a vender terrenos governamentais, incluindo terrenos perto da fronteira com o Irão e no distrito de Siavashan, aos xiitas hazaras. Isso também enfureceu pessoas como o senhor da guerra local de Sivashan, Gholam Yahaya, que também era o responsável pelo Serviço de Defesa e Protecção de Herat e que na prática controla os distritos. Ele impediu mais vendas de terrenos e expulsou mesmo os hazaras que já tinham comprado terrenos. Mais tarde, ele foi demitido de responsável pelo Serviço de Defesa de Herat, numa disputa com Cabul, aparentemente acusado de não entregar todas as suas armas. Isso encorajou Anvari a armar alguns dos hazaras de Herat.

É claro que Anvari encorajou a procissão religiosa xiita a dirigir-se para a mesquita de Jamme. Também é claro que era falso o rumor sobre os xiitas terem insultado uma figura sagrada xiita. Não há nenhum precedente ou mesmo uma base social para este tipo de incidente ocorrer a esta escala em Herat. Muita gente acredita que o regime iraniano, o governador Anvari e o líder do Hezbollah (um grupo político e religioso ligado à república islâmica do Irão) estiveram por trás de um dos lados, e que o antigo governador Ismail Khan e dois influentes mulás sunitas estiveram envolvidos do outro lado. O Ministro do Trabalho e dos Assuntos Sociais, Seyed Hussein Husseini, representou um papel directo, bem como o responsável pela universidade e um grupo de estudantes ligado ao Partido Islâmico de Golbedin Hekmatyar, um conhecido senhor da guerra pachtun, agora aliado dos talibãs, e a Jamiate Islami, a organização do senhor da guerra Burhanedin Rabbani e do falecido Ahmad Shah Massoud.

Anvari e Ismail Khan acusaram-se indirectamente um ao outro de envolvimento nos incidentes. Anvari disse abertamente que os confrontos tinham sido politicamente motivados. O papel do exército e da polícia também foi digno de nota: o exército apoiou sobretudo os xiitas, enquanto as forças policiais apoiaram os sunitas.

Algumas raízes do desenvolvimento das relações xiitas-sunitas em Herat

Quando os xiitas de Herat tentaram inicialmente fazer uma marcha pela cidade nesse feriado religioso no princípio dos anos 90, depois da queda do estado islâmico instalado pelos senhores da guerra jihadistas que tinha combatido a ocupação soviética, o governador Ismail Khan impediu-os. Este ano, depois de Anvari se ter tornado governador, os xiitas foram encorajados a marchar para as grandes mesquitas da cidade.

A nacionalidade hazara, maioritariamente xiita, constitui 15 por cento da população do Afeganistão, a nível nacional. Eles foram uma das minorias que mais sofreu durante a guerra civil entre as forças jihadistas, sobretudo em Cabul, onde estavam isolados. Depois do fim dessa guerra civil, muitos deles quiseram fugir da capital. Foi então proposto um plano para que povoassem as regiões fronteiriças do Afeganistão, especificamente as províncias de Herat e Balkh. A República Islâmica do Irão apoiou o plano, mas os poderosos senhores da guerra General Rashid Doustum e Ismail Khan opuseram-se-lhe. Quando Anvari se tornou governador, reiniciou a construção dos alojamentos hazaras. De novo, alguns senhores da guerra sunitas opuseram resistência. É amplamente sabido que o regime iraniano está a apoiar financeiramente esses projectos e pagou enormes quantias para comprar esses terrenos, muitas vezes acima do preço normal.

Considerações políticas e económicas

Os motivos religiosos foram só a causa aparente destes confrontos. Também há motivos políticos que surgem ao nível local, regional e internacional.

Herat situa-se na fronteira com o Irão e com o Turquemenistão. Isto torna a sua capital num dos mais importantes centros de comércio e negócios do Afeganistão. Os senhores da guerra, que de facto estão entre os maiores proprietários feudais e burgueses-compradores (capitalistas dependentes do imperialismo) anseiam por influência local e competem entre si por essa influência. Essa foi a razão por que as lojas e os mercados dos hazaras foram particularmente destruídos.

Um foco de disputa ainda mais importante envolve dois oleodutos petrolíferos projectados, um pelo Irão através do Paquistão até à Índia, e outro do Turquemenistão até à Índia através do Afeganistão. Os EUA não querem ver construído o oleoduto iraniano e avisaram o Paquistão sobre isso. O governo de Karzai faz todos os esforços para apoiar a escolha dos EUA, o oleoduto do Turquemenistão. Se o oleoduto iraniano for construído, não só seria um duro golpe político e económico para o regime de Karzai, como também uma derrota para os EUA. Isso quer dizer que a instabilidade em Herat, onde irá passar o oleoduto do Turquemenistão, beneficia o regime iraniano. Pela mesma razão, Karzai e os seus aliados internacionais procuram diminuir a influência do regime iraniano em Herat, cujo governador é um senhor da guerra xiita com ligações íntimas ao Irão. A pressão imperialista sobre a República Islâmica do Irão também afecta os aliados afegãos das várias forças internacionais, embora a guerra sectária que encorajam represente tanto um problema como uma vantagem para elas.

Mas a questão mais importante é analisar este incidente no contexto das invasões imperialistas norte-americanas do Afeganistão e do Iraque. Ao contrário das alegações imperialistas, essas invasões não trouxeram democracia e direitos ao povo do Afeganistão. Pelo contrário, elas fortaleceram as forças reaccionárias e em particular as forças políticas e religiosas reaccionárias de ambos os lados, tanto as que apoiam a ocupação como as que se lhe opõem. Esta situação provocou disputas sectárias e atraiu muita gente para essas guerras reaccionárias. A história de numerosos países está cheia deste tipo de exemplos. Em muitas ocasiões, as potências imperialistas planearam e levaram a cabo directamente as provocações na base de guerras religiosas.

Só as coincidências provavelmente não chegam para explicar a razão de ser dos incidentes entre xiitas e sunitas durante o Ashura deste ano no Paquistão, no Afeganistão e sobretudo no Iraque. Pelo menos mil pessoas morreram ou ficaram feridas nestes três países. A infelicidade é que ainda não vimos o fim destes incidentes; eles continuarão enquanto os imperialistas intervierem noutros países e dominarem as questões mundiais. Os escalões superiores do governo e das forças de Cabul instaladas pelos EUA – que são marionetas às mãos das grandes potências e das potências regionais – estiveram todos directamente envolvidos nos trágicos acontecimentos de Herat.

Muita gente salientou que em toda a história do Afeganistão nunca houve o tipo de confrontos religiosos generalizados que ocorreram este ano. Pode dizer-se que estes três dias de incidentes sangrentos foram um “presente” dos invasores norte-americanos e dos outros imperialistas e do seu regime fantoche, a República Islâmica do Afeganistão.

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese