O futuro de Israel
3 de Outubro de 2005. Serviço Noticioso Um Mundo a Ganhar.

Como analisava a semana passada o primeiro artigo desta série em duas partes [Israel após Gaza], a evacuação por Israel dos colonatos sionistas de Gaza e da Cisjordânia não tinha nenhuma intenção de libertar a Palestina mas antes a de a selar num caixão. Israel quer que Gaza seja um campo prisional ao ar livre sob seu controlo militar, político e económico. Desde então, isto ficou dramaticamente visível quando as aeronaves israelitas levaram a cabo ataques com mísseis em toda a Faixa de Gaza durante quase uma semana após as organizações armadas palestinianas, acusadas de disparar vários rockets simbólicos a partir de Gaza, terem anunciado uma trégua. Fontes governamentais israelitas tornaram claro que os ataques foram feitos principalmente por razões políticas, como demonstração de força. Além de uma ponte, uma escola e outros edifícios demolidos pelos mísseis disparados pelos helicópteros, o quase milhão e meio de pessoas que vivem nessa minúscula faixa foram sujeitos a repetidas passagens em baixo voo de jactos israelitas de combate, cujos estrondos sonoros pretendiam aterrorizar a população e mostrar a sua vulnerabilidade.

Ao mesmo tempo, Israel prendeu mais de 400 activistas palestinianos na Cisjordânia. A maior parte desses líderes, quadros e membros do Hamas e de outros partidos políticos palestinianos não eram suspeitos de actividades de guerrilha mas estava a preparar-se para as eleições locais de 29 de Setembro.

Ao mesmo tempo que essas medidas demonstravam que Israel tenciona manter o controlo total sobre Gaza e a Cisjordânia em todas as circunstâncias, o primeiro-ministro israelita Ariel Sharon declarava hipocritamente: “Há apenas um plano e esse é o roteiro”. Tal como Sharon, os EUA e a Europa têm erguido o “roteiro” como sendo a via para a soberania palestiniana, mesmo quando os actos de Israel – e algumas das suas palavras – tornam mais claro que nunca que o estado sionista não tenciona que os palestinianos alguma vez venham a ter de algum modo uma verdadeira autodeterminação. (Segundo artigo de uma série com duas partes.)

Vários comentadores simpatizantes do sionismo defendem a redefinição e a reconfiguração de Israel que motivou a retirada de Gaza como a última hipótese para uma solução “democrática” para o “problema israelo-palestiniano”. Com a imigração sionista para Israel a cair para um mínimo histórico, pensa-se que durante a próxima década os palestinianos ultrapassarão em número os judeus nas terras entre o Rio Jordão e o Mediterrâneo. Se a zona se tornar formalmente parte de Israel, os judeus estariam aí em minoria e Israel, como alguns sionistas escreveram com preocupação, teria que “escolhe entre ser judeu ou democrático”. Ao declarar que Gaza e parte da Cisjordânia não fazem parte de Israel mas de um estado palestiniano actual ou futuro, o argumento é que Israel pode permanecer as duas coisas.

Sharon disse na ONU: “Nós não queremos governar os palestinianos”. Comentando esta afirmação, Uri Dromi, director do Instituto Democracia de Israel na Jerusalém ocupada, escreveu que “Israel se libertou do jugo de ter de governar mais de um milhão de palestinianos” em Gaza e deve agora, na Cisjordânia, “retirar-se das fronteiras dentro das quais não deve ter que governar tantos árabes”.

Isto é tão hipócrita quanto qualquer frase alguma vez articulada. O recente ataque com mísseis de Israel em Gaza pretendia mostrar que toda a faixa se situa a uma distância fácil de atacar pela aviação israelita. Israel também mantém grandes concentrações de tropas e artilharia estacionadas ao longo da fronteira com Gaza para uma possível futura invasão por terra. Tal como para a Cisjordânia, não há nenhum plano para o exército israelita sair e ficar de fora. As tropas israelitas continuam a invadir e a prender pessoas onde quer que queiram, sempre que queiram. O governo israelita reafirmou que a retirada não significa o fim da sua política de “mortes selectivas” – assassinatos – de palestinianos em qualquer lugar. O exército sionista é um dos mais poderosos do mundo, mas Israel tornou claro que nunca tolerará um verdadeiro exército na Palestina.

Não será no monopólio da violência que Israel procura a essência do seu domínio?

Israel é um exemplo particularmente evidente de porque é que as eleições e o “governo da maioria” não são a base da democracia e podem esconder verdadeiras desigualdades e um domínio opressivo. Só porque sucede que os judeus estão em maioria num determinado momento em Israel e só porque Sharon e outros obtiveram uma maioria no parlamento, o que é que há de democrático quando um povo esmaga outro? E mesmo que um mini-estado palestiniano fosse estabelecido em Gaza e numa parte da Cisjordânia, resultando em dois estados formalmente iguais e se houvesse eleições na Palestina, isso não mudaria nada nem sequer em termos de resolver a contradição entre Israel e a Palestina, quanto mais gerar a mais simples justiça. A independência formal e a igualdade para a Palestina mascarariam o domínio estrutural permanente.

Claro que, se os judeus são neste momento a maioria na terra histórica da Palestina, é porque expulsaram tantos palestinianos. A antiga reivindicação palestiniana do “direito de regresso” dos milhões de palestinianos empurrados para o exílio em países vizinhos e outros lugares (e o seus descendentes) é um anátema para os sionistas, embora eles reivindiquem esse direito para os descendentes dos judeus que deixaram a Palestina, não há meio século, mas há 17 séculos. A maior parte da Palestina histórica e mesmo do actual Israel são escassamente habitados. Mais de três quartos dos israelitas vivem em 15 por cento do território de Israel. Não há nenhum problema de falta de espaço para todos. O problema nunca foi o de os judeus e os palestinianos não se poderem “dar bem”, mas o de que o Sionismo sempre desejou um estado exclusivamente judeu. Por definição, um estado religioso, um estado para apenas um povo, não pode ser democrático – e haver eleições em Israel não pode alterar isso.

Nem a “segurança” de Israel é de modo algum um argumento. Como salientam os palestinianos, a construção por Israel de um muro de “segurança” significa roubar terra para defender terra já roubada. A existência do estado de Israel naquilo que mesmo os seus apoiantes reconhecem ser “terra confiscada” significa que a sua existência se baseia na opressão dos palestinianos e que sempre necessitará disso.

Mini-estado, maxi-sionismo

Os dirigentes da Autoridade Palestiniana expressaram uma enorme frustração com a situação pós-retirada de Gaza, porque o futuro nunca pareceu tão sombrio para um estado palestiniano. O mini-estado que pensavam vir a ter não é nada do que esperavam, se é que terão alguma coisa. Os políticos palestinianos de várias tendências chamam ao mini-estado de primeira fase da libertação da Palestina. Porém, a verdade é que terem aceitado a ideia do mini-estado, um estado totalmente dependente da vontade de Israel e ainda mais da dos EUA, foi o caminho que os levou ao seu actual impasse.

Contudo, apesar de todos os seus compromissos com o Sionismo, esses dirigentes políticos podem vir a ficar sem nenhuma recompensa.

As eleições para o parlamento palestiniano devem vir a ter lugar em Janeiro próximo e é provável que o movimento fundamentalista islâmico Hamas se saia muito bem à custa da agora predominante Organização para a Libertação da Palestina (OLP). Alguns dirigentes do Hamas indicaram que estão dispostos a fazer o seu próprio acordo com Israel e algumas forças no Departamento de Estado dos EUA estão prontas a aceitá-lo, seguindo o modelo da aparente coexistência actual entre Israel e o Hezbollah no Líbano. A política fundamentalista religiosa é menos perigosa ao projecto sionista que a reivindicação antes perfilhada pela OLP de uma Palestina democrática e secular para toda a gente. Afinal de contas, as forças de segurança israelitas encorajaram inicialmente a ascensão do Hamas contra a OLP. Mas, pelo menos por agora, os responsáveis israelitas já ameaçaram que não poderiam “autorizar” qualquer eleição a que o Hamas concorra, tal como se recusaram a aceitar o fundador da OLP, Yasser Arafat, como representante legítimo do povo palestiniano, mesmo depois de ele ter sido eleito esmagadoramente como dirigente da Autoridade Palestiniana. Israel acaba de listar dois dirigentes do Hamas como candidatos a “mortes selectivas”. Com eleições ou sem elas, que tipo de poder político podem ter os palestinianos se Israel pode assassinar quem quiser? Como em qualquer eleição sob todas as formas de regimes repressivos, a única coisa que os votos palestinianos podem fazer é aprovar aquilo que os verdadeiros governantes permitam.

Porque é que Israel existe – por enquanto

Pode parecer irónico que, no momento em que o poder de Israel para impor ditames aos palestinianos parece estar no seu máximo, se está a instalar um ambiente de desespero entre muitos israelitas e sionistas de outros lugares. Os factores que permitiram que algumas tendências sionistas usassem uma máscara humanista e idealista são cada vez mais ineficientes. Parte disso, tem a ver com o facto de muita da actual população de Israel ser constituída por pessoas que vieram sobretudo por razões económicas e não ideológicas, ao mesmo tempo que a realidade do conflito com os palestinianos tem polarizado muitos israelitas entre os sionistas duros e os que estão profundamente perturbados com esta situação. O movimento dos colonos que Sharon desencadeou, cujo núcleo consiste numa geração ou duas de pessoas que cresceram em comunidades fundamentalistas religiosas isoladas, militarizadas e endurecidas, criadas deliberadamente no confronto com os palestinianos, têm uma componente fortemente fascista, não só em relação aos palestinianos, mas mesmo em relação a outros israelitas que poderiam aceitar o Sionismo mas que desejavam que não tivesse que ser tão notoriamente tipo nazi.

Os colonos de Gaza despejaram insultos, lixo e mesmo ácido sobre os soldados israelitas que vieram organizar a retirada. O exército israelita reagiu apenas com generosidade face a actos que teriam levado a massacres se tivessem sido cometidos por palestinianos. As imagens desses confrontos mostradas na televisão alienaram muitos israelitas, mas provavelmente encorajaram os duros fanáticos a continuarem a sua caminhada para um Grande Israel. Gaza, deve salientar-se, tem um lugar menos central na ideologia sionista que a Cisjordânia, considerada o coração da civilização judia há milhares de anos. Sharon não resistiu verdadeiramente a esses colonos, como afirmaram algumas pessoas. Além disso, eles apenas foram transferidos.

A luta palestiniana enfrenta claramente grandes dificuldades. Mas também o Sionismo. A crise histórica no próprio partido Likud de Sharon, uma amarga disputa entre o seu plano e os sionistas que se opõem a quaisquer “concessões” aos palestinianos, reflecte o facto de que nenhuma das abordagens consegue provar ser eficaz no esmagamento dos palestinianos. De facto, a situação em Israel tornou-se numa fonte de grande preocupação para a classe dominante dos EUA.

Israel existe hoje por uma única razão: é um ponto-chave do domínio norte-americano do Médio Oriente. Isso e não a exagerada influência do “lóbi judeu” norte-americano é a razão por que os EUA apoiaram a criação de Israel e o apoiaram com até 5 mil milhões de dólares por ano em ajuda e em empréstimos durante os últimos 25 anos. A insuportável arrogância de pessoas como Sharon e os seus rivais sionistas são a arrogância das criaturas cuja capacidade para governar ou mesmo para sobreviver depende completamente dos interesses e das políticas do imperialismo norte-americano. Nenhuma estratégia política e subsequente estratégia militar para libertar a Palestina pode ter uma hipótese de êxito se não se basear nesta compreensão.

Isso também significa que Israel é uma importante fraqueza para os EUA porque se baseia numa injustiça fundamental e gritante, odiada com toda a força não só por milhões de palestinianos mas por gente de todo o Médio Oriente e também de todo o mundo. Isso pode ser imediatamente visto no Iraque, que os EUA gostariam de transformar no seu outro pilar do domínio do Médio Oriente como colónia dos EUA, e onde a resistência está ligada por mil laços ao exemplo da Palestina. A actual ofensiva dos EUA para garantirem o seu mais completo controlo directo sobre o Médio Oriente, como componente central do reforço da hegemonia norte-americana, tanto contra os povos oprimidos como os seus rivais imperialistas, faz parte do contexto dentro do qual Israel está a levar a cabo os seus actuais planos. Mas isso também representa uma potencial vantagem estratégica para a libertação palestiniana, se também ela for compreendida e accionada por revolucionários capazes de ver mais longe que a religião e o nacionalismo, até ao interesse comum da vasta maioria dos habitantes do globo na criação de um mundo inteiramente novo.

[Primeira parte desta série: Israel após Gaza]

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese