Israel após Gaza
26 de Setembro de 2005. Serviço Noticioso Um Mundo a Ganhar.

[Primeira parte de uma série de dois artigos.]

A evacuação por Israel dos colonatos sionistas de Gaza e da Cisjordânia que terminou esta semana teve como objectivo, não libertar nenhuma parte da Palestina, mas antes fechá-la num caixão. Os pregos – os colonatos e o exército de Israel – acabam de ser transferidos.

Embora haja alguma alegria entre os palestinianos em Gaza por se libertaram da “pequena prisão” – os campos de refugiados e as outras cidades a onde estavam circunscritos pelas tropas israelitas –, Gaza no seu conjunto continua a ser uma “grande prisão”, como muitos palestinianos lhe chamam. Eles estão isolados do resto do mundo, incluindo da Cisjordânia onde vive a maior parte dos palestinianos.

Ao mesmo tempo, a retirada está ligada a uma reconfiguração planeada para a própria Cisjordânia, um plano que visa sobretudo consolidar os colonatos israelitas aí existentes mas que também inclui a sua expansão. Os actuais e futuros colonatos sionistas que predominam a leste, em direcção ao Rio Jordão, irão dividir a Cisjordânia em três zonas e cortar as estradas que os palestinianos usam para viajar entre essas zonas. O resultado será a divisão dessa terra em fatias cercadas por muros e por armas, para tornar o aparecimento de uma economia palestiniana e de um estado viável mais difícil que nunca.

A cicatriz de Gaza e o muro da Cisjordânia

A actual Gaza é uma cicatriz deixada pela formação de Israel. Dois terços dos seus habitantes são refugiados que os sionistas expulsaram das suas casas, alguns deles numa vaga de limpeza étnica dentro das fronteiras do que viria a ser Israel depois da primeira guerra sionista de expansão, quando Israel foi fundado em 1948, e outros vindos do interior das muito maiores fronteiras que Israel conquistou em 1967, quando desencadeou uma segunda guerra. A própria Gaza esteve sob controlo israelita desde 1967.

É um dos lugares mais sobrelotados do mundo. Quase milhão e meio de palestinianos vivem numa faixa de deserto com menos de dez quilómetros de largura e 42 de comprimento. Agora, com a retirada do exército israelita e das barreiras nas estradas, pode-se ir de carro de norte a sul em meia hora. Os colonatos israelitas e as estradas que os ligavam – que só os judeus eram autorizados a percorrer, tal como acontece nas estradas dos colonatos da Cisjordânia – cortavam Gaza em cinco sectores. Viajar entre eles era difícil, na melhor das hipóteses. Com a saída dos israelitas, famílias que antes estavam separadas, embora vivessem a curta distância, podem agora visitar-se pela primeira vez em muitos anos. Muitas crianças palestinianas nunca tinham visto o mar, a apenas alguns minutos das suas casas. Quando as tropas partiram, os palestinianos abriram fendas no muro que Israel tinha construído entre Gaza e o Egipto, de forma a poderem desfrutar de um breve encontro com os seus parentes no Egipto, antes de ele ser novamente fechado.

Gaza também é agora um símbolo do fracasso do projecto sionista de florescimento como tinham ambicionado os seus líderes. Os fundadores de Israel planearam vir a acabar por colonizar toda a terra entre o Rio Jordão e o Mediterrâneo. Muitos colonos de Gaza não viviam em reboques mas em casas modernas de tipo suburbano ocidental, confortáveis, às vezes com piscinas, um aspecto particularmente cruel aos olhos dos palestinianos a quem a água era roubada. Alguns dos colonos mais abastados tinham grandes estufas construídas com o suor palestiniano, onde os palestinianos tratavam das culturas para exportação. Mas, mesmo assim, menos de 9000 israelitas vieram morar nos colonatos de Gaza.

Além disso, em vez de ser derrotada de uma vez para todas, a resistência palestiniana continuava em vagas sucessivas. Especialmente com a segunda intifada – a insurreição palestiniana iniciada em 2000 –, o exército israelita descobriu que era difícil reprimir os palestinianos simultaneamente em Gaza e na Cisjordânia. No ano passado, o primeiro-ministro israelita Ariel Sharon, que se tinha colocado pessoalmente à frente do movimento dos colonos, tomou uma decisão que ele considerou dolorosa de um ponto de vista ideológico, mas necessária para a expansão de Israel e a solução para o desafio palestiniano: abandonar os colonatos sionistas de Gaza e, em vez disso, concentrar os colonos, os soldados e outros recursos na Cisjordânia. Ele explicou claramente tudo isto em declarações e discursos públicos.

Se deixassem os palestinianos ficar com toda a Gaza e a Cisjordânia dentro das linhas do cessar-fogo de 1967, eles ficariam com apenas 22 por cento do que antes era a Palestina. O muro antipalestiniano que Israel está a construir irá estender-se para além das linhas de 1967, retirando pelo menos outros 8 por cento da Cisjordânia, segundo os actuais planos e estatísticas israelitas. Mas esses números não dão uma ideia real da importância desses terrenos que se estendem ao longo das colinas norte-sul que foram o centro humano e económico da região durante milhares de anos.

O muro tem dois afiados “dedos” que se estendem para leste de modo a incluir a norte o bloco de colonatos de Ariel e sobretudo Jerusalém e o muito distante colonato de Maale Adumim. O muro separa milhares de palestinianos que ficarão no lado israelita – onde já estão a ser pressionados para partirem porque as restrições às suas autorizações de residência tornam as suas vidas muito difíceis. Separa muitos milhares de palestinianos do “lado palestiniano” da sua terra e do seu sustento a ocidente do muro. E as curvas na sua altamente sinuosa rota também cortam muitas aldeias e cidades palestinianas no lado oriental do resto da Palestina – como Qalqilya, cercada pelo muro de três lados e bloqueada no quarto por um posto de fiscalização do exército israelita. (Um mapa do que está planeado para o muro, datado de Fevereiro de 2005, está disponível em www.stopthewall.org/maps/860.shtml.)

Também não tem intenção que Gaza seja viável. Israel controla o seu espaço aéreo e a costa marítima. As fronteiras com Israel estão hermeticamente fechadas. Israel está a destruir estradas e pontes que a ligavam a Gaza. Há relatos de que Israel está a construir uma zona tampão no lado palestiniano da fronteira. Por agora, apenas um número limitado de palestinianos está a ser autorizado a atravessar para trabalhar em Israel e os israelitas dizem que pretendem fechar esse fluxo assim que possam. A fronteira sul com o Egipto também foi completamente selada. Israel diz que vai “considerar” o que fazer com essa fronteira daqui a seis meses – mas está fora de questão devolvê-la aos palestinianos. Todo o trânsito entre o Egipto e Gaza está a ser desviado através de Israel para que as autoridades o possam controlar. Viajar entre Gaza e a Cisjordânia também depende de Israel. Gaza depende de Israel para a água, a electricidade, os esgotos, toda a sua comida e outras importações e mesmo para a sua moeda.

O que o Israel está a deixar aos palestinianos em Gaza e na Cisjordânia está feito claramente para que não seja militarmente defensível, politicamente executável nem economicamente sustentável. Muitos comentadores comparam esta situação com a dos antigos bantustões da África do Sul, os formalmente “independentes” países fantoches para negros, aí criados como parte do sistema de apartheid. Não é uma configuração que possa resultar num qualquer tipo de igualdade entre judeus e palestinianos, mas simplesmente no domínio de um pelo outro, quer Israel permita ou não que os palestinianos construam algum tipo de estado.

O fim do “roteiro de paz”?

Mas há um lado ainda mais cínico deste plano. Ao “entregar” 21 colonatos israelitas em Gaza e quatro postos isolados na Cisjordânia, e ao fazê-lo unilateralmente, sem qualquer consulta à Autoridade Palestiniana eleita, Sharon pretende evitar o estabelecimento de um “mini-estado” palestiniano, mesmo que do tipo mais grotesco.

Isto foi explícita e desavergonhadamente afirmado pelo alto conselheiro e chefe de pessoal de Sharon, Dov Weissglas. Falando o ano passado, quando o plano de retirada estava a ser debatido em Israel, ele explicou os seus objectivos: “Efectivamente, todo esse pacote chamado estado palestiniano, com tudo o que isso requer, foi indefinidamente afastado da nossa agenda. E tudo isto... com a bênção presidencial [dos EUA] e a ratificação de ambas as câmaras do Congresso.” O “afastamento” israelita de Gaza, continuou ele, “é na realidade formaldeído. Fornece a quantidade de formaldeído necessária para que não haja um processo de paz com os palestinianos.” Um membro do parlamento israelita explicou que o “formaldeído é o líquido em que são preservados os cadáveres”. (Haaretz, 8 e 11 de Outubro de 2004)

Depois da retirada de Gaza, o “Quarteto” (formado pelos EUA, a Europa, a Rússia e a ONU após os acordos que estabeleceram um “roteiro” para a paz) divulgou uma declaração em que diz esperar mais progressos no “caminho” que levará a um mini-estado palestiniano. Nalguns fóruns internacionais, Sharon continua a concordar verbalmente com esse acordo. Ao aparecer na sessão de abertura da Assembleia Geral da ONU, logo após a retirada de Gaza, Sharon disse que os palestinianos “têm direito à liberdade e a uma existência nacional e soberana num estado próprio”.

Na realidade, os EUA e a Europa jogam deliberadamente com o que Sharon diz na ONU e não com o que diz em Israel e tanto quanto possível minimizam o que Israel está a fazer: a expansão diária e inexorável dos principais colonatos da Cisjordânia, completamente ilegal (segundo o direito internacional) e completamente contrária ao roteiro, mas que acontece à luz do dia. Embora o acordo proíba a expansão e apele ao desmantelamento dos colonatos construídos depois de 2001, o recente relatório Sasson elaborado por forças da oposição israelita documenta que quase cem novos colonatos foram construídos desde então, organizados e financiados pelo governo, ao lado de uma orgia de construção de novos apartamentos nos colonatos já existentes. Os colonos retirados de Gaza – a quem foram dados centenas de milhares de dólares por família em compensação – anunciaram que pretendiam mudar-se para a Cisjordânia.

As autoridades israelitas chamam a isso de “espessar” dos colonatos, projectados para fortalecer e ligar os principais blocos urbanos, ao mesmo tempo que desistem de alguns pequenos centros rurais – até agora apenas quatro – que se limitam a apenas alguns colonos. A maior concentração de colonos situa-se em Jerusalém, uma cidade que era quase completamente palestiniana até os israelitas a conquistarem em 1967. Segundo o direito internacional, nenhum país pode colonizar terra conquistada numa guerra. Além disso, segundo as disposições do “roteiro”, o estatuto da metade oriental de Jerusalém deve permanecer em aberto para negociações. Contudo, na sua declaração na ONU, onde pediu que os palestinianos tivessem “o seu estado próprio”, Sharon também se vangloriou de que Jerusalém será a “capital indivisível e eterna” de Israel, o que significa que Israel não tenciona abandonar nunca nenhuma parte da cidade. Na cidade e nos seus crescentes subúrbios orientais vivem mais de metade dos 400 000 israelitas da Cisjordânia. Muito significativamente, também não fez nenhuma menção à possibilidade de regresso de Israel às suas fronteiras de 1967. Isso também é pedido no roteiro, embora os EUA sempre tenham dito que os palestinianos terão que aceitar os “factos do terreno” – em particular, os principais colonatos israelitas.

O mais dramático dos “factos do terreno” que Israel está a construir é o muro. O seu traçado foi recentemente modificado depois de uma decisão do Supremo Tribunal israelita. Os juízes pediram alterações menores para libertar cinco aldeias palestinianas apanhadas nos seus enredos, mas também reafirmou que Israel ignoraria o Tribunal Internacional de Justiça de Haia, apoiado pela ONU, que declarou todo o muro completamente ilegal. Um relatório de 15 de Setembro sobre o novo traçado elaborado pela organização de paz israelita B'Tselem mostra que esse novo traçado dá ligeiramente menos ênfase à cobertura de todos os colonatos existentes e, em vez disso, centra-se em dar espaço à expansão de colonatos estratégicos mesmo que, conclui a B'Tselem, à custa das considerações de “segurança” que são supostamente o objectivo do muro.

Sharon justificou infamemente o muro e outras medidas proclamando: “Israel não tem nenhum parceiro para a paz” – alegando falsamente que o esquema do mini-estado não tem um lado palestiniano. Como concluiu Henry Siegman, um importante rabi norte-americano pró-Israel e perito no Médio Oriente altamente crítico de Sharon, num estudo sobre a retirada de Gaza na altura em que foi inicialmente proposta no ano passado, a verdade é justamente o contrário: “Os palestinianos não têm nenhum parceiro israelita para a paz.” (New York Review of Books, 2 de Dezembro de 2004). Por outras palavras, Siegman, como muitos outros, reconhece que Israel está a levar a cabo uma reconfiguração estratégica projectada para uma direcção oposta à supostamente indicada pelo roteiro.

O que Israel está a oferecer aos palestinianos não é a paz mas a exigência do abandono das suas aspirações nacionais e de qualquer esperança a uma Palestina em que possam vivem.

[A segunda parte aparecerá na próxima semana: O futuro de Israel]

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese