Eleições no Irão: Um vislumbre de um país em alvoroço
20 de Junho de 2005. Serviço Noticioso Um Mundo a Ganhar.

As eleições presidenciais de 17 de Junho no Irão terminaram no que o governo islâmico anunciou ser um empate chegado entre Akbar Hashemi Rafsanjani, o ex-presidente e antiga figura central do regime agora reclassificado como “moderado”, e o ex-presidente da Câmara de Teerão Mahmoud Ahmadinejad, próximo do Líder Supremo do regime, Aiatola Ali Khamenei, e ex-dirigente das suas forças paramilitares. Um desempate entre os dois candidatos terá lugar a 24 de Junho.

A indignação popular perante a intimidação, o enchimento das urnas de votos e as mentiras descaradas sobre os resultados foi tão generalizada que o regime recorreu a uma medida cosmética, a recontagem dos votos numa centena de urnas eleitorais supostamente seleccionadas ao acaso na capital e em três outras cidades. Mesmo Rafsanjani teve de admitir publicamente que as eleições tinham sido “manchadas” – pelo que disse que as pessoas deveriam protestar votando nele na próxima volta.

O regime fechou dois jornais porque planeavam publicar uma carta do Aiatola Mehdi Karroubi, o candidato que ficou em terceiro lugar, que dizia: “Houve interferências estranhas. Houve dinheiro que mudou de mãos.” Karroubi acusou o Conselho de Guardiães de adicionar milhões de votos à contagem de “um certo candidato” – Ahmadinejad. O líder das forças religiosas nacionalistas, Ibrahim Yazdi, um apoiante de Mostafa Moin, o candidato favorito da facção reformista da República Islâmica nestas eleições, também acusou de fraude eleitoral o Conselho de Guardiães que dirige o país. As discrepâncias eram demasiado óbvias para serem ocultadas. Por exemplo, a meio da contagem o Conselho de Guardiães anunciou que tinham sido contados cerca de 20 milhões de votos e, 15 minutos depois, o Ministério do Interior, responsável pela condução do processo eleitoral, anunciou que tinham sido contados cerca de 15 milhões de votos.

A questão da fraude eleitoral teve dois aspectos. Além da óbvia questionabilidade dos resultados, surgiram dúvidas ainda maiores em torno da questão de saber quantas pessoas tinham realmente votado. De certa forma, esta é a questão mais importante porque nela reside a legitimidade do regime e a legitimidade de qualquer resultado que acabem por anunciar. Nas semanas que antecederam as eleições, disseram às pessoas que a sua cédula de nascimento seria carimbada para provar que tinham votado e que os seus futuros empregos, admissão à universidade, etc., dependeriam disso. Não contente com a intimidação indirecta, o governo mobilizou uma força paramilitar fundamentalista religiosa de 300 000 membros, conhecida pelo nome de Basij, para ajudar as pessoas dos bairros a votar.

A verdadeira questão destas eleições é a futura relação do regime com os EUA. Primeiro, o círculo interno do regime desejou que aparecesse um grande número de eleitores de modo a impressionar os EUA com o seu poder sobre as massas e de modo a influenciar o governo Bush a mudar de ideias sobre o se empenho numa “mudança de regime” no Irão. Foi amplamente divulgado que Rafsanjani reteve o anúncio da sua candidatura até ao último minuto enquanto esperava pelos resultados de negociações e acordos de bastidores com as potências imperialistas. Segundo uma fuga de informação de fontes do regime, um diplomata alemão entregou uma carta de última hora aos líderes iranianos em nome dos EUA.

Segundo, os principais programas dos candidatos em contenda giravam em torno de como salvar as relações com o imperialismo norte-americano. Rafsanjani acentuou a sua capacidade de recompor as relações com os EUA e disse que com ele o Irão e os EUA se poderiam tornar novamente tão próximos como durante o tempo do Xá. Isto representa um rastejar descarado, uma vez que o Xá, monarca apoiado pelos EUA, foi derrubado em 1979 pela revolução que levou ao poder a República Islâmica que se autoproclamava anti-imperialista. Ahmadinejad avançou com uma linha populista, dizendo que não faria oposição aos EUA e distribuiria a riqueza pelos pobres. Moin, identificado com o actual presidente Mohammad Khatami, acautelou contra as tentativas dos conservadores de afastarem os aspectos “republicanos” da República Islâmica do Irão. Os dirigentes reformistas vêm agora apelar à unidade em torno de Rafsanjani para impedir que os “fascistas” tomem o poder. Deve salientar-se que Rafsanjani é uma das figuras do Irão mais amplamente odiadas entre o comum dos cidadãos, tanto por causa dos seus serviços ao regime como da sua utilização do seu lugar para enriquecimento pessoal a uma escala tal que lhe permitiu tornar-se, segundo alguns relatos, num dos homens mais ricos do planeta. Alguns observadores compararam esta situação com as últimas eleições francesas, em que a debilitada sorte política do Presidente Jacques Chirac foi de repente reavivada quando a esquerda eleitoral francesa se uniu em torno da sua candidatura para derrotar o neofascista Jean-Marie Le Pen.

Mohsen Sazgara, o líder dos dissidentes da classe dominante que nos últimos seis meses formaram uma coligação bastante diversificada em torno de um projecto chamado “Referendo para Mudar a Constituição”, confirmou a fraude eleitoral generalizada e pediu uma recontagem dos votos com a presença de “observadores internacionais”. Ele foi contundente nas suas críticas, acusando Khamenei, o Conselho de Guardiães, um sector dos Guardas Revolucionários e a Basij de usurparem as eleições. O próprio Sazgara foi um dos fundadores dos Guardas Revolucionários e é agora um importante dissidente reaccionário. A sua coligação – que se diz ser a favorita da administração Bush – tem por base um sector dos dissidentes do regime islâmico, os monárquicos dirigidos pelo filho do Xá deposto que é agora indicado para um futuro papel no Irão pelo Departamento de Estado dos EUA, e alguns intelectuais opositores iranianos no exílio.

O Ministério do Interior da República Islâmica afirma que 62 por cento dos potenciais eleitores participaram nas eleições. Mesmo que isso fosse verdade, significaria que desta vez votou menos quase 20 por cento das pessoas que votaram em Khatami há oito anos. Mas pouca gente acredita nesses números.

Albohassan Bani Sadr, o primeiro presidente da República Islâmica do Irão agora no exílio em França, disse que os seus observadores comunicaram que a participação em Teerão foi de pouco mais de 20 por cento. O Partido Comunista do Irão (Marxista-Leninista-Maoista) disse que as suas fontes independentes relataram que embora tenha havido um esforço em massa para levar as pessoas a votar, no máximo apenas 40 por cento o fizeram. As mesas de voto estiveram muito, muito vazias no Curdistão, Tabriz (capital do Azerbaijão), Ahwaz (cenário de uma revolta das populações de origem árabe há um mês atrás), Abadan, Isfahan e nas cidades do norte do Irão.

Houve manifestações disseminadas contra as eleições nalgumas partes do país. Vários dias antes das eleições, o primeiro protesto de mulheres que ocorreu no país desde 1979, teve lugar frente à Universidade de Teerão. O seu alvo foi a Constituição do Irão que defende abertamente que as mulheres são cidadãs de segunda classe em todas as questões, excepto no voto. Essa reunião foi convocada por centros legais de mulheres, mas o pequeno programa oficialmente permitido foi seguido por uma manifestação militante não-autorizada de cerca de 5000 mulheres que foi atacada por polícias armados com bastões. (O actor norte-americano Sean Penn estava presente, credenciado como jornalista do San Francisco Chronicle.)

No dia das eleições, os operacionais políticos contratados pelos candidatos permaneceram activos até ao encerramento das mesas de voto (à última hora, o regime alargou a votação por mais quatro horas, até às 11 da noite). Eles envolveram-se em confrontos com as massas revoltadas com todo o processo. Por exemplo, nessa noite em Isfahan, as massas entraram em confronto com apoiantes de Rafsanjani que lhes imploravam que aceitassem 10 000 tommans (10 euros) para colocarem autocolantes dele nos seus carros durante três horas. A multidão ficou indignada e rasgou todos os cartazes do candidato. Os apoiantes também tinham ficado impossibilitados de usar os seus carros oficiais porque as massas tinham esvaziado os seus pneus. Rafsanjani tinha feito o seu melhor para recrutar como seus activistas homens e mulheres jovens e elegantes. Quando confrontados com as massas indignadas, muitos desses jovens confidenciaram que estavam apenas a fazer aquilo para que tinham sido pagos e que pessoalmente não pretendiam votar em ninguém. Testemunhas oculares relataram que houve helicópteros a aterrar em aldeias para distribuir dinheiro a troco de votos. Nas mesas de voto das zonas pobres, houve activistas de Rafsanjani a distribuir embalagens de comida e dinheiro.

Muitos dos votos que o regime conseguiu que o povo depositasse nas urnas foram conseguidos com base numa combinação de chicotes e cenouras. Mas as tentativas do regime para levar as massas a participar nas eleições em grande número também tiveram um lado positivo: houve muito debate e discussões em torno da política destas eleições. O Irão está em ebulição. A agitação à volta destas eleições foi um sinal disso.

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese