Turquia: Um mau vento está a soprar - do Ocidente
1 de Dezembro de 2003. Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar.

Ao escrever na imprensa de Istambul sobre os recentes carros-bomba, Gengiz Çandar, conselheiro frequente do Subsecretário da Defesa dos EUA, Paul Wolfowitz, advertiu: "Não perguntem a quem beneficia. Essa lógica conduz numa direcção errada." Mas ao analisar acontecimentos políticos, essa é frequentemente a melhor pergunta a fazer.

Muitos comentadores estão a chamar-lhe "o 11 de Setembro da Turquia". Tal como o 11 de Setembro de 2001 nos EUA, poderemos nunca vir a conhecer todas as mãos sujas por trás da morte de muita gente inocente, mas exactamente quem beneficia - e que objectivos estão a ser perseguidos após estes ataques - não é nada difícil de perceber.

Às bombas seguiu-se um pedido norte-americano à classe dominante turca para implementar o programa que os EUA lhe prepararam. Ela deve abandonar as suas preocupações sobre a possibilidade de tumultos políticos, que apareceram quando o parlamento turco se recusou a autorizar o uso da Turquia como base de apoio dos EUA para a invasão do Iraque.

Os ataques também forneceram uma ocasião para os militares mostrarem o seu músculo nas ruas, enviando para as ruas um enxame de soldados e tanques para criar uma atmosfera de golpe de estado - sem o golpe, dado que, quanto ao essencial, as forças armadas já detinham o controlo.

Imediatamente após os atentados, os militares lançaram rusgas que se alargaram muito para além das organizações nomeadas como suspeitas. Vários milhares de pessoas ligadas ao partido parlamentar curdo DEHAP foram presas. As que forem acusadas enfrentam julgamentos perante o Conselho de Segurança do Estado que os militares estabeleceram após o golpe de 1980. Espera-se que a União Europeia, por vezes levemente crítica do uso de tribunais militares e da tortura contra presos políticos na Turquia, se mostre agora mais "compreensiva".

Isto foi uma tentativa de acabar com um certo espírito político desafiador entre as massas que se desenvolveu em oposição à invasão do Iraque, e de esmagar a exigência de direitos para os curdos.

Em suma, esses objectivos envolvem abrir o caminho para uma participação turca mais directa sob o comando dos EUA na "guerra contra o terror" de Bush.

A primeira série de explosões atingiu duas sinagogas em Istambul, um acto reaccionário que teve pouco apoio entre um povo que deu as boas-vindas aos judeus desde que a Europa Ocidental começou a fazer limpezas étnicas no princípio do século XVI. De facto, todo o tipo de vizinhos gostava de parar às vezes numa das sinagogas para uma tigela de sopa.

Um porta-voz israelita entrevistado pela BBC dificilmente conseguia esconder o seu contentamento por um pretexto para o governo da Turquia, dominado pelos militares e um aliado de Israel desde a sua fundação, trabalhar mais abertamente com os sionistas, que são já um dos seus parceiros mais chegados.

A segunda série de atentados danificou o consulado britânico e a sede turca do HSBC, um banco internacional propriedade da maior holding de Inglaterra. Em reacção, a empresa anunciou que continuaria a expansão que já fez dela a maior companhia financeira estrangeira do país, com o Citibank dos EUA pouco atrás. Ambos os bancos cresceram localmente à custa da absorção de bancos turcos em dificuldades, postos à sua disposição pelo governo turco.

Na manhã seguinte, o Conselho de Segurança Nacional da Turquia (MGK) realizou uma reunião de cinco horas para decidir a quem culpar. O que poderia parecer um assunto de polícia (rever uma lista de indivíduos suspeitos) era de facto uma decisão política. Como todos os assuntos políticos fundamentais na Turquia, os militares reservaram a decisão para si próprios. De acordo com o jornal turco Hürryet, escolheram vários homens, mas mantiveram em segredo os seus nomes.

Os militares emitiram um comunicado oficial em que diziam que, em resposta aos atentados, aumentariam a cooperação com a "guerra contra o terror" de Bush. Nisso, estavam apenas a ecoar a voz dos seus amos. Horas depois das segundas bombas - antes que qualquer coisa pudesse ser conhecida sobre quem o tinha feito - o próprio Bush anunciava que a Turquia era agora "uma nova frente na guerra contra o terrorismo". Quase tão depressa, o Secretário dos Negócios Estrangeiros da Grã-Bretanha, Jack Straw, dizia que não sabia quem era responsável mas que tinha "todas as marcas da Al-Qaeda".

Um grupo que assumiu a responsabilidade pelos atentados foi a Frente Islâmica Oriental dos Grandes Combatentes (IBDA-C). O IBDA-C foi fundado em 1984 por um membro do mesmo movimento islamita de que saiu o Primeiro-Ministro Erdogan. O Ministro do Interior de Erdogan, Abul Kadir Aksu, pediu publicamente a formação deste tipo de grupo paramilitar quando estava no parlamento.

Algumas pessoas especulam que este acontecimento também foi uma oportunidade para esbofetear Erdogan por não ter convencido o parlamento turco (controlado pelo seu partido) a permitir que os EUA usassem a Turquia durante a invasão, como eles planeavam. Esse fracasso reflectiu um fracasso ainda maior de contrariar a esmagadora maré de opinião pública contra a guerra que assustou os deputados e fez com que mesmo os militares tivessem relutância em ficar abertamente contra ela naquele momento particular, embora isso causasse sérios problemas à invasão dos EUA.

Um facto notável que apoia essa linha de raciocínio é a teimosa relutância de Erdogan de aceitar a linha dos EUA/GB de que o incidente revelou as ligações entre as forças islâmicas turcas e a Al-Qaeda. Uma semana depois, ele ainda insistia que o envolvimento da Al-Qaeda não tinha sido provado (para algumas pessoas, a prova não estava em questão). A sua resposta parece indicar que ele próprio se sentia ser um alvo. Atacou "os que ligam as nossas convicções religiosas ao terrorismo" e protestou: "Isto incomoda-me. Não aguento quando ouço a expressão 'terrorismo islâmico'".

O seu ministro do exterior, Abdullah Gul, pediu uma investigação "não só às marionetas, mas também aos manipuladores de marionetas". Alguns correspondentes ocidentais interpretaram isto como uma referência à Al-Qaeda, mas muitas pessoas na Turquia entenderam-no como uma maneira dissimulada de sugerir que o movimento islâmico da Turquia estava a cair numa armadilha.

De facto, todo o problema é mais obscuro que isso. Os militares turcos foram a principal força a criar e a financiar todo o movimento fundamentalista islâmico da Turquia. A junta que tomou o poder no golpe de 1980, primeiro proibiu o partido islâmico da altura, quando dissolveu o parlamento, e depois enviou um avião para fazer regressar o seu fundador Erbakan, quando os militares decidiram restabelecer o sistema parlamentar. Isso estava de acordo com a política dos EUA desses anos, quando os EUA estavam a fortalecer organizações islâmicas armadas para as usar contra a URSS. Tal como os EUA, a junta turca usava dinheiro saudita para fundar escolas religiosas, para atrair milhares de jovens sem escola, sem trabalho ou sem futuro - uma situação que existia graças ao domínio do imperialismo ocidental e das forças feudalistas que dirigiram inicialmente esse movimento.

Nessa altura, a organização islâmica chamava-se Partido do Bem-Estar e distribuía gratuitamente pão e sapatos nos bairros degradados. Apareciam como uma força pela justiça social e a dignidade nacional, em contraste com os políticos desacreditados que descaradamente adoravam o mercado livre e o Ocidente. É por isso que os líderes como Erdogan estão habituados à demagogia populista que por vezes os leva à desaprovação pelos militares. É difícil para os líderes do Partido Justiça e Desenvolvimento reproduzir a retórica da "guerra de civilizações" de Bush sem fazer diminuir a sua utilidade para os seus amos, bem como para a sua própria base política.

Mas, de facto, essas forças são os pilares do sistema. Elas fazem o seu melhor para enganar o povo, pregando que é a religião e não a mudança política a solução dos seus problemas. Uma razão importante para que os militares os favorecessem no final dos anos 90, foi o serem uma força político-ideológica e militar organizada contra a insurreição nacionalista curda. E mais, eles representam actualmente um papel prático chave como defensores e administradores do regime parlamentar através do qual os militares e os EUA controlam a Turquia.

Quando os nomes dos quatro suspeitos bombistas-suicidas apareceram, o Washington Post foi investigar o passado de três deles, que vieram da cidade curda de Bingol. Os vizinhos disseram ao repórter que os três eram conhecidos como membros do Hezbollah, uma organização fundamentalista islâmica (que se diz não ter nenhuma relação organizativa com grupos com nomes semelhantes no Líbano e na Turquia). O Hezbollah, salientou o Washington Post, foi fundado, armado e mantido pelos militares turcos para servir como força paramilitar reaccionária (segundo o modelo dos Contra nicaraguanos) ajudando os militares a derrotar a insurreição curda. O jornal escreveu: "De acordo com investigações oficiais, um grupo clandestino religioso brutal conhecido como Hezbollah recebeu armas dos arsenais governamentais, e vários milhares de mortes normalmente atribuídas ao grupo foram ignorados oficialmente." A sua especialidade era o assassinato de figuras políticas, intelectuais, homens de negócios e outros nacionalistas curdos, bem como o massacre de aldeias curdas inteiras, tentando culpar por isso as guerrilhas curdas do PKK. O Hezbollah foi oficialmente proibido em 1999, depois de o PKK ter começado a procurar a paz com o governo turco, uma política que intensificou recentemente, apesar de combates ocasionais. Muitos membros do Hezbollah foram então detidos e depois libertados, incluindo três dos alegados bombistas-suicidas.

Diz-se que esses homens estiveram fora do país nos últimos anos, onde supostamente estabeleceram contacto com a Al-Qaeda. Os seus vizinhos disseram ao repórter: "as pessoas daqui sabiam que eles eram da organização Hezbollah. Estamos chateados com a Organização Nacional de Inteligência [militar] por os terem deixado viajar para o estrangeiro e fazer estas coisas."

Um total de 15 pessoas foi preso devido aos atentados no espaço de alguns dias. O governo impôs a censura das notícias sobre a investigação que é levada a cabo por agentes turcos, britânicos e israelitas. Porém, foi anunciado que os suspeitos sobreviventes não iriam ter julgamentos civis. Em vez disso, foram entregues ao Tribunal de Segurança do Estado.

Novamente, alguma da manipulação deste incidente para fins políticos é totalmente óbvia.

Um dos homens de Bingol foi supostamente identificado por um bilhete de identidade encontrado nos destroços de um dos camiões usado para atacar uma das sinagogas. O passaporte de outro foi supostamente encontrado nos destroços da outra sinagoga. Os dois homens estão convenientemente mortos. Algumas pessoas na Turquia acham isso muito curioso. Uma piada sobre isso diz: "O que encontrarão eles agora? Querem apostar que é um passaporte sírio ou iraniano?"

Isso é acertar em cheio. Depois de ocuparem o Iraque, os EUA apontaram oficialmente as suas baterias para uma mudança de regime em dois dos vizinhos da Turquia, a Síria e o Irão. Exactamente que papel desempenhará o exército de quase um milhão de homens da Turquia, ainda não está claro, mas é já claro que, juntamente com Israel e as forças de ocupação dos EUA no Iraque, a Turquia é um dos três pilares principais dos EUA na sua procura de reconfiguração de todo o Médio Oriente.

Em termos imediatos, a há muito desejada intervenção turca ao lado dos EUA no Iraque é um dos possíveis resultados dos acontecimentos em Istambul. (Embora isto se tenha tornado numa questão muito complicada para os EUA por causa do papel de algumas figuras curdas iraquianas pró-EUA, que fornecem um pouco da folha de parra de legitimidade que a ocupação de EUA possa ter.)

É de notar que imediatamente após os atentados, os EUA optaram por enviar o habilmente pouco diplomático Wolfowitz, um dos principais planificadores da guerra de Bush, em vez do equivalente norte-americano ao Secretário dos Negócios Estrangeiros da Grã-Bretanha. Wolfowitz tinha sido o principal crítico público do governo turco pelo seu mau comportamento na invasão do Iraque e tinha pedido que ele resolvesse essa situação. Agora, o seu tom era mais equilibrado. A Turquia, disse ele, defendeu "a democracia secular numa parte do mundo onde eu acho que esses ideais têm um importante caminho para progredir." Na mesma linha, um correspondente sénior do New York Times, escreveu que a Turquia é "crucial para o programa norte-americano de enviar valores pró-ocidentais que penetrem através da grelha tribal e teocrática do Médio Oriente."

Aparentemente, o teste para saber se um governo é ou não "democrático" é ver se salta quando os EUA lhe dizem para saltar. Caso contrário, por que lógica poderia Wolfowitz considerar a decisão altamente excepcional do parlamento turco de não ir contra a vontade popular como uma mancha num país que, de outro modo tem um estatuto de "democrático"?

Mas há algo aqui que deve ser levado a sério: a Turquia é muito o modelo do que os EUA querem ver no Médio Oriente.

Em primeiro lugar, é exactamente o tipo de "democracia" repressiva que os EUA adoram: um país onde os militares têm a última palavra em nome de potências estrangeiras e onde o povo não tem direito a nenhuma palavra.

Para dar só alguns exemplos do pesadelo chamado "democracia" na Turquia, considere-se estes: Os militares turcos organizaram golpes de estado contra governos civis em 1960, 1971 e 1980, e derrubaram o anterior governo dirigido por um partido islâmico em 1997. O povo curdo, que constitui entre um quarto a um terço da população do país (bem como com grandes populações curdas nos países vizinhos), é uma nação oprimida dentro de outras nações oprimidas. Um exemplo particularmente horrível dos métodos usados para reprimir o povo curdo é o caso de uma mulher curda que está agora a processar o governo por ter sido violada por 450 soldados. A deputada Leila Zana está na prisão por sedição por usar as cores da bandeira curda e por falar curdo quando não era suposto.

O regime mantém actualmente mais de mil presos políticos em celas de isolamento de tipo F, de acordo com o Middle East Report. A Amnistia Internacional escreveu no seu relatório de 2001: "A tortura continua difundida e os seus perpetradores raramente são trazidos à justiça."

Em segundo lugar, o actual matiz islâmico do regime também está muito de acordo com os interesses e objectivos dos EUA. Embora as tácticas políticas imediatas dos políticos islâmicos possam criar aborrecimentos aos militares e ao Ocidente, não querem necessariamente dizer o fim do Governo do Partido Justiça e Desenvolvimento, e ainda menos o fim da utilidade do Islão político (do ponto de vista imperialista). Nessa região, uma cobertura islâmica é ainda conveniente, porque a superpotência não só quer marionetas mais flexíveis mas também politicamente mais estáveis. (Para saber mais sobre o Islão político, veja a revista Um Mundo A Ganhar nº 28 em www.aworldtowin.org).

A cumplicidade dos EUA com os militares turcos pode ser vista no facto de que, ao mesmo tempo que os carros-bomba explodiam, o Pentágono era anfitrião da reunião regular do Grupo de Defesa EUA-Turquia, composto por generais e funcionários de topo de ambos os países. Muito a propósito, o embaixador da Turquia em Washington tomava parte nessa reunião militar.

O mais forte "valor pró-ocidental" que "circula" nas veias dos militares turcos é o dinheiro controlado pelos norte-americanos. A insistência dos EUA, o Fundo Monetário Internacional deu ao regime um pacote financeiro sem precedentes de 16 mil milhões de dólares em 2001, enquanto fazia orelhas moucas à estrategicamente menos importante mas não menos falida Argentina.

Qualquer pessoa que se interrogue sobre "quem beneficia" com as bombas de Istambul neste contexto tem uma grande parte da resposta.

Muita gente na Turquia diz que não importa quem está por trás destas bombas, e culpa os EUA por fazerem com que esta situação aconteça, primeiro que tudo. Poucos acreditam na versão oficial dos acontecimentos, e milhões estão a lutar por os ler politicamente. Depois do fermento solto pela guerra do Iraque, os militares estão nas ruas para ensinar as massas a calarem-se. Mas isso é algo arriscado para os militares e os seus apoiantes. A potencial explosividade das massas, que tem sido o objectivo principal de todo este assunto, não diminuiu.

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese