Mercenários: o segundo maior contingente no Iraque
5 de Abril de 2004. Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar.

Os quatro mercenários mortos em Falluja eram funcionários da Blackwater Security Consulting, uma das principais organizadoras de exércitos privados do mundo. A empresa recruta ex-membros das Forças Especiais do Exército e dos comandos da Marinha dos EUA, agentes do FBI e polícias, ansiosos por ganhar muito dinheiro ajudando o exército norte-americano no Iraque, no Afeganistão e noutros lugares que os EUA querem tomar à força.

As suas mortes trouxeram à luz do dia um facto até agora pouco conhecido e esclarecedor sobre a denominada “coligação dos que querem” dos EUA/GB no Iraque: o maior contingente de tropas, depois do dos EUA, não é fornecido por qualquer outro governo. É composto por mercenários privados contratados.

Quando um antigo membro da Koevoet sul-africana (a polícia paramilitar do tempo do apartheid conhecida pela sua zelosa devoção em torturar e assassinar) foi morto a trabalhar como mercenário em Bagdad, a imprensa sul-africana descobriu que cerca de 1500 ex-polícias e soldados do agora defunto regime supremacista branco estavam actualmente no Iraque contratados como “funcionários de segurança”. Agora, ao seu lado estão a chegar comandos chilenos veteranos, treinados nos anos 80 pela ditadura militar do General Augusto Pinochet, instalada pelos EUA. As autoridades norte-americanas, que dizem que estas são as suas tropas latino-americanas preferidas, enviaram recentemente 60 para o Iraque, no primeiro mês do contrato.

O grosso dos mercenários são veteranos das Forças Especiais dos EUA, onde foram “altamente treinados no uso de força letal, bem como em vigiar, detectar e evitar o risco”, de acordo com um analista da CNN. Estas são unidades ditas de elite e especializadas em “combate próximo” e guerra de “contraguerrilha”. A sua verdadeira especialidade é aterrorizar e matar civis em operações secretas. Eles ganharam grande notoriedade por isso no Vietname, onde eram conhecidos como Boinas Verdes.

A Blackwater foi fundada por ex-Comandos da Marinha (SEALS). O seu nome é uma insinuação a missões encobertas nocturnas. Sob contrato dos EUA, treina os actuais soldados para operações especiais e retreina antigos soldados de operações especiais para o sector privado.

A maior empresa de segurança privada da Grã-Bretanha no Iraque, a Global Risk Strategies, emprega 1000 ex-SAS (comandos britânicos famosos pela sua crueldade na Irlanda do Norte). E espera duplicar esse número este ano.

Muitos trabalham como guarda-costas ou em pormenores de segurança nas instalações de ocupação ou para empresas de construção dos EUA, como a Bechtel. Esses mercenários protegem os soldados dos EUA que guardam o antigo palácio presidencial em Bagdad, onde o chefe da ocupação, Paul Bremer, tem o seu quartel-general. O próprio Bremer é protegido por homens da Blackwater Security. Outros são enviados em missões específicas de combate de alto risco, consideradas muito difíceis para soldados comuns, como o salvamento de um helicóptero dos EUA que foi abatido em Falluja no final do ano passado. As suas mortes não são incluídas na contagem de corpos regularmente publicada pelos EUA/GB. Além disso, uma só empresa anglo-sul-africana, a Erinys, contratou 14 000 iraquianos como vigilantes e guardas de segurança para proteger os campos de petróleo e os oleodutos.

É difícil determinar o número total de mercenários estrangeiros porque há cerca de 400 empresas de segurança privada no Iraque. A obscuridade em que operam é parte da razão por que os seus serviços são considerados necessários. As suas capacidades e lealdade comprovadas ainda são mais valiosas exactamente porque o exército pode usar esses homens secretamente, para executarem missões fora das luzes da ribalta e livres de alguns constrangimentos políticos.

Todos juntos, diz-se que há mais de 10 000 mercenários estrangeiros a trabalhar para as autoridades de ocupação dos EUA. Isto sem contar com os milhares de funcionários não-militares, como motoristas de camiões, trabalhadores qualificados e técnicos. Espera-se que o seu número cresça depois de Junho, com a entrega da “soberania” a um governo designado pelos EUA, embora os EUA também planeiem manter pelo menos 110 000 soldados regulares no Iraque e o comando directo do exército dito iraquiano no futuro próximo. Até agora, 20 mil milhões de dólares, cerca de um terço do orçamento operacional militar dos EUA no Iraque e no Afeganistão, foram gastos em contratos privados. De acordo com um artigo de 28 de Março do jornal Independent da Grã-Bretanha, algumas organizações de caridade estão aborrecidas porque o dinheiro de donativos enviado para o Iraque como ajuda humanitária está a ser utilizado para contratar pistoleiros. Contudo, eles não são nenhuns “malvados”, mas sim uma parte integrante da máquina militar do império.

Em comparação, a Grã-Bretanha tem apenas 8700 soldados no Iraque. A “coligação” de outros países de que Bush tanto se vangloria tem um total de 9500 soldados e serve sob comando polaco no Iraque sul-central. Mesmo estes números podem diminuir consideravelmente se a Espanha e outros países abandonarem o Iraque. Os números mostram que esta ocupação é essencialmente norte-americana.

Bremer chamou “chacais humanos” às pessoas que mataram os quatro mercenários em Falluja. Poderia dizer-se que o termo se ajusta perfeitamente aos assassinos contratados que na sua arrogância brutal adoptaram o epíteto de “cães de guerra”, o qual anteriormente era utilizado como insulto. Mas os homens que ele melhor descreve são os seus amos, cujos objectivos e métodos são tão cruéis que nem sempre podem confiar em soldados comuns para os cumprirem.

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese