Em nome do "choque das civilizações"

(artigo publicado na edição de Outubro de 2001 do "Le Monde diplomatique")

Por TARIQ ALI *

Da caixa de Pandora, continuamente aberta, do Império americano, saem monstros que se espalham por um mundo que aos Estados Unidos não controlam ainda completamente. Desde 11 de Setembro que um desses monstros é evocado de um estúdio de televisão pelos que denunciam a ameaça que representam estas barbáries para a nossa civilização capitalista mundial.

Foi em 1993 que Samuel P. Huntigton, outrora perito em contra-insurreição da administração Lyndon Johnson no Vietname, depois director do Instituto de Estudos Estratégicos de Harvard, publicou o seu, actualmente célebre, Choque das Civilizações (1), conhecido como um panfleto contra um teórico rival do Departamento de Estado: Francis Fukuyama, defensor da tese do "Fim da história". Para Samuel P. Huntigton, a derrota da União Soviética tinha posto fim a todas as querelas ideológicas, mas não à história. A cultura - e não a política ou a economia - iria dominar o Mundo.

Enumerava oito culturas: ocidental, confuciana, japonesa, islâmica, hindu, eslava ortodoxa, latino-americana e - talvez - africana (não é certo que a África seja verdadeiramente civilizada!). Cada uma delas encarnava diferentes sistemas de valores simbolizados cada um deles por uma religião, "sem dúvida a força central que motiva e mobiliza os povos". A principal linha de fractura passava entre "o Ocidente e o resto", visto que só o Oeste valoriza "o individualismo, o liberalismo, a Constituição, os Direitos Humanos, a igualdade, a liberdade, o poder da lei, a democracia, os mercados livres". É por essa razão que o Ocidente (ou seja os Estados Unidos) se deve preparar militarmente para confrontar as civilizações rivais, e nomeadamente as duas mais perigosas: o Islão e o confucionismo que, se se unissem, ameaçariam o coração da civilização. E o autor concluía: "O Mundo não é um. As civilizações unem e dividem a Humanidade... O sangue e a fé: é com isso que os povos se identificam, é por isso que lutam e morrem". Osama bin Laden podia assinar sem problema uma tal declaração.

Simplista, mas "politicamente correcta", esta análise fornecia aos políticos, assim como aos ideólogos de Washington e não só, uma cobertura útil. Se o Islão passava por ser a principal ameaça, é porque o Irão, o Iraque e a Arábia Saudita eram os maiores produtores de petróleo a nível mundial. A República Islâmica do Irão tinha então 14 anos e combatia o "Grande Satã" (os Estados Unidos); a Guerra do Golfo e os seus desenvolvimentos vinham dar um golpe na potência iraquiana; mas a Arábia Saudita permanecia um porto seguro, com a sua monarquia defendida pelas tropas americanas. A "civilização ocidental", apoiada na altura pelas suas homólogas confuciana e eslava ortodoxa, organizou então a morte lenta de dezenas de milhar de crianças, que as sanções impostas pelas Nações Unidas privaram de alimentação e medicamentos...

Estas teorias exigem duas respostas fundamentais. A primeira é que o Islão, durante mil anos, nunca foi monolítico.

As diferenças entre muçulmanos senegaleses, chineses, indonésios, árabes e da Ásia Meridional são bem maiores do que as que distinguem não-muçulmanos da mesma nacionalidade. No século passado, o mundo muçulmano conheceu guerras e revoluções, como todas as outras sociedades.

Uma versão muçulmana da Frente Nacional

O conflito de 70 anos entre os Estados Unidos e a União Soviética afectou cada uma das "civilizações". Partidos comunistas beneficiaram de um apoio em massa não apenas na Alemanha luterana, mas também na China confuciana e na Indonésia muçulmana. Ao longo dos anos 20 e 30, o apelo cosmopolita ao marxismo e o desafio populista de Mussolini e de Hitler dividiram os intelectuais árabes tal como os europeus. Entendido como ideologia do Império britânico, o liberalismo gozava na altura de uma popularidade menor. Actualmente, os fundamentalistas podem ser considerados como a versão muçulmana da Frente Nacional em França ou dos neofascistas do Governo italiano. Um dos ideólogos ocidentais mais apreciado por alguns pensadores muçulmanos do Islão radical é Alexis Carrel, eugenista francês e petainista caro aos partidários de Le Pen.

Segunda nota: depois da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos apoiaram os elementos mais reaccionários, servindo-se deles como uma defesa para o comunismo, ou o nacionalismo progressista. Frequentemente, recrutavam os seus aliados entre os fundamentalistas religiosos: a Irmandade Muçulmana contra Nasser, no Egipto; o Sarekat-i-IsIam contra Sukarno, na Indonésia; o Jamaat-i-Islam contra Benazir Bhutto no Paquistão; e, mais tarde, no Afeganistão, Osama bin Laden e outros contra o comunista laico Mohamed Najibullah, que os mujahedines tiraram do exílio (Os escritórios das Nações Unidas em Cabul) antes de o matarem, em 1996, e de pendurarem" o seu cadáver com o pénis e os testículos metidos na boca. (Nem um único dirigente ocidental manifestou de resto a sua reprovação).

Únicas excepções: Bagdad e Teerão. Nos anos 60, o Iraque não oferecia as condições necessárias para a criação de um grupo político confessional. O Partido Comunista representava a força mais popular, mas estava fora de questão deixá-lo vencer. Washington apoiou então a ala mafiosa do partido Baas e incitou esta a dizimar primeiro os comunistas, depois os sindicatos dos operários do petróleo. Saddam Hussein disso se encarregou e obteve, a título de recompensa, armas e acordos comerciais - até ao seu fatal erro de juízo de Agosto de 1991.

No Irão, o Ocidente apoiou o xá da segunda geração. Ora este último comportou-se como um déspota, pisando os direitos do seu povo e aniquilando, através da tortura e do exílio, o Partido Tudeh (comunista). Os religiosos exploraram a vida política e dirigiram a rebelião popular que derrubou a monarquia em 1979.

No Médio Oriente, o Ocidente fundava a sua estratégia sobre dois pilares: A Arábia Saudita e Israel. A Arábia Saudita mudou completamente com a descoberta do petróleo e a criação, nos anos 30, do gigante petrolífero americano Aramco, o qual tinha necessidade de um Estado local para defender os seus interesses. Na época, os al-Saud acabavam de sair vitoriosos da renhida guerra civil, que tinha oposto as tribos que povoavam o Hejaz. Triunfo assim uma tendência particularmente virulenta e ultrapuritana do Islão: O wahhabismo, do nome de Mohamed Abdel Wahhab.

Este, que pregava as virtudes de uma jihad permanente contra os reformadores islâmicos e os infiéis, impôs-se, aliando-se, em 1744, a Mohamed Ibn Saud, ele próprio desejoso de explorar esta fé fervorosa para facilitar as suas conquista militares. Religião de Estado desde 1932 na Arábia Saudita, da qual domina toda a estrutura social, o wahhabismo exportou-se a golpes de petrodólares, financiando o fundamentalismo em todo o mundo muçulmano, incluindo nas escolas religiosas do Paquistão.

Segundo pilar: Israel, zona regional mais fiável para os Estados Unidos. Outrora, muçulmanos e judeus mantinham relações relativamente harmoniosas na região. Na Espanha muçulmana, os judeus eram mesmo protegidos pelos dirigentes muçulmanos. Saladino fez o mesmo no Médio Oriente árabe, reconquistando Jerusalém aos Cruzados e restabelecendo os muçulmanos e judeus na cidade.

Após a vitória da reconquista católica em Espanha, os judeus encontraram hospitalidade no seio do Império Otomano. Apogeu dos confrontos entre palestinianos e imigrantes judeus durante o período entre as duas guerras, a Nakba (catástrofe) de 1948 marca a primeira verdadeira ruptura entre judeus e árabes.

Dois pesos, duas medidas

Com um sentimento de culpabilidade latente face aos palestinianos deslocados, os dirigentes israelitas tornaram-se mais belicosos e arrogantes: cumpriram com prazer o seu papel em 1956 (Guerra do Suez), tal como em 1967 (Guerra dos Seis Dias), em 1982 (Guerra do Líbano) e actualmente. Temendo desestabilizar o seu principal braço militar na região, o Ocidente revelou-se totalmente incapaz de garantir a criação de um Estado palestiniano viável e independente. Este fracasso mantém o descontentamento do mundo árabe-muçulmano, nomeadamente no Egipto e na Arábia Saudita, de onde provêm alguns dos terroristas responsáveis pela tragédia de 11 de Setembro. Pode dizer-se que a causa profunda da crise actual se encontra na estratégia e na política económica do Ocidente, o "dois pesos e duas medidas" que as inspira. Uma nova guerra apenas poderia provocar um maremoto de amargura.

(I) Le choc des civilisalions, Odile Jacob, Paris, 1997.

* Escritor paquistanês e britânico, autor de The Stone Woman (Verso Books, Londres, 2000) e de Introducing Trotsky and Marxism (Totem Books, Londres, 2000).