Karl Marx e as recentes peripécias de TARIQ ALI*

Por B. Lisboa

O autor do texto que reproduzimos do "Le Monde diplomatique" de Outubro passado escreveu no dia 30 de Novembro um artigo no jornal inglês The Independent sobre a forma como fora tratado no aeroporto de Munique no dia anterior.

O escritor paquistanês e britânico Tareq Ali foi preso às 7 da manhã de segunda-feira, quando regressava de um seminário sobre o "Islão e a Crise". Com a nova paranóia securitária que se instalou por todo o lado, os seus haveres foram minuciosamente revistados, incluindo a leitura de notas escritas na margem dos jornais.

A alegria do agente chegou quando encontrou o ensaio de Karl Marx "Sobre o Suicídio", recém-publicado na Alemanha. O título atraiu a atenção e o nome de Marx acicatou ainda mais os polícias. Apreendido o passaporte e o cartão de embarque, Ali foi conduzido à esquadra do aeroporto. O polícia que o prendeu disse-lhe: "Após o 11 de Setembro, não pode viajar com livros destes", ao que Ali respondeu: "Nesse caso deixem de os publicar, ou, melhor ainda, queimem-nos numa praça pública".

Na esquadra, Ali pediu para telefonar ao Presidente da Câmara de Munique, por quem tinha sido entrevistado dias antes. Minutos depois, Ali estava a ser silenciosamente conduzido de volta ao avião. Lá dentro um outro passageiro informou-o que o polícia que o prendera tinha voltado para explicar a toda a gente que estavam mais seguros porque a sua vigilância tinha levado à prisão de um terrorista.

É este ambiente de terror que por toda a Europa se pretende impor com as novas leis que dão poderes arbitrários aos polícias que ainda sem elas já se atrevem a atitudes destas. E o antigo ministro de Guterres, actual comissário português, o socialista António Vitorino, é o seu principal paladino.

Se deixarmos que estas novas leis e novos poderes passem, em breve toda e qualquer forma de luta será duramente castigada. O exemplo da prisão de Ali é apenas um ensaio do que está para vir, se não houver resistência.

3 Nov 2001

* Autor de Em nome do "choque das civilizações"