Iraque: refém da América
4 de Outubro de 2004. Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar.

É preciso pôr algumas coisas no seu devido lugar, no que diz respeito à questão do rapto e morte de reféns no Iraque.

Algumas formas de resistência fazem avançar a luta do povo, enquanto outras não o fazem. Raptar e matar civis inocentes é mais do que contraproducente. É desumano e degradante para todos os envolvidos e não tem nada a ver com a libertação de um povo e de toda a humanidade. Reflecte a política, a ideologia e os objectivos de forças não-revolucionárias. Um importante problema que tem a tomada de reféns é que, para uma pequena parte – talvez apenas um pequeno punhado – das forças contra a ocupação, não se trata apenas de uma táctica errada: é consequência do modo como vêem esta guerra e dos seus próprios objectivos.

É claro que há organizações e tendências contraditórias envolvidas na resistência contra os EUA. E mesmo entre as forças que erguem bandeiras religiosas, para muitas delas essa é simplesmente a bandeira mais à mão e uma bandeira que eles pensam poder unir os verdadeiros patriotas. Para outros, é a essência do seu projecto político de imposição de um estado religioso. Quem não percebe a importância da ideologia e da política das várias forças de resistência deve dar uma olhadela ao Irão onde os clérigos fundamentalistas no poder executaram milhares de revolucionários após terem tomado o poder. Eles têm feito o seu melhor para chegar a um acordo estável e duradouro, não apenas com as potências imperialistas europeias, mas também com os próprios EUA. Colaboraram na invasão e ocupação do Afeganistão pelos EUA e agora desceram tão baixo que prometeram entusiasticamente participar na conferência do Cairo, promovida pelos EUA para ajudar a ocupação do Iraque.

A questão da morte de reféns não é uma questão abstracta sobre se os actos de violência são legítimos. Independentemente do que faça a resistência iraquiana, algumas pessoas nunca concordarão com a legitimidade de os oprimidos recorrerem a qualquer forma de violência para obterem a liberdade face aos seus opressores. A questão é o conteúdo político e o objectivo desses actos. Se o objectivo for realmente afastar os imperialistas mais poderosos da história mundial e não apenas forçar os ocupantes a fazerem alguns acordos sobre quem são os que ficam como seus fantoches, então as forças de resistência precisam de unir a vasta maioria das massas do Iraque – de todas as nacionalidades e religiões –, unir-se tanto quanto possível aos povos da região e mobilizar o apoio das massas de todos os países. Tudo isto é possível porque corresponde realmente aos interesses das massas.

Várias questões se colocam: quais foram a perspectiva e os interesses por trás do rapto e da execução de uma dúzia de trabalhadores nepaleses, de longe a maior matança de reféns? Foram mortos apenas porque era fácil matá-los, já que os ocupantes não se preocupam com o que acontece aos trabalhadores auxiliares? O principal beneficiado desse acto foi o rei do Nepal, que tentou incitar sentimentos religiosos primários e usá-los contra a guerra popular liderada pelos maoistas do país, a qual, de muitas formas, faz parte da mesma luta contra os EUA que a do povo iraquiano.

Por que foram raptadas e ameaçadas de morte as “duas Simonas” (as voluntárias italianas)? Pelo menos uma delas é uma amiga comprovada do povo iraquiano. Simona Torreta foi inicialmente para o Iraque em 1996 para trabalhar num projecto para contrariar os efeitos do bloqueio económico dirigido pelos EUA. Voltou em Março de 2003, a meio do bombardeamento aéreo norte-americano de “choque e temor”. Os seus raptores foram directamente ao escritório dele e pediram às duas mulheres que se identificassem, de modo que aparentemente não se tratou de nenhum engano sobre a sua identidade. Quando foi libertada, Torreta disse à comunicação social: “Faço uma distinção entre terrorismo e resistência. A guerrilha justifica-se, mas sou contra o rapto de civis.” Que interesses foram servidos por esse rapto – os do povo ou os de Berlusconi e dos capitalistas italianos que tentam alargar o seu quinhão do império face a uma das mais fortes oposições à guerra na Europa?

Depois do refém norte-americano Nick Berg ter sido decapitado, os seus pais continuaram corajosamente a opor-se à guerra e ao governo dos EUA. O irmão do refém britânico Ken Bigely também se pronunciou contra a guerra e contra Blair, apesar de uma incursão de agentes armados dos serviços secretos britânicos e holandeses à sua casa em Amesterdão, destinada a silenciá-lo. Não mostra isto a enorme simpatia pela causa iraquiana – mesmo nas próprias pátrias dos invasores –, e a possibilidade de mobilizar essa força potencial e torná-la ainda mais poderosamente contra a guerra? Esse potencial não tem sido repetidamente vislumbrado nas próprias ruas desses países (e talvez especialmente nelas)?

No momento da maior humilhação do seu país às mãos dos novos cruzados, muitos milhares de combatentes iraquianos estão a escrever um glorioso capítulo da sua história. É essa a principal característica da resistência e nenhum acto reaccionário e isolado de vingança cega – e talvez também umas provocações de sabe-se lá que serviços secretos – pode alterar isso.

Entre Abril e Setembro passados, sabe-se que foram executados cerca de 30 entre talvez 130 estrangeiros – a maioria dos quais civis – que foram tomados como reféns no Iraque. Em comparação, e para citar apenas alguns dias de um mês numa só cidade, os bombardeamentos quase diários dos EUA sobre habitações em Falluja mataram 20 pessoas a 2 de Setembro, 45 pessoas a 16 e 17 de Setembro, 9 pessoas a 25 de Setembro e um pai, uma mãe e os seus dois filhos a 30 de Setembro. As forças norte-americanas terminaram o mês a disparar sobre um carro e a matar dois ou três adultos e quatro crianças. Incomodados pelas imagens noticiosas da televisão Al-Jazeera num hospital de Falluja, mostrando crianças e os seus familiares cujos corpos foram despedaçados por rockets e bombas norte-americanas, os EUA expulsaram os jornalistas do país. O exército norte-americano vangloria-se agora de pretender impor o seu poder na cidade antes do fim do ano. Eles sabem o que isso significa: “Poderíamos tomar a cidade... mas teríamos de matar toda a gente”, advertiu o director-geral dos serviços secretos iraquianos da primeira vez que os combatentes da resistência fizeram recuar as tropas dos EUA (New York Times, 8 de Julho).

De acordo com a Iraqi Body Count, uma organização académica que documenta as mortes que os ocupantes não se preocupam o suficiente em registar, entre 13 a 15 mil pessoas foram mortas desde que a guerra começou. O que quer que seja que alguém queira dizer sobre o rapto e a morte de reféns, quanto à escala dos crimes e à brutal crueldade não há nenhuma comparação. Os raptores de reféns nunca conseguiriam alcançar essas potências “civilizadas”, nem num milhão de anos.

Além disso, parece que a maioria dos próprios iraquianos é muito clara nessa distinção. Veja-se o exemplo do carro-bomba que matou 41 pessoas, entre as quais 35 crianças, num bairro pobre do sudoeste de Bagdad conhecido como al-Ummal, a 30 de Setembro. De acordo com os jornalistas da Associated Press e da BBC no local, camiões dos EUA com altifalantes circularam pelas ruas do bairro, repletas de crianças cujas férias escolares se aproximavam do fim, dizendo-lhes para irem receber guloseimas gratuitas. Isso foi apresentado como uma comemoração da pretensa reabertura de uma estação de tratamento de esgotos que já estava em operação. Quando uma grande multidão de crianças à procura das suas guloseimas se reuniu em redor de um comboio de tropas dos EUA, uma ou mais bombas explodiram. Os soldados devem ter considerado a situação demasiado perigosa para saírem dos seus veículos, uma vez que nenhum deles foi morto. “Culpo os norte-americanos por esta tragédia. Quiseram fazer das nossas crianças escudos humanos. Deveriam ter mantido as crianças longe do perigo. Os norte-americanos são os primeiros terroristas e as pessoas que levaram a cabo o ataque são os segundos terroristas”, disse um pai cujo filho perdeu uma perna.

De acordo com todos os relatos dos órgãos de comunicação social, tanto amigos como inimigos do povo iraquiano, esta posição resolutamente anti-norte-americana, apesar das contradições da situação, é o que caracteriza as largas massas do povo iraquiano. E é por isso que os EUA tratam todos os homens em idade militar (e na realidade todos os iraquianos) como potenciais inimigos, em Falluja, em Samarra e na maior parte do país.

O nosso ponto de partida é este: em primeiro lugar, o que quer que seja correcto ou errado nos actos particulares cometidos por combatentes contra os EUA, tudo isso acontece no decurso de uma guerra justa contra uma invasão e uma ocupação. Em segundo lugar, se os EUA tiverem êxito no Iraque, ficarão livres para atacar em qualquer outro ponto do globo. Poder-se-ia dizer que se os tanques norte-americanos não estão a atravessar outras fronteiras e os canhões dos EUA não estão a fazer explodir casas e a assassinar famílias noutros países, a principal razão que os mantém afastados é o terem encontrado no Iraque muito mais resistência do que esperavam.

Os combatentes da resistência iraquiana estão na linha da frente da resistência ao imperialismo norte-americano no mundo de hoje. Tudo isso sublinha a importância do modo como a resistência no Iraque é levada a cabo. Para o povo iraquiano e os povos do mundo, fará toda a diferença.

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese