Tortura na Prisão de Al Ghraib: A maneira norte-americana de combater
3 de Maio de 2004. Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar.

Estas são o que se chama de imagens definidoras, porque elas definem aos olhos do mundo o veredicto sobre um acontecimento. No Vietname, foi a imagem da jovem vietnamita que gritava de dor por causa do napalm enquanto corria pela estrada atravessando os arrozais, fugindo de um ataque dos EUA. No Iraque, serão as imagens do preso iraquiano a usar um capuz tipo Ku Klux Klan, de pé sobre uma caixa com as suas mãos ligadas a fios eléctricos e à espera de ser electrocutado a qualquer momento; a da mulher GI norte-americana, rindo como se escarnecesse do preso iraquiano nu que está impotente à sua frente; e a da bota do soldado britânico do Regimento da Rainha em Lancashire prestes a pontapear a cabeça do preso iraquiano coberto e a partir-lhe os dentes, antes de urinar sobre o seu corpo prostrado.

Um resistente iraquiano de Falluja, Syad Mustafa, observando a tempestade de destruição que os EUA lançaram sobre a sua cidade, comentava: “Não temos nenhuma base. Não temos nenhum tanque. Não temos nenhum avião a jacto.” O que ele se esqueceu de referir foi que as forças que combatem o imperialismo também não têm uma comunicação social global no seu arsenal. Fotografias como estas forçam literalmente o seu caminho para as primeiras páginas da imprensa mundial, empurradas por uma maré de opinião pública que cada vez mais recusa aceitar a constante torrente de mentiras e distorções vindas da CNN e da restante comunicação social ocidental.

Bush, Blair e os dirigentes do Pentágono e das forças armadas britânicas tentaram imediatamente distanciar-se dessas imagens ultrajantes, declarando que essas acções “infringiam a política da coligação” e eram “aberrações”, trabalho de elementos “não autorizados”, ou uma “prisão militar não autorizada”. Mas desde os primeiros dias da ocupação dirigida pelos EUA que emergiram histórias de tortura e brutalidade praticadas pelos soldados britânicos e dos EUA.

As próprias imagens dos polícias militares norte-americanos a sorrir e a rir enquanto humilham, abusam e degradam os presos iraquianos revelam pessoas que operam num clima em que a tortura é aceite e rotineira. Um relatório de um general dos EUA nomeado pelo Pentágono, obtido pela revista New Yorker, diz que os abusos e a degradação são “descarados e arbitrários” no sistema prisional iraquiano. Os soldados britânicos que entregaram as fotografias à imprensa britânica disseram que estavam envergonhados pelos seus actos e temiam que mais cedo ou mais tarde acabassem por ser divulgados, porque eram tão comuns. Afirmaram que centenas dessas fotografias foram trocadas entre os membros do regimento. Alguns frequentadores dos pubs locais, sobretudo veteranos, disseram que tinham ouvido tantas histórias dessas que tinham mesmo pedido aos membros do regimento que deixassem de se vangloriar dos seus actos. As forças britânicas orgulham-se de serem mais civilizadas que os seus “primos cowboys” e vangloriam-se da sua abordagem dita suave-suave. Mas parece que, no que diz respeito à tortura e ao abuso dos prisioneiros, são pelo menos iguais aos seus parceiros norte-americanos.

O governo britânico nomeou imediatamente uma comissão de inquérito, mas depressa ficou claro que o principal objectivo da sua investigação foi identificar os soldados que entregaram as fotografias. Também trabalharam duramente para convencer tanta gente quanto possível que as fotografias poderiam ser falsas. Independentemente do resultado, é claro que este tipo de tratamento não é invulgar. O governo britânico tentou fazer pagamentos a várias famílias iraquianas pelas mortes sofridas sob custódia britânica, incluindo a morte há alguns meses atrás de Baha Mousa, um balconista de hotel de 26 anos que foi levado em perfeito estado de saúde pelas tropas britânicas perante numerosas testemunhas, e cujo cadáver contundido e lesionado foi devolvido sem explicações à família alguns dias depois. A sua morte foi divulgada em parte porque o seu pai é um oficial superior da força policial iraquiana – mas quantos outros casos semelhantes de tortura e de abuso de pessoas sem famílias poderosas continuam desconhecidos?

Muitos, diz a Amnistia Internacional. “Muitos detidos alegaram ter sido torturados e maltratados durante os interrogatórios pelos soldados dos EUA e da Grã-Bretanha”, informou a Amnistia. “A nossa extensa investigação no Iraque sugere que este não é um incidente isolado", disse a Amnistia. "Os detidos têm relatado terem sido habitualmente sujeitos a um tratamento cruel, desumano ou degradante durante a prisão e encarceramento".

Os polícias militares (PM’s) dos EUA que trabalham em Al Ghraib afirmam que apenas estavam a seguir as ordens dos agentes dos serviços secretos, incluindo a CIA. A general encarregada da prisão, Janis Karpinski, também afirmou o mesmo e disse que os PM’s foram utilizados para “suavizar” os prisioneiros para os interrogatórios.

Alguns dos agentes dos serviços secretos por trás dos abusos eram privados contratados que aparentemente terão oportunidade de escapar a qualquer forma de castigo criminal. Referindo-se a um espião mercenário, o porta-voz do Pentágono, Coronel Jill Morgenthaler, disse: "Não temos nenhuma jurisdição sobre ele. A forma de lidar com ele foi deixada ao contratador". Um ex-agente da CIA comentou sobre estes agentes privados dos serviços secretos, dizendo que eles pareciam não estar sob a jurisdição de ninguém. Apesar de toda a conversa de entrega da soberania do Iraque dentro de algumas semanas, a ideia de que norte-americanos responsáveis pela tortura de iraquianos no Iraque possam estar sujeitos à jurisdição iraquiana não está claramente na agenda dos EUA, nem mesmo remotamente.

Os Comandos dos Eléctrodos estão em Washington e em Londres

Bush evocou ruidosamente a necessidade de acabar com o “regime de tortura” de Saddam como justificação para a invasão norte-americana. Mas a tortura é uma consequência inevitável da maneira como os EUA combatem. O uso de formas extremas de repressão como a tortura faz parte da sua estratégia de combate, como os bombardeamentos a “distância segura” ou a violação de mulheres de populações ocupadas em tempo de guerra. É um instrumento usado por um exército repressivo para aterrorizar e controlar a população local. E está a ser incrementado. Isso pode ser visto não só no aumento do que a Amnistia Internacional chama de “comércio da tortura”, em que as empresas dos EUA têm mais negócio do que as de qualquer outro país. (Veja-se o artigo “Tortura” na revista CovertAction Quarterly do Verão de 2002). Os porta-vozes imperialistas estão agora a pedir abertamente um aumento do uso da tortura.

Como dizia Cofer Black, chefe de contraterrorismo da CIA: “Depois do 11 de Setembro, as luvas foram tiradas.” Desde então, os imperialistas norte-americanos e britânicos têm feito uma campanha para fortalecer o seu sistema de repressão e retirar direitos, a nível nacional e no estrangeiro. Os políticos e a comunicação social têm defendido repetidamente a decisão dos EUA de rejeitar a Convenção de Genebra e tratar os prisioneiros de guerra como “combatentes inimigos” no campo de concentração de Guantânamo e na prisão de Bagram no Afeganistão. Será de estranhar que ao mesmo tempo que esses governos retiram direitos aos seus próprios cidadãos, o seu exército de ocupação vai um passo à frente no modo como trata os presos estrangeiros? Hoje, no Iraque “libertado”, 10 a 12 mil iraquianos estão detidos em prisões da “coligação” e as filas de familiares no exterior da prisão de Abu Ghraib continuam quase tão compridas como durante o regime de Saddam. A maioria está detida sem acusação nem ideia de quando serão libertados. Despojar as pessoas dos seus direitos é um elo importante na cadeia de abuso e degradação, que num exército de ocupação conduz em última instância à tortura.

O uso de tortura está a ser legitimada abertamente nos EUA, com professores supostamente respeitados como Alan Dershowitz a pedir abertamente “garantias de tortura”. Os EUA podem ainda não ter ido tão longe, mas nos últimos anos têm desenvolvido um sistema em que subcontratam o trabalho sujo de tortura física a governos aliados do Terceiro Mundo, como a Jordânia, o Egipto, Marrocos ou mesmo a Síria. O Wall Street Journal documentou um caso em que cinco homens foram levados da Albânia para o Egipto onde foram torturados e dois deles morreram. Um jornalista britânico de liberdades civis que investiga este tema concluiu no Independent on Sunday que “o que isto significa é que as perguntas são fornecidas pelos caçadores de terroristas dos EUA aos torturadores utilizados por esses países, na esperança de obter o que sinistramente chamam de ‘capitulações extremas’. Os eléctrodos podem não ser aplicados por cidadãos dos EUA, os garrotes podem não ser empunhados pelos ‘nossos rapazes’, mas há um diálogo suficiente entre o torturador e o caçador de terroristas para que possamos atribuir a responsabilidade pelo sofrimento inconcebível à política dos EUA.”

As linhas de energia eléctrica a que estão ligados os eléctrodos nas celas de Al Ghraib são, em última análise, alimentadas por Washington D.C. e Londres.

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese