Resistência continua na Falluja sitiada
9 de Agosto de 2004. Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar.

Ultimamente, a resistência em Falluja não tem tido muito destaque na comunicação social. Em parte, isso é por causa de outros acontecimentos, como a rebelião liderada por Moqtada Sadr (ver o SNUMAG de 5 de Julho). Mas também acontece porque as autoridades norte-americanas preferem não falar sobre o assunto.

Durante meses, as tropas terrestres dos EUA foram impedidas de entrar na cidade. No final de Julho e início de Agosto, as colunas norte-americanas tentaram penetrar em Falluja por várias vezes, sem êxito. Seis veículos militares dos EUA foram emboscados a 31 de Julho. As forças dos EUA responderam com fogo de artilharia e bombardeamentos aéreos.

Durante as últimas semanas, os aviões norte-americanos metralharam e bombardearam repetidamente a cidade. Cerca de uma centena de pessoas foram mortas ou feridas recentemente, muitas delas crianças e velhos, segundo inquéritos feitos nos hospitais. A comunicação social alimentada pelos EUA afirma que os bombardeamentos visam “terroristas estrangeiros”, mas é evidente que todas as pessoas da cidade estão a ser visadas.

Falluja tornou-se num símbolo logo após o início da ocupação norte-americana. Em Abril de 2003, os soldados dos EUA dispararam sobre uma manifestação de estudantes e pais que exigiam que os ocupantes abandonassem a escola que tinham transformado em quartel. Vinte minutos de disparos sobre a multidão em fuga mataram 15 pessoas e feriram outras 53. Dois dias depois, 1000 residentes de Falluja desfilaram na rua principal da cidade e pararam à frente de um edifício ocupado pelos EUA. Os helicópteros de ataque Apache voavam por cima deles. Os manifestantes levavam cartazes a condenar o anterior massacre. Um deles dizia: “Assassinos norte-americanos, mais cedo ou mais tarde nós vos expulsaremos.” A multidão começou a atirar pedras. Soldados norte-americanos dentro de camiões no exterior do edifício atingiram a tiro 17 pessoas, matando duas.

No dia seguinte, a 1 de Maio de 2003, dois adolescentes de Falluja atiraram granadas para o edifício militar dos EUA, marcando o início de uma resistência armada que tem continuado desde então.

A resistência de Abril em Falluja

As autoridades dos EUA têm esperado por uma oportunidade para esmagar a vontade das pessoas que recusam submeter-se aos ocupantes.

Quando em Abril deste ano foram emboscados e mortos em Falluja quatro mercenários norte-americanos contratados por empresas militares privadas, apareceram os Marines para castigar os habitantes. Disseram que tinha chegado a altura de finalizarem a sua tomada de controlo da cidade. Durante as semanas seguintes, as forças dos EUA destruíram grande parte de Falluja, assassinaram pelo menos 600 pessoas e feriram muitos mais civis.

Essa brutalidade não esmagou nem eliminou a resistência popular. Pelo contrário, os habitantes da cidade responderam vigorosamente, o que ajudou o povo do Iraque a ficar mais unido. Numa série espectacular de manifestações e ousadas colunas de ajuda que desafiavam os militares dos EUA, todo o tipo de iraquianos, tanto sunitas como xiitas, mostraram a sua unidade com os habitantes de Falluja. Comida, medicamentos e sangue doados chegaram de muitas cidades. Muitos jovens, incluindo alguns de outros países árabes, furaram o cerco e juntaram-se aos combatentes dentro de Falluja.

Durante os combates de Abril, foram mortos mais de 60 soldados dos EUA. Gente comum juntou-se à resistência contra os ocupantes, mostrando serem também bons combatentes. Quando começou o ataque a Falluja, no início de Abril, Abu Muhammad, um ex-general brigadeiro iraquiano do tempo de Saddam disse: “As pessoas aqui estavam a monitorar os movimentos norte-americanos e tiveram vantagem. Tinham experiência militar e prepararam-se para a luta. A estrada 10, a via que liga Bagdad à Jordânia e à parte ocidental do país, atravessa Falluja e foi virtualmente encerrada.” (New Yorker, 5 de Julho). As forças dos EUA esperavam tomar a cidade facilmente. A participação em massa dos habitantes de Falluja tornou isso impossível. Pelo contrário, os Marines tiveram que retirar. Relembremos que Falluja fica a apenas 50 quilómetros a oeste de Bagdad, onde se concentram as forças armadas dos EUA.

Embora a resistência estivesse a aumentar em muitas partes do Iraque antes da batalha de Falluja em Abril, as vitórias aí obtidas tiveram um grande impacto nos habitantes de outros lugares, especialmente na área do chamado triângulo sunita a norte e oeste da capital.

A resistência também ajudou a acelerar a actual crise dentro das fileiras dos ocupantes e dos seus lacaios. Alguns países anunciaram que não enviariam as tropas prometidas ou que retirariam os seus soldados. Muitos soldados do recém-formado exército fantoche iraquiano enviados para eliminar a resistência, pura e simplesmente recusaram-se a lutar. Um grande número de forças policiais de Falluja também lutou ao lado dos rebeldes.

A resistência de Falluja ajudou a despertar as pessoas que, fora do Iraque, tinham dificuldade em entender as verdadeiras intenções dos EUA. Os que acreditavam, ou a quem tinha sido dito pelos imperialistas e pela comunicação social que o povo do Iraque era agora mais feliz, podiam ver agora a realidade por si próprios. Em Abril, no seu ponto mais elevado até agora, a batalha de Falluja infligiu derrotas aos militares dos EUA e à táctica e estratégia militares dos EUA. Esse foi o factor principal que levou muitos comentadores da comunicação social ocidental e algumas figuras políticas a concluir que a ocupação não resulta.

A realidade – sob a forma de resistência armada – estava a começar a destruir as mentiras dos ocupantes. Um colunista escreveu: “As administrações norte-americanas gostam de dizer que não é a ocupação que é o problema, mas sim o terrorismo... Mas a insistência norte-americana em que as suas dificuldades vêm apenas dos saudosistas de Saddam e de fanáticos estrangeiros já não é mais credível.” (H.D.S. Greenway, The Boston Globe, 13 de Abril)

O New York Times escrevia a 28 de Junho: “Os comandantes norte-americanos concordam que estão longe de eliminar uma insurreição persistente e cada vez mais sofisticada. Alargou-se bem para além dos apoiantes de Saddam Hussein e dos combatentes estrangeiros, envolvendo iraquianos comuns que odeiam a ocupação e os seus fracassos. Actuam ao nível de base, frequentemente com pouco treino ou direcção, mas com um zelo nascido do desejo anticolonial.”

Quem são os terroristas?

De todas as vezes que os EUA bombardeiam Falluja e matam um grande número de pessoas e ferem muitas outras, os seus porta-vozes dizem que visam Abu Musab Al-Zarqawi, um jordano acusado de ligação à Al-Qaeda. Mataram dezenas de pessoas durante os seus ataques de Julho com aviões e rockets contra os alegados “esconderijos de Al-Zarqawi” – habitações familiares – mas ainda não indicaram um único nome de “terrorista estrangeiro” encontrado morto ou capturado em Falluja.

Muitas pessoas em Falluja e por todo o Iraque vêem as forças dos EUA como os verdadeiros terroristas estrangeiros. A “coligação” liderada pelos EUA tem tentado trazer soldados de todo o mundo para combaterem a resistência iraquiana e ajudarem a pacificar o Médio Oriente de acordo com os interesses norte-americanos. Então, interrogam-se as pessoas, por que é que não podem algumas pessoas de outros países, que estão enfurecidas pela injustiça e pela brutalidade contra os habitantes do Iraque, ajudar a resistência iraquiana?

Durante meses, as autoridades dos EUA alegaram que os apoiantes de Saddam e os membros do partido Baath tinham feito de Falluja a sua base. Prometeram que, após a captura de Saddam e de outros importantes dirigentes do Baath, acabariam os problemas norte-americanos em Falluja. Mas a situação piorou para os EUA. Agora, mudaram a sua cantiga e alegam que Falluja é “um abrigo de terroristas” como Zarqawi. Qualquer que seja a verdade dessa afirmação, a realidade incontestável é que em Falluja todo a gente está contra a ocupação norte-americana e vê os EUA como o seu inimigo principal. O referido ex-general brigadeiro do Exército iraquiano disse: “Ninguém em Falluja se opôs à resistência e chegaram muitos grupos de resistência.” Naturalmente isso também inclui alguns fundamentalistas islâmicos e outros grupos que se opõem aos EUA de um ponto de vista reaccionário. Mas a resistência dos habitantes de Falluja e a esmagadora oposição aos invasores por parte do povo de Falluja e do chamado triângulo sunita não pode ser negada.

Por que se retiraram os EUA

O ódio das pessoas aos invasores é a razão por que as forças dos EUA e o seu regime fantoche não conseguiram entrar na cidade e tiveram de se retirar várias vezes, pelo menos até agora. O director-geral dos serviços iraquianos de informação, nomeado pelos EUA, disse sobre Falluja: “Poderíamos tomar a cidade... mas teríamos de matar toda a gente.” (NYT, 8 de Julho) Mas se tiverem de “matar toda a gente”, vão precisar de uma força muito maior. Os funcionários iraquianos confirmam que o regime fantoche “...não tem os recursos suficientes para tomar a cidade sozinho.” (Esta citação e as seguintes são do NYT de 8 de Julho). E, aparentemente, nem os EUA.

No final, as forças dos EUA acabaram por abandonar a cidade e ficar fora dela. O controlo da cidade ficou nas mãos da Brigada de Falluja, composta por muitos combatentes da resistência, mas que também inclui soldados do anterior regime e alguns fundamentalistas islâmicos. A cidade é politicamente controlada por um conselho (Shora), composto por vários comités, partidos políticos e organizações religiosas que disputam a influência na cidade.

Os EUA planeiam regressar

A derrota que o povo de Falluja infligiu às forças norte-americanas custou muito aos EUA, sobretudo na sua credibilidade (pelo menos a de tiranos eficazes), que estão a tentar recuperar desesperadamente. Como disse sobre Falluja o tenente-general Ricardo Sanchez, ex-chefe de todas as forças militares dos EUA no Iraque: “Nalguma altura esse problema terá de ser resolvido.” A mensagem é clara: assim que conseguirem resolver os outros problemas que os têm mantido ocupados, o que pode não acontecer tão cedo, eles pretendem voltar a entrar na cidade.

Os EUA têm enfrentado crescentes e variadas exigências às suas tropas de ocupação, e por razões políticas têm mantido o número de tropas bastante abaixo do que os comandantes dos EUA acham necessário. Em resultado disso, ainda não se sentiram capazes ou mesmo compelidos a investir a quantidade de recursos necessária para encontrar uma solução final para a situação de Falluja. Um factor que os afasta é o medo do impacto político, no Iraque e no mundo, do tipo de mortes em larga escala que isso provavelmente significaria. Mas também é verdade que as ruínas que enchem a cidade a transformaram num terreno que é altamente desfavorável às operações ligeiras e mecanizadas que os invasores preferem e qualquer batalha decisiva poderia ser possivelmente muito mais prolongada do que eles querem enfrentar.

Os habitantes de Falluja também estão atentos à situação e a preparar-se para essa eventualidade. Como disse um combatente: “A luta ainda agora começou.”

As massas de Falluja estão orgulhosas de terem derrotado uma poderosa força militar. O seu entusiasmo contagiou pessoas em todo o Iraque. Até agora, impuseram um beco-sem-saída aos EUA e ao seu regime fantoche e mantiveram-nos impotentes para fazerem qualquer outra coisa na cidade que não fosse matar civis. A brutalidade dos EUA contra Falluja durante o último ano e meio não produziu nada mais que raiva e contra-ataques contra os invasores e foi um importante golpe para as forças dos EUA. E não há nenhuma razão para acreditar que uma maior brutalidade traria qualquer resultado melhor para os invasores.

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese