Testemunhas oculares de Falluja:
Os crimes norte-americanos e a resistência iraquiana
10 de Janeiro de 2005. Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar.

Depoimentos de testemunhas oculares dos crimes de guerra norte-americanos em Falluja estão a começar a vir à luz do dia, à medida que os refugiados regressam e algum contacto é restabelecido com os que ficaram. Também há relatos de que a resistência armada que os EUA tentaram esmagar quando atacaram a cidade em Novembro não foi eliminada em Falluja, ainda que actualmente a maior parte da luta tenha mudado para outras cidades.

Essa cidade de cerca de 300.000 habitantes tornou-se num foco da resistência à ocupação logo após as tropas dos EUA a terem tomado em Abril de 2003. Em Abril do ano passado, a resistência expulsou os ocupantes. As tropas norte-americanas não conseguiram retomar a cidade apesar de um cerco de um mês. Em Novembro, as forças dos EUA começaram uma campanha de bombardeamento que destruiu quase toda a cidade. Centenas de milhares de habitantes foram obrigados a fugir, enchendo os campos de refugiados em Bagdad e noutras cidades. No final, o exército dos EUA anunciou que tinha “quebrado a espinha” da resistência em Falluja.

A maior parte dos residentes da cidade foi impedida de regressar. Milhares de pessoas estão a passar o inverno frio em cidades de barracas nos terrenos da Feira Internacional de Bagdad, em instalações universitárias e noutros locais da capital. A 22 de Dezembro, activistas contra a guerra vindos da Grã-Bretanha e doutros países organizaram um protesto toda a noite na Praça do Parlamento em Bagdad, para exigir justiça para esses refugiados. O antigo Coordenador Humanitário da ONU para o Iraque, Denis Halliday, apoiou a manifestação.

Os comandantes norte-americanos declararam a sua intenção de fazer da Falluja ocupada uma “cidade modelo”, anunciando que, à medida que os primeiros residentes regressassem às suas casas na véspera do Natal, os soldados norte-americanos tirariam as suas impressões digitais e amostras de ADN e registariam as suas retinas. Aos residentes seria emitido um distintivo com a sua morada e seria considerado um crime não o usar permanentemente. Seriam impedidos de conduzir veículos a motor na cidade, com medo, diziam os ocupantes, dos carros-bombas. As autoridades norte-americanas avisaram as famílias que regressavam para não comerem nenhum dos mantimentos que tivessem deixado para trás, o que levou à especulação de que as tropas dos EUA tinham usado produtos químicos contra os resistentes ou envenenado a comida.

O primeiro grupo autorizado a regressar, de cerca de 2000 habitantes, era do bairro Andalus, que se dizia ter sofrido menos danos que os outros lugares. A 24 de Dezembro, o Dr. Saleh Hussein Isawi, director auxiliar do hospital geral de Falluja, que acompanhou alguns dos refugiados da cidade, fez a seguinte descrição ao serviço de notícias da BBC:

“Cerca das 8 horas da manhã de sexta-feira, o posto de controlo norte-americano a oeste de Falluja concordou em deixar que os habitantes da cidade, especialmente os que viviam no sector de Andalus, entrassem para ver as suas casas. Eu estive lá dentro da cidade – neste momento, cerca de 60 a 70% das casas e edifícios estão completamente arrasados e danificados e impróprios para habitar. Dos 30% que ainda estão de pé, acho que não há um único que não tenha algum dano.

“Um dos meus colegas... foi ver a sua casa e viu que estava quase completamente desmoronada e que estava tudo queimado no seu interior. Quando foi ver a casa dos seus vizinhos, descobriu que um seu familiar estava morto e que um cão tinha comido a sua carne.

“Acho que iremos ver muitas coisas como estas, porque as forças dos EUA limparam os cadáveres das ruas, mas não dentro das casas.

“A maior parte das pessoas está a voltar a sair da cidade depois de verificar que as suas casas não estão habitáveis. Mas eu vi duas famílias que ficaram em Falluja apesar das suas casas terem ficado claramente danificadas e um homem que só tem um quarto para viver disse-me que ficaria porque tem vivido em muito más condições fora de Falluja. Disse-me que trará outros membros da sua família e aí habitará – que não podia fazer outra coisa.

“Não há água, nem electricidade, nem esgotos – não há nada dentro da cidade, excepto uma quantidade muito pequena de materiais médicos que vieram do hospital de Falluja em duas ambulâncias. Há um centro de saúde primária dentro da cidade com dois médicos a fornecerem medicamentos e assistência médica aos habitantes.

“Estive ontem à noite no hospital de Falluja e ouvi muitos combates e bombardeamentos que continuaram durante cerca de três ou quatro horas. Ouvi explosões com grandes estrondos dentro da cidade.”

A 31 de Dezembro, vários milhares de refugiados manifestaram-se frente à entrada principal da cidade cheia de escombros, exigindo o fim das medidas de controlo das entradas, a restauração dos serviços básicos e a partida das forças militares dos EUA. Há relatos de que, durante as semanas que se seguiram, dezenas de milhares de habitantes de Falluja regressaram à sua cidade ocupada, apesar do recolher obrigatório do anoitecer ao amanhecer.

O mesmo médico foi entrevistado a 4 de Janeiro por uma unidade de informação da ONU, a IRIN. Disse que a equipa de emergência do hospital tinha recuperado mais de 700 corpos dos escombros do que antes eram casas e lojas. Ele explicou que mais de 550 desses mortos eram mulheres e crianças e a maior parte dos homens eram velhos. Até essa altura, a sua equipa só tinha podido entrar em nove dos 27 bairros da cidade.

O exército dos EUA declarou ter matado cerca de 2000 resistentes. Tendo em conta que esses guerrilheiros estavam a combater uma invasão estrangeira, mesmo essas mortes são injustas. Mas os invasores não fizeram qualquer distinção entre resistentes e qualquer outra pessoa. Destruíram tantos edifícios quantos puderam para “suavizar” os resistentes antes do seu ataque. No que era suposto ser a fase final dos combates, quando as forças terrestres dos EUA vieram com toda a força ocupar o que esperavam vir a ser um cemitério em massa, mesmo os seus comandantes citados na comunicação social admitiram que tinham matado tudo o que se movia, todos os seres humanos que encontravam e mesmo animais. Usaram detectores de calor para encontrar sinais de vida nas ruínas e então atingiam-nos com armamento pesado. De facto, eles tinham medo de toda a gente. Antes de entrarem nos edifícios para os “limpar” de suspeitos resistentes ou de esconderijos de armas, atiravam granadas ou explosivos.

Um operador de câmara da Companhia de Radiodifusão do Líbano, Burhan Fasa'a, contou ao jornalista independente Dahr Jamail o que tinha visto durante os combates em Novembro. “ ‘Entrei em Falluja perto do bairro de Julan que fica perto do Hospital Geral’ disse ele durante uma entrevista em Bagdad. ‘Havia atiradores norte-americanos por cima do hospital que disparavam sobre toda a gente’.

“Ele fumou nervosamente ao longo de toda a entrevista, ainda visivelmente abalado pelo que vira.

“A 8 de Novembro, o exército estava a permitir que as mulheres e as crianças abandonassem a cidade, mas não os homens. Não foi autorizado a entrar na cidade através dos principais postos de controlo, pelo que rodeou Falluja e conseguiu entrar, precariamente, caminhando por uma zona rural perto do hospital principal, tomando então um pequeno barco pelo rio para filmar dentro da cidade. ‘Antes de eu encontrar o barco, estava a 50 metros do hospital onde os atiradores norte-americanos disparavam sobre todas as pessoas que viam’, disse ele, ‘Mas consegui entrar’.

“Ele descreveu bombardeamentos tão pesados e constantes pelos aviões militares norte-americanos que raramente passava um minuto sem que a terra tremesse devido à campanha de bombardeamentos. ‘Os norte-americanos usaram bombas muito pesadas para quebrar o espírito dos resistentes de Falluja’, explicou ele e abriu os seus braços para acrescentar: ‘Eles bombardearam tudo! Quero dizer, mesmo tudo!’

“Isso continuou durante os dois primeiros dias, disse ele, e então, ao terceiro dia, colunas de tanques e de outros veículos blindados começaram a movimentar-se. ‘Um gigantesco número de tanques, de veículos blindados e de tropas tentaram entrar pelo lado norte de Falluja’, disse ele, ‘Mas eu filmei pelo menos doze veículos dos EUA que foram destruídos’.

“O exército ainda não estava em condições de entrar em Falluja e retomou os bombardeamentos. ‘Eu vi pelo menos 200 famílias que viram as suas casas desmoronarem-se sobre as suas cabeças devido às bombas norte-americanas’, disse Burhan enquanto olhava para o chão, com uma grande cinza a oscilar no seu cigarro. ‘Os habitantes de Falluja já precisavam de tudo! Quer dizer, já não tinham nenhuma comida nem medicamentos. Vi um grande número de pessoas mortas na parte norte da cidade e a maior parte delas eram civis.’

“Nesse momento ele começou a contar história após história sobre o que vira durante a primeira semana de cerco. ‘Os mortos eram enterrados em jardins porque as pessoas não podiam deixar as suas casas. Havia tanta gente ferida e sem cuidados médicos, que as pessoas morriam das suas feridas. Toda a gente na rua era um alvo para os norte-americanos; eu próprio vi inúmeros civis atingidos por eles.’

“Ele olhou para a janela e respirou fundo várias vezes. Nessa altura, disse ele, a maioria das famílias já tinha falta de comida. As famílias estavam a mover-se furtivamente para as casas vizinhas à procura de comida. A água e a electricidade tinham sido cortadas há muito. O exército apelava em altifalantes para que as famílias se rendessem e saíssem das suas casas, mas Burhan disse que toda a gente tinha demasiado medo de deixar as suas casas, pelo que os soldados começaram a dinamitar as portas das casas e a fazer rusgas.

“ ‘Os norte-americanos não tinham consigo os intérpretes, pelo que entravam nas casas e matavam as pessoas apenas porque não falavam inglês! Entraram numa casa onde eu estava com 26 pessoas e dispararam sobre pessoas que não obedeceram às suas ordens, só porque as pessoas não conseguiam entender uma única palavra de inglês. Noventa e cinco por cento das pessoas que eu vi mortas nas casas, foram-no porque não sabiam falar inglês.’

“Os seus olhos estavam em lágrimas, pelo que acendeu outro cigarro e continuou a falar.

“ ‘Os soldados pensavam que as pessoas estavam a recusar as suas ordens, pelo que disparavam. Mas as pessoas só não os conseguiam perceber!’

Burhan foi preso por tropas dos EUA que o maltrataram quando perceberam que era um jornalista e confiscaram o seu equipamento e os filmes que encontraram com ele. “ ‘Eles prenderam mais de 100 pessoas da minha zona, incluindo mulheres e crianças. Tínhamos apenas uma casa de banho em frente ao local onde fomos todos mantidos e toda a gente tinha vergonha por ter de a usar em público. Não havia nenhum isolamento e os norte-americanos obrigaram-nos a usá-la com as algemas colocadas.’

“ ‘Eu vi bombas de fragmentação em todo o lado e tantos corpos que tinham ficado queimados, mortos sem nenhuma bala no corpo. Eles acabaram por usar armas de fogo, especialmente no bairro de Julan. Eu vi muitas vezes atiradores norte-americanos a disparar sobre civis. Eu vi um atirador norte-americano no minarete de uma mesquita a disparar sobre toda a gente que se movesse.’

“Ele também testemunhou algo relatado por muitos refugiados de Falluja.

“ ‘Vi civis que tentavam nadar no Eufrates para escapar e que foram todos mortos a tiro por atiradores norte-americanos no outro lado do rio.’

“A casa em que ele se encontrava antes de ter sido detido estava situada perto da mesquita onde o operador de câmara da NBC filmou a execução de um velho iraquiano ferido.

“ ‘A mesquita onde foi morto o ferido que o operador de câmara da NBC filmou – fica no bairro de Jubail – eu estava nesse bairro. Pessoas feridas e desarmadas usavam essa mesquita para terem segurança! Posso dizer-lhe que não havia lá nenhuma arma de qualquer tipo porque eu estive nessa mesquita. As pessoas só se escondiam lá por causa da segurança. Só por isso.’

“Ele testemunhou pessoalmente um outro horrível acontecimento relatado por muitos dos refugiados que chegaram a Bagdad.

“‘Na terça-feira, 16 de Novembro, eu vi tanques a rolar por cima dos feridos nas ruas do bairro de Jumariyah. Há aí uma clínica pública, pelo que nós a chamávamos de rua da clínica. Tinha havido uma dura batalha nessa rua, pelo que havia vinte corpos de resistentes mortos e alguns civis feridos à frente dessa clínica. Eu estava na clínica e às 11 da manhã do dia 16 assisti aos tanques a rolar por cima dos mortos e feridos.’

“Depois de uma outra longa pausa ele olhou durante algum tempo para fora da janela. Ainda olhando para a janela, disse: ‘Durante os nove dias em que estive em Falluja, todos os homens, mulheres, crianças e velhos que estavam feridos, nenhum deles foi evacuado. Ou sofreram até à morte ou sobreviveram de alguma maneira.’ ”

Contudo, apesar de tudo isto, a resistência continuou. A 13 de Dezembro ocorreram escaramuças com as forças dos EUA nos bairros orientais da cidade. O jornalista iraquiano Fadil al-Badrani disse à Al-Jazeera que esses tinham sido os combates mais ferozes desde há duas semanas. Aviões dos EUA bombardearam a cidade e densas colunas de fumo erguiam-se dos bairros de Askari, Shuhadan Sinair e Jubail. Ainda recentemente, a 7 de Janeiro, as autoridades militares dos EUA informavam que os Marines dos EUA continuavam a travar batalhas na cidade e pediam ataques aéreos.

Os ocupantes estão a escolher os jornalistas que permitem entrar e quais impedirão de passar nos cinco postos que controlam os acessos. Um jornalista do New York Times escreveu a 7 de Janeiro que ele e os seus colegas tinham sido escoltados por Marines que lhes disseram que era “muito perigoso” falar com as famílias. A jornalista francesa Florence Aubenas estava a fazer entrevistas com refugiados de Falluja quando ela e o seu assistente desapareceram em Bagdad a 5 de Janeiro. As autoridades dos EUA negaram estar a mantê-la presa. Quem quer que seja o responsável, esta situação está a intimidar muitos jornalistas.

Entretanto, longe de terem “quebrado a espinha” da resistência, ao ataque norte-americano a Falluja seguiram-se os combates mais vastos e intensos desde que começou a ocupação. Mossul, a terceira maior cidade do Iraque, foi tomada por guerrilheiros durante um breve período e ainda é violentamente disputada, mesmo depois de alguns soldados norte-americanos terem sido deslocados de Falluja para aí. O mesmo acontece nalguns bairros de Bagdad. As autoridades norte-americanas admitiram que quatro das 18 províncias do país, que englobam cerca de metade da área do país (todo o país a oeste e norte de Bagdad, excepto o Curdistão) e muita da sua população, estavam em grande parte fora do seu controlo.

Entre as fontes usadas neste artigo estão as seguintes páginas da internet: www.electroniciraq.net e www.dahrjamailiraq.com/weblog/

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese