O fracasso das armas de decepção em massa – os imperadores vão nus
2 de Fevereiro de 2004. Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar.

O Relatório Hutton

O Relatório Hutton, encomendado pelo primeiro-ministro britânico Tony Blair, provou uma coisa acima de qualquer dúvida: quando Blair escolhe alguém para encobrir algo, sabe o que está a fazer.

Em Maio do ano passado, a estação de rádio BBC difundiu de madrugada uma reportagem baseada numa conversa privada com um conselheiro do governo britânico para o armamento, cujo nome não foi mencionado. O jornalista, Andrew Gilligan, disse que o governo Blair exagerara deliberadamente as suas alegações sobre as chamadas armas de destruição em massa (ADM) de Saddam Hussein. Os homens de Blair responderam negando as acusações e acusando, na prática, o repórter de fabricação. O perito, aparentemente assustado, denunciou-se aos seus superiores. Em vez de o protegerem como ele esperava, o governo ameaçou a sua reforma, manteve-o perseguido pela comunicação social e atacou a sua integridade e a sua própria sanidade numa audição pública. Quando foi encontrado morto, a agitação resultante obrigou Blair a abrir um inquérito.

O tema central da reportagem da BBC era uma alegação contida na documentação que Blair apresentara em Setembro de 2002 para defender a sua intenção de invadir o Iraque: a de que Saddam Hussein possuiria armas químicas e biológicas que “poderia activar em 45 minutos”. A implicação era a de que Londres, Washington e outros centros populacionais do Ocidente estariam em perigo claro e iminente, e que uma invasão do Iraque seria apenas uma questão de autodefesa. A reportagem da BBC dizia que o assunto teria sido “apimentado” por insistência do chefe de gabinete de Blair e que “o governo provavelmente sabia que isso era falso antes de lá o ter colocado”.

Embora fosse suposto que o inquérito Hutton revelasse a verdade sobre o assunto, foi de facto deliberadamente concebido para ignorar a veracidade da alegação dos “45 minutos”. Todo o assunto, aos olhos de Hutton, se limitava a saber exactamente o que é que o principal especialista britânico em armamento iraquiano, David Kelly, contara ao repórter Andrew Gilligan. O juiz concluiu que, uma vez que Kelly morrera, nunca ninguém o poderia saber com certeza e que, de qualquer modo, as notas da conversa tiradas por Gilligan não o citavam a dizer exactamente isso. Além disso, disse Hutton, Gilligan caracterizara incorrectamente Kelly como um funcionário dos serviços de informações, em vez de um funcionário governamental que trabalhava em informações sobre armamento.

Assim, Hutton afirmou: “considero infundada a alegação [da BBC], uma vez que foi considerada pelos que ouviram a emissão como significando que a documentação tinha sido embelezada com informações que se sabia ou que se acreditava serem falsa ou inseguras, o que não foi o caso”.

Uma vez que se tratava de um inquérito, e não de um julgamento, não havia nem júri nem recurso. Mas havia punição. Quando Hutton definiu que a principal falha de todo o caso estava no “deficiente sistema de gestão interna” da BBC, o presidente dessa empresa de comunicação social demitiu-se. Os homens de Blair gritaram que queriam mais. Em resultado, o chefe de operações da BBC, Greg Dyke, foi despedido e o jornalista em questão também ficou sem emprego.

Dyke revelaria mais tarde que durante a invasão de Iraque, mesmo antes da reportagem de Gilligan, Blair lhe tinha escrito reclamando que a cobertura da BBC não era suficientemente encorajadora da guerra. Essa, e não o que começara por ser uma notícia emitida na rádio às 6 da manhã, era a verdadeira questão por trás do relatório Hutton, mas Hutton astutamente pretendeu que isso era irrelevante.

O novo presidente em exercício da BBC emitiu um “franco pedido de desculpas” que um antigo administrador da BBC apelidou de “rastejante”, “miserável” e “servil.” A guerra que Blair apoiou pode não ter tido muito êxito no Iraque, mas o primeiro-ministro marcou pontos contra a comunicação social.

Hutton: um criminoso experimentado

Blair conseguiu fazer o que nenhum outro acusado normal pode fazer: nomeou o seu próprio juiz.

Lorde Hutton, um juiz ainda em exercício, é um antigo oficial do exército britânico. Depois disso, presidiria aos notórios tribunais Diplock na Irlanda do Norte, tribunais britânicos com um só juiz, cuja função foi condenar à prisão os nacionalistas irlandeses com base em confissões obtidas através de tortura e noutras provas que poderiam não se aguentar perante um júri.

Hutton também foi um dos principais participantes no mais infame dos inquéritos de encobrimento até agora efectuados na Grã-Bretanha: o inquérito Widgery ao massacre do “Domingo Sangrento” de 1972, em que pára-quedistas britânicos dispararam e mataram 14 manifestantes pelos direitos civis em Derry, na Irlanda do Norte. Ele representou os soldados britânicos durante esse inquérito que os ilibaria de qualquer culpa, a eles e ao governo britânico. Desde então, o relatório Widgery ficou tão profundamente desacreditado, como uma mentira, como um encobrimento deliberado dos crimes britânicos pelo próprio sistema britânico, que Blair recentemente se sentiu compelido a abrir um novo inquérito ao Domingo Sangrento, o qual ainda decorre.

Blair conhecia o seu homem. E esse homem não o desiludiu.

Os “45 minutos” de Blair

Durante o inquérito, os representantes de Blair que tentaram explicar a alegação dos 45 minutos estavam em verdadeira desvantagem. No mundo real, como quase toda a gente excepto Blair agora admite, o Iraque não tinha nenhuma arma química, biológica ou nuclear para activar em 45 minutos nem em 45 dias nem em 45 meses.

Inicialmente, os representantes de Blair disseram que ele nunca tinha querido dizer que os “45 minutos” significavam uma capacidade de actuação para além das fronteiras do Iraque; a verdadeira alegação era a de que Saddam poderia usar armas não convencionais de alcance limitado contra as tropas invasoras. Descobriu-se que mesmo essa alegação não tinha nenhuma base real de facto: ter a capacidade de utilizar armas químicas e biológicas poderia ter sido a “doutrina militar” iraquiana (por outras palavras, o que o exército iraquiano queria), mas isso não tinha nada a ver com o que de facto podiam fazer. Mesmo essa doutrina tinha sido simplesmente copiada de velhos manuais de treino soviéticos, de acordo com um artigo de 23 de Janeiro do jornal britânico Guardian.

Ao contrário de Hutton, o resto do mundo teve em consideração as provas apresentadas nessas audiências. De acordo com o que o próprio admitiu, o governo de Blair:

• Insinuou intencionalmente uma grande mentira (a de que Saddam Hussein representava um perigo mortal para os britânicos e para outros povos);

• Não tinha nenhuma base efectiva para as suas alegações, mesmo que tomadas literalmente e entendidas num sentido restrito (a capacidade de Saddam de utilizar qualquer arma não convencional em “45 minutos”);

• Interveio para ter a certeza que a sua comissão dos serviços de informações confirmava tais alegações;

• E defendeu-as ferozmente, mesmo quando os seus próprios peritos (como Kelly) sugeriram que a alegação dos 45 minutos era “totalmente desproporcionada”.

O juiz declarou que o ponto crucial da questão não era saber se a alegação do governo Blair era verdadeira ou falsa, mas sim se as suas intenções eram “honestas”. Isto é o mesmo que tentar mudar de assunto num julgamento de homicídio em que os factos – quem fez o quê – supostamente contam para alguma coisa.

Os funcionários da BBC também não conseguiram tocar no tema principal. Pelo contrário, alinharam numa focagem estreita sobre se haveria algum possível engano no trabalho de Gilligan. Parecia haver, embora o líder do sindicato britânico dos jornalistas tenha dito mais tarde que a reportagem de Gilligan era “substancialmente correcta”. Também ignorada por todos os envolvidos, para grande alívio do governo, foi um segundo dossiê preparado sob a direcção de Blair, porque o primeiro não impressionara suficientemente o público. Num julgamento de verdade, poderia considerar-se que expunha um padrão de mentiras. Muita da “astuciosa” (como chegou a ser ridicularizada) documentação de Blair de 2003 acabou por se revelar ter sido copiada de um artigo sobre o Iraque escrito por um estudante há já uma década, e retirado da Internet.

Sobre a acusação de que o chefe de gabinete de Blair mandara “apimentar” os relatórios dos serviços de informações – um modo moderado de dizer que foram tornados mais interessantes, uma vez que nem mesmo o jornalista da BBC ousara acusar o governo Blair de mentir, o que na Grã-Bretanha poderia conduzir a um julgamento por calúnia – as palavras mais severas de Hutton foram que “não pode ser deixada de lado a possibilidade” de que as exigências do primeiro-ministro “influenciaram inconscientemente” o comité que elaborou a documentação.

De facto, uma vez mais de acordo com as próprias provas do inquérito Hutton, o chefe de gabinete de Blair pediu ao comité dos serviços de informações que o preparava que fizesse pelo menos nove alterações ao relatório. Mais importante, as palavras “pode ser capaz” que descreviam a capacidade do exército do Iraque para activar as ADM em 45 minutos, foram mudadas para “é capaz”, e as palavras “se ele acreditar que o seu regime está ameaçado” foram eliminadas. Deste modo, uma alegação sem fundamento sobre o perigo que Saddam Hussein representava para o mundo foi apresentada como um facto.

Relativamente à morte de Kelly, Hutton decidiu que fora suicídio. Além disso, o governo não poderia ser responsabilizado porque o tratamento que o cientista dele recebera fora apenas o esperado. É verdade que a reunião em que foi tomada a decisão de destruir Kelly fora presidida por Blair, mas a decisão fora justa. “Considero que não houve nenhuma estratégia ardilosa de desonestidade ou de duplicidade elaborada oficialmente pelo primeiro-ministro.”

Em suma, o relatório Hutton encobriu completamente o governo Blair nas suas alegações sobre as armas e na morte de Kelly, e concluiu que o vilão em tudo isto tinha sido a BBC.

O governo celebrou o facto fazendo chegar, de uma forma arrogante e ilegal, o relatório a um jornal em que podia confiar, um tablóide nocturno conhecido pelas suas fotografias de mulheres nuas. Ao que parece, a lei tinha servido o seu propósito e poderia agora ser ignorada uma vez mais – do mesmo modo que todo o embuste das ADM fora montado para justificar a invasão ilegal do Iraque.

O verdadeiro é verdadeiro e o falso é falso

O que o triunfalismo de Blair não pôde esconder dos comentadores mais independentes da comunicação social e do público britânico foi muito simplesmente que o cerne da reportagem da BBC era verdadeiro e que as alegações do governo eram falsas. O especialista em armamento Kelly pode ou não ter usado a palavra “apimentar” para descrever os exageros do governo, mas poucos estão convencidos de que esse é o cerne da questão. A vitória de Blair pode evaporar-se em não muito mais que 45 minutos. Mesmo antes de a controvérsia posterior ao relatório Hutton ter começado verdadeiramente, as sondagens mostravam que a maior parte das pessoas continuava a não acreditar no governo.

O aspecto mais curioso desta questão não foram as conclusões de Hutton, que não foram surpresa nenhuma dados os parâmetros que o governo Blair impusera ao inquérito e o homem que escolheram para o levar a cabo. A surpresa foi que uma grande parte (embora não todo) o sistema britânico tenha mais ou menos aceitado as suas conclusões.

A própria BBC é um caso a salientar. Afinal de contas, dado o que os actuais acontecimentos e a história recente mostraram sobre quem tem razão ou está errado, apesar do que possa dizer um qualquer servo da coroa de peruca e toga, não é estranho que a administração da BBC tenha imediatamente baixado as suas armas às ordens de Blair? A administração da BBC foi escolhida principalmente porque estava politicamente perto de Blair. Tal como o especialista em armamento Kelly, ela parecia ter ficado inquieta com a guerra, mas tal como Kelly, não teve nenhuma vontade de manter uma luta aberta sobre o assunto. Entre alguns observadores da comunicação social, a BBC é considerada não muito crítica do governo britânico mas, pelo contrário, demasiado subserviente.

Após o relatório Hutton, as forças pró-governamentais de ambos os lados do Atlântico propuseram regras para o jornalismo, tais como proibir reportagens baseadas numa única fonte ou em fontes anónimas. Isso teria mantido longe do público o mais infame escândalo político do passado recente: Watergate, que se  baseou nas alegações de um único membro do círculo mais próximo de Nixon, cuja identidade nunca foi revelada. Os padrões de prova que estão a propor para algemar a comunicação social e silenciar os críticos do governo, não foram aplicados aos seus próprios governos.

É suposto que a BCC fique reduzida, como já o propuseram várias pessoas, a repetir simplesmente tudo o que diga o “querido primeiro-ministro”?

Blair não é a única personalidade da classe dominante britânica a querer usar o relatório Hutton para “pôr um risco” (como ele próprio disse) sobre o assunto e implicitamente sobre o nunca mencionado assunto principal, a própria guerra, e “seguir em frente.” Alguns parecem sentir que a luta sobre a guerra do Iraque dentro da classe dominante britânica e do próprio partido de Blair foi demasiado longe e ameaça a estabilidade do estado britânico. Mesmo Robin Cook, o ex-ministro dos negócios estrangeiros de Blair que se demitiu em protesto contra a guerra e que continua a opor-se a Blair nessa matéria, enfatizou que não acredita que Blair tenha sido desonesto e afirmou: “É muito importante que Tony Blair reconheça que se cometeram erros, talvez de toda a boa-fé.”

Há uma verdadeira possibilidade de um “tiro pela culatra” com o relatório Hutton. Em vez de salvar Blair da oposição à guerra da maior parte dos britânicos, a sua desonestidade descarada pode ajudar a desacreditar o sistema ainda mais.

A demissão de David Kay

O principal encarregado de encontrar armas no Iraque, David Kay, não foi menos bem escolhido por Bush que Lorde Hutton por Blair.

Kay foi seleccionado porque era um sólido apoiante das posições do governo de Bush sobre as armas iraquianas enquanto muitos outros eram cépticos, mesmo na CIA onde ele trabalhava. Quando foi nomeado em Junho passado, Kay prometeu: “Encontraremos as zonas químicas e biológicas; de facto, creio poder haver algumas surpresas bastante depressa nessa área.”

A sua busca demorou muito mais tempo do que esperava, mas certamente que a sua conclusão foi uma grande surpresa: “Nós estávamos quase todos enganados... acho que elas não existem.”

Esta não era a conclusão para que tinha sido contratado.

O Secretário da Defesa de Bush, Donald Rumsfeld, anunciou a 19 de Setembro de 2002 que Saddam tinha “grandes reservas clandestinas” de armas biológicas e químicas. O próprio Bush disse uma semana depois que Saddam era conhecido por ter “reservas de antraz” e de gás de nervos. Ao levar às Nações Unidas a insistência de Bush em invadir o Iraque, o Secretário de Estado Colin Powell advertiu o Conselho de Segurança que as ADM de Saddam representavam “perigos verdadeiros e iminentes”: “não pode haver nenhuma dúvida de que Saddam Hussein tem armas biológicas e a capacidade de rapidamente produzir mais, muito mais. E tem a capacidade de espalhar esses venenos e doenças letais de maneiras que podem causar morte e destruição em massa.”

Muito mais tarde, durante o seu discurso do Estado da União há algumas semanas atrás, Bush continuava a afirmar: “Se não tivéssemos agido, os programas de criação de armas de destruição em massa do ditador teriam continuado até este dia.”

Nada disso era verdade.

Admitir o óbvio para salvar o sistema

A admissão de Kay era, no mínimo, altamente inconveniente para as tentativas da Grã-Bretanha de recuperar a unidade da classe dominante. Transformou o relatório Hutton numa anedota. Mas, para os EUA, chegara um momento em que o que Kay disse já era de alguma maneira amplamente aceite. O conservador Carnegie Institute, entre outros, tinha publicado um relatório em que refutava completamente as alegações sobre as ADM. Embora os homens de Bush nas palavras não aceitassem abertamente a não-existência dessas armas, faziam-no nos actos. Muito do pessoal do Grupo de Observação do Iraque de Kay tinha sido reencaminhado para o trabalho de informações de contra-insurreição. Uma equipa militar dos EUA, cujo trabalho era procurar no Iraque os supostos lançadores de rockets e depósitos de armas de Saddam, foi enviada sem barulho para casa no fim do ano. Mesmo antes de Kay vir a público, o Washington Post informara que a sua equipa “não tinha encontrado nenhuma prova para apoiar as convicções dos EUA de que o Iraque tinha mantido armas ilícitas desde a Guerra do Golfo ou que tinha iniciado programas para criar novas armas.”

Embora os seus comentários fossem mal recebidos por Bush, Kay continua a ser um reaccionário leal e um forte apoiante da guerra de Bush. Kay quer que as pessoas acreditem que tudo não passou de um erro. Fez o seu melhor para manter uma posição de apoio à guerra e a Bush nas suas declarações: o problema não tinha sido a manipulação governamental da informação recolhida, como até os rivais mais conservadores de Bush diziam, mas um “fracasso dos serviços de informações”. Concretamente, as cabeças que ele pediu que fossem cortadas para pagar por isso não estavam entre a administração Bush mas entre os seus por vezes opositores políticos na CIA, especialmente o antigo chefe de Kay, George Tenet.

Assim, apesar das dificuldades políticas que Kay criou a Blair e mesmo a Bush, Hutton e Kay têm em comum as suas tentativas de dar credibilidade a esses desacreditados e odiados chefes de estado e justificar a sua guerra, mudando o tema da justeza ou não da invasão para as boas intenções dos que a fizeram.

Urânio do Níger: não falha dos “serviços de informações”, mas invenção

Há pelo menos uma forte prova de que não houve nenhum engano por parte do círculo próximo de Bush: Bush mentiu ao afirmar no seu discurso do Estado da União de Janeiro de 2002 que o governo do Iraque tinha tentado comprar urânio do Níger.

Foram apresentados documentos que pretendiam provar essa alegação. Depois de uma breve busca na internet, os jornalistas descobriram que tinham sido forjados – um dos funcionários do Níger que supostamente os assinara nem sequer era membro do governo nessa altura.

Bush, ao que parece, tinha mandado um enviado ao Níger para investigar o assunto. O homem, um antigo embaixador, informou que era tudo forjado. Ignoraram-no. No ano passado, ele veio a público com essa informação. Como vingança, um ainda anónimo alto-funcionário de Washington fez chegar a um colunista cor-de-rosa que a mulher do embaixador era uma agente secreta da CIA – pondo assim fim à sua carreira.

Alguém forjou os documentos do Níger. Alguém em Washington encobriu esse facto e conspirou para proteger esse encobrimento e outros como ele. A administração Bush reclama agora que as alegações sobre o Níger vieram do governo de Londres. Blair pode ser caninamente leal para com Bush e os EUA, mas Bush pode vir a não devolver o favor.

Desculpe, Kay, mas “nós” não estávamos todos enganados

Kay ainda se engana em pelo menos uma coisa: “quase todos” não acreditámos em Bush e Blair sobre as ADM iraquianas nem aceitámos que essas alegações pudessem justificar uma invasão.

Os povos do mundo, incluindo muitos milhões na Grã-Bretanha e nos EUA, opuseram-se esmagadoramente a esta guerra. Desde o início que suspeitaram dessas alegações porque era óbvio desde o início, para qualquer pessoa com os olhos abertos, que essas alegações sobre as armas não eram a razão por que os EUA e a Grã-Bretanha invadiram o Iraque. Primeiro decidiram invadir; depois forjaram as razões.

É verdade, como Kay e vários funcionários de Bush gostam de afirmar, que a Resolução 1441 de Novembro de 2002 do Conselho de Segurança da ONU se baseava nessas mesmas falsidades. Também ela mentia sobre a “ameaça que a proliferação de armas de destruição em massa e de projécteis de longo alcance do Iraque constitui para a paz e a segurança internacionais.” Mais, a posição do Conselho de Segurança de que algumas nações podem dizer a outras nações que armas elas podem ter ou não é uma posição imperialista. A sua premissa é a de que algumas nações têm o direito de se impor às outras.

Também é verdade que a Alemanha e a França apoiaram as alegações e conclusões reaccionárias tão firmemente como os EUA. Em particular, uma vez que o governo francês controla o Níger e a sua agência de energia Snecma controla a produção de urânio do Níger, a França deve ter sabido que Bush e Blair estavam a mentir sobre o assunto. Por que razão a França não expôs nem denunciou antes este facto ao mundo? Isso teria incentivado o movimento mundial contra a guerra. Ainda hoje os governos francês e alemão preferem ignorar a admissão de Kay porque também lança o descrédito sobre eles.

Apesar de toda a sua oposição real à invasão dirigida pelos EUA, estes rivais imperialistas, bem como certas forças dentro das classes dominantes dos EUA e da Grã-Bretanha que também se lhe opuseram, temem despertar a raiva e o activismo das massas e evitam levar para fora de certos limites as suas contradições com os EUA.

As mentiras e o “perigo sério e iminente”

“Em tempo de guerra... a verdade é tão preciosa que deveria estar sempre protegida por uma escolta de mentiras”, disse uma vez um predecessor de Blair, Winston Churchill. Os capitalistas monopolistas que controlam os países ocidentais acreditam sinceramente que “verdade” significa tudo o que sirva os seus próprios interesses imperialistas.

Quanto às suas “boas intenções”, Bush, Blair e a sua corte lutaram inegavelmente pelos interesses imperialistas dos seus países, tal como eles os entendiam. Em última instância, a sua defesa será que esses interesses justificam qualquer mentira necessária à sua obtenção.

O maior crime não é apenas que esses governos forjem uma mentira sobre as armas, mas que a usem para justificar o que eufemisticamente chamaram de guerra “preventiva” – uma invasão, uma guerra de agressão. A maior mentira é que qualquer coisa justifique uma guerra pelos interesses imperialistas. Contudo, todas essas guerras – da invasão de Cuba pelos EUA no século XIX ao incidente do Golfo de Tonquim que Lyndon Johnson forjou para justificar a guerra no Vietname – foram acompanhadas de mentiras.

A previsível resposta de Bush às revelações de Kay foi insistir em que o regime de Saddam representava um “perigo sério e iminente”, quaisquer que sejam as armas que possa ter tido. Mas é a exposição das suas mentiras que representa um verdadeiro perigo sério e iminente para as classes dominantes dos países agressores.

Isso é mais uma razão por que as pessoas não devem permitir que sejam os governos a escolher a melhor maneira de lidar com o assunto, ou a deixá-lo a qualquer um dos reaccionários de vários matizes que têm as suas próprias razões para aparecer agora.

Os casos Hutton e Kay elevaram o que está em jogo. Se os povos desses e de outros países não forem enganados pelos “planos B” dos imperialistas quando eles forem apanhados a mentir (um apelo ao patriotismo, a linha de “o meu imperialismo está correcto ou errado”), então não serão só os políticos individualmente, mas todo o sistema imperialista que pode estar em dificuldades.

Há duas razões por que não será possível “traçar uma linha e seguir em frente”. Uma é que a guerra do Iraque está longe de ter terminado e, independentemente do que aconteça, os EUA não tencionam retirar as suas tropas tão cedo. O único “seguir em frente” que têm em mente é enviar tropas para invadir ainda mais países. Isto implicará mais mentiras, algumas iguais e algumas indubitavelmente diferentes.

A outra é que milhões de pessoas nos EUA, na Grã-Bretanha e em todo o mundo, sobretudo neste contexto, não podem nem o irão aceitar.

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese