Os objectivos dos ocupantes para as eleições do Afeganistão
10 de Agosto de 2009. Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar.

Uma nova volta das eleições presidenciais e municipais do Afeganistão terá lugar a 20 de Agosto. Houve dezenas de candidatos a presidente, mas muito poucos têm possibilidade de vir a obter um bom resultado. Estas eleições têm sido elogiadas pelos principais órgãos de comunicação social de todo o mundo. Os ocupantes estão a fazer o seu melhor para levarem a votar tanta gente quanto possível. Um dos seus principais objectivos é mostrar que exportaram com êxito a sua democracia para o Afeganistão e, dessa forma, comprarem legitimidade para o regime que aí instalaram.

Eles precisam desesperadamente dessa legitimidade. Oito anos de ocupação não trouxeram nenhuma melhoria real da vida do povo e, na realidade, o regime e os imperialistas por trás dele são tão odiados que um número cada vez maior de pessoas se está a juntar aos talibãs, apesar de esses fundamentalistas religiosos reaccionários terem implementado medidas islâmicas muito severas quando estavam no poder. Muitas das pessoas que saudaram o fim do governo talibã estão agora dispostas a esquecer isso porque querem combater os ocupantes e o regime por eles instalado. Pode-se dizer que a ocupação ressuscitou os talibãs.

Os principais candidatos considerados com hipóteses de serem «eleitos» são Hamid Karzai, o actual presidente que se candidata a um novo mandato, e Abdullah Abdullah, ministro dos negócios estrangeiros durante o governo provisório e com responsabilidades durante o primeiro mandato de Karzai. No passado, ele esteve associado aos jihadistas, os bandos fundamentalistas que os EUA armaram para combaterem os ocupantes soviéticos nos anos 80. Eles também eram tão profundamente odiados pelo povo que os talibãs se aproveitaram desse facto para a sua própria ascensão ao poder. Ele esteve próximo do partido fundamentalista Jamiat-e Islami e do seu líder Burhanedin Rabani. Entre os outros candidatos há outros nomes conhecidos como Ashraf Ghani Ahmadzai, Mir Weis Yasini e Ramezan Bashardoost, ex-Ministro do Plano de Karzai, demitido após poucos meses no governo. Um rápido olhar pelos programas eleitorais dos candidatos revela que todos eles defendem negociações com os talibãs e o fortalecimento do aspecto fundamentalista islâmico do actual regime.

Há muito tempo que Karzai tem tentado negociar com os talibãs. Diz-se que isso tem vindo a decorrer há algum tempo a nível local, mas ele está agora a levar isso mais a sério. Rumores recentes sobre negociações entre o representante de Karzai e os talibãs foram confirmados por Molavi Arsalan Rahmani, que agora trabalha com o governo de Karzai e que estava próximo dos talibãs quando estes estavam no poder.

Num outro evento, Karzai nomeou Ghasim Fahim, ex-Ministro da Defesa e um dos mais influentes jihadistas, como seu primeiro vice-presidente. Isto indica que ele se está a empenhar ainda mais em alianças com os senhores da guerra e os fundamentalistas jihadistas.

O próprio Abdullah é próximo dos jihadistas da Aliança do Norte, o principal grupo que apoiou a invasão norte-americana. O Jamiat-e Islami anunciou que, se ele fosse eleito, isso significaria uma presença mais forte no governo dos mujahideen, os senhores da guerra jihadistas. E também anunciou que iria negociar com os talibãs.

Ashraf Ghani Ahmadzai, outro dos favoritos dos EUA juntamente com Karzai e Abdullah, viveu no estrangeiro durante o regime dos talibãs, mas apoiou-os durante algum tempo.

O candidato Bashdardoost já mandou um sinal aos talibãs. Anunciou que, do seu ponto de vista, os talibãs não estão a combater os ocupantes mas apenas os governadores e comandantes corruptos. Numa entrevista à BBC, quando questionado sobre o seu programa para a segurança, disse: «Muita gente pensa que os talibãs estão a combater os EUA ou a Grã-Bretanha, mas isso não é verdade, os talibãs não têm nenhum problema com os EUA. Porque quando eles inicialmente se levantaram em armas, não havia nenhum exército estrangeiro no Afeganistão, nem a Rússia, nem a Grã-Bretanha, nem os EUA. Quando eu perguntei aos talibãs porque é que eles estão a matar soldados norte-americanos se não estão a combater os EUA, eles responderam: ‘Sr. Bashardoost, é porque os soldados norte-americanos e britânicos estão a apoiar certos ministros, governadores e comandantes. A nossa guerra principal não é contra eles.’» (Página web do Serviço em Persa da BBC, 7 de Julho de 2009)

Portanto, todos os principais candidatos incluíram no seu programa a sua intenção de negociarem com os talibãs e os integrarem no estado e também de fortalecerem ainda mais a influência dos jihadistas não ligados aos talibãs. Este ambiente político levou a um abandono das hipócritas alegações iniciais do regime de que iria libertar as mulheres. Ultimamente, trouxe de volta formalmente algumas das medidas legais e outras formas de opressão das mulheres iniciadas durante o domínio islâmico, primeiro dos jihadistas e depois dos talibãs.

Esta política de reconciliação estratégica tem o acordo dos ocupantes norte-americanos e britânicos. Primeiro, o governo britânico disse-o publicamente há mais de um ano atrás e os EUA têm dito o mesmo há já algum tempo. Em segundo lugar, Karzai está em consulta permanente com os EUA e os outros ocupantes, tal como o estão os outros candidatos que desfrutam de relações próximas com eles. Há relatos de que, no início da campanha eleitoral, o embaixador dos EUA se reuniu com alguns dos candidatos, entre os quais Ahamadzai, Abdullah e Yasini, o que enfureceu Karzai. Também Richard Holbrooke, o enviado especial «Af-Pak» [Afeganistão-Paquistão] do Presidente Barack Obama, se reuniu com Karzai e outros candidatos durante a sua viagem ao Afeganistão.

Tudo isto é apenas natural dado que, afinal de contas, são os imperialistas ocidentais e sobretudo os EUA que estão a patrocinar estas eleições. Washington enviou mais 20 mil tropas para o Afeganistão para garantir que elas decorrem serenamente. O Ministério da Defesa do Afeganistão anunciou que seriam mobilizadas 300 mil tropas afegãs e estrangeiras para assegurarem a segurança durante as eleições. Os EUA também contribuíram com a principal parte das despesas destas eleições.

Por seu lado, os talibãs e o Partido Islâmico de Golbedin Hekmatyar apelaram a um boicote eleitoral. Os talibãs ameaçaram impedir as pessoas de irem às urnas e avisaram que fechariam as estradas um dia antes das eleições.

Porém, os talibãs e o Partido Islâmico estão a dar sinais contraditórios. Especula-se que o enviado de Karzai às negociações com os talibãs os tentará convencer a não obstruírem as eleições. Porém, segundo o Serviço em Persa da BBC: «Parece que os talibãs mudaram a sua táctica. Eles não impediram realmente a distribuição pelo governo dos cartões de inscrição nas eleições, embora o pudessem ter feito nalgumas regiões.» O chefe da chamada comissão eleitoral independente disse à comunicação social: «Nas regiões sob seu controlo, os talibãs aceitaram os cartões de inscrição e encorajaram outros a também o fazer» (Serviço em Persa da BBC, 25 de Julho de 2009).

O Partido Islâmico também tem uma abordagem contraditória. Em comunicado, Hekmatyar apelou aos seus apoiantes a não participarem nas eleições, mas a delegação do Partido Islâmico em Cabul apoiou Karzai. Embora a relação exacta entre o Partido Islâmico e a sua filial em Cabul não seja clara, nunca se falou na sua separação ou expulsão do partido. É de crer que a filial de Cabul não possa ter tomado essa posição sem a aprovação de Hekmatyar.

As abordagens contraditórias adoptadas pelos talibãs e pelo Partido Islâmico reflectem a verdadeira unidade e contradições entre todas essas forças reaccionárias, as do poder e as que lutam pelo poder ou pela partilha do poder. Essas abordagens contraditórias também podem reflectir um esforço dos talibãs e do Partido Islâmico para fortalecerem as suas posições negociais.

Os revolucionários não têm qualquer interesse em partilhar o poder com qualquer um desses monstros. A oposição à ocupação imperialista do país e a rejeição da legitimidade do regime por eles instalado são razões mais que suficientes para se boicotar esta amostra de eleições. O comunicado do Partido Comunista (Maoista) do Afeganistão, que acompanha este artigo, apela às massas do Afeganistão a boicotarem as eleições e explica as suas razões para esse apelo.

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese