A guerra na Geórgia e as tensões EUA-Rússia
18 de Agosto de 2008. Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar.

O texto seguinte é uma versão resumida de um artigo publicado na edição com a data de 24 de Agosto do Revolution/Revolución, órgão do Partido Comunista Revolucionário dos EUA. Um outro artigo assinado por Raymond Lotta na mesma edição (“As alterações e fissuras na economia mundial e a rivalidade entre as grandes potências: O que está a acontecer e o que isso pode significar”, 4ª Parte - “O ressurgimento do imperialismo russo”) dá uma perspectiva estratégica.

No início de Agosto, um conflito que há muito fervilhava na região do Cáucaso, no sudoeste asiático, rebentou em guerra aberta, trazendo grande sofrimento aos povos da Geórgia e da Ossétia do Sul (uma pequena província independentista da Geórgia). Milhares de tropas russas surgiram rapidamente, escalando as tensões EUA-Rússia a um nível não visto desde o colapso da União Soviética.

Embora tenha sido assinado um frágil cessar-fogo a 15 de Agosto, a situação na Geórgia permanece tensa e imprevisível, e as tensões internacionais continuam a escalar e a espalhar-se da Ásia Central à Europa, com os EUA a fortalecerem alianças militares anti-russas e a fazerem sinistras ameaças de que deve haver “consequências” para os actos da Rússia.

Tudo isto tem revelado muito sobre as instáveis placas tectónicas das relações mundiais... e sobre o potencial para que surjam repentinamente pressões até níveis inesperados que depois se propaguem por todo o mundo.

Alguns antecedentes

A Geórgia é um pequeno país, mas estrategicamente importante. Embora tenha menos de 5 milhões de habitantes, está situado no flanco meridional da Rússia e ocupa uma importante posição de passagem do petróleo e do gás natural vindos dos ricos depósitos da Ásia Central para o coração imperialista da Europa. Manter a Geórgia firmemente no seu campo e construir oleodutos e gasodutos através da Geórgia que contornem a Rússia têm sido há décadas os principais pilares da estratégia dos EUA.

A Geórgia esteve na linha da frente das nações oprimidas pela Rússia que foram atraídas para a órbita dos EUA quando a União Soviética se desmoronou. O seu actual governo, liderado pelo Presidente Mikheil Saakashvilli, que estudou nos EUA, é submissamente pró-americano. A estrada do aeroporto da capital, Tbilissi, tem o nome de George Bush.

Isto tem uma crucial componente militar: Saakashvilli enviou 2000 soldados georgianos para apoiar a sangrenta ocupação norte-americana do Iraque, duplicando de facto este ano o seu envolvimento de tropas do passado, mesmo quando outros membros da coligação norte-americana saíam ou o diminuíam. Por sua vez, os EUA estacionaram centenas de conselheiros militares na Geórgia. Cerca de 12 mil soldados georgianos – mais de um quarto do total do seu exército – receberam treino avançado dos EUA. E a Geórgia – com o apoio dos EUA – tem-se esforçado vigorosamente para ser admitida na NATO, o que quereria dizer que todos os membros da NATO ficariam obrigados a defender militarmente a Geórgia no caso de um futuro conflito com a Rússia.

Tudo isto se ajusta ao esforço global dos EUA para assegurar durante várias gerações o seu domínio de todo o planeta. Monopolizar o controlo e o transporte de energia e cercar e constranger potenciais rivais como a Rússia são centrais nesse objectivo e a Geórgia representa um papel principal nos dois casos. A Rússia, por sua vez, enquanto potência imperialista, está a tentar fugir a esse cerco, restabelecendo o domínio da “sua” parte do mundo e forjando alianças económicas e militares noutras regiões.

Como salientou Raymond Lotta em “As alterações e fissuras na economia mundial e a rivalidade entre as grandes potências” (1ª Parte): “Nenhum potencial desafiador do imperialismo norte-americano está à tentar enfrentar militarmente os EUA ou confrontá-los de alguma forma importante, na actual conjuntura. Mas a existência desses desafios (e desafiadores) significa que o imperialismo norte-americano tem que olhar cada vez mais sobre o seu ombro”. É exactamente isso o que está agora em jogo.

O que aconteceu: A mão dos EUA e o cinismo imperialista da Rússia

A sangrenta impressão digital dos EUA está por todo o lado nesta guerra. Condoleezza Rice tinha visitado a Geórgia em Julho para discussões de alto nível com os líderes georgianos e nesse mesmo mês realizaram-se exercícios militares conjuntos que envolveram tropas georgianas e 1000 tropas norte-americanas. Tudo isso decorria no contexto dos cada vez mais agressivos esforços dos EUA para estabelecerem um sistema de defesa de mísseis na Europa de Leste que visa claramente a Rússia e que a Rússia considera uma importante provocação.

Embora os factos exactos tenham ficado escondidos na névoa das declarações de propaganda vindas de todos os lados, mesmo os EUA concedem agora que foi a Geórgia que fez uma grande movimentação, na linha do objectivo declarado de Saakashvilli de arrastar as duas regiões efectivamente autónomas (Ossétia do Sul e Abcásia) para baixo do controlo georgiano. A 8 de Agosto, após uma semana de escaramuças na fronteira da Ossétia, o jornal New York Times relatava: “Responsáveis georgianos disseram que as suas tropas tinham feito uma importante incursão na região independentista da Ossétia do Sul (...) e tinham assumido posições à volta da capital do enclave, Tskhinvali”.

O artigo continua: no início da “incursão”, “membros da unidade do exército georgiano inscritos num programa de treino coordenado por conselheiros norte-americanos não compareceram aos exercícios diários. Em retrospectiva, responsáveis norte-americanos disseram que era óbvio que os seus chefes lhes tinham dado ordens para serem mobilizados para a missão na Ossétia do Sul.” É difícil acreditar que unidades inteiras de tropas que estavam a ser treinadas pelos EUA “faltassem” simplesmente às aulas durante um dia para irem atacar um aliado da Rússia... sem a aprovação dos EUA, ou que os líderes georgianos que bajulam o regime Bush desencadeassem uma guerra ao desafio dos EUA.

Depois da “incursão” georgiana, a Rússia, a pretexto de proteger os ossetas de “atrocidades”, lançaram milhares de tropas e tanques, não só na Ossétia do Sul, mas também na Abcásia (outra região, maior, separatista da Geórgia) e na própria Geórgia central. As forças georgianas foram subjugadas e, a 12 de Agosto, a Rússia tinha capturado a importante cidade de Gori, a 60 quilómetros da capital georgiana. (Desde então, elas retiraram-se parcialmente, mas mesmo as condições do tratado de paz recém-assinado parecem permitir uma permanente presença do exército russo na própria Geórgia.)

Tudo isto tem sido um pesadelo para as massas populares. Milhares de ossetas fugiram pela fronteira russa e milhares mais esconderam-se em caves enquanto Tskhinvali era bombardeada e estava sob cerco das forças georgianas. O Times citou uma mulher osseta que finalmente saiu da sua cave e disse que a cidade à sua volta “parecia o fim do mundo”. Questionada sobre como se sentia, ela disse: “Não como há três dias. Tenho fome, é assim que eu me sinto.” E muitas centenas de civis, se não mesmo milhares, morreram durante a semana de combates.

E tudo isto apenas foi multiplicado pela intervenção russa que espalhou a guerra à Geórgia, incluindo ataques às principais cidades.

Os principais líderes reaccionários envolvidos em tudo isto fizeram verdadeiramente o seu melhor para quebrarem os records mundiais de hipocrisia, fingindo-se defensores das vítimas inocentes das guerras, da liberdade e do direito das nações à autodeterminação.

Bush, fresco das invasões e “mudanças de regime” no Iraque e no Afeganistão e trabalhando febrilmente com o mesmo objectivo no Irão, insistia agora que “a integridade territorial da Geórgia deve ser respeitada” e condenava a “tirania e intimidação” da Rússia. Putin, líder de um país que invadiu não só uma, mas duas vezes, a Chechénia (na mesma região que a Geórgia) para esmagar o seu movimento independentista, anuncia agora que a Rússia não podia deixar de ajudar quando viu um país muito pequeno ser invadido por uma potência maior! Há ainda o Presidente georgiano Saakashvilli, anunciado na imprensa dos EUA como grande defensor da “democracia” e da “liberdade”. Além de ser um desavergonhado instrumento dos crimes dos Estados Unidos no Iraque, em 2007, Saakashvilli usou a polícia de choque e as forças militares armadas de metralhadoras para dispersar violentamente os manifestantes em Tbilissi, saqueando os canais de televisão da oposição e prendendo os líderes dissidentes.

As credenciais “democráticas” de Saakashvilli talvez fiquem melhor expressas num comentário de 2004, citado pela organização Human Rights Watch: “Então o Presidente eleito Mikheil Saakashvilli declarou: ‘Eu (...) aconselhei o meu colega, o Ministro da Justiça Zurab Adeishvili – e quero que os criminosos, tanto dentro como fora das prisões, escutem isto muito atentamente –, a usar a força quando lidar com qualquer tentativa de organização de motins prisionais e abrir fogo, atirar a matar e destruir qualquer criminoso que tente causar agitação. Não pouparemos balas contra essas pessoas.’”

Dos dois lados, os principais intervenientes nesta guerra estão a defender interesses reaccionários e imperialistas e isso sublinha novamente a gritante necessidade de se forjar um outro caminho para a humanidade, afastado deste passado negro de regimes opressivos e guerras cínicas.

O que o futuro nos reserva

As coisas ainda estão bastante instáveis. Embora a guerra tenha corrido mal para as forças dos EUA na própria Geórgia e o poderio russo no sudoeste asiático tenha provavelmente crescido em resultado disso, os EUA agiram de forma a obter vantagens na Europa de Leste. A parte fundamental disso tem sido a assinatura de um acordo entre os EUA e a Polónia para colocar uma base norte-americana de defesa de mísseis em território polaco; em conjunto com isso está um compromisso de que, pelo menos temporariamente, os soldados norte-americanos fornecerão o pessoal aos locais de defesa aérea da Polónia “virados para a Rússia” (The New York Times). Líderes polacos reaccionários, com um olho claro na Geórgia, disseram ao The New York Times que “a Polónia e os polacos não querem entrar em alianças em que a ajuda surge nalgum momento posterior – não serve de nada quando a ajuda chega a pessoas mortas. A Polónia quer entrar em alianças em que a ajuda chegue durante as primeiro horas – batendo na madeira – de qualquer possível conflito.”

As negociações para esse acordo arrastavam-se há três anos e foram então concluídas repentinamente após os combates na Geórgia. O The New York Times descrevia isso como “a mais forte reacção até agora às operações militares da Rússia na Geórgia”.

A agressiva actuação dos EUA, as contra-manobras dos seus rivais imperialistas, os “pretextos” de vários estados menores em defesa dos seus interesses dentro do quadro geral do domínio dos EUA, mas pressionando e manobrando tanto por um lugar imediato como à procura de oportunidades para “ficarem por cima” nalgum momento futuro... tudo isto está a tornar o mundo num lugar muito volátil. E num lugar que clama por um movimento comunista revolucionário libertador e poderoso que dê às massas a oportunidade de serem muito mais que vítimas que se contentem em alinhar nas artimanhas e maquinações de um ou outro dos opressores.

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese