Estarão os EUA e o Irão ainda em rota de colisão?
28 de Julho de 2008. Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar.

Um crescendo de agressivas manobras militares e sanções económicas norte-americanas e israelitas tem sido pontuado por uma reunião diplomática em Genebra que ofereceu aquilo a que muitos observadores chamaram “última oportunidade” ao regime iraniano.

O chefe da política externa da União Europeia (UE), Javier Solana, encabeçou a delegação de diplomatas dos chamados 5+1 países (os 5 membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU mais a Alemanha) que, a 19 de Julho, se reuniu com o principal negociador nuclear do Irão, Saeed Jalili. A atenção da comunicação social foi capturada pela inesperada participação de William Burns, o terceiro mais alto responsável do Departamento de Estado dos EUA. Este foi o contacto público de mais alto nível entre os dois governos desde que os EUA cortaram relações em 1979. Para algumas pessoas pareceu representar uma inversão da posição norte-americana, dado que até então os EUA tinham insistido em que a suspensão pelo Irão do seu programa de enriquecimento nuclear seria uma pré-condição para qualquer contacto diplomático directo. A acrescentar à especulação geral de que os EUA tinham suavizado a sua linha, a Secretária de Estado Condoleezza Rice fez saber que Washington poderia abrir uma “secção de interesses especiais” em Teerão, um escritório diplomático de baixo nível capaz de emitir vistos e tratar de outras questões, semelhante ao que os EUA mantêm em Cuba.

O objectivo declarado da reunião era que o lado iraniano desse resposta a um pacote de “incentivos” que Solana tinha apresentado algumas semanas antes. O conteúdo desse pacote não foi divulgado, mas responsáveis ocidentais disseram oficiosamente que incluía uma oferta de ajuda económica e técnica internacional, incluindo ajuda na construção de uma indústria nuclear civil, em troca da concordância do Irão de suspender o seu enriquecimento de urânio e, em vez disso, depender de combustível importado. Isso seria, claro, uma humilhação que a liderança da República Islâmica disse que nunca aceitaria. A exigência não tem nenhum fundamento no direito internacional e nenhum outro país (com a possível excepção da Coreia do Norte) teve que a enfrentar. Israel escarnece o direito internacional com um programa de armas nucleares muito pouco clandestino e todo um arsenal nuclear ilegal aprovado pelos EUA.

Os sinais de escalada e a possibilidade de uma guerra

Um dos mais sinistros sinais de uma situação de escalada surgiu na primeira semana de Junho, quando Israel levou a cabo um grande exercício militar no mediterrâneo oriental. Era um segredo conhecido de todos – abertamente discutido por responsáveis militares norte-americanos que, apesar disso, falaram anonimamente – que se tratava de um ensaio para um ataque às instalações nucleares do Irão. Mais de 100 jactos de combate israelitas participaram nas manobras sobre o mar e a Grécia, projectadas “para desenvolver a capacidade militar de levar a cabo ataques a longa distância” (International Herald Tribune, 22 de Junho). Os EUA e a Grã-Bretanha realizaram exercícios navais no Golfo Pérsico durante a primeira semana de Julho.

Em resposta, o Irão realizou os seus próprios exercícios militares no Golfo e mais tarde realizou disparos de teste de mísseis de médio alcance. Os testes israelitas de prática de bombardeamentos de longa distância e os exercícios norte-americanos e britânicos na costa iraniana receberam pouca atenção dos meios de comunicação de massas. Mas a demonstração iraniana da sua força militar foi recebida por fortes condenações de responsáveis norte-americanos, britânicos e israelitas, como se os navios de guerra iranianos tivessem entrado na Long Island de Nova Iorque ou no Canal inglês, ou praticado o desembarque de tropas nas praias de Telavive.

Este descarado brandir de sabres foi precedido este ano por outros desenvolvimentos. Há alguns meses atrás, o governo Bush obteve a demissão do Almirante William Fallon como comandante supremo das forças armadas norte-americanas no Médio Oriente, aparentemente por causa das suas dúvidas sobre a sabedoria de um ataque ao Irão neste momento. Sabe-se que o ano passado ele se recusou a colocar um terceiro grupo de porta-aviões de ataque dos EUA no Golfo, numa concentração de poder de fogo naval EUA-Grã-Bretanha não vista desde a invasão do Iraque. Durante algum tempo, o número de porta-aviões norte-americanos nas águas ao largo do Irão caiu para um. Em Maio de 2008, o chefe global das forças armadas dos EUA, Almirante Michael Mullen, disse a um entrevistador da televisão israelita que abrir uma nova frente de guerra seria um verdadeiro desafio, mas ele não pôs isso de parte. O seu chefe, o Secretário da Defesa dos EUA, Robert Gates, juntou-se à discussão à sua própria maneira, transferindo um segundo grupo de porta-aviões para o Golfo. Isso, disse ele, significava uma “lembrança” ao regime iraniano – de que “todas as opções” estão real e verdadeiramente na mesa, embora também ele falasse na dificuldade e imprevisibilidade de entrar em guerra com o Irão.

Um artigo de Seymour Hersh (ver o SNUMAG de 30 de Junho de 2008) revelou que o programa clandestino de 400 milhões de dólares dos EUA para destabilizar o regime iraniano, que incluía operações militares transfronteiriças de unidades de forças especiais dos EUA e o encorajamento de actividades terroristas de baixo nível entre as etnias minoritárias iranianas, a leste no Baluchistão e no sudoeste. Também há relatos de que os EUA têm construído bases militares perto da fronteira do Irão, tanto no Iraque (perto de Baçorá) como no Afeganistão (perto de Herat, não longe da fronteira iraniana). O Irão tem vindo a ser cercado por todos os lados, por terra, mar e ar. Além disso, uma das razões para entregar a almirantes a liderança das forças armadas norte-americanas regionais e globais poderia ser o previsível papel central dos combates navais (e dos aviões baseados nos navios).

A reunião de Genebra foi precedida directamente por um novo conjunto de sanções económicas impostas unilateralmente pelos EUA e pela UE, não pela ONU. Os bancos ocidentais têm estado proibidos desde o ano passado de lidar com a instituição financeira central do Irão, o Banco estatal Melli, envolvido em muito do seu comércio externo. Agora, irão ser congelados os seus bens no estrangeiro. Mais sanções visarão a já debilitada indústria petroquímica do país. A companhia petrolífera francesa Total, que antes se esperava vir a representar um importante papel no desenvolvimento da produção de gás iraniano, anunciou que já não faria negócios no ou com o Irão. Estas sanções visam não só pressionar a República Islâmica, com o consequente sofrimento do seu povo, o que é considerado um dano colateral aceitável como o foi durante as sanções contra Saddam Hussein, como também serão usadas para reforçar o processo contra o regime como não cumpridor das resoluções da ONU e “legitimar” assim as acções militares.

Õ inflamar da guerra pelo governo israelita e as eleições presidenciais nos EUA

Em Dezembro de 2007, uma Estimativa de Inteligência Nacional dos EUA, que exprime a posição oficial dos serviços secretos e de segurança norte-americanos, concluía: “Estimamos com confiança moderada que a data mais antecipada possível em que o Irão seria tecnicamente capaz de produzir suficiente urânio altamente enriquecido (HEU) para uma arma é o final de 2009, mas que isso é muito improvável. Estimamos com confiança moderada que provavelmente o Irão seria tecnicamente capaz de produzir suficiente HEU para uma arma nalgum momento do período 2010-2015. (A Agência de Inteligência e Investigação, ou INR, do Departamento de Estado, estima ser improvável que o Irão obtenha essa capacidade antes de 2013 devido a previsíveis problemas técnicos e programáticos.) Todas as agências reconhecem a possibilidade de essa capacidade não poder ser obtida senão depois de 2015”. (Os parênteses e o ênfase estão no original.)

Contudo, apenas algumas semanas depois da publicação desse relatório, Washington e Telavive começaram a avisar que o Irão obteria uma bomba nuclear nos próximos 18 meses. Nem os EUA nem Israel nem qualquer outro país apresentaram qualquer prova ou mesmo uma simples explicação para essa alegação, nem sequer ao Conselho de Segurança da ONU ou à Agência Internacional da Energia Atómica. O dirigente da AIEA, Mohamed el-Baradei, contestou-a publicamente. As provas em que esses cálculos se baseiam são secretas – em contraste com a campanha dos EUA para fornecer aquilo que se veio a revelar serem alegações inteiramente forjadas sobre as armas de destruição em massa de Saddam Hussein, com a apresentação por Colin Powell na ONU de gráficos, fotografias e outras mentiras. Apesar disso, através de uma propositada repetição, esse prazo adquiriu o estatuto de facto estabelecido. A impressão que esses números dão é que se está a esgotar o tempo para opções não-militares.

Algumas das vozes a propagá-los em tom mais elevado vêem de Israel, e isso tem estado ligado às ameaças israelitas de que, então, se os EUA não atacarem o Irão para o “impedir de obter a bomba”, fá-lo-á o estado sionista. O primeiro-ministro israelita Ehud Olmert quase nunca fala numa ocasião internacional sem ameaçar o Irão. Falando perante o Comité Israelo-Americano de Assuntos Públicos (AIPAC), o principal lóbi pró-israelita nos EUA, ele disse que as sanções económicas não seriam suficientes e que “a comunidade internacional tem o dever e a responsabilidade de deixar claro ao Irão, através de medidas drásticas, que as repercussões da sua continuada busca de armas nucleares seriam devastadoras” (Haaretz, 4 de Junho). Em linha com isto, o general aposentado da força aérea israelita Isaac Ben-Israel, que participou no bombardeamento das instalações nucleares iraquianas em 1981, disse à revista alemã Der Spiegel (1 de Julho de 2008) que “Israel não ficará quito enquanto o Irão constrói uma bomba nuclear. Usaremos a força, se necessário.” Em Abril deste ano, o vice-primeiro-ministro israelita Shaul Mofaz insinuou que um ataque israelita a instalações nucleares iranianas era “inevitável”. Ele ameaçou: “Se o Irão continuar com o seu programa de desenvolvimento de armas nucleares, atacá-lo-emos. As sanções são ineficazes.” Ele também avisou o Presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad de que ele “desapareceria antes de Israel” (BBC, 17 de Abril).

No teatro da campanha presidencial dos EUA, um importante elemento na contenda entre os candidatos é a rivalidade para mostrar quem poderá ser mais duro com o Irão. John McCain, o previsível candidato do Partido Republicano, disse que permitir que o Irão tenha armas nucleares seria pior que a guerra. Durante a campanha para a sua nomeação pelo partido, ele “chegou a cantar ‘bombardear bombardear bombardear, bombardear bombardear o Irão’, ao som do clássico dos Beach Boys, Barbara Ann” (BBC, 6 de Junho de 2008).

Antes de ter emergido como o previsível candidato do Partido Democrático, Barack Obama enfrentou críticas da classe política dos EUA por ter sugerido que se sentaria e falaria incondicionalmente com representantes do governo iraniano (nessa altura, antes de enviarem Burns para acompanhar Solana à reunião com a delegação iraniana, os EUA continuavam a enfatizar que a suspensão do programa de enriquecimento de Teerão era uma condição para qualquer contacto diplomático). Por isso, Obama clarificou a sua posição de que também aos seus olhos “todas as opções” estão na mesa.

Obama escolheu fazer o seu primeiro discurso público após a confirmação da sua nomeação na reunião da AIPAC acima referida. Criticou George Bush por ter atacado o Iraque quando o Irão era o inimigo mais perigoso. Durante uma visita a Israel na sua recente digressão internacional, ele deu uma explicação mais significativa da sua declaração inicial sobre as conversações “incondicionais”. Ele assegurou o seu “compromisso inabalável” para com a “segurança” de Israel (o que parece ser uma condição para quem se quer tornar num alto membro da classe dominante dos EUA) e disse: “Um Irão nuclear seria uma séria ameaça e o mundo tem que impedir o Irão de obter uma arma nuclear”. Com esse objectivo, ele não retiraria “nenhuma opção da mesa” ao lidar com o Irão (BBC, 24 de Julho). Se ainda há quem pense que Obama oferece alguma esperança, ele não se poderia ter exprimido de uma forma mais clara ou honesta: “Um Irão nuclear seria uma situação de alteração do jogo, não só no Médio Oriente como no mundo. Os iranianos precisam de perceber que, quer seja uma administração Bush ou uma administração Obama, isso é uma preocupação suprema dos EUA.” (The New York Times, 24 de Julho)

Houve alguma alteração fundamental na política norte-americana em relação ao Irão?

Se ouvirmos o que realmente estão a dizer as autoridades norte-americanas, dentro ou fora do governo, elas estão a dizer-nos que não houve nenhuma alteração fundamental. É claro que mentir é o que eles fazem melhor e é sempre possível que eles alterem a sua política e não o queiram admitir com medo de perderem a cara. Mas, tendo em conta o que realmente tem acontecido em termos militares, económicos e políticos, é difícil acreditar que a participação de um representante dos EUA na reunião de Genebra e os rumores sobre a abertura de um escritório diplomático dos EUA em Teerão representem uma alteração significativa da política da Casa Branca.

Parece muito mais provável que uma das razões para a presença de Burns na reunião de Genebra fosse enganar as pessoas sobre as intenções norte-americanas. Muitos órgãos de comunicação social, consciente ou inconscientemente, ajudaram a atingir esse objectivo. Nós vimos no ataque dos EUA ao Iraque que Bush já tinha decidido ir para a guerra muito antes de ter enviado Colin Powell levar a cabo uma charada na ONU cujo objectivo foi usar a diplomacia para preparar as condições políticas para a guerra. Só porque foi dessa forma com o Iraque não prova que acontecerá necessariamente o mesmo com o Irão, mas as pessoas deveriam tomar isso como aviso.

É verdade que um ataque dos EUA ao Irão enfrentaria uma montanha de obstáculos e limitações. As enormes dificuldades que qualquer acção militar norte-americana desse género teria que enfrentar foram muito aumentadas pela invasão do Iraque e pelas suas consequências, altamente desfavoráveis para os EUA. Isso criou alguma oposição dentro da classe dominante norte-americana e pode possivelmente explicar porque é que esse ataque não foi montado muito mais cedo. Mas, ao mesmo tempo, os governantes norte-americanos têm tentado lidar com esses obstáculos e criar as condições mínimas que tornem possível esse ataque.

Eles podem não conseguir fazer muito em relação ao sobre-esticar das suas forças armadas, mas têm tentado criar uma opinião pública favorável, nos EUA e no estrangeiro. Além disso, olhando para trás, para a experiência da invasão do Iraque, parece haver algum consenso alargado na classe dominante dos EUA de que é preferível ter o Conselho de Segurança ou pelo menos a UE do seu lado, ou pelo menos silenciosos, para que os EUA possam forçar a ONU a aprovar as suas acções militares. Se a Rússia e a China não alinharem nisso no Conselho de Segurança, elas poderiam ser pelo menos neutralizadas. Esta parece ter sido a estratégia de Rice desde que está no seu actual lugar.

Além disso, dadas as diferenças entre os interesses das várias potências imperialistas nessas negociações e a falta de confiança entre elas, também é possível que os EUA tenham enviado Burns a acompanhar Solana para terem um maior controlo sobre a reunião. Embora teoricamente Burns fosse apenas um observador, o objectivo da sua presença pode ter sido ter a certeza que os europeus não ficariam a sós a fazer as coisas à sua própria maneira.

Regressando ao discurso de Obama acima referido, ele também disse: “Se nos mostrarmos com vontade de falar e oferecer cenouras e varas para lidar com esses problemas urgentes – e se então o Irão rejeitar qualquer proposta desse tipo – isso coloca-nos numa posição mais forte para mobilizarmos a comunidade internacional para aumentar a pressão sobre o Irão”.

Por outras palavras, o Irão tem enfrentado uma exigência – “o abandono das suas ambições nucleares”, chamou-lhe Obama – em pleno conhecimento de que é muito improvável que o regime a aceite. Se isso acontecer, então os EUA podem alegar que tentaram solucionar o problema pela diplomacia, mas que isso não resultou, pelo que agora eles não têm outra alternativa senão usar a força – e obter assim a “mobilização da comunidade internacional” para a guerra. Foi assim que Obama explicou isso aos israelitas preocupados com a sua posição e pode muito bem ter sido a razão para a administração Bush ter enviado um diplomata de topo à reunião de Genebra.

A reacção do regime iraniano

Até recentemente, os responsáveis do regime tenderam sobretudo a minimizar ou mesmo a negar a possibilidade de um ataque. Alguns continuam a fazê-lo, incluindo Ahmadinejad. Outros, sobretudo os que estão perto do Líder Aiatola Ali Khamenei, aumentaram os seus avisos de que isso poderia realmente acontecer. Mesmo alguns dos que antes alegavam que os EUA não estavam em condições de atacar devido ao seu envolvimento no Iraque e no Afeganistão mudaram o seu discurso nalgumas ocasiões recentes. Por exemplo, o chefe supremo do Sepah-e-Pasdaran (Corpo de Guardas Revolucionários), Major General Ali Jaffari, disse ao jornal iraniano Jaam-e Jam: “Nesta situação, temos que assumir a possibilidade de um ataque militar contra o Irão mais a sério do que antes fizemos” (Serviço em persa da BBC, 2 de Julho).

As manobras no Golfo do Irão antes da reunião de Genebra foram uma afirmação de que o Irão usaria todo o seu poder para se opor a qualquer ataque. Ali Shirazi, um clérigo que é assistente de Khamenei e o seu representante nas forças navais de elite dos Guardas Revolucionários, disse: “O primeiro tiro dos EUA contra o Irão incendiaria interesses vitais dos EUA no mundo... Telavive e a frota dos EUA no Golfo Pérsico seriam alvos a ser atacados pela esmagadora resposta do Irão” (Guardian, 9 de Julho). Jaffari, na entrevista dele, indicou que o Irão levaria a cabo acções militares de vingança a um ataque de Israel ou dos EUA, incluindo o bloqueio do Estreito de Ormuz no Golfo Pérsico, através do qual tem de passar a maior parte do petróleo do Médio Oriente, e a formação de uma “frente unida anti-israelita”, o que significa claramente mobilizar o temível Hezbollah do Líbano e outras forças xiitas da região.

A República Islâmica acabou por perceber a realidade de que a sua existência, pelo menos na sua actual forma, não é aceitável para os EUA. Há um ponto fundamental que raramente, se é que alguma vez o foi, é referido por políticos ocidentais ou pela sua comunicação social, mas totalmente claro para o regime iraniano: embora os conteúdos do “pacote” de Solana sejam secretos, a única coisa que os EUA se recusaram a oferecer ao Irão, pelo menos até agora, foi a eufemisticamente chamada “garantia de segurança” – uma promessa de que, se o Irão satisfizer as suas exigências, não será atacado. Relutantemente, o regime tem intensificado os seus esforços para implementar uma política de “olhar para oriente”, tentando usar as trocas comerciais com a China e o investimento russo para manter vivo o seu coração económico. Há actualmente uma vigorosa discussão na imprensa russa sobre se esta é uma grande oportunidade, ou, tal como os contratos petrolíferos assinados pela Rússia com o regime de Saddam antes de ele cair, apenas uma oportunidade de deitar dinheiro pelo cano abaixo face à superioridade militar dos EUA.

A reunião de Genebra terminou inconclusivamente. Solana e Burns deram ao regime iraniano mais duas semanas para aceitar ou rejeitar o pacote. Responsáveis dos EUA, de Rice para baixo, salientaram que não aceitariam mais nada senão um “sim” inequívoco, incondicional e imediato, e que a última coisa que pretendiam fazer seria permitir que o regime iraniano “jogasse com o tempo”. (As pessoas comuns podem pensar que afastar uma guerra é uma coisa boa. Vemos, de novo, a completamente arbitrária, assassina e, para os povos do mundo, aterradora insistência no “agora ou nunca”.) Isto tem tido como resposta algumas provocações iranianas, sobretudo dos membros da linha dura que querem acelerar o confronto. Uma semana depois das conversações de Genebra, a 26 de Julho, Ahmadinejad anunciou que o Irão tinha duplicado, no decurso de apenas alguns meses, o número de centrifugadoras utilizadas para enriquecer urânio. Muitos peritos suspeitam que o regime iraniano, tal como o regime Bush, está a exagerar o progresso do seu programa nuclear para os seus próprios fins políticos.

Se o Irão rejeitar essa oferta que tem o apoio dos EUA, isso não acontecerá porque o regime esteja decidido a proteger a soberania e os direitos nacionais, mas sim porque a República Islâmica não vê nenhuma outra saída. Eles sabem que mesmo que aceitem essa concessão, isso poderia afastar a prova final durante algum tempo, mas não demoraria muito tempo até que os EUA voltassem com um novo dossiê ou mesmo com exigências não satisfeitas com base no mesmo dossiê, para demonizar e atacar o Irão. E, de facto, os EUA têm uma longa lista de temas que têm feito com esse objectivo.

O regime iraniano está ameaçado por uma agitação interna devido a trinta anos de domínio político injusto e à exploração do seu próprio povo. Eles intensificaram imensamente a sua repressão interna contra qualquer tipo de expressão de descontentamento, bem como de luta. No mesmo dia em que Ahmadinejad se vangloriou da proeza nuclear do Irão, o seu regime também anunciou 29 enforcamentos, num total de mais de cem até agora este ano.

Nos últimos anos, as lutas envolvendo mulheres, estudantes e trabalhadores atingiram novos níveis. A vasta maioria dos que participaram nessas lutas contra o regime islâmico também está firmemente contra qualquer intervenção dos EUA ou outra no Irão. Todos os revolucionários, progressistas e amantes da liberdade no mundo deveriam denunciar, condenar e opor-se às ameaças e à agressão dos EUA e de outras potências e também apoiar as lutas populares.

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese