Jornalista norte-americano expõe as novas movimentações dos EUA contra o Irão
30 de Junho de 2008. Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar.

O jornalista norte-americano Seymour Hersh deu o alarme sobre “uma importante escalada das operações clandestinas contra o Irão, segundo fontes de actuais e antigos militares, membros dos serviços secretos e congressistas”. Escrevendo na actual edição da revista The New Yorker (7 de Julho), esse conhecido jornalista, que é contra a guerra e que há muito tem fontes ao mais alto nível do governo dos EUA e sobretudo das forças armadas, revelou dois importantes factos sobre estas novas movimentações:

Os sequestros, atentados e assassinatos patrocinados pelos EUA

Os líderes do Congresso concordaram em financiar essa escalada das operações clandestinas, diz Hersh, depois de lhes ter sido mostrado um documento altamente secreto chamado Investigação Presidencial, assinado pelo Presidente George W. Bush e legalmente necessário para a autorização de um programa clandestino da CIA. Bush alega que, ao contrário das da CIA, as actividades militares das Operações Especiais dos EUA não estão legalmente sujeitas à supervisão do Congresso, pelo que se pode presumir que um dos principais objectivos da Investigação Presidencial seja expandir o trabalho da CIA com organizações e indivíduos dentro de Irão. Segundo as fontes de Hersh, “a autoridade global inclui o assassinato”.

Hersh diz que os EUA irão agora mais longe que nunca na promoção de ataques terroristas contra o regime xiita islâmico iraniano da parte de grupos das minorias do Irão, entre os quais se incluem forças curdas iranianas, árabes iranianos e o movimento mais salientado nesse relatório, o grupo fundamentalista islâmico sunita baluchi Jundallah. O artigo descreve isto como sendo uma aliança táctica com a “Al-Qaeda” contra o regime iraniano, uma vez que vários sunitas baluchis foram acusados de terem sido pontas de lança do ataque de 11 de Setembro de 2001 contra o World Trade Center, e que essas forças estão muito ligadas aos fundamentalistas islâmicos sunitas do Paquistão, aliados dos talibãs.

Esta não é a primeira vez que Hersh e outras pessoas especulam sobre o que pelo menos parece ser uma aliança táctica global temporária com forças sunitas anti-xiitas (definidas genericamente, desde o regime árabe saudita aos fanáticos sunitas anti-Hezbollah do Iraque, dos “Conselhos de Despertar” sunitas iraquianos ao exército do Paquistão, o que faria da etiqueta “Al-Qaeda” mais uma tentativa de assustar o público norte-americano que uma descrição estritamente precisa). Isto ajuda a expor a “guerra ao terror” dos EUA como visando servir sobretudo os interesses do império norte-americano.

A 20 de Junho, o Jundallah disse que tinha executado dois polícias iranianos e que tinha sequestrado outros 14, levando-os para a região baluchi do Paquistão, do outro lado da fronteira do Irão. O ano passado, a cadeia norte-americana de televisão ABC “citou responsáveis dos serviços secretos norte-americanos e paquistaneses que diziam que os membros da Jundallah têm sido ‘encorajados e aconselhados’ desde 2005 por responsáveis norte-americanos”. (Washington Post, 20 de Junho.)

Outros ataques armados recentes ligados ao apoio dos EUA têm ocorrido no Curdistão iraniano e na cidade iraniana de Shiraz, onde um centro cultural foi alvo de um atentado bombista. Hersh cita um operacional secreto encoberto sobre a bem-sucedida utilização pelo Pentágono no Paquistão e no Afeganistão de “falsas operações de bandeira” – um trabalho da CIA levado a cabo por grupos que podem nem sequer estar conscientes que estão a ser manipulados pelos EUA. A fonte alega que essas operações não resultarão no Irão e podem mesmo ricochetear. (Embora não as discuta, elas poderiam, entre outras consequências, destabilizar ainda mais o regime do Paquistão, que tem sido um importante aliado regional dos EUA.) Ele explica: “Dentro da comunidade dos serviços secretos há uma enorme oposição à ideia [da Casa Branca] de desencadear uma guerra secreta dentro do Irão e de usar os baluchis e os ahwazis [árabes iranianos] como agentes por procuração”.

Consenso e litígio na classe dominante dos EUA

O artigo da New Yorker salienta a oposição entre os militares norte-americanos a um ataque “preventivo” ao Irão nos próximos meses, tal como, segundo outros relatos, defende o vice-presidente norte-americano Dick Cheney. Após a publicação do artigo de Hersh, a ABC News (30 de Junho) citou “um alto responsável da Defesa [dos EUA]” que disse que Israel está ansioso por atacar antes que o Irão monte um avançado sistema de defesa aérea que está a comprar à Rússia e que tornará mais difícil um ataque aéreo. A fonte da ABC mostra preocupação por, ao fazerem com que Israel faça o trabalho sujo dos EUA, isso poderia “causar importantes problemas na região e fora dela”, ao mesmo tempo que causaria poucos danos ao regime iraniano.

Hersh entrevistou o Almirante William Fallon, que, sob pressão da Casa Branca, se demitiu recentemente da liderança do Comando Central dos EUA, incumbido das guerras do Iraque, do Afeganistão e potencialmente do Irão. Fallon disse a Hersh que concordava com os conselheiros de Bush em que a impossibilidade de os EUA ganharem no Iraque torna necessário aos EUA tratarem de uma forma decisiva da “vizinhança”, isto é, o Irão. As suas discordâncias em relação às pessoas à volta de Bush eram duplas, envolvendo a interferência presidencial na cadeia militar de comando e, relacionado com isso, saber se um ataque imediato dos EUA ao Irão poderia atingir os seus objectivos ou se, pelo contrário, seria um desastre. Os actuais chefes militares dos EUA estão contra uma tal acção, segundo as fontes de Hersh lhe disseram.

Ao mesmo tempo, a concordância da liderança do Congresso com a Investigação Presidencial e com os quase 400 milhões de dólares de fundos necessários para essas movimentações com ela relacionadas, revela muito sobre um certo consenso que existe dentro da classe dominante dos EUA sobre aquilo a que todo os principais políticos chamam de “manter todas as opções na mesa”, ou por outras palavras, montar uma pressão militar, bem como outras formas de pressão, contra o regime iraniano e atacá-lo se isso for necessário para os EUA atingirem os seus objectivos regionais e globais. Da mesma forma, apesar de algumas promessas ambíguas do candidato democrata Obama de uma antecipação do fim da guerra no Iraque, a semana passada, o Senado dos EUA, controlado pelos democratas, aprovou os fundos pedidos pelo governo Bush para continuar essa guerra, além da do Afeganistão.

Tal como nos anteriores furos jornalísticos de Hersh, ele obteve a sua informação entre os altos quadros dos próprios militares. As forças do Congresso, republicanos e democratas, parecem ser melhores que os militares na manutenção do segredo dessas movimentações. O consenso no Congresso sobre a necessidade de manter as massas populares dos EUA fora do quadro político é, tal como as vacilações dos militares sobre a possibilidade de vitória no campo de batalha, uma outra indicação sobre as consequências potencialmente perigosas de um ataque dos EUA ao Irão para os próprios governantes norte-americanos.

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese