Negociações EUA-Iraque: patriotas súbitos?
16 de Junho de 2008. Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar.

O que está por trás da súbita postura patriótica do primeiro-ministro iraquiano Nouri al-Maliki? Afinal, ele e o grosso das forças xiitas, incluindo o Aiatola Sistani a cujo apoio ele deve a sua autoridade, há vários anos que têm alinhado com o ocupante. Em 2004, os EUA decidiram acabar com os governos de fantoches nomeados directamente por eles e avançaram para eleições, num acordo cozinhado com Sistani. O seu resultado – um governo xiita como o de Mailiki – era tão previsível que os partidos sunitas que então trabalhavam com os EUA decidiram boicotá-las.

Muitos jornalistas e analistas acéfalos, cuja sabedoria vem da Casa Branca, engoliram a linha de que o partido Dawa do primeiro-ministro e os seus muito mais poderosos parceiros do Conselho Supremo Islâmico do Iraque têm estado relutantes em assinarem os acordos porque as suas organizações tinham sido criadas no Irão e permaneciam próximos da liderança da República Islâmica do Irão. O “líder supremo” do Irão, Aiatola Khamenei, instou pessoalmente Maliki a resistir às exigências norte-americanas. Mas não confundamos os factores principais e os secundários.

Os EUA têm controlado o Iraque em colaboração com essas forças xiitas, bem como com os partidos curdos cuja base são os clãs, desde o início da ocupação (quando, por exemplo, dissolveram o exército e declararam os antigos membros do partido baathista de Saddam Hussein inelegíveis para lugares públicos). Foram os EUA que tornaram o Iraque na República Islâmica que é hoje. Isto reflecte-se sobretudo no facto de este estado, cuja sobrevivência depende das armas dos ocupantes, se definir a si próprio pela Xariá (lei islâmica), embora o seu sistema de governo seja bastante diferente do domínio directo do clero vigente no Irão. Contudo, e de certa forma paradoxalmente, os EUA têm conseguido governar o Iraque (no grau em que têm conseguido) através de uma desconfortável aliança com a República Islâmica do Irão e com as forças políticas ligadas ao Irão pela ideologia, bem como pela história e pela natureza de classe (diz-se que as forças xiitas iraquianas têm por base o mesmo tipo de comerciantes ricos que formam uma parte essencial da base social do domínio dos mulás no Irão).

Inicialmente, os estrategas neoconservadores do governo Bush estavam à espera de instalar no Iraque um governo laico, ao estilo do dos EUA, não para levar ao país a “liberdade” e a “soberania” que Bush tão patetamente proclama (que significado têm estas palavras num país ocupado em que, em última análise, as armas imperialistas impõem os seus ditames?), mas para permitir o influxo de investimento imperialista e as transformações económicas e sociais que pudessem tornar o país mais lucrativo para o capital financeiro estrangeiro. Este tipo de modernização imperialista visava transformava o país num contra-modelo da República Islâmica do Irão e num bastião militar contra ela. Visava também eliminar os focos de propagação do fundamentalismo islâmico anti-EUA no Médio Oriente.

Quando ficou demonstrado ser impossível impor esse modelo ao povo iraquiano, devido à variedade de forças de resistência armada que, em grande parte, por convicção ou oportunismo, se colocaram sob a bandeira do Islão, os EUA foram forçados a regatear com o Irão e com as forças xiitas, que hoje ocupam uma posição central na política iraquiana.

Mas os EUA nunca ficaram muito contentes com esta situação. Além disso, e agora de uma forma crescente, a política norte-americana no Iraque está a ser moldada pela intensificação do conflito com o Irão, o qual é motivado, em grande grau, pela frustração norte-americana pela crescente influência islâmica iraniana devido aos crimes que os EUA cometeram, entre os quais a ocupação do Iraque. Cada vez mais, os EUA têm testado e dado alguns passos para implementarem a ideia da redução do poder das forças xiitas iraquianas, trazendo de volta as forças sunitas baathistas e a liderança tribal que apoiaram Saddam. Vários estrategas norte-americanos dizem que desejavam poder “rebobinar o filme”, trazer Saddam de volta e fazer agora com ele o acordo que antes rejeitaram.

Essa ideia apavora o governo de Maliki. A organização pelos EUA dos “Conselhos de Despertar” (sobretudo, embora não exclusivamente, com base nos líderes tribais sunitas no norte e com alguma participação xiita no sul) e daquilo a que chamam “Os Filhos do Iraque” (onde se incluem muitos ex-baathistas) apenas aumentou as razões para o governo de Maliki se alarmar. Quando Maliki exige que os EUA não possam levar a cabo acções militares independentes sem a sua autorização, isto é tanto um fingimento (porque é que a sua autorização tornaria melhor tudo o que as forças armadas dos EUA fizeram no Iraque?) e uma exigência real de que a sua autoridade seja reconhecida. A sua posição de dureza ao regatear com os EUA é tanto um falso apelo à bandeira nacional e ao apoio das forças de orientação nacionalista (que podem incluir algumas correntes baathistas) como um verdadeiro reflexo de uma urgente necessidade de chegar a um acordo que assegure a sobrevivência de Maliki e da sua clique. Isto é uma das partes do subtexto destas negociações.

A outra parte é a seguinte: como tanto o partido Dawa de Maliki como o muito maior Conselho Supremo têm laços históricos com os clérigos do Irão e derivam do Islão xiita a sua autoridade, também eles estão apavorados por virem a ter que escolher entre Washington e Teerão.

Ainda mais importante, porém, é que Maliki e as forças que ele representa sabem que não podem sobreviver sem a ocupação norte-americana. Nos mesmos dias em que Maliki atacava os EUA e dizia em voz alta que “muita gente” queria que os EUA se fossem embora, o exército do governo iraquiano (em grande parte baseado na milícia do Conselho Supremo de Badr – a muitos dos seus membros foram pura e simplesmente entregues uniformes) dependia das tropas norte-americanas para levar a cabo uma importante operação contra a milícia rival liderada por Moqtada Sadr na cidade de Amarah, no sul do país.

Uma palavra acerca de Sadr

Uma palavra acerca de Moqtada Sadr, acerca do seu Exército do Mahdi e acerca daquilo que é conhecido como o movimento de Sadr. Embora, de novo paradoxalmente, seja um fenómeno inteiramente iraquiano que pouco deve aos tiranos clericais do Irão e seja por vezes criticado por alguns deles, Sadr está ideologicamente mais próximo do Irão e da sua doutrina de domínio dos clérigos que o resto das forças xiitas iraquianas. Tanto por isso, como porque o movimento de Sadr tem um vasto apoio que os outros dois partidos xiitas não têm, Sadr e os seus conselheiros estão muito menos ligados aos ocupantes.

Tão contraditoriamente quanto possa parecer, dada a sua ideologia, Sadr tem frequentemente tentado retratar-se como representante da nação, não como figura sectária, como o são certamente os seus partidos rivais. Mas veja-se, por exemplo, a sua recente reorganização do Exército do Mahdi num braço armado e treinado e num braço desarmado, insistindo em que “as armas serão usadas exclusivamente contra os ocupantes”. As suas forças precisam certamente de armas para se defenderem, uma vez que os EUA têm tentado ferozmente matá-los e destruir a Cidade de Sadr, em Bagdad, e os bairros xiitas de outras cidades onde eles têm a sua base. Mas Sadr nunca tentou, pelo menos até agora, deixar de usar as armas para reforçar o poder independente do seu movimento (tanto contra os EUA e os sunitas como contra outras forças xiitas) para passar a organizar de facto uma guerra para libertar o país da ocupação. O braço armado pode conseguir causar problemas aos EUA e aos seus rivais, mas esta reorganização também significa que o grosso do seu movimento se dedicará a resistir à ideologia e ao secularismo ocidentais “por meios culturais, religiosos e ideológicos”, combinando uma forma intimidatória de orações e um trabalho social muito semelhante ao do Hezbollah do Líbano ou ao dos mulás falsamente “anti-imperialistas” do Irão, antes de eles terem chegado ao poder.

“Nós sabemos que serão retirados do Iraque alguns soldados norte-americanos e que eles concentrarão a sua presença em certas bases e por isso nós precisamos de mudar a forma como trabalhamos”, disse um porta-voz de Sadr para explicar a reorganização. Como explicou um representante da organização imperialista Grupo Internacional de Crise, “a estratégia de Sadr não é enfrentar os norte-americanos, mas esperar pela sua partida”. Um outro analista pôs as coisas assim: “Se é que há uma estratégia por trás da abordagem [de Sadr], ela é a de se sentar na cerca”. (Serviço Noticioso McClatchy, 15 de Junho.)

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese