Afeganistão: Profundas fissuras no regime de Karzai
25 de Fevereiro de 2008. Serviço Noticioso Um Mundo a Ganhar.

Quando, em Novembro de 2007, a Comissão de Economia do Parlamento do Afeganistão visitava uma fábrica de açúcar na província setentrional de Baghlan, uma enorme explosão matou pelo menos 75 pessoas, segundo os números do governo, incluindo seis membros da comissão e cerca de 69 professores e estudantes locais. Um artigo do nº 18 do Shola Jawid, órgão do Partido Comunista (Maoista) do Afeganistão, analisa esse incidente e as contradições por trás dele. Seguem-se alguns excertos.

Cinco dias após o incidente, o número exacto de mortos ainda não é conhecido. A mais recente estimativa não oficial situa o número de mortos em 75 pessoas, entre as quais 69 estudantes e professores e seis membros do Velsi Jirga (Parlamento do Afeganistão). Diz-se que, ansiosos por enterrarem os seus mortos, os familiares retiraram alguns dos corpos do local da explosão, antes de serem contados. Segundo alguns rumores, morreram mais de cem pessoas e outras 200 ficaram feridas.

Inicialmente, as autoridades alegaram ter sido um ataque suicida, mas passados alguns dias essa alegação foi abandonada. Agora dizem que o incidente deve ser investigado. O governo formou uma comissão especial com esse objectivo. Mas, citando o fracasso de comissões governamentais semelhantes, o Velsi Jirga formou a sua própria comissão para investigar o incidente. Além disso, o Parlamento exigiu que os altos responsáveis pela segurança de Baghlan fossem demitidos e investigados.

A maioria dos mortos e feridos foi atingida nos pés e nas pernas. Isto significa que os explosivos devem ter estado enterrados no chão ou na terra. Por outras palavras, foram colocados antecipadamente, com informação precisa sobre a visita e a sua data e hora. Isto só pode ter sido possível com ligações dentro do governo ou do Parlamento.

O incidente ocorreu quando uma delegação de altos responsáveis participava na inauguração da fábrica de açúcar do centro da Cidade de Baghlan, prevista para reabrir depois da sua privatização e reconstrução. Nos meses anteriores, tinham sido privatizadas várias fábricas e minas estatais dessa província, incluindo uma fábrica de cimento, uma fábrica de açúcar e minas de carvão. Tinha havido conflitos intensos entre responsáveis governamentais sobre como se processariam essas privatizações, sobretudo entre o Ministério das Minas e Indústria e a comissão parlamentar de economia. A comissão já tinha chamado o ministro a comparecer perante ela para ser questionado. A visita da comissão a Baghlan visava dar continuidade a esse conflito sobre a privatização.

Neste momento, há muitas unidades de produção activas, semiactivas e mesmo inactivas em todo o Afeganistão que, em nome da privatização, estão a ser saqueadas e entregues a troco de quase nada a empresas cujo capital provém das potências imperialistas ocupantes e de altos responsáveis governamentais. Não há nenhuma dúvida de que aos organismos governamentais e aos agentes envolvidos estão a ser pagas comissões que chegam a vários milhões de dólares. Contudo, a privatização de instituições produtivas de propriedade governamental continua e continuará no futuro.

De facto, porque essa privatização representa um processo de pilhagem generalizada e extensa das instituições produtivas e das terras nacionais, ela tem causado uma aguda disputa financeira entre as diversas facções do regime fantoche. Essa disputa financeira também deu lugar a uma generalizada disputa política entre elas. Os imperialistas norte-americanos e britânicos e os seus aliados com presença militar no Afeganistão têm estado directamente envolvidos nisso, bem como nas disputas pelo controlo do tráfico de droga. Através dos canais que eles estabeleceram, os imperialistas russos e outras potências reaccionárias regionais como a China, a Índia e a República Islâmica do Irão também estão directa ou indirectamente envolvidos.

Por exemplo, Seyed Mostafa Kazemi, dirigente da comissão financeira do Velsi Jirga morto na explosão de Baghlan, era porta-voz da Frente Unida e líder do Partido Eghtedare Meli (Poder Nacional). Essa Frente Unida era considerada a principal facção da oposição legal dentro do regime fantoche de Karzai. Ele era um dos principais membros da facção Guardas Revolucionários Islâmicos, a organização fundamentalista xiita do Afeganistão aliada mais próxima da República Islâmica do Irão. Ele era vice-presidente do conselho central do Hezbe Vahdat-e-Islami (Partido da Unidade Islâmica) na altura da sua formação. (A facção Guardas Revolucionários Islâmicos separou-se do Partido da Unidade Islâmica nos anos 90.) Depois de as forças imperialistas terem ocupado o Afeganistão e instalado o regime fantoche de Karzai, Kazemi foi nomeado Ministro do Comércio. Ele terminou o ensino superior em sociologia e o seu treino político no Irão, sob a supervisão desse regime islâmico, pelo que tem sido considerado uma das mais importantes figuras relacionadas com o regime iraniano.

Essa Frente Unida tem vindo a agrupar pessoas relacionadas com os partidos Khalq e Parcham (partidos pró-soviéticos que detiveram o poder político durante a ocupação soviética), pessoas próximas do antigo monarca Zahir Shah e jihadistas relacionados com os imperialistas russos ou com a República Islâmica do Irão. Quando essa Frente Unida se formou, Karzai queixou-se publicamente que certas embaixadas estrangeiras em Cabul tinham representado um papel na sua organização. Ele estava a apontar claramente o dedo às embaixadas da Rússia e da República Islâmica do Irão.

Quem esteve por trás da explosão?

O porta-voz dos talibãs, no próprio dia em que ocorreu a explosão, anunciou que eles não tinham tido nenhum papel na mesma. O Partido Islâmico de Gulbuddin Hekmatyar não assumiu nem negou a responsabilidade. Crê-se que este partido tem tido pouca participação na resistência armada contra os ocupantes e o regime fantoche. Porém, se este partido tivesse levado a cabo esta operação, é muito improvável que não tivesse assumido a responsabilidade, uma vez que eles consideram estas operações como algo a seu favor.

Algumas pessoas dizem que os talibãs e o Partido Islâmico evitaram assumir a responsabilidade devido ao elevado número de mortos e feridos. Porém, isso também é muito improvável uma vez que, no passado, essas duas forças nunca vacilaram em levar a cabo e em assumir a responsabilidade de operações que causaram enormes perdas de vidas civis.

Depois do incidente, os responsáveis provinciais de Baghlan prenderam quatro pessoas. Três delas foram libertadas pouco tempo depois. Eles apenas mantiveram sob custódia o mulá de uma mesquita e enviaram-no para o Ministério do Interior para mais investigações.

As forças imperialistas de ocupação e os seus agentes também pouco reagiram, indicando que deram pouca importância ao incidente. Isto contrasta com o seu comportamento no passado, quando, reagindo a incidentes menos importantes e com menos mortes civis, inundaram o governo de Karzai com mensagens de condolências.

Tem havido reclamações de vários membros do Velsi Jirga que dizem que, uma vez que o Presidente Karzai ignora as decisões do parlamento, os membros do Jirga devem demitir-se e o parlamento deve ser dissolvido. Isto é uma indicação do intenso confronto entre diferentes facções do regime. Mas o incidente de Baghlan pode querer dizer que a disputa entre o governo e a oposição legal está a assumir novas e perigosas dimensões. Nos poucos anos desde a instauração do novo regime fantoche, já foram mortos um Ministro das Fronteiras, um Ministro das Minas e Indústria e dois Ministros do Turismo, vítimas da disputa entre facções dentro do regime fantoche. Também foram mortos dois membros do Velsi Jirga em resultado das lutas internas do regime.

Se o regime e os agentes da ocupação pretendem encobrir as questões relacionadas com o atentado de Baghlan, como têm feito com anteriores incidentes semelhantes, para evitarem uma intensificação do conflito dentro do regime, eles podem vir a interromper discretamente o trabalho das agências de investigação, ou então essas agências podem dar por concluído o seu trabalho sem resultados claros. Mas parece que desta vez as coisas irão ser diferentes porque a situação do regime é, em geral, pior que antes e o golpe infligido foi enorme. É por isso que o Velsi Jirga estabeleceu a sua própria comissão de investigação independente, o que torna mais difícil ao governo ignorar ou minimizar os resultados da investigação.

Se olharmos para a situação regional, vemos que a situação está a ficar extremamente complexa e intensa em relação tanto ao Irão como ao Paquistão. É muito provável que a disputa entre as diferentes facções do regime fantoche se torne cada vez mais aguda. É muito possível que as comissões de investigação do governo e do parlamento possam chegar a conclusões contraditórias, o que, por sua vez, dará lugar a uma maior tensão entre o governo e o Velsi Jirga.

Em todo o caso, o incidente de Baghlan deteriorou e expôs ainda mais que antes todo o espectáculo ridículo dos jogos de democracia que estão a ser montados pelos ocupantes imperialistas. Isto também mostra claramente que eles não têm conseguido atingir o seu objectivo declarado de estabelecerem e consolidarem um estado com os seus pilares triplos. O seu regime fantoche é verdadeiramente patético, um embaraço para eles na região e no mundo.

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese