As causas da guerra civil do Iraque, IV:
Os interesses dos EUA – e os interesses do povo
11 de Dezembro de 2006. Serviço Noticioso Um Mundo a Ganhar. (Último artigo desta série.)

IraqueOs interesses do povo em parar e em não fazer alastrar a guerra civil do Iraque são óbvios. Mas quais são os interesses dos EUA?

À primeira vista, poderia parecer que os EUA não têm nenhum interesse na continuação da guerra civil no Iraque. Eles ocuparam violentamente o país e gostariam de o estabilizar e de poderem continuar em frente com os seus planos. Mas não conseguiram impor o seu controlo e dominar o Iraque ocupado. Investiram tanto, militar, financeira e politicamente, para atingir esse objectivo porque acreditavam que o Iraque iria ser a sua porta de entrada num novo Médio Oriente controlado pelos EUA. Não admitiram a derrota nem abandonaram as suas intenções estratégicas. De facto, os seus planos no Iraque têm sido repetidamente derrotados mas eles ainda não foram derrotados. Eles farão tudo o que puderem para evitar essa derrota. Não importa que responsabilidades tenham nesta situação de guerra civil, eles querem explorá-la em seu proveito.

Por exemplo, agora têm uma nova desculpa para a ocupação, depois dos seus desacreditados pretextos das “armas de destruição em massa” e do “estabelecimento da democracia”. Agora dizem que não podem retirar as suas tropas porque “ainda não é uma guerra civil, mas haverá uma guerra civil total se retirarmos. As pessoas comer-se-ão vivas umas às outras se não estivermos aqui para as impedir. Por isso, os EUA devem isso ao povo iraquiano, não retirar as suas tropas.” Uma vez mais, é-nos dito que os EUA estão a levar a cabo esta guerra por motivos humanitários!

Muita gente já respondeu que a invasão e a ocupação lideradas pelos EUA representaram um importante papel na criação desta situação e que é a continuação da presença dos invasores que está a piorar a situação.

A maior vantagem da guerra civil para os ocupantes, acham eles, é que ela pode canalizar as energias das massas para se combaterem umas às outras e reduzirem a pressão sobre os EUA. Isto poderia criar as condições para quebrarem a espinha à insurreição. Porém, isso não se materializou como eles desejariam. Apesar do aumento do número de assassinatos de civis pelos esquadrões da morte e pelos terroristas que querem fazer alastrar a luta entre as massas, a resistência contra as forças dos EUA continua a ser muito grande e o número de vítimas norte-americanas muito elevado. De facto, em Outubro, os EUA e a Grã-Bretanha sofreram um dos totais de vítimas mais elevados desde a invasão.

Mas os estrategas dos EUA estão empenhados em planearem novas tácticas para explorarem a nova situação. Uma ideia que aparentemente está a ser discutida em Washington sob patrocínio conjunto republicano-democrata prevê um golpe de estado no Iraque. A guerra civil poderia criar uma opinião pública favorável a esse passo e talvez fornecer uma folha de parra para o facto de isso significar que os EUA estavam a admitir que a sua falsa “democracia” tinha fracassado. Diz-se que o ex-primeiro-ministro Alawi poderia vir a ser escolhido para encabeçar esse golpe e que a sua visita aos países árabes tinha sido para obter o seu apoio. As recentes abordagens dos EUA, que foram alargadas aos baathistas, também poderiam muito bem ser um passo nessa direcção.

Na realidade, o caos criado pela guerra civil no Iraque e a sua extensão a outros países poderia não ser um tão mau cenário para os imperialistas norte-americanos. Eles poderiam tentar tirar proveito disso para fazerem avançar os seus planos estratégicos para o Médio Oriente, por exemplo atacando o Irão. Isso foi quase abertamente declarado por Daniel Pipe, um importante estratega de Bush, neoconservador e furiosamente defensor de Israel, num artigo de 28 de Fevereiro de 2006 onde expôs os aspectos positivos da guerra civil do ponto de vista dos interesses dos EUA:

“A guerra civil no Iraque teria muitas implicações para o Ocidente, tais como: 1) Ser um convite à participação síria e iraniana e acelerar a possibilidade de [os EUA] se confrontarem com esses dois estados com os quais as tensões já são elevadas; 2) Acabar com o sonho de o Iraque vir a servir de modelo para outros países do Médio Oriente, diminuindo assim a pressão para a realização de eleições. Isso teria o efeito de impedir os islamitas de serem legitimados pelo voto popular, como o Hamas há apenas um mês atrás; 3) Reduzir o número de vítimas da coligação no Iraque...; 4) Reduzir o número de vítimas ocidentais fora do Iraque... quando há terroristas sunitas a atacar xiitas e vice-versa, é menos provável que sejam atingidos não-muçulmanos.” A conclusão de Pipe é chocante, mas realmente não inesperada: “A guerra civil no Iraque, em suma, seria uma tragédia humanitária, mas não uma tragédia estratégica.” (danielpipes.org)

Se os EUA não conseguirem ter êxito com uma abordagem, eles têm a flexibilidade suficiente para usar uma diferente. Mas isso não seria o mesmo que uma vitória nem levaria necessariamente a uma vitória.

Os interesses do povo

O que está a acontecer ao povo iraquiano e o que ele está a sofrer não é uma surpresa para muitas das pessoas que estiveram contra a ocupação. Talvez não soubessem que trajecto levaria a esse desastre, mas o tipo de falsa democracia e o verdadeiro domínio que os norte-americanos e os britânicos estavam a oferecer não era inédito. A História já há muito que regista os resultados desse tipo de ocupação.

Os imperialistas não só ocuparam militarmente o país e impuseram o seu domínio sobre o povo do Iraque como também levaram o país para a situação em que está hoje. O que o povo do Iraque tem visto da “democracia” norte-americana têm sido apenas bombas, balas, tortura, insultos ao mais alto grau e, no final, uma guerra civil que ameaça a própria existência do país, pelo menos na forma do Iraque que conhecemos.

Por outro lado, esta situação mostra que a luta e a resistência do povo foram sequestradas por grupos religiosos, cujo resultado inevitável são mais divisões entre o povo e mais oportunidades para os imperialistas e para outros grupos reaccionários tirarem proveito disso. O povo do Iraque, sunitas ou xiitas, não cedeu perante os ocupantes e tem resistido poderosamente à ocupação, mas os seus líderes religiosos abusam dessa resistência e procuram acomodar-se dentro do regime imposto pelos EUA e viver com ele enquanto isso for possível.

As limitações da política de base religiosa e da política de identidade étnica e as perspectivas que elas expressam têm-se mostrado integralmente mais que erradas e danosas para todo o país e o povo.

A verdadeira solução para o povo do Iraque é expulsar os ocupantes. Os EUA e os seus aliados são o principal inimigo e a principal causa dos problemas de todo o povo, ou pelo menos um factor altamente agravante. Para dizer isto de outra forma: libertar-se dos EUA é apenas um primeiro passo para libertar o povo dos seus suplícios, mas nada pode ser obtido sem se lutar por isso e se acabar por vencer. Os líderes fundamentalistas religiosos, em conjunto com as outras forças que constituem o regime fantoche e os fundamentalistas que estão a empurrar as massas contra outros sectores das massas, estão a entrar no jogo dos imperialistas e a levar o povo para desastre atrás de desastre, mesmo que o povo venha a lutar e a resistir até à sua última gota de sangue. É importante que as massas tracem uma clara linha de demarcação entre amigos e inimigos. Com quem podem elas unir-se se não com quem têm interesses comuns, sejam curdos ou árabes, xiitas ou sunitas, para conquistarem a independência, levando a cabo uma revolução de Nova Democracia contra o domínio imperialista e as retrógradas relações económicas e sociais dentro do país que o tornam presa desse domínio e unindo-se aos seus companheiros explorados e oprimidos de todos os países, numa luta comum por todo um novo tipo de mundo? Que outra coisa podem elas fazer senão lutar contra os representantes do velho mundo, sejam eles árabes ou curdos, xiitas ou sunitas? Que outro plano, realmente, podem elaborar?

Parte I: As causas da guerra civil do Iraque, I
Parte II: Terão os EUA fomentado deliberadamente esta guerra civil?
Parte III: As consequências para o Iraque e para a região
Parte IV: Os interesses dos EUA – e os interesses do povo

Fonte (em inglês): Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG), em aworldtowinns.co.uk ou no perfil facebook Awtw Nese