Karl Marx

O que dizem de mim é absurdo e cómico
Na edição de 5 de Janeiro de 1879, o jornal americano
"Chicago Tribune" publicou uma entrevista a Karl Marx.
Na sequência de eventos como a Comuna de Paris,
o movimento socialista e a agitação política europeia, o seu discurso
é particularmente elucidativo, claro e directo. Marx revela-se
ao mesmo tempo indignado e bem-humorado, utópico e lúcido



O que é que o socialismo conseguiu até hoje?
Duas coisas. Os socialistas demonstraram a existência de uma luta universal e generalizada entre o capital e o trabalho e, consequentemente, tentaram promover um entendimento entre os trabalhadores dos diferentes países. Esse entendimento é tanto mais necessário quanto os capitalistas se estão a tornar mais cosmopolitas na contratação do trabalho, admitindo trabalhadores estrangeiros em vez de trabalhadores nacionais, não só na América, mas em Inglaterra, França e Alemanha. Nasceram de imediato relações internacionais entre trabalhadores dos três diferentes países, mostrando que o socialismo é um problema internacional, e que seria resolvido pela acção internacional dos trabalhadores. As classes trabalhadoras agem espontaneamente, sem saber quais serão os fins do movimento. Os socialistas não inventaram nenhum movimento. Limitaram-se a dizer aos trabalhadores qual é o carácter e quais são os fins dos movimentos que já existem.


"Se eu desmentisse tudo
o que tem sido dito e escrito a meu respeito,
precisaria de um batalhão de secretárias."
foto Marx

Isso implica o derrube do actual sistema social.
Este sistema de terra e capital nas mãos dos empregadores, por um lado, e a mera força de trabalho nas mãos dos trabalhadores, por outro, é apenas uma fase histórica, que há-de dar lugar a uma situação social mais evoluída. O antagonismo entre as duas classes vai a par com o desenvolvimento dos recursos industriais dos países modernos. De um ponto de vista socialista já existem meios de revolucionar a actual fase histórica. A partir dos sindicatos construíram-se em muitos países organizações políticas. Na América, a necessidade de um partido dos trabalhadores tornou-se manifesta. Eles já não podem confiar nos políticos. As facções tomaram conta da legislatura e a política tornou-se um negócio. A América não está sozinha, só que o seu povo é mais decidido que o europeu. As coisas vêm à superfície mais rapidamente. Há menos fingimento e hipocrisia do que deste lado do oceano.

Diz-se que é o cérebro e o chefe do socialismo, e que da sua residência puxa os cordelinhos de todas as associações e revoluções que estão a acontecer. O que tem a dizer sobre isso?
Eu sei que dizem isso. É bastante absurdo, mas tem um lado cómico. Se eu desmentisse tudo o que tem sido dito e escrito a meu respeito precisaria de um batalhão de secretárias.

Têm-lhe sido atribuídas, a si e aos seus apoiantes, todo o tipo de declarações incendiárias contra a religião. É claro que queria ver todo o sistema destruído.
Sabemos que as medidas violentas contra a religião não fazem sentido. À medida que o socialismo cresce, a religião vai desaparecer. Mas o seu desaparecimento terá de se fazer pelo desenvolvimento social, no qual a educação tem um papel importante.

Atribuem-lhe também afirmações, segundo as quais nos EUA, na Grã-Bretanha e talvez na França pode acontecer uma reforma do trabalho sem uma revolução sangrenta, mas que terá de haver derramamento de sangue na Alemanha, na Rússia, Itália e na Áustria.
Não é preciso ser socialista para prever uma revolução sangrenta na Rússia, na Alemanha, na Áustria e possivelmente na Itália, se os italianos continuarem a política actual. Os acontecimentos da Revolução Francesa podem acontecer de novo nesses países. Isso é evidente para qualquer estudante de política. Mas essas revoluções serão feitas pela maioria. Nenhuma revolução pode ser feita por um partido, mas por uma nação.

Mas é verdade que escreveu com simpatia acerca dos communards de Paris?
Claro que sim, por causa do que tem sido escrito acerca deles em artigos de fundo. Mas os artigos dos correspondentes em Paris dos jornais ingleses são mais do que suficientes para refutar as asneiras propagadas nos editoriais. A Comuna matou apenas cerca de 60 pessoas; o Marechal Mac Mahon e o seu exército sanguinário matou mais de 60 mil. No entanto, nunca houve um movimento tão caluniado como o da Comuna.

Então, para fazer triunfar os princípios do socialismo, os seus defensores advogam o assassínio e o derramamento de sangue?
Nenhum grande movimento se fez sem derramamento de sangue. A independência da América fez-se com derramamento de sangue, Napoleão conquistou a França por meios sangrentos e foi derrubado do mesmo modo. A Itália, a Inglaterra, a Alemanha e todos os outros países dão provas disto. E quanto ao assassínio, não preciso de dizer que não se trata de coisa nova. Orsini tentou matar Napoleão; os reis mataram mais gente do que ninguém; os Jesuítas mataram; os Puritanos mataram no tempo de Cromwell. Esses actos foram todos perpetrados ou tentados antes de o socialismo nascer. No entanto, todas as tentativas que agora são feitas contra a realeza ou os dignitários do Estado são atribuídos ao socialismo. Os socialistas lamentariam muito a morte do Imperador da Alemanha, neste momento. Ele é muito útil onde está. E Bismarck tem feito mais pela nossa causa do que qualquer outro estadista, ao levar as coisas ao extremo.


Este texto é uma adaptação de Pedro Mexia
à entrevista realizada por «H.» do Chicago Tribune
[em "Notícias do Milénio"]


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