Artigo reproduzido do nº 28 (2002) de "Um Mundo A Ganhar" ("A World to Win", www.aworldtowin.org), uma revista inspirada pela criação do Movimento Revolucionário Internacionalista (MRI):

Perigos e Oportunidades:

A VIOLENTA RAPINA GLOBAL DOS EUA
E A RESISTÊNCIA DOS POVOS

Por Fátima Resolução

1. Abre-se um Novo Capítulo

A terça-feira, 11 de Setembro de 2001, poderá vir a ser recordada na história como o dia em que os EUA declararam guerra contra o mundo. Tal como o incêndio do Reichstag na Alemanha nazi1, os acontecimentos desse dia proporcionaram, no mínimo, uma oportunidade avidamente aguardada para a implementação de medidas que já estavam em preparação. George Bush, que há muito tinha começado a formar um gabinete de guerra, avançou com o anúncio do novo consenso que une grande parte da classe dominante dos EUA. O objectivo não tem precedentes: um mundo, um império.

A tentativa dos Estados Unidos para redefinir pela força as relações mundiais é a característica central da situação política actual, quer nos países onde o exército dos EUA já mata gente ou se prepara para tal, quer no mundo em geral. Ela está a lançar uma sombra negra sobre todos os aspectos da vida social, incluindo filmes e jogos desportivos, como foi possível testemunhar na obsessão política e sanguinária das Olimpíadas de Salt Lake City.

O aspecto principal desta situação é que ela representa um novo nível de violência indisfarçada contra as nações e povos oprimidos. Os EUA decidiram-se a representar o papel de "polícia do mundo" de um modo qualitativamente novo, a usar a sua capacidade de projectar uma força militar global para impor e organizar a exploração globalizada através de uma intervenção militar com a qual nenhuma outra potência pode rivalizar. Bush anunciou que as nações oprimidas não têm qualquer direito que os Estados Unidos tenham de respeitar. Proclamou uma guerra aberta contra todos os que não "partilham os nossos valores" - ou seja, que não se vergam às ordens dos EUA. Com pouco respeito pela soberania, pelo direito internacional ou por qualquer outra restrição, os EUA estão a enviar tropas e a afirmar o seu direito a constituir e derrubar à vontade governos do Terceiro Mundo para impor os seus interesses.

Outro aspecto é o de que a cruzada também é dirigida contra anteriores "aliados" dos EUA. Na tentativa de estabilizar o "ambiente económico global", os EUA estão a actuar no interesse de todos os países capitalistas monopolistas, pequenos e grandes. Todavia, e ainda que até agora Bush tenha tomado cuidado para evitar o isolamento, todos os que antes eram vistos como aliados dos EUA foram despromovidos ao estatuto de membros de coligações ad hoc, onde são admitidos segundo o bel-prazer dos EUA e sob a condição de serem estes a ficar com a parte de leão da pilhagem. Mesmo a própria NATO é agora uma mera sombra do que foi.

Para os povos do mundo, os perigos desta situação são óbvios. O imperialismo, sob a auto-imposta liderança dos EUA, está disposto e em condições de intervir directamente onde quer que os seus interesses o exijam, utilizando a força de uma forma concentrada, numa escala que não seria possível em anos recentes, e também impondo uma repressão interna de uma forma que, até muito recentemente, seria considerada de grandes custos em termos políticos.

Embora os povos do mundo sejam o derradeiro objectivo dos imperialistas, até agora os seus objectivos imediatos têm sido em grande parte ex-lacaios e outros reaccionários menores que escaparam de uma forma ou outra ao seu controlo. Isto tem espalhado a confusão e mesmo o cinismo, já que as massas se encontram perante uma escolha que não é de modo algum uma escolha. A mobilização do poderio militar imperialista sob a liderança norte-americana e a situação política concomitante (incluindo a mistura de confusão e medo, e mesmo a desmobilização entre algumas forças de oposição) significa que estamos agora face a um inimigo temível ansioso pela batalha, pelo menos pelas batalhas que possa travar em terrenos favoráveis.

As batalhas contra as massas revolucionárias e as guerras populares são um terreno desfavorável para os imperialistas e eles sabem-no - e esta é uma razão por que os imperialistas acolheram o 11 de Setembro como uma oportunidade especial. Mas não importa o que eles possam querer, já que se estão a converter no alvo das contradições mundiais e a unir os povos do mundo contra si. Estão uma vez mais a demonstrar aos povos do mundo que, como Mao escreveu: "O poder político está na ponta da espingarda".

Os imperialistas dos EUA estão determinados a aproveitar as oportunidades providas pelo desequilíbrio sem precedentes das forças militares no mundo de hoje, ainda que os perigos que enfrentam sejam tudo menos históricos. Eles compreendem que, para atingirem a nova ordem mundial com que sonham, o mundo terá que passar antes por muita desordem. Estão a aprontar-se para tal, o que inclui prepararem-se para esmagar a resistência na sua própria "pátria". Mas é um jogo arriscado, e traduz um desespero extremo. Se falharem na sua destruidora abertura do caminho para uma "dominação de espectro total", nas palavras do Pentágono, nas esferas militar, política e, em última instância, económica, arriscam-se a perder tudo. A longo ou até mesmo a médio prazo, a hegemonia dos EUA sobre os outros imperialistas não pode durar. Nas palavras ásperas de um representante francês numa discussão acerca das actuais relações entre os EUA e os europeus, "é insustentável". Mais importante ainda, a disputa norte-americana por uma nova ordem mundial está a pôr em questão as relações de poder existentes, gerando perturbações e apelando à resistência numa escala global. O turbilhão destas diferentes contradições pode escapar totalmente ao controlo dos imperialistas, mesmo no território dos próprios EUA, e resta saber quem emergirá vitorioso das tempestades e do caos que se avizinham.

2. 1989-2001: A Economia, a Política e as Armas da Globalização

A política é a expressão concentrada da economia, como mostrou Lenine, e a guerra é a continuação da política por outros meios. Os objectivos da guerra para os EUA têm pouco a ver com a queda do World Trade Center e muito a ver com o comércio mundial e o investimento global2.

O sistema imperialista não mudou de um modo fundamental desde o séc. XIX, quando a indústria e a banca se fundiram para formar o capitalismo monopolista e os países ricos ficaram sob a dominação de um punhado de magnatas financeiros. Desde então o mundo tem estado marcado pela mais intensa competição entre monopólios rivais e países capitalistas monopolistas, pela exportação de capital em busca de um nível de lucros não obtenível nos próprios países imperialistas, pela divisão do mundo em países imperialistas e em países que eles oprimem, pela divisão do mundo entre as grandes potências e pelo esforço constante dos países imperialistas para repartir o mundo do modo que lhes for mais favorável. E, mais importante, em última análise, tem estado marcado pelo aparecimento da revolução proletária mundial.

Este é um sistema que devora os recursos naturais, dilacerando um planeta destroçado e especialmente o trabalho dos povos do mundo, incluindo simultaneamente a exploração nos países imperialistas das mais-valias obtidas em países onde são mantidos salários extremamente baixos pela persistência de condições semifeudais, de uma economia desarticulada, da opressão nacional e de uma completa falta de direitos políticos. Também é um sistema onde a paz e o lucro são incompatíveis, onde as "ordens mundiais" aparecem ou desaparecem à medida que os imperialistas sujeitam as suas vítimas e a sua força relativa variável é constantemente testada pela guerra.

Em resumo, é um sistema de relações de poder globais baseadas na força.

Durante o período da "Guerra Fria", a hegemonia dos EUA entre as potências ocidentais não era disputada. Havia dois blocos políticos rivais definidos com relativa clareza, e em cada lado só um país poderia conduzir uma guerra nuclear. Alguns países europeus poderão não se ter sentido felizes no papel de parceiros júnior dos EUA, mas a única alternativa era jogar como júnior da União Soviética - e esse tipo de troca não seria permitida3. Do mesmo modo, a maior parte dos países oprimidos estava claramente dividida entre os dois blocos políticos, e o mais leve desafio a esse alinhamento originou ferozes reacções. Quando em 1970 a eleição de Allende no Chile ameaçou estender a influência soviética na América Latina, Washington desencadeou assassinatos em massa4.

E, de repente, um bloco todo-poderoso encolheu-se como uma teia de aranha com um fósforo.

Simplificando, a URSS teve um controlo e uma influência militar e política sobre uma grande parte do mundo, mas faltaram-lhe suficientes recursos de capital para tirar proveito total desse facto, enquanto o Ocidente não pôde de forma lucrativa exportar capital para regiões onde não tinha o controlo político e militar necessário (como a Índia, por exemplo), e as suas opções económicas estavam limitadas pela necessidade de se escorar dos seus rivais soviéticos (na Europa de Leste, por exemplo). A queda da URSS - que foi de várias maneiras uma vítima da crise económica subjacente que borbulha por todo o sistema imperialista, no Leste como no Oeste - desfez em grande parte do mundo arranjos geopolíticos anteriormente congelados. Isto, juntamente com a aplicação de novas tecnologias desenvolvidas em grande parte durante a preparação para a guerra mundial, à qual foi concedida uma súbita pausa, desencadeou novas oportunidades para a expansão global que trouxe uma década de prosperidade para alguns e que piorou mais dramaticamente a miséria para mais biliões.

A queda da URSS produziu as condições políticas para um salto qualitativo nas tendências económicas já em curso. Agora o capital imperialista poderia penetrar completamente muitos dos mercados mundiais, explorar o trabalho que antes lhe fora negado, e fazê-lo com uma intensidade que não fora possível previamente. Muitos chamaram-lhe "globalização". O fabrico e a distribuição poderiam ser organizados num novo patamar pelo mundo inteiro; o capital financeiro começou a fluir além das fronteiras nacionais a uma velocidade e com um volume sem precedentes; e mesmo as políticas macroeconómicas puderam ser coordenadas entre as potências imperialistas e impostos aos países deles dependentes. Por exemplo, a Indonésia, a Tailândia, a Coreia e os outros países do Sueste Asiático, atendendo às "histórias de sucesso" do desenvolvimento mundial nos anos 1990, pareceriam ter as suas próprias indústrias e economias independentes, mas o colapso que resultou da deslocação abrupta do capital financeiro imperialista para outros locais, à procura de oportunidades especulativas, revelou profundas relações.

A exportação de capital foi, durante muito tempo, uma característica do sistema imperialista, seja de forma directa - como com a propriedade britânica do sistema de caminhos-de-ferro da Índia, ou com a propriedade francesa das plantações de borracha, ou com a propriedade belga das minas do Congo - seja de forma indirecta, através do crédito privado e público que sangram o trabalho do povo de um dado país e permitem ao capital financeiro estrangeiro extrair lucros mesmo onde não tem propriedade formal dos meios de produção. Mas o capital imperialista foi além da agricultura e das matérias-primas, e além do controlo indirecto da produção para o mercado local (através da fraude da "substituição da exportação", onde o governo local possuía a produção mas o capital imperialista dava o tom e colhia os lucros), para novos tipos de trabalho globalmente organizado para o mercado global.

Muito frequentemente isto envolve investimento estrangeiro directo (os EUA e o Japão detêm fábricas na China, por exemplo). Outra forma que se vem tornando comum é o "outsourcing", através do qual a fabricação individual de partes e componentes, e por vezes de toda a linha do produto, é feita através dos "contratadores independentes" do Terceiro Mundo, completamente dependentes da importação de bens financeiros do Ocidente. Nestes casos, o "cliente" imperialista é rei, controlando todos os aspectos do processo em tempo real e em pormenor, da mesma maneira que a McDonald's controla as saídas da venda a retalho dos seus concessionários supostamente independentes. Neste momento, os capitalistas ocidentais podem desfrutar o privilégio de explorar homens, mulheres e crianças do Terceiro Mundo, não só nas grandes multinacionais, mas também nas empresas de tamanho médio e até mesmo em algumas de pequena dimensão.

Com o advento das comunicações digitais, foram criados novos sectores para bombear lucros para o Ocidente. Um dos mais dinâmicos é o "outsourced business services". Corporações de todos os géneros têm centros de apoio aos clientes em "offshore", centros de tratamento de dados, parques de desenvolvimento de software, etc. Assim, muito do trabalho do "escritório particular", antes executado com salários de nível ocidental, custa agora muito menos, graças ao atraso e à miséria em que estes países estão encarcerados, reforçando a rentabilidade para as companhias envolvidas e para o capital imperialista como um todo.

A prosperidade do "boom" da era Clinton não se construiu em Wall Street ou em Silicon Valley, mas nas fábricas de trabalho miseravelmente pago ao longo da fronteira com o México, nas fábricas das "zonas de comércio livre" do sudeste da China e da República Dominicana, nas lojas de vestuário da Turquia e do Bangladesh, nos complexos de escrita de programas de computador em Bangalore, e assim por diante. Também estava enraizada na polarização adicional do proletariado explorado nos próprios países imperialistas, e talvez mais dramaticamente nos próprios EUA.

Contudo, este desenvolvimento globalizado enfrentou alguns problemas interligados embora diferentes, na esfera económica e na esfera política.

O primeiro tem a ver com as leis de capitalismo como sistema, cuja sobrevivência depende muito de uma crescente exploração extensiva e intensiva. Apesar da prosperidade para alguns e da propaganda para todos relativa ao boom dos anos 90, e dos avanços verificados no crescimento e na produtividade do sistema imperialista global, comparativamente ao período desde o início dos anos 70 até à queda da URSS, a taxa de crescimento mundial não voltou às médias atingidas nas três décadas que se seguiram à Segunda Guerra Mundial. O nível de produtividade relativamente baixo tornou-se um sério obstáculo à expansão. No final da década tornou-se claro que o "boom" da era Clinton não podia ser mantido sem um salto qualitativo adicional na penetração dos países oprimidos.

Mais, para os EUA, como para qualquer capitalista, o problema não é a rentabilidade global do sistema, mas a sua partilha dos lucros. O capital europeu e o capital japonês pressionam os EUA como nunca o haviam feito. Em 1950 os EUA detinham metade da produção mundial; em 1996 limitavam-se a 20 %. Isto não é exactamente o que pode parecer, já que os EUA controlam muito do que é produzido noutros lugares do mundo. Mas tornou-se incontestável que a força económica exclusiva dos EUA já não podia permitir-se deter a maior parte do mercado e das oportunidades de investimento face aos outros parceiros imperialistas. Mesmo na sua própria esfera histórica de influência, na América Latina, o capital dos EUA já não desfruta de uma posição de monopólio5.

Ao mesmo tempo, o próprio processo de globalização tem gerado violentos tumultos e resistência. A penetração do capital imperialista está a deteriorar o tecido social, país atrás de país, minando a base económica, social e política dos regimes de que a referida penetração depende. Certas características desta situação são comuns em todo o Terceiro Mundo6.

A força do capital imperialista e o seu derrube das barreiras de mercado arrastou alguns países da auto-suficiência de cereais para a dependência, enquanto noutros, os modos de vida camponeses foram destruídos por importações de trigo. Em muitos países, partes significativas das classes médias observam que as promessas oferecidas pela globalização se esvaziaram como o ar de um balão. Têm MTV e cafés com Internet mas não têm nenhuma esperança acerca do tipo de vida a que assistem nas séries da televisão norte-americana e, às vezes, quase não vislumbram qualquer futuro. Até mesmo entre as classes altas houve uma sensação crescente de humilhação. Por exemplo, como se sabe agora, sectores dos estratos superiores na Arábia Saudita consideraram intolerável a degradação nacional imposta pelos EUA.

Tem-se verificado que é difícil substituir alguns dos regimes-chave que durante décadas mantiveram os respectivos países sob a alçada do imperialismo. Suharto, na Indonésia, por exemplo, conseguiu o poder através da CIA por cima dos corpos de muitas centenas de milhares de comunistas e outras pessoas assassinadas, e foi uma âncora para os EUA no sueste da Ásia. A integração crescente da economia da Indonésia no sistema financeiro e de investimento imperialista, que era suposto ser uma fonte de estabilidade e de lucros, criou, ao invés, maior instabilidade. Quando o regime foi ameaçado por revoltas e lutas de rua, os EUA introduziram um novo fantoche, mas o sistema de alinhamentos de classes e de grupos nos quais assentava a dominação dos EUA não pôde ser reposto. A queda de Mobutu no Zaire colocou problemas semelhantes aos imperialistas.

O México, a Argélia (especialmente o povo da Cabília) e a Coreia do Sul também vêm sendo varridos por rebeliões e levantamentos. No Médio Oriente, a determinação dos palestinianos em se erguerem como seres humanos a qualquer preço modificou toda a estrutura de dominação imperialista através de Israel e dos seus ajustes com os regimes dependentes do petróleo, convertendo-se num problema sem solução para os imperialistas. A América do Norte e a Europa testemunharam protestos contra a globalização de uma dimensão e combatividade não vistas em décadas recentes.

Elevada instabilidade, descontentamento crescente, vagas de resistência e, em alguns lugares, luta armada e até mesmo guerra popular - assim se descreve a maior parte do mundo na véspera do 11 de Setembro. Como analisava o Movimento Revolucionário Internacionalista em 2000: "Ainda que não estejamos a atravessar a mesma maré cheia de luta revolucionária à escala mundial que testemunhámos no passado e que seguramente veremos de novo, podemos falar com confiança de uma nova vaga da revolução proletária mundial que emerge". ("Entrevista com o Comité do MRI", AWTW 2000/26.)

Todos os imperialistas têm enfrentado problemas semelhantes em graus variados, que só os impediram de enviar tropas e "esmagar os nativos". Em primeiro lugar, a maioria deles não o poderia fazer, mesmo que quisessem - os seus exércitos foram estruturados para lutar numa guerra mundial inter-imperialista, mais precisamente com a União Soviética, e não, como se verá, para o tipo de guerras que precisam de fazer na actualidade. Associado a isto, todos eles, de modos diferentes, têm que lidar com sentimentos populares fortes contra estes tipos de guerras, um legado, entre outras coisas, do envolvimento nas longas e fracassadas guerras coloniais dos anos 1950 e 1960, especialmente a do Vietname.

Mas a necessidade de uma mais directa intervenção imperialista foi-se tornando crescentemente clara a todos eles. Nos anos 90, aconteceu sob o pretexto de "tarefas humanitárias" e de protecção dos "direitos humanos". Surgiu em França o conceito de "direito de intervenção", que secundariza a soberania nacional de determinados países face à importância universal dos direitos humanos. O significado prático deste conceito sob as circunstâncias do mundo actual foi concretizado quando o ex-radical francês e fundador dos Médicos Sem Fronteiras, Bernard Kouchner, foi designado o administrador civil da ocupação da NATO no Kosovo. O mundo anglo-saxónico, como sempre, é mais embotado: a tradução inglesa do "direito de intervenção" é aquilo a que o bardo do colonialismo britânico, Rudyard Kipling, chamou "o fardo do homem branco". Esta ideia tem vindo a ser reciclada sob a capa humanitária como o doloroso dever do Ocidente de socorrer nações menos afortunadas. Alguns peritos começaram a congregar-se em torno do termo "recolonização", simbolizada pelo circuito por anteriores colónias britânicas em África realizado em 2002 por Tony Blair. Até mesmo a prisão de Pinochet, o líder do golpe de 1973 no Chile, pode ser vista como parte desta criação de uma atmosfera na qual os países imperialistas autoproclamam a sua superioridade moral, que poderia ser estendida à superioridade legal... com implicações políticas e militares muito reais, ainda que subtis7.

Ao mesmo tempo, tem sido a rivalidade entre as potências imperialistas o factor principal que impede a imposição das condições de exploração de que todos eles necessitam. Isto ficou claro no desmantelamento da Jugoslávia em que a Alemanha, a França, a Rússia e os EUA rivalizaram na pilhagem8; nas horrendas guerras por procuração na África Central onde coube à rivalidade EUA-França o papel principal no genocídio; e na Colômbia onde o apoio europeu de ocasião (especialmente alemão) aos movimentos de guerrilha impediu os EUA de "pacificarem" o país e de o "tornarem seguro para o investimento estrangeiro". Mas também parece ser verdade de um modo mais vasto em grande parte do Terceiro Mundo - a rivalidade entre os imperialistas foi um impedimento à imposição da estabilidade política de que todos eles precisavam.

A questão dos regimes nos países oprimidos é a chave para tudo isso. Sem estruturas políticas e militares que o constranjam, o capital local não pode ser subordinado e as aspirações dos povos não podem ser suprimidas. O estado neocolonial é a mais fundamental das estruturas de dominação do imperialismo. Há poucos locais no mundo actual onde outra potência imperialista, que não a norte-americana, possa impor o seu próprio regime. Isso tem consequências sérias ao nível das oportunidades de exploração por parte da potência dominante e das suas relações com os outros exploradores imperialistas. Como disse Lenine, sob o imperialismo, o mundo só pode ser dividido tendo em conta o poder militar relativo das potências que fazem a pilhagem.

3. Desenvolvimento desigual

Um relatório escrito em 2001 sob a direcção do Secretário norte-americano da Defesa Rumsfeld previa que o investimento cada vez mais globalizado produziria um crescente "distanciamento entre os que tudo têm e os que nada têm", mas que "a sinergia da superioridade no espaço com a superioridade em terra, mar e ar" dos Estados Unidos poderia "proteger os interesses e investimentos dos EUA" e dar-lhes "uma vantagem militar extraordinária". Uma vantagem contra os que resistem a ser globalizados, por um lado. Uma vantagem sobre os outros rivais imperialistas dos EUA, por outro.

Quando o World Trade Center e o Pentágono foram atingidos, as potências da NATO invocaram, pela primeira vez na sua existência, uma cláusula do tratado que significava considerarem que o ataque tinha sido contra todos os estados membros. Mas quando os EUA invadiram o Afeganistão e todas elas quiseram partilhar o sanguinário banquete, foi-lhes dito sem cerimónias: "não nos chamem; nós chamar-vos-emos". As disponibilizações de tropas de França, da Alemanha e de Itália foram inicialmente desprezadas. Finalmente, os EUA encarregaram a Grã-Bretanha de uma força claramente não-NATO limitada a Cabul e ficaram com o resto para si. De seguida, sem convidar mais ninguém, os EUA enviaram tropas para as Filipinas, uma sua ex-colónia, e declararam que o próximo objectivo era o Iraque, apesar da oposição a essa guerra de quase todos os outros países da NATO. As relações dos EUA com os seus ex-aliados da NATO ficaram tão tensas que o Ministro alemão dos Negócios Estrangeiros reclamou que "os membros da Aliança não são satélites", considerando que os EUA estavam a tratar a nova Alemanha unificada do mesmo modo que a antiga URSS tratava a Alemanha de Leste.

Será que o ministro alemão se opõe à guerra norte-americana no mundo? Como o resto dos seus parceiros europeus, ele de facto defende-a e dá o seu melhor para que o seu país lá esteja9. O problema é que os países europeus não estão militarmente em condições de se juntarem à agressão desencadeada pelos EUA de um modo que fizesse diferença e, na ausência desse poderio bélico, os EUA não só se desinteressaram da sua ajuda, como usaram mesmo a sua superioridade para servir os seus próprios interesses, independentemente dos outros e mesmo em oposição a eles. Neste momento, os outros imperialistas não têm outra escolha senão pagar um preço indesejável por um serviço do qual dependem.

Nenhum outro país pode competir com os EUA em termos de "projecção de poder" - a capacidade de enviar tropas e equipamento depressa e maciçamente. Isso inclui agora a Rússia - e isso marca uma mudança significativa no mundo após a Guerra do Golfo. A anterior URSS desintegrou-se e o seu poderio militar desabou quando a base económica em que assentava se revelou incapaz de o sustentar. Por exemplo, a desorientação associada ao naufrágio do submarino Kursk, demonstrou como pouco restou da outrora poderosa marinha nuclear da Rússia10. A Alemanha foi humilhada nas suas tentativas precoces de estabelecer um precedente enviando tropas de combate para o Afeganistão, quando o transporte aéreo foi inviabilizado por vários dias devido ao mau tempo. Teve de pedir emprestados Ilyushins de fabrico russo para fazer chegar abastecimentos ao Afeganistão. De facto, pelo menos neste ponto, a Europa nem sequer fabrica aviões de transporte militares para competir com os de longo alcance e de transporte de tropas dos EUA, e se os tivesse que comprar à Boeing tal acarretaria o fim da sua articulação de esforços para rivalizar com os esforços dos EUA para monopolizar a construção de grandes aeronaves (um monopólio de significado económico e militar estratégico). As tentativas para conseguir uma força europeia conjunta têm dado em nada. Só a França tem aperfeiçoado a sua capacidade para enviar tropas das forças especiais para massacrar e tiranizar pequenos países, especialmente em África11. Além da Rússia, só duas outras potências, Inglaterra e França, têm mísseis nucleares e uma marinha nuclear12. A Inglaterra é hoje o único aliado a longo prazo dos EUA, devido à "relação especial" que envolve profundamente capitais britânicos e norte-americanos13. Londres está mais perto de Manhattan que de Paris. Quanto à França, por vezes descrita como aquilo que na actualidade mais se assemelharia a um rival para os EUA, o seu único porta-aviões com capacidade nuclear e ícone do estatuto nuclear do país, o Charles de Gaulle, passa tanto tempo em reparações como a navegar pelos mares.

Porque deveriam os governantes dos EUA contentar-se com uma "política de coligação" quando eles têm quase o monopólio dos meios de intervenção militar em massa? O seu orçamento militar é maior que o de todos os seus potenciais rivais combinados; os seus gastos vão subir 15 por cento só no orçamento do próximo ano - cerca de 50 biliões de dólares, o maior aumento em duas décadas e uma quantia que só por si ridiculariza os gastos militares da maioria das potências da NATO. Em Fevereiro, na conferência internacional de Munique sobre segurança, o secretário-geral da NATO considerou que as potências europeias se arriscam a ser reduzidas ao estatuto de "exército pigmeu". O International Herald Tribune noticiou a seguinte ocorrência: "Quando um participante alemão expressou a sua intranquilidade sobre as ameaças dos EUA contra o Iraque, [o representante dos EUA] McCain ripostou, 'Eu diria ao nosso amigo alemão para sair e comprar algumas armas' antes de questionar as intenções ou o poderio dos EUA".

Já muito foi dito acerca do desenvolvimento de uma nova doutrina militar em que a combinação do poder industrial simples (gigantescos aviões de transporte de tropas, bombardeiros de longo alcance, helicópteros de guerra e outras aeronaves especializadas) e da alta-tecnologia (bombas de elevada precisão e mísseis de cruzeiro guiados por satélite e os apropriadamente denominados parasitas-predadores - "Predator drones" em inglês -, comunicações digitais avançadas e inteligência electrónica) poderiam tornar possível a pequenos contingentes de tropas de operações especiais actuar em conjugação com a carne para canhão local, lutar de modo a reduzir a necessidade de cooperar com os outros imperialistas e ainda assim mantendo reduzido o número de baixas entre os norte-americanos. Esta é uma doutrina militar especificamente projectada para lutar internamente e com as anteriores colónias, não uma guerra mundial inter-imperialista. Nenhuma outra potência imperialista tem um tal exército, e nenhuma, pelo menos por agora, pode dispor do tipo de rápidas reformas das suas forças armadas que a administração Bush está determinada a conseguir nos próximos cinco anos, com um custo de um quarto de bilião de dólares.

Mas este desequilíbrio militar existe em grande parte por razões históricas, em particular pela divisão militar do trabalho desenvolvida pelas potências da NATO durante o período em que se preparavam para uma guerra contra o bloco soviético na Europa central, e esse desequilíbrio não pode manter-se. Mais de 3% do produto interno bruto dos EUA é gasto anualmente em despesas militares directas (não contando pagamentos de empréstimos de anteriores gastos, pensões militares, etc.). Isto representa duas vezes a média europeia - mas nos últimos anos a Grã-Bretanha e a França não ficaram muito atrás e por vezes chegaram a equiparar-se. A Alemanha e o Japão também têm uma nova trajectória. De facto, a doutrina Bush não pode senão dar um novo alento militarista à Europa e ao Japão. Por exemplo, o Presidente francês Chirac pediu recentemente à Europa que desenvolvesse o seu próprio sistema de satélites de posicionamento geográfico (GPS), chamado Galileo, de elevados custos, em vez de ficar na dependência do sistema GPS dos EUA num conflito militar, com o risco acrescido, afirmou Chirac, de se tornarem "vassalos" dos EUA. Ainda que inicialmente relutante, a Alemanha decidiu apoiar este grande esforço.

Por um lado, a Europa é economicamente aproximadamente igual aos EUA, e não há nenhuma razão para que o actual desequilíbrio militar continue indefinidamente. Por outro lado, actualmente tal desequilíbrio existe. Essa foi uma razão que levou os EUA a agir, se não num qualquer dia específico de Setembro, pelo menos em breve.

4. De Superpotência a Unipotência

Um conjunto de adeptos da guerra, agora confortavelmente instalado no gabinete de Bush, começou a teorizar uma nova ordem mundial no início dos anos 90. O seu principal argumento é que a rendição do principal rival dos EUA, a URSS, foi tão fácil que os EUA negligenciaram levar a cabo a outra metade do que precisavam fazer - deixar de se preocupar com os seus "aliados" e tomar de assalto o mundo inteiro.

Em 1992, Paul Wolfowitz, agora adjunto de Rumsfeld, e L. Lewis Libby, agora conselheiro de segurança nacional do vice-presidente Cheney, escreveram um relatório confidencial para o Pentágono intitulado Guia de Política de Defesa 1992-1994. Apelavam a que se "impedisse qualquer 'potência hostil de dominar grandes regiões' cujos recursos permitiriam atingir um estatuto de grande poder, desencorajasse tentativas por parte das nações industriais avançadas de desafiar a liderança dos EUA ou a transformar a ordem política e económica estabelecida, e impedisse o aparecimento de um futuro potencial competidor global"14. Esse relatório cunhou a frase "dominação benigna" - quer dizer, benigna para os outros imperialistas.

Embora esse documento secreto tenha sido escrito logo após a guerra com o Iraque e não muito depois do colapso da URSS, os objectivos postulados não eram possíveis nem necessários há uma década atrás, da mesma maneira que o são agora, pelas razões indicadas - por um lado, o declínio posterior do poderio da Rússia e, por outro, a crescente necessidade aguda de intervir no Terceiro Mundo e as contradições entre as potências imperialistas. Mas é agora a política conjunta da classe dominante dos EUA - pelo menos enquanto parecer que resulta. A posição dos seus autores dentro da equipa de Bush, em que os postos-chave estão ocupados por figuras militares ou por civis com um longo currículo como peritos militares e veteranos da "segurança nacional" ligados a esta linha, constitui testemunho da adopção consciente desta nova linha.

A advertência de Bush de que "ou estão connosco ou contra nós" é dirigida tanto contra o "inimigo" como contra os ex-"amigos". Um "membro da administração" dos EUA não identificado punha as coisas deste modo, interpretando as observações do general Colin Powell acerca das precauções dos ex-aliados dos EUA sobre a invasão do Iraque: "Nalgum momento, os europeus com borboletas no estômago - muitos dos quais quiseram ver-nos entrar no Afeganistão - verão que têm uma escolha bipolar: podem estar com o projecto ou afastar-se"15. Afastar-se, aqui, significa sair do caminho dos EUA ou desaparecer. Depois da queda do bloco soviético, muito se disse acerca do aparecimento de um mundo multipolar. O plano de Bush é para um planeta unipolar.

Desde a Alemanha nazi que não voltara a existir uma proposta aberta para a hegemonia mundial. Ou talvez seja mais correcto dizer que desde o fim da Segunda Guerra Mundial, quando os EUA começaram a preencher o lugar deixado pelo passado colonial dos seus dois ex-inimigos (a Alemanha e o Japão) e dos seus aliados (a Grã-Bretanha e a França) - mas tiveram então um opositor de peso, o bloco socialista liderado pela União Soviética, depois transformada pela contra-revolução num bloco social-imperialista (socialista em palavras, imperialista nas acções), rival de igual estatura aos EUA.

O processo de descomprometimento dos EUA em relação às obrigações internacionais começou bem antes do 11 de Setembro, com a rejeição norte-americana de quase todos os tratados e convenções internacionais formulados. Em retrospectiva, a decisão de Bush de retirar os EUA do acordo de Quioto de 1997 foi uma das primeiras mensagens especiais acerca das intenções norte-americanas perante um mundo incrédulo: os EUA não permitiriam ver-se restringidos de qualquer forma, mesmo que fosse acerca da questão do seu sagrado direito a poluir. Havia também uma mensagem ideológica - nada é mais importante que o lucro, e os dirigentes dos EUA têm tanto desprezo pelo planeta como pelos seus povos. Um acontecimento igualmente chocante em diplomacia internacional ocorreu quando os EUA recusaram assinar um pacto internacional contra a lavagem de dinheiro e a fuga aos impostos. As razões para tal só vieram a lume mais tarde, quando o escândalo da Enron revelou como se tornara vital para o funcionamento das multinacionais a utilização dos bancos "offshore" sem regras. Mesmo antes de Bush, os EUA já haviam rejeitado tratados internacionais contra o desenvolvimento de armas biológicas - os mesmos EUA que ameaçam arrasar o Iraque para forçar Saddam Hussein a receber os inspectores internacionais de guerra biológica que são barrados do território norte-americano. Os EUA também inviabilizaram uma convenção que teria convertido o Tribunal Penal Internacional numa instituição permanente, apesar de darem a sua aprovação ao actual julgamento de Milosevic. Objectaram com o fundamento de que tal tratado poderia significar que algum dia soldados ou oficiais norte-americanos poderiam ser acusados de crimes de guerra e, assim sendo, pediram a abolição do Tribunal.

A administração Bush inverteu o curso que fora traçado pelo pai Bush e por Clinton quanto a armas nucleares. Em vez de destruir mísseis para emparelhar com o número destruído pela Rússia, os EUA puseram-nos de lado para "manutenção da segurança" e aumentaram os gastos no desenvolvimento de novas armas nucleares. Os EUA estão mesmo a considerar a retomada de testes de aperfeiçoamento de bombas nucleares. A classe dominante dos EUA também ratificou outro projecto de Bush, que lhe é querido desde os seus primeiros dias na administração, o de reavivar o plano de Ronald Reagan para um sistema de mísseis antibalísticos. Ao contrário dos seus predecessores, Putin aceitou-o sem protesto - com muita consternação dos governos da Europa continental. A renovada necessidade norte-americana por estas armas e pelo antes desacreditado sistema de ABM não vem de quaisquer segundos pensamentos acerca dos perigos da antiga União Soviética ou de quaisquer estados "malvados", como o único país a ter usado armas nucleares gosta de dizer. Na actualidade, nenhum estado no mundo poderia conceber o lançamento de um ataque nuclear contra os EUA. Durante a Guerra do Golfo, Saddam Hussein, frequentemente citado como a razão pela qual os EUA precisam de um escudo de mísseis nucleares, nem sequer fez uso das suas alegadas ogivas de guerra química contra um opositor muito menos perigoso, Israel, por medo das consequências. Retendo milhares de mísseis e erguendo um escudo antibalístico de mísseis capaz de derrubar um número limitado de rockets, os EUA visam neutralizar qualquer tentativa das potências nucleares menores a usar armas nucleares para resistir a uma invasão norte-americana convencional e posiciona-se para lançar um primeiro ataque sem medo de retaliação16.

Em resumo, os EUA vêm proclamando aberta e descaradamente que farão tudo o que considerarem necessário para servir os seus próprios interesses. Um adjunto de Powell proclamou que, no que diz respeito aos EUA, "o direito internacional não existe". Um especialista referiu-se-lhe como "a desregulação do mercado de violência internacional" - e tal como a ideia dos EUA de desregulação do comércio global (do aço, por exemplo), o objectivo é libertar os interesses norte-americanos de todos os constrangimentos. Porém, tal não significa que quem quer que seja possa fazer o que quer que seja contra os interesses dos EUA.

Claro que o direito internacional significa a lei imperialista, acordos alcançados pelas regras dos países mais poderosos, projectadas para proteger os seus interesses comuns à custa de todos os outros. E, de facto, os EUA, como qualquer país imperialista, nunca reconheceu o direito internacional quando os seus interesses ditaram o contrário. A invasão do Panamá em 1989 por Bush-pai é disso um exemplo. Os EUA criaram Noriega e enviaram as suas tropas para o apear quando lhes aprouve. Mas, significativamente, os EUA preservaram algumas das aparências de observar o direito internacional embora estivessem basicamente a escarnecê-lo. Por exemplo, Noriega foi julgado como prisioneiro de guerra e desde então permanece numa prisão que respeita a Convenção de Genebra. Os prisioneiros do George-filho na base naval norte-americana de Guantânamo, Cuba, estão a ser tratados muito diferentemente, em termos legais e em termos humanos. O desafio norte-americano do direito internacional tornou-se tão extremo que quando o Tribunal dos Direitos Humanos para a Bósnia (criado por insistência do Ocidente) ordenou a libertação por falta de provas de seis homens originários do Médio Oriente, depois de terem sido acusados de planear um ataque contra a Embaixada dos EUA em Sarajevo, onde viviam, tropas dos EUA sequestraram-nos (com a cumplicidade provável do governo bósnio) no meio da noite e levaram-nos para Guantânamo. Aí se encontram presos, juntamente com britânicos, franceses e elementos de outras nacionalidades, tendo sido ignorados os pedidos para jurisdição ou mesmo acesso por parte dos seus países.

Os EUA admitem abertamente que estão a submeter os homens de Guantânamo a um interrogatório implacável, a manipulação psicológica (incluindo privação sensória e um tal isolamento que os conduz a nem sequer saberem onde estão) e outras formas de tratamento de que os prisioneiros de guerra estão supostamente protegidos. Desde que o uso da tortura foi abertamente defendido na imprensa dos EUA e europeia, não é difícil de adivinhar o que está a acontecer numa ilha distante fechada aos meios de comunicação e aos observadores internacionais. (Quando foram desencadeados protestos, a Cruz Vermelha investigou e fez um relatório - um relatório secreto, só para os olhos dos EUA). Por engano ou por arrogância, o próprio Pentágono lançou a famosa fotografia que mostra esses prisioneiros algemados com os olhos e orelhas cobertos. Porque está Bush tão empenhado em que esses homens não sejam reconhecidos como prisioneiros de guerra, de acordo com as Convenções de Genebra, apesar do alvoroço internacional em torno do assunto e das suas próprias pretensões de que é um mero "assunto para advogados" que não faria diferença prática? "Preservar a flexibilidade", escreveu um ajudante de Bush num memorando.

"Flexibilidade" é exactamente a questão para os EUA, em todos os assuntos. Os EUA querem que o mundo saiba que farão o que quiserem a quem quiserem, ponto final, e que há sempre lugar nas jaulas de tigre de Guantânamo para qualquer um que não o aceite.

Guantânamo não é só um campo de concentração para prisioneiros do Afeganistão. É um símbolo do que os EUA pretendem fazer a qualquer um que esteja no seu caminho. Porém, os EUA reconhecem implicitamente a divisão do mundo em nações opressoras e nações oprimidas, e não se propõem, pelo menos para já, enviar Marines para retirar Chirac de França. A existência de Guantânamo pretende pôr alguma ameaça prática à advertência "Alinhem com o plano ou desapareçam".

Este novo unilateralismo não significa que os EUA pretendem agir sós. Bush prestou grande atenção à construção ad hoc de coligações sob a sua liderança. Haverá sempre cooperação inter-imperialista desde que tal sirva os seus interesses comuns - mesmo agora soldados franceses estão a trabalhar lado a lado com soldados norte-americanos na construção a longo prazo de uma base aérea no Quirguistão. Mas no grau possível (e esta poderia ser uma questão muito vasta), os EUA pretendem agir depressa e decisivamente sem sequer tentarem alcançar consensos, impondo as suas decisões em façanhas e deixando que os outros expressem os seus escrúpulos e subtilezas depois, sem a limitação de tratados com os seus aliados, supremo na sua própria soberania e considerando desprezível a dos outros (especialmente a das nações oprimidas). Wolfowitz explica que "não haverá uma coligação única mas antes coligações diferentes para diferentes missões" em que os EUA esperam trabalhar principalmente com "forças locais" (i.e. exércitos-fantoche), de preferência aos seus "sócios" e rivais.

Os aliados mais íntimos dos Estados Unidos tornaram-se seus subalternos, imperialistas que reconhecem a sua fraqueza e aceitam o projecto unipolar nessa base. Nunca a Rússia pareceu tão servil para os EUA como desde 11 de Setembro. Vladimir Putin tornou-se de repente o "melhor amigo" de Bush através de uma combinação de engodos e ameaças. Entre os primeiros encontra-se o entendimento ou pelo menos a esperança de que os EUA derrubarão o movimento pela independência da Chechénia, encarado pela Rússia como parte de uma campanha para a reduzir a pedaços cada vez menores. Putin apoiou a invasão do Afeganistão e informou o seu "melhor amigo" que não levantaria objecções a um ataque dos EUA ao Iraque, ambos anteriormente objecto das ambições predatórias da Rússia. Note-se que, inesperadamente, Putin consentiu na extensão da NATO até à actual fronteira da Rússia, incluindo os estados bálticos que pertenceram até há uma década atrás à URSS e aceitou a construção de 13 novas bases norte-americanas e o estacionamento permanente de tropas dos EUA no que fora antes a Ásia Central soviética. Deu mesmo a sua bênção à actual incursão norte-americana na Geórgia, que fora também até recentemente parte da URSS, e é agora, finalmente, um títere construído militarmente pelos EUA e pela Turquia contra a Rússia. Isto não significa necessariamente que toda a classe dominante russa partilhe a interpretação que Putin tem dos seus interesses, e é certo que os interesses imperialistas da Rússia darão azo a uma mais severa disputa com os EUA no futuro.

5. A Geopolítica do Apocalipse

A lista de Bush de países a ser atacados, ou pelo menos ameaçados, é altamente instrutiva. O plano para preparar o mundo para a pilhagem norte-americana pode ser louco, mas é profundamente meditado (e amplamente apoiado pela classe dominante dos EUA). Por exemplo, depois de uma longa disputa entre as várias potências com influência no Afeganistão para constituir um novo governo interino, os EUA desdenharam a Aliança do Norte, cujas tropas fizeram a maior parte do combate aos talibãs, mas que foi considerada demasiado amigável para com os rivais dos Estados Unidos, e pura e simplesmente colocaram lá o seu homem, Hamed Karzai, antigo conselheiro da companhia californiana Unocal, a qual pretende construir um oleoduto que, aos olhos ocidentais, seria a única coisa que poderia dar qualquer valor ao país. (O enviado especial dos EUA, Zalmy Khalilzad, também constava da folha de pagamentos da Unocal.)

Ou vejamos o Iraque. A princípio, alguns comentadores não acreditaram que Bush desencadearia uma batalha tão pouco ao gosto dos ex-aliados dos EUA na Guerra do Golfo. O contraste entre a insistência de Bush e aquela oposição tem sido tão surpreendente que um comentador de um jornal considerou que a Europa "parecia tentar fazer do Iraque a questão prioritária da hegemonia norte-americana na política mundial, mais do que a brutalidade e a deslealdade de Saddam". De facto, isso é uma avaliação precisa do que está em jogo17. Como escreveu recentemente Henry Kissinger, antigo parceiro de Rumsfeld na equipa de Nixon, "A questão não é se o Iraque esteve envolvido no ataque terrorista aos Estados Unidos (...) O desafio do Iraque é essencialmente geopolítico".

Apesar dos esforços conduzidos pelos EUA para boicotar o Iraque, a França, a Alemanha, a Inglaterra e a Rússia têm negociado abertamente com o governo iraquiano. De facto, praticamente todo o mundo, há anos e quase como sempre, tem realizado negócios com aquele país, inclusive companhias norte-americanas (o vice-presidente Cheney, nos seus dias de barão do petróleo, envolveu-se numa tentativa de bater os europeus nos negócios com Saddam). Desde que Bush-pai acabou, sem ir até ao fim, a sua guerra no Iraque - aparentemente por perceber que apear Saddam poderia conduzir ao desmembramento de Iraque e que, assim sendo, desestabilizaria os interesses norte-americanos em toda a região -, o regime tornou-se um símbolo dos limites do poderio norte-americano. Parece ser principalmente isso que Bush quer derrubar. Quer demonstrar do modo mais convincente possível que os desenvolvimentos da última década e a atitude adoptada pelos EUA nessa base significa que as anteriores limitações já não se aplicam18.

A adição súbita do Irão ao "eixo do mal" feita por Bush em Janeiro confundiu muitos observadores. Afinal de contas, as recentes concessões daquele regime aos EUA incluíram um acordo não publicitado para resgatar os pilotos dos EUA, a cooperação próxima na mediação com o governo interino do Afeganistão, dominado pelos EUA, e a permissão aos EUA para descarregarem abastecimentos para o Afeganistão através de portos iranianos19. Aparentemente os mulás não se curvaram o suficiente para agradar a Bush que exigiu mais e ameaçou destruir o regime de qualquer modo. Uma das razões porque o governo iraniano pensou que poderia manter a aparência de algo próximo de beijar o rabo gordo do Grande Satã foi a forma como tinha dado as boas-vindas aos investimentos alemães, franceses e de outros países europeus. Um país que vive da venda de petróleo necessita pelo menos de uma França para o explorar. Parece que ser total e abertamente servil aos EUA em termos políticos e também aos seus interesses económicos, são os dois lados da mesma moeda. A ameaça das tropas norte-americanas no Iraque parece ter apressado o regime Khamenei-Khatami a render-se mais cedo aos EUA, calando as forças afegãs no Irão que se opuseram ao governo de Bush no Afeganistão e pressionando os estrangeiros (inclusive cidadãos europeus) que eram desfavoravelmente encarados por Washington. Mais recentemente, o Irão indicou que permitiria que o Conselho Nacional Iraquiano, sob o patrocínio dos EUA, e presumivelmente a escolha dos EUA para substituir Saddam, abrisse escritórios em Teerão, a capital do Irão, e difundisse apelos ao derrube de Saddam a partir de solo iraniano - um gesto que não se esperava de um regime em qualquer tipo de "eixo" com o Iraque. A movimentação dos EUA para invadir o Iraque pode permitir-lhes dobrar completamente o actual regime iraniano à sua vontade, ou os EUA podem esperar por uma ruptura entre os sucessores de Khomeini e o que é considerado um governo aceitável. Mas de qualquer modo, a chave para forçar as alterações que os Estados Unidos querem é... a força.

O envio de tropas norte-americanas para o Iémen é outra peça do quebra-cabeças. Só por si, o Iémen não tem nenhuma importância para os EUA. O que está em jogo são as bases navais norte-americanas no Iémen, o poder naval norte-americano estacionado naquela zona do Golfo e, na realidade, o sonho norte-americano de converter o Golfo num lago americano.

É sabido porque é estratégico o Golfo: por causa do petróleo. Mas não é só uma questão de ganhar dinheiro. A anterior citação do relatório Wolfowitz-Libby acerca de regiões e recursos estratégicos lembra as observações de Lenine sobre a importância do petróleo durante a Primeira Guerra Mundial: os imperialistas consideram o petróleo um recurso estratégico que não só deve ser controlado por si só, mas também para ser negado aos rivais. De facto, hoje a Europa é mais dependente do Médio Oriente em petróleo que os EUA, e o Japão ainda mais. Os lucros potenciais são enormes, mas é ainda mais importante que quem controla essas torneiras de petróleo tem as mãos na garganta das economias europeias e japonesa.

É significativo que as Filipinas tenham sido o segundo país a ser invadido pelo EUA depois do Afeganistão, em Outubro de 2001, e envolvendo números só superados pelos do Afeganistão. (Aproximadamente 900 militares norte-americanos, 650 dos quais são forças de combate; alguns deles enviados para patrulhar as zonas rurais conjuntamente com tropas do governo filipino.)

As Filipinas tornaram-se uma colónia norte-americana quando os EUA se aproveitaram de uma revolta popular contra a dominação espanhola e deitaram a mão às ilhas20.

Diz-se que o exército norte-americano adoptou inicialmente a pistola semiautomática de calibre .45 porque os resistentes filipinos resistiram tão veementemente que não puderam ser sustidos através de balas menores. As ilhas tornaram-se um importante posto militar avançado para os EUA no Pacífico, como se viu nas batalhas estratégicas sobre as Filipinas na Segunda Guerra Mundial. Depois da guerra, os EUA foram forçados a abrir mão do controlo político directo das Filipinas mas mantiveram o controlo económico e o controlo político indirecto. A base naval de Subic Bay permaneceu o ancoradouro-chave dos EUA no Pacífico, até que os EUA pensaram ser melhor sair por sua própria iniciativa após um levantamento popular e a queda da ditadura de Marcos - cujo regime fora patrocinado pelos EUA - nos anos oitenta. A rebelião dos povos muçulmanos oprimidos das ilhas do sul das Filipinas foi durante muitos anos um sério obstáculo para os regimes patrocinados pelos EUA, mas as intenções dos EUA não se limitam às reputadas fortalezas muçulmanas na ilha de Sulu. De acordo com novos relatos, tropas dos EUA que voavam sobre o norte de Luzon, no lado oposto do arquipélago, trocaram fogo com tropas do Novo Exército Popular dirigido pelo Partido Comunista das Filipinas. Os EUA pretendem claramente fazer maiores movimentações para apertar o controlo da sua ex-colónia. Estes objectivos não se limitam às Filipinas. Os EUA negoceiam agora também o direito de acesso à enorme base naval de Came Ranh no Vietname, que os EUA construíram durante a sua guerra fracassada para conquistar o Sueste asiático. A base está prestes a ser desocupada pela Rússia, que já não pode pagar o arrendamento.

A inclusão da Coreia do Norte na lista de alvos de Bush foi particularmente difícil de entender, já que aquele país vem tentando desesperadamente rastejar aos pés dos Estados Unidos nos últimos anos. Clinton diz que esteve quase a viajar para aceitar a rendição no fim do seu mandato, em Dezembro de 2000. De facto, há vários anos atrás que a Coreia do Norte interrompeu unilateralmente os testes dos mísseis de que Bush se queixa. Não é claro, no momento em que este artigo é escrito, se Bush pretende ou não fazer lá uma guerra. Mas desde os seus primeiros dias na administração que Bush tornou claro que tem relutância em permitir que a Coreia do Norte se pacifique. Novamente, há algum simbolismo político envolvido na dramatização da sua ruptura com as políticas de Clinton. Mas o factor mais importante nesta equação não é a Coreia do Norte mas os 37.000 militares dos EUA estacionados na Coreia do Sul. A manutenção de uma situação militar insegura na península é um componente importante da capacidade dos EUA para intimidar a China, que Bush aparentemente espera puxar mais firmemente para a órbita dos EUA, e o Japão, um país cuja exploração da Coreia é central para a sua existência imperialista.

Outros países onde o exército dos EUA está agora presente, ou a considerar o envolvimento, incluem a Colômbia, o Iémen, a Indonésia (à qual podem ser enviados conselheiros norte-americanos), e mesmo talvez a Argélia (os EUA começaram a fornecer, numa manobra de provocação nas costas da França, equipamento militar ao governo da Argélia, onde até agora os contactos dos EUA eram principalmente com os "terroristas" fundamentalistas islâmicos). Junte-se tudo e ter-se-á um mapa de onde os EUA consideraram por muito tempo que os seus interesses políticos e económicos estratégicos requeriam intervenção militar e um quadro mais claro da necessidade por trás da loucura de Bush.

6. Uma Guerra Mesmo a Calhar

As relações entre política e economia são complexas e dinâmicas. Na situação mundial de hoje, tudo está enraizado na crescentemente global "socialização total da produção" e na sua contradição com a apropriação privada, como Lenine notou há quase um século, quando chamou ao imperialismo a antecâmara de um sistema novo de cooperação global que emergiria através da revolução proletária. As compulsões económicas que arrastam os imperialistas (inclusive crises, rivalidades e o imperativo de expandir-ou-morrer) estão enraizadas naquela contradição, tal como o está a luta do proletariado internacional e seus aliados. Essas classes dominantes são em última instância as representantes das exigências do capital imperialista e não tomam simplesmente obstinadas decisões políticas. Mas novas políticas têm sido de facto iniciadas devido à interacção destas exigências e das políticas imperialistas.

Há ampla evidência que a administração Bush entrou em funções à procura de algo semelhante ao 11 de Setembro, uma oportunidade para mudar o rumo militar, político e social que vinha sendo seguido nos EUA. Numa entrevista saída no Washington Post de 29 de Janeiro de 2002, Bush afirmou "creio que há lá fora uma imagem dos Estados Unidos de que nós somos muito materialistas, que não temos valores e que, quando atacados, não daríamos luta". No mesmo artigo, Rumsfeld voltou a contar como quando Bush o entrevistou para o cargo de Secretário de Defesa (o papel chave no gabinete Bush, como se revelou), Bush criticou Clinton por seguir um padrão de "recuo reflexivo" sempre que a intervenção militar norte-americana colidia com obstáculos sérios, como a sua derrota às mãos das milícias locais na Somália. Rumsfeld respondeu que acreditava que o poder dos EUA necessitava de "disciplinar o mundo". "Eu não lhe deixei qualquer dúvida na mente acerca disso, no momento em que algo acontecesse, eu estaria com ele para ir em frente, não para recuar. E eu queria que ele soubesse isso. Ele disse, sem ambiguidades, que era o que ele estava a fazer, e que nós tínhamos um entendimento claro e comum." Foi exactamente o que Bush fez, "inclinar-se para a frente" e saltar à primeira boa oportunidade de guerra que se lhe apresentou. Para os que tinham esse conhecimento, estas cartas já estavam na mesa quando Bush foi escolhido para presidente.

O regime talibã nasceu entre o esterco e o lodo do "grande jogo", a cavalgada imperialista para o controlo dos oleodutos e dos gasodutos da Ásia Central. Os EUA deram luz verde ao Paquistão em 1996 para conduzir ao poder os talibãs porque acreditaram que eles pudessem trazer a estabilidade política necessária para que a companhia Unocal pudesse construir um oleoduto entre o Turquemenistão e o Paquistão através do Afeganistão e tendo a certeza de que o petróleo que flui das antigas repúblicas soviéticas ficaria sob o controlo norte-americano. O apoio aos talibãs é comparável às relações militares próximas que os EUA desenvolviam com a maioria daqueles países da Ásia Central. A opressão medieval das mulheres não era certamente nenhum obstáculo, especialmente porque que emparelhava com muito do programa defendido pelos fundamentalistas cristãos norte-americanos respeitados nos círculos de Bush. Além disso, o governo norte-americano considerou os talibãs tão potencialmente úteis que o Departamento de Estado bloqueou durante algum tempo a investigação do FBI acerca do envolvimento de Osama bin Laden no bombardeamento do Cole USS no Iémen porque esperava persuadir suavemente os talibãs a entregá-lo sem romperem relações. (O responsável da investigação do FBI que se demitiu em protesto, tornou-se responsável da segurança ao World Trade Center, onde viria a morrer.) Há relatos de que as negociações entre os EUA e os talibãs continuaram até Julho de 2001. O diário francês Le Figaro garantiu que o responsável local da CIA se encontrou ele próprio durante esse mês com bin Laden, enquanto este estava a tratar-se num hospital norte-americano no Dubai21.

Estas negociações foram repentinamente interrompidas em Agosto de 2001. Parece que os EUA tinham perdido o interesse nos talibãs e já estavam em ânsias por uma guerra no Afeganistão. De uma maneira ou de outra, conseguiram-na. Quem disparou o primeiro tiro? Não importa. A invasão do Afeganistão pelos EUA, tal como o apoio aos talibãs, teve como significado estabelecer um regime semifeudal, patriarcal e subserviente ao imperialismo. Mais, o Afeganistão era só um alvo de oportunidade, um inimigo militar e politicamente fácil, nada que se parecesse com os revolucionários vietnamitas que derrotaram os EUA e ganharam apoio pelo mundo inteiro. O Afeganistão era importante, não tanto por direito próprio, mas como um bom lugar para começar uma violenta rapina global.

Como escreveu Lenine: "A guerra não altera a direcção da política de pré-guerra mas acelera o seu desenvolvimento". O resultado do 11 de Setembro não alterou tendências históricas. Marcou, porém, uma situação nova, qualitativamente diferente.

7. A "Frente Interna"

A "política de coligação" e a "política de recostar" com que Bush acabou estavam muito ligadas à relutância dos EUA em pôr as suas próprias tropas em combate directo, especialmente onde poderiam ser mortos num número que seria politicamente difícil de sustentar a nível doméstico. Só muito recentemente os imperialistas europeus começaram a criticar os EUA por não enviarem soldados suficientes, especialmente para lugares onde as tropas europeias estavam a ser enviadas, como a ex-Jugoslávia onde foi dito: "Os EUA bombardeiam, nós morremos e as ONG's alimentam". Hoje, mais do que antes, os EUA contam ser capazes de poder infligir mortes de uma distância segura. O que isto significa já foi demonstrado amplamente no Afeganistão onde as estimativas de civis mortos variam entre 3000 a muitas vezes esse número. Quando numa conferência de imprensa alguém se referiu a um bombardeamento pelos EUA de um casamento numa aldeia e cujos sobreviventes foram metralhados, Rumsfeld ensinou concisamente os meios de comunicação a nem considerarem essas coisas como assunto.

Mas os norte-americanos vão ter de se preparar para os sacos dos corpos, e Bush quer que o saibam. De facto, ainda que "a morte que chove de cima" permaneça uma estratégia de base dos EUA, os imperialistas dos EUA têm também a intenção de enterrar o "síndroma do Vietname" (pelo qual designam o medo de ficarem presos numa guerra perdida de conquista imperialista) e anular alguma da relutância que resta em sacrificar o sangue das tropas para alcançar os seus objectivos. Em última instância, o controlo político requer tropas no solo. No esforço para atingir novas posições no estrangeiro, todos os imperialistas estão ansiosos por não serem os únicos com tropas sem cicatrizes de batalha.

A mudança de maré em política militar foi preparada em simultâneo com alterações políticas dentro da sociedade norte-americana. Após o 11 de Setembro, um largo espectro de representantes da classe dominante dos EUA tem trabalhado para conseguir uma mudança de paradigma de um contrato social com sectores das classes médias, nas quais a aquiescência passiva foi considerada suficiente para atingir um certo conforto, para um modelo mais espartano no qual a ordem do dia é uma guerra sem fim e a vontade de aceitar a mobilização e os sacrifícios que se tornam necessários.

Abanão atrás de abanão, a paisagem política norte-americana tremeu durante os últimos anos, quando um novo programa começou a emergir através da evolução dos acontecimentos, da luta política interna e de uma alteração de consensos. Houve severas "guerras culturais" em torno do aborto, da família patriarcal e de assuntos culturais - questões sobre o modo de vida das pessoas - mas pouco foi dito em público sobre tudo isso, excepção feita a obscuros artigos em jornais de política externa. Quer acreditem no seu sistema ideológico ou apenas acreditem pragmaticamente que ele resulta numa propaganda eficiente, os círculos da classe dominante que rodeiam Bush têm um completo programa social e cultural altamente repressivo. Procuram criar uma situação social que é tão radicalmente diferente a nível interno como o império global sem limitações que tentam criar. Sem fazer comparações fáceis que a história pode ou não confirmar, ou ignorando as diferenças profundas entre uma Alemanha que faz uma jogada desesperada para fugir do seu estatuto de potência derrotada e uns Estados Unidos no cume do monte imperialista e determinados a aí permanecer, pode dizer-se que as reformas da sociedade levadas a cabo pelos nazis estavam a par com os objectivos globais do imperialismo alemão e com o que eles sabiam ser necessário para os alcançar.

8. Perigos e Oportunidades

Depois da Primeira Guerra Mundial, Estaline escreveu: "O significado da guerra imperialista que começou há dez anos baseia-se, entre outras coisas, no facto que juntou todas estas contradições num único nó e atirou-as para o prato da balança, deste modo acelerando e facilitando as batalhas revolucionárias do proletariado". A situação é agora diferente em muitas maneiras - hoje as contradições entre os imperialistas são condicionadas principalmente pela contradição entre o imperialismo e os povos oprimidos - mas, não obstante, a analogia é útil, porque as contradições do mundo estão entrelaçadas, o nó está cada vez mais apertado, e estão a ser atirados novamente "para o prato da balança". Estão a desenrolar-se acontecimentos cataclísmicos e os imperialistas e reaccionários colocaram a guerra, a resolução das contradições pela força das armas, exactamente no centro do palco. Tudo isto pode servir para acelerar e facilitar as batalhas do proletariado e dos povos oprimidos no começo do século XXI.

Para que isto aconteça, para fazer crescer e concretizar o potencial favorável na situação mundial de hoje, muito trabalho é necessário para levantar mais poderosamente a bandeira do proletariado no actual remoinho de contradições. Nunca antes na existência do Movimento Revolucionário Internacionalista se revelaram tão nitidamente as necessidades e as possibilidades de uma liderança maoista.

É indiscutível - mesmo George Bush o compreende - que haverá resistência. Pode surgir de modos diferentes e a um ritmo diferente em países diferentes, e não seguirá uma linha recta. Mas, para os maoistas, a questão mais importante é esta: devemos estar no seu caminho como observadores (tentando desviar a atenção para outro lado, esperando algumas condições diferentes)? Seguir atrás das correntes contraditórias e por vezes sem saída que espontaneamente aparecem? Ou esforçarmo-nos por dirigir essa resistência? Quem mais poderá unir correctamente todas as meadas da luta, descobrir os interesses comuns dos povos e apontar o seu inimigo comum, e mostrar o que precisa de ser feito em cada fase?

Lenine escreveu: "A experiência desta guerra (...) aturde e quebra algumas pessoas mas ilumina e tempera outras". Mostrou que a guerra revela o que normalmente está escondido, que, em última instância, o sistema imperialista depende da força militar para sobreviver e que a guerra cria condições mais favoráveis para o proletariado e os povos estabelecerem as suas próprias regras através da revolução. Esta nova desordem mundial será temida por alguns e bem-vinda para outros, mas custe o que custar prevalecerá e arrebatará milhões no seu movimento, arrastando consigo os seus próprios pontos de vista e interesses. Idênticos acontecimentos esclareceram as verdadeiras relações que governam este mundo e as forças e fraquezas dos povos e dos seus inimigos, mobilizando e temperando o povo para os combater. O que as palavras de Lenine significam agora, na actual situação, é que enfrentamos quer o perigo de sermos esmagados, por confrontação com um inimigo que luta agressivamente ou devido à nossa própria passividade ou a passos em falso, quer a necessidade e possibilidade de nos erguermos no momento exacto e conduzirmos a luta numa escala planetária, de um modo que não era possível quando os povos do mundo não tinham enfrentado um inimigo tão nitidamente definido e desenfreado.

A resistência global e uma afirmação mais forte da alternativa proletária são o que se exige. Essa resistência terá muitas formas.

Por um lado, a sua necessidade de constituir movimentos de massas a nível internacional, unindo tudo o que possa ser unido, trazendo a perspectiva e o programa de luta do proletariado para estas batalhas e, por este processo, ganhando amplas massas no mundo inteiro, não só para mais poderosa e efectivamente se oporem e resistirem à guerra e à agressão dos imperialistas, mas também para compreenderem e realçarem mais nitidamente o próprio sistema imperialista como a causa da injustiça e opressão no mundo inteiro.

Ao mesmo tempo, e passo fundamental para a capacidade dos maoistas se introduzirem mais vigorosamente na cena política à escala mundial, a actual situação internacional também torna possível e necessária uma adicional aceleração do trabalho na via da tomada do poder em todos os países e da construção e fortalecimento de partidos maoistas capazes de liderar esse processo. De facto, as condições para o realizar podem ser vislumbradas no horizonte em vários graus em diferentes países.

Por exemplo, podemos ver hoje como a Guerra Popular no Nepal está a interagir com o rápido avivamento da situação revolucionária em toda a região. O ressoar das vitórias da Guerra Popular está a fornecer um modelo de como lutar e para quê. O medo de que um tal caminho alternativo apareça na zona explosiva da Ásia do Sul é sem sombra de dúvida uma das razões pelas quais a revolução no Nepal está a enfrentar a mais directa oposição dos imperialistas norte-americanos e britânicos, bem como do polícia regional do sistema imperialista mundial, a Índia. É também claro que as rivalidades entre os diferentes estados reaccionários, especialmente a Índia e o Paquistão, bem como o tumulto e a resistência desencadeados pela denominada "guerra ao terrorismo", criam igualmente mais condições favoráveis para a revolução ao longo do subcontinente.

Do mesmo modo, noutros estados da linha da frente, o processo revolucionário é agora muito mais directamente condicionado pela cruzada conduzida pelos EUA. No Irão, a oposição fingida do regime ao imperialismo poderá ser proximamente testada, clarificando as mentes e fornecendo aberturas revolucionárias. A solidez do regime reaccionário da Turquia é objecto de crescente preocupação para os EUA, no meio das pressões políticas e económicas para o fazer alinhar no esforço de guerra dos EUA - um projecto altamente arriscado22. Para citar outro exemplo-chave para os planos dos EUA, apesar do esforço israelita para "espancar os Palestinianos até à submissão", como afirmou Sharon, a ocupação israelita da Palestina de modo nenhum se tornou mais estável neste contexto mundial, mas ao invés continua a gerar resistência e a espalhar instabilidade por toda a região. O regresso das tropas dos EUA às Filipinas já desencadeou um tumulto anti-imperialista por todo o país e pode oferecer oportunidades para um novo nível de mobilização e de unidade do povo pela luta armada.

Os efeitos exactos em cada um dos países oprimidos serão desiguais e difíceis de predizer. Em geral, pode ser que as paradas mais altas jogadas por Bush venham a ter consequências contraditórias. As guerras populares são necessariamente demoradas e passam por avanços e recuos. Mas da mesma maneira que é impossível ao domínio reaccionário prevalecer uniformemente ao longo de um único país na maioria dos países oprimidos pelo imperialismo, devido à fraqueza relativa do poder central estatal nas nações oprimidas, particularmente nas vastas zonas rurais, também é impossível para os imperialistas dos EUA intervir em todos os lugares à volta do mundo e ao mesmo tempo, e terão de fazer face eles próprios a algumas duras escolhas.

As forças dos EUA estão agora estacionadas em pelo menos 100 dos 189 estados membros das Nações Unidas - a sua maior presença por todo o mundo desde a Segunda Guerra Mundial. Muitas delas estão a operar em áreas como a Ásia Central, que lhes são relativamente pouco familiares, e longe da casa-mãe norte-americana, com reforços dependentes de bases intermédias posicionadas em países "amigos" terceiros como a Arábia Saudita, que nem sempre são estáveis. Por muito "ligeiras" que possam ser, a sua distribuição está a ser muito esticada, mesmo em relação à força económica dos EUA. Os dirigentes dos EUA estão a jogar com a eventualidade de poderem traduzir a sua presença militar alargada em lucros económicos. Mas essa situação deixa as suas forças expostas e vulneráveis numa escala sem precedentes.

Ainda que os EUA tenham tido êxitos razoáveis na fase inicial da "cruzada", conseguindo fazer alinhar as outras potências imperialistas, os interesses divergentes das diferentes potências significam que não poderão manter-se indefinidamente num campo unificado - a contenda e a conspiração são uma característica permanente do imperialismo. As fissuras na "coligação" dirigida pelos EUA já estão a evidenciar-se em relação ao Iraque e à Palestina e crescerão mais profundamente com a intensificação da resistência dos povos.

Quando Rumsfeld definiu a nova doutrina militar dos EUA como a capacidade para lutar ao mesmo tempo em quatro teatros principais de guerra - e amplamente sós - supunha que ninguém lhe ripostaria com dureza e que os EUA continuariam a obter vitórias fáceis. Afinal de contas, a guerra no Vietname tinha sido só uma guerra e mesmo assim os EUA não conseguiram ganhá-la. Esta situação coloca também desafios sem precedentes para as forças revolucionárias, incluindo em termos da elevação do nível de unidade internacionalista para empreender a luta global contra os imperialistas de um modo mais unificado.

Tal como para a situação nos países imperialistas, há também experiências históricas para utilizar aqui. "Nunca o imperialismo é mais forte que no início de uma guerra", escreveu Lenine em 1915 numa polémica contra aqueles que viam só esse aspecto da situação e não as situações revolucionárias que seriam desencadeadas com o passar do tempo como consequência da guerra desencadeada nos países beligerantes. Mais tarde acrescentou: "Em primeiro lugar, nunca os governos chegam a uma tal necessidade de acordo com todos os partidos das classes dominantes, ou a uma tão grande submissão "pacífica" das classes oprimidas em relação a esse arranjo, como no tempo de guerra. Em segundo lugar, embora 'no início de uma guerra', e especialmente num país que espera uma rápida vitória, o governo pareça todo-poderoso, nunca ninguém fez depender as expectativas de uma situação revolucionária exclusivamente com o 'início' de uma guerra, e muito menos identificou as 'parecenças' com a realidade."

Nenhuma situação revolucionária existe agora nas áreas imperialistas centrais, mas as situações revolucionárias são impossíveis sem crises geradas por eventos como a actual guerra, e certamente ninguém pode dizer se isto ou alguma crise futura darão lugar a tal situação. Nunca houve uma guerra imperialista que não fosse saudada no princípio por uma onda de patriotismo. Numa análise mais aproximada, até mesmo entre as camadas intermédias nos EUA e noutros países imperialistas os sentimentos são mais complicados do que possa parecer no princípio. Além disso, a situação entre os países imperialistas é necessariamente desigual, mas a avidez da corrida para construir armas, militarizar as sociedades e conseguir tropas no terreno para combater pelo controlo e saque onde quer que seja possível, arrastará todos estes países no turbilhão. A posição dos EUA como país da linha da frente levará as pessoas para a vida política de uma maneira intensificada, e as lutas contra a cruzada dos EUA terão um enorme impacto no resto do mundo, da mesma forma que as lutas noutros países darão alento aos que se encontram no ventre da besta.

A luta contra a guerra e a agressão conduzidas pelos EUA contra os povos do mundo terá um impacto crucial no desenvolvimento da revolução mundial. Marx falou da necessidade de a classe trabalhadora resistir aos capitalistas ou arriscar-se a ficar reduzida a uma massa dominada miserável; o mesmo se aplica à resistência contra as guerras injustas de hoje. Além disso, os imigrantes do Médio Oriente nos Estados Unidos já estão a viver sob lei marcial. A Inglaterra prendeu candidatos a asilo em condições de campo de concentração. A exigência proposta de os fazer transportar "cartões inteligentes" com um microprocessador, cujos conteúdos são secretos mesmo para os homens e mulheres que os usam, foi comparada à estrela amarela que os judeus foram obrigados a usar pelos nazis23. As guerras coloniais antigas e recentes são acompanhadas inevitavelmente por repressão contra os que foram forçados a deixar as suas pátrias para trabalhar nas metrópoles onde constituem um componente básico do proletariado, em muitos países imperialistas. Viu-se nos massacres de manifestantes argelinos em Paris durante a guerra da França contra a Argélia. Só se o proletariado avançado e os maoistas que o representam nesses países se levantarem em solidariedade com os povos do mundo, poderão tornar-se capazes de dirigir; só desse modo poderão representar os interesses e começar a unir os trabalhadores e a maioria do povo dessas sociedades, cujos interesses fundamentais são opostos ao tipo de mundo em que são obrigados a viver.

Mais, este é o contexto favorável aos esforços organizativos necessários para ir do que Lenine descreveu como a situação dos revolucionários que usam "sapatos de solas finas" para uma outra onde são necessárias "botas cardadas". Seria um erro de vergonhosas e talvez fatais proporções não reconhecer a existência e as implicações da nova situação.

Há um perigo considerável de perda da atitude revolucionária em face desta situação. Já houve alguma experiência no movimento antiglobalização, cujo aparecimento no período que antecedeu o 11 de Setembro tanto alarmou os imperialistas de todos os países e provocou muita da repressão no pós-11 de Setembro. (Os tiroteios policiais contra manifestantes antiglobalização em Gotemburgo e Génova anunciaram a mudança nas regras do jogo na política do Ocidente.) Algumas forças tentaram desligar as exigências contra a globalização das actuais guerras e das preparações para as guerras. A pergunta que se coloca às pessoas desses movimentos, como a toda a gente no mundo, é se devem ou não erguer-se ao lado dos povos do mundo. Caso contrário, os justos e importantes protestos contra os McDonald's e os produtos geneticamente modificados, ou até mesmo a repressão política, correm o risco de se perder. Por exemplo, quase não houve uma oposição suficientemente forte à guerra conduzida pelos EUA na conferência antiglobalização em Porto Alegre, no Brasil. Os membros e partidários dos governos europeus cúmplices (especialmente da França) foram autorizados a participar como se não fossem parte do problema. Este era um estudo de caso sobre como reduzir a exigência de um mundo diferente a um desejo irrelevante e piedoso, ignorando o que impede esse mundo de nascer - o imperialismo e as suas forças armadas e os seus reforços. Para dar um outro exemplo, erguer slogans contra a guerra e o terrorismo significa evitar apontar a ponta da lança da luta contra os EUA e as suas classes dominantes e só pode estrangular no berço a resistência dos povos. Os que entendem a possibilidade e necessidade de unir muito amplamente, de se basearem nas massas e unir todos os que podem ser unidos contra a cruzada dirigida pelos EUA e a guerra imperialista em todas suas manifestações, poderão inspirar e conduzir o duro trabalho de derramar luz sobre a situação mundial e contar às massas a verdade acerca de onde repousam os seus interesses - não com os imperialistas e seus governos, mas com os povos do mundo.

Como o Movimento Revolucionário Internacionalista recentemente escreveu: "O mundo entrou num período de mudança distinta quando o que à superfície parecia permanente e imóvel foi abalado pelas suas contradições internas. É um tempo simultaneamente repleto das maiores oportunidades e de verdadeiros perigos. Exigirá tudo da nossa determinação proletária, da nossa posição, ponto de vista e método marxistas-leninistas-maoistas, e também da nossa orientação política correcta para avançar entre a turbulência da tempestade. Podemos ver agora mais nitidamente a possibilidade da vitória definitiva, mas tal exigirá mais luta e mais sacrifício."

Mao Tsétung disse que o imperialismo é um tigre verdadeiro e um tigre de papel, e no fim de contas é o povo e só o povo que é realmente poderoso. No mundo de hoje, quem tentar ignorar o aspecto verdadeiro do tigre está a propagar uma falácia suicida. Mas por que será ele também um tigre de papel? Este aspecto pode permanecer oculto em tempo normal e mostrar-se só em todas as suas formas através da luta das massas. Não porque os arranha-céus do imperialismo possam cair ao chão, mas porque provoca desgraça em casa e em todo o mundo, despertando o ódio dos povos e unindo-os contra si, e no fim de contas os povos e só os povos, mesmo no ventre da besta, podem resolver as contradições a que dá lugar. O mundo está cada vez mais a mergulhar em desastres que só podem ser solucionados pelos povos, mobilizados na luta revolucionária e conduzidos por uma linha marxista-leninista-maoista.

Notas

1 O incêndio do Reichstag (Parlamento) alemão em 1933 foi o pretexto para Hitler declarar "Ou estão connosco ou contra nós" no seu estilo próprio e iria servir para reforçar as leis nazis como um prelúdio para uma guerra pela hegemonia mundial.

2 No mundo real, estas condições económicas neutras significam caos e sofrimento numa escala raramente vista na história humana. Por exemplo, o "funcionamento normal" do comércio mundial significou que a agricultura da Zâmbia foi arruinada e a sua economia ficou dependente das minas na posse de estrangeiros, e esse mesmo funcionamento normal significou que quando o punhado de monopólios em competição produziu demasiado cobre nos vários países do Terceiro Mundo que controlavam, as minas da Zâmbia foram fechadas e o capital limitou-se a recolher e a deslocar-se para outro lugar. O Fundo Monetário Internacional (FMI) resolveu o problema da falta de oportunidades de lucro para o capital imperialista na Zâmbia abrindo a sua economia a outros modos de penetração adicionais. Forçou o país a derrubar as barreiras de comércio que protegiam as suas fábricas de artigos de vestuário quando elas prosperavam, e onde trabalhavam as mulheres, as mães e as crianças dos mineiros. As roupas importadas logo os invadiram, como uma vaga gigantesca. Um das muitas mulheres que tentam manter as suas crianças vivas vendendo alguns tomates num mercado local disse a um repórter: "Nunca ninguém vivo viu alguma vez tal pobreza". Após a crise financeira causada pelos movimentos do sistema monetário global, em poucas semanas os camponeses da Indonésia deixaram de comer arroz e passaram a raspar as árvores. O mundo viu escassez, pragas e outros desastres, mas nunca eles foram tão claramente artificiais.

3 Os dois blocos políticos estavam unidos por interesses mútuos, não pela força, mas não foram permitidas deserções em qualquer das partes. Os soviéticos demonstraram-no na Checoslováquia em 1968. Também assim fizeram os EUA, embora às vezes menos abertamente. Em Itália, por exemplo, sob o Projecto Gládio e organizações secretas como a Loja Maçónica P2, os EUA organizaram-se para lançar um súbito golpe militar em cooperação com sectores conotados com a classe dominante italiana se o Partido Comunista Italiano, pró-soviético, estivesse próximo do poder.

4 Há uma gravação do Secretário de Estado de Nixon, Henry Kissinger, em que diz: "Nós não podemos deixar um país tornar-se marxista só porque o seu povo é irresponsável". Foi ele que dirigiu a CIA para organizar um golpe militar para derrubar Allende. Os generais, apoiados pelos EUA, executaram milhares de suspeitos de serem um obstáculo para os interesses dos EUA, criando assim condições políticas para o investimento posterior dos EUA.

5 A Argentina é um bom exemplo. O capital europeu, e especialmente o espanhol, estava tão concentrado naquele país e nos seus vizinhos que quando o FMI recusou prolongar os empréstimos da Argentina, o mercado de valores espanhol tremeu, enquanto o mercado dos EUA assim pôde proceder sem dificuldade. A França e a Espanha tinham tentado evitar esta decisão, mas sob o sistema de voto do FMI, os EUA têm poder de veto. Tanto pior para os bancos espanhóis. E tanto pior para os milhões de argentinos que acordaram uma manhã e se acharam pobres ou mais pobres quando se desmoronou o sistema monetário do país.

6 Para mais informação, ver "Comércio Livre - Máquina de Crescimento ou Pilhagem?", em AWTW 2000/26.

7 Agora já deveria ser claro para todos que o argumento de que os "direitos humanos" diluem a soberania se transformou numa nova doutrina: a da "segurança nacional" (dos EUA, claro) triunfa sobre os direitos humanos, agora entendidos apenas como "uma causa em moda nos obscuros e distantes anos noventa", como cinicamente escreveu um colunista.

8 Vemos hoje em julgamento, no Tribunal Mundial em Haia, Milosevic, o bandido sérvio protegido pela Rússia e parte da classe dominante francesa, enquanto o bandido croata Tudjman, protegido pela Alemanha e pelos EUA, ainda está no poder.

9 Concretizaram finalmente o seu desejo na feroz batalha a sul de Gardez em Março, a primeira na guerra do Afeganistão que os EUA travaram com forças convencionais. Participaram tropas da Austrália, do Canadá, da Dinamarca, da França, da Alemanha e da Noruega, com a França a partilhar as tarefas de bombardeamento aéreo. Durante alguns dias, os ministros dos estrangeiros da Europa continental suavizaram o seu tom.

10 A URSS produziu equipamento militar, desde as espingardas automáticas Kalashnikov aos jactos MIG e aos maiores aviões militares do mundo, que foram consideradas de qualidade pelo menos igual à do Ocidente. Mas, ao câmbio actual, o orçamento militar anual da Rússia desceu agora para 9 biliões de dólares. Em comparação, de acordo com algumas estimativas, os EUA estão a gastar agora aproximadamente 1 bilião de dólares por dia. Já se disse que o custo da manutenção da paridade militar com o Ocidente, atendendo à menor base económica do Bloco de Leste, criou desequilíbrios económicos que constituíram um importante factor na sua derrocada. Pode haver lições a tirar pelos EUA em termos dos seus planos para aumentar largamente os gastos militares.

A alteração do equilíbrio mundial de forças militares, devida a um maior enfraquecimento da Rússia, também impediu os sonhos de enxertar o poder militar russo no poder económico europeu. Esta é outra importante diferença entre a situação mundial de há uma década atrás e a de hoje.

11 Nos últimos anos, a França desenvolveu uma força de reacção rápida de 50.000 soldados, integrados num realinhamento estratégico das forças armadas de França, iniciado em 1996, e que se distancia do enfoque da sua dependência nuclear dos tempos da Guerra Fria. Abandonou os seus mísseis nucleares terrestres e os bombardeiros e, ao abolir o recrutamento militar, tornou politicamente mais fácil o envio de tropas para além-mar. Até recentemente, a Alemanha só dispunha de 1000 soldados especificamente treinados e equipados para uma intervenção rápida no estrangeiro. A Grã-Bretanha tem 4000 soldados experimentados de operações especiais, o SAS, com um infame currículo de atrocidades na Irlanda e noutros lugares, enquanto, em contraste, as unidades alemãs similares combateram pela primeira vez no Kosovo. Os três países fizeram esforços para enviar esses soldados para combate onde quer que fosse e sempre que possível, não só para alcançar metas militares e políticas imediatas, mas também para os testar e treinar como unidades centrais de uma futura expansão.

12 As armas nucleares da Índia e do Paquistão podem ser ignoradas no que diz respeito à cena militar mundial. As armas nucleares de Israel têm um papel específico, o de garantir o posto avançado do sionismo sustentado pelos EUA no Médio Oriente.

13 Este poderá ser o modelo que os EUA querem implementar para alguns ou para todos os outros países imperialistas, aparentado ao do Império romano no seio do qual as classes dominantes locais se articulavam, para seu benefício mútuo, desde que todas as estradas conduzissem a Roma, e a Roma coubesse a parte do leão e a última palavra.

14 Ver Philip S. Golub, "O Governo da Guerra Fria sem Guerra para Lutar - Os Desejos Imperiais da América", Le Monde Diplomatique (edição inglesa), de Julho de 2001. Tome-se nota do cabeçalho - esta análise da procura pelos Estados Unidos de um poder unipolar foi publicada antes do 11 de Setembro. Golub faz notar que mesmo antes de Rumsfeld se ter tornado o secretário da guerra de Bush, já advertia que se aproximava um novo "Pearl Harbour". Pode ser mais preciso dizer-se que Rumsfeld estava a pedi-lo. Claro que isto é aquilo a que os Bushistas chamam os acontecimentos de 11 de Setembro. O Pearl Harbour original, o ataque japonês à frota norte-americana estacionada no Havai que conduziu à entrada dos EUA na Segunda Guerra Mundial, foi também um acontecimento muito bem acolhido pelos EUA, se não mesmo provocado ou deliberadamente permitido.

15 Pouco depois, Powell acusou o seu congénere francês, Hubert Vedrine, de ter "ficado com afrontamentos", uma observação que outros "porta-vozes não identificados" dos EUA traduziram como idêntica a actuar como uma "mulher na menopausa". Estas observações do principal diplomata (!) de Bush são os termos em que os Estados Unidos estão a colocar o debate: "verdadeiros homens" versus fêmeas e afeminados. Para o macho - misógino e homofóbico - do exército norte-americano, esta é uma provocação.

16 Os EUA anunciaram recentemente que desenvolveriam dispositivos nucleares "tácticos" menores que seriam usados em guerras "normais". De facto, o Afeganistão e o Iraque foram referidos como objectivos potenciais. Os estrategos de guerra costumavam referir-se ao "equilíbrio do terror", que significava que nenhuma das partes ousaria provocar uma decisiva confrontação termonuclear. Agora, no "valente" mundo novo do pós-Guerra Fria poderemos ver - e cedo - a primeira guerra nuclear desde Hiroxima.

17 Bush nem se incomodar a formular pretextos credíveis. A própria CIA (de súbito à "esquerda" na política norte-americana) emitiu um relatório em Fevereiro que declara que o Iraque, tal como o Irão e a Coreia do Norte (os três países da lista do "eixo de mal" para Bush), não estão neste momento envolvidos no que os EUA consideram "terrorismo". Bush não tentou provar o contrário. Ao invés, enfatiza as armas que o regime poderia adquirir em algum momento futuro, as quais, mesmo que existissem, ainda empalideceriam ao lado das armas químicas, bacteriológicas, nucleares e outras "armas de destruição em massa" já nas mãos dos EUA, Israel, etc. (afinal de contas, o antraz que matava as pessoas pelo correio nos EUA foi fabricado com propósitos igualmente assassinos pelo governo norte-americano).

18 A juntar-se ao já discutido fim da "política de coligação" entre os EUA e a Europa, há uma década atrás a URSS era a principal defensora do Iraque; recentemente a Rússia recusou receber a visita de um ministro iraquiano.

19 Dificilmente se trata de uma novidade para um regime que forneceu armas aos Contra da Nicarágua, patrocinados pelos EUA no início dos anos oitenta.

20 Os EUA conseguiram Cuba e Porto Rico da mesma forma, durante a sua guerra com a Espanha em 1898.

21 Contrariamente ao seu padrão e à sua quase invariável prática de recusar confirmar ou negar alegações sobre a sua actividade, a CIA denunciou-o depois como uma maquinação.

22 Esta é a razão pela qual o FMI financiou a Turquia e não a Argentina.

23 Num país que se orgulha de os seus cidadãos não terem qualquer cartão de identidade nacional.