Reproduzimos de seguida um comunicado datado de 3 de Novembro de 2011 da Organização Comunista da Grécia (KOE), uma organização marxista-leninista grega, sobre a actual situação nesse país.

Grécia: Não há «salvação nacional» enquanto não derrubarmos a troika e o seu regime

Cada um de nós e todos juntos – sair à rua!

Estamos a meio de uma tempestade de rápidos desenvolvimentos políticos. O factor popular é o catalisador. Foi o povo grego que isolou, deslegitimou e marginalizou o governo de Papandreou. O povo pronunciou um estrondoso NÃO ao estado de emergência da troika FMI-UE-BCE e aos acordos com os salteadores internacionais. As manifestações sem precedentes que tiveram lugar durante a última greve geral política de 48 horas e o acontecimento histórico da transformação do Dia Nacional em dia do «NÃO à nova ocupação» não foram as últimas gotas, mas as ondas mais recentes que aceleraram a raiva popular.

Face ao impasse da sua política, o «primeiro-ministro» Papandreou tentou uma chantagem generalizada com a sua decisão de fazer um referendo sobre o último acordo nojento de subordinação imposto pela Cimeira da UE de 26 de Outubro. Ele não tinha nenhuma certeza de que o seu referendo se iria realizar – apesar disso, pensou que, através dele, pudesse fazer chantagem: a) às instituições políticas sistémicas para lhes extorquir o seu consenso; b) a certos factores externos com base no apoio de outros; c) ao povo grego. A possibilidade realista de um retumbante NÃO à subordinação e à nova ocupação, caso o referendo se concretizasse (dado que o povo grego tem demonstrado a sua disposição de derrubar o governo e a troika, de todas as formas possíveis) alarmou os quartéis-generais europeus e locais.

O que ontem ocorreu na Cimeira do G20 em Cannes foi uma nova página negra na história da subordinação da classe dominante grega, digna das mais negras tradições da venda dos interesses do nosso povo e do nosso país, desde a fundação do estado grego. O que ontem aconteceu provavelmente apenas pode ser comparado à era da guerra civil sob controlo norte-americano e à situação após a guerra civil [de 1946-49]. Merkel e Sakorzy anunciaram ao vivo qual o tipo de referendo que é permitido ao povo grego e qual o que não o é – ameaçando com a fome, como verdadeiros salteadores, as massas gregas caso desafiem as decisões deles. O «primeiro-ministro» Papandreou, o mais patético figurante que alguma vez esteve presente em Cannes, ficou à espera num canto até Merkel-Sarkozy anunciarem a sua decisão, e depois apenas apareceu para ratificar as ordens dos extorsionários europeus.

A chantagem de Merkel-Sarkozy traduz-se assim: «Nós é que decidimos o vosso destino. Vocês calam-se e obedecem. Vocês estão sujeitos ao estado de emergência, e o vosso povo não tem direito a exprimir a sua opinião – o vosso povo está em liberdade condicional e sob tutela estrangeira. Vocês vão formar um «governo de unidade nacional» que nos vai servir, caso contrário nós vamos pôr-vos fora da zona euro, assim que acabarmos de vos espremer completamente. E não é preciso dizer que, em todo o caso, vão continuar a pagar.» Face a esta extorsão, o que é que responderam o sistema político da subordinação, os seus partidos políticos e os seus principais meios de comunicação? A resposta deles foi: «Vamos apoiar o regime da troika através de um ‘governo de salvação nacional’.» Não esperamos outra coisa de um sistema que não consegue sobreviver sem o domínio dos extorsionários e dos usurários. Não esperamos nada de diferente de um sistema que amarrou o seu destino ao serviço dos seus amos estrangeiros.

No entanto, o nosso povo consegue fazer uma coisa diferente! Derrubar este regime miserável. Isto é, derrubar a troika e os acordos com os salteadores internacionais e pôr fim ao sistema político corrupto. Unindo as suas imensas forças para fornecer um caminho político, económico e social diferente ao país. Esse caminho exige o fim imediato e total dos pagamentos aos «credores» e o inicio de uma grande campanha pela restruturação da produção, para que o povo grego consiga estar sobre os seus próprios pés e deixe de viver sob tutela e chantagem estrangeiras. Assim, o nosso povo conseguirá seguir na via da Democracia autêntica, da Independência e da Emancipação. Esta é a via da verdadeira salvação, da sobrevivência e da liberdade para o povo e para o país.

Quando o nosso povo seguir por este caminho, não terá medo de romper com todos os factores e mecanismos que mantêm a Grécia com o estatuto de país cativo e humilhado, que transformam a Grécia num protectorado europeu pós-moderno, submerso na miséria e na escravidão. Desta forma, será enviada uma mensagem de Dignidade e Resistência da Grécia para os povos de todo o mundo. A zona euro, imersa numa longa trajectória de rivalidades e liquidação, não conseguirá sobreviver através da transformação em ruínas de todas as conquistas populares e democráticas. O euro, depois de ter sido o veículo em dinheiro vivo da transferência de riqueza para os poucos poderosos, o veículo das opções mais obscuras e antipopulares, é agora usado como um dogma religioso inegociável, à custa da sociedade. No entanto, não há outra doutrina a não ser a sobrevivência e a dignidade do povo!

O consenso de todo o mundo burguês, baseado na aceitação do acordo de tipo colonial, tal como foi ontem imposto em Cannes por Merkel e Sarkozy, é uma provocação contra o povo grego e a sua vontade expressa. Caíram as máscaras: o Sr. Samaras, líder da «oposição» de direita e até ontem «opositor do acordo», declarou hoje que está presente e pronto para um governo ao serviço de todos os acordos, da troika e do último acordo de tipo colonial. Isto não é uma «salvação nacional», mas sim um caminho coordenado para a liquidação do país e de toda a sociedade.

Nenhum governo de «unidade nacional», de «salvação», «consenso» ou o que lhe quiserem chamar, será aceite pelo povo enquanto aqueles que prepararam esta «solução» quiserem manter a perpetuação do estado de emergência e o domínio da troika. Não haverá nenhuma unidade se eles quiserem o nosso povo de joelhos e o nosso país subordinado a amos estrangeiros! Não haverá nenhum consenso enquanto os acordos predatórios se mantiverem em vigor e a troika se mantiver na Grécia. O nosso povo «votará» novamente nas ruas e vai enviar de novo uma mensagem clara: NÃO à nova ocupação!

O povo grego nunca pediu uma «solução» através de eleições, nem através de um referendo nas condições ditadas por Papandreou ou pela UE (embora o povo grego também pudesse encontrar uma forma de exprimir a sua raiva e o seu NÃO em qualquer um desses processos – eleições ou referendo), nem um «governo de salvação nacional» ao serviço da troika. Por esta razão, a criação de um novo «governo de unidade nacional» pró-troika é um flagrante desvio e um golpe antidemocrático. O nosso povo pronunciou-se claramente: lutou nas ruas pela queda deste governo que hoje se está a despedaçar. Lutou pelo derrube de todo o sistema político corrupto e para pôr fim à junta dos acordos e da troika. Exigiu uma verdadeira Democracia e Independência.

Ninguém pode subestimar este claro mandato popular! É com estas reivindicações que o nosso povo vai continuar a luta até ao derrube de qualquer governo que esteja ao serviço da troika. O papel da Esquerda não é pedir eleições em geral, mas sim contribuir para a construção de uma ampla frente popular pela salvação do país.

Não há «salvação nacional» enquanto não derrubarmos a troika e o seu regime

Fim aos pagamentos, Restruturação produtiva, Democracia – JÁ!

Uma Frente Política e Social por uma saída político-económico-social!

NÃO à nova ocupação – Por uma mudança popular radical!

3 de Novembro de 2011

Organização Comunista da Grécia – KOE