“Tudo começou com uma árvore”

– Comunicado do Partido Comunista do Irão (Marxista-Leninista-Maoista) sobre a Turquia

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 26 de Junho de 2013, aworldtowinns.co.uk

Publicamos de seguida excertos editados de um comunicado do Partido Comunista do Irão (Marxista-Leninista-Maoista) de 2 de Junho. A versão integral do comunicado está disponível em inglês e farsi em www.cpimlm.com.

Uma palavra de ordem popular na Turquia diz o seguinte: “Ei, lâmpada – tudo começou com uma árvore! Percebes?”

A lâmpada é o símbolo do partido do governo (AKP, liderado por Erdogan), mas durante o reinado de décadas desse partido tem sido sinónimo de estupidez e atraso cultural. A palavra “árvore” é uma alusão ao grande movimento dos últimos dias iniciado por um pequeno número de activistas ambientais que se opuseram à transformação do Parque Gezi (adjacente à Praça Taksim em Istambul) num centro comercial, mas também é uma referência a Adão e Eva com o objectivo de ridicularizar os tabus sexuais do regime do AKP, enrolados em rituais religiosos apodrecidos.

Ficou claro que o regime de Erdogan está a enfrentar uma grande crise política. Além da destruição do meio ambiente e da Praça Taksim, muitos factores mais profundos estiveram envolvidos na formação desta crise política. A implementação – passo-a-passo de medidas islâmicas, como as restrições aos partos por cesariana e ao aborto, a proibição do consumo de álcool a certas horas e dos beijos em público, tudo isto tem causado fúria entre as massas e provocou a sua efusão para as ruas.

O regime turco quer agrupar a sua base social islâmica e transformá-la numa força ideológica, mas ao fazê-lo isolou-se de uma grande sector da população. O envolvimento da Turquia na crise da Síria e o seu apoio às oposições islâmicas reaccionárias e os preparativos para aventuras militares no Médio Oriente, e o projecto para transformar a Turquia no chamado “Império Otomano do Século XXI” são factores que ampliaram o âmbito da ira popular contra o regime do AKP.

À parte factores ideológicos e políticos, a fragilidade do modelo de desenvolvimento económico da Turquia também está a alimentar a actual crise. Nenhuma das políticas económicas do regime do AKP resultou em desenvolvimento económico sustentável. Nos últimos dez anos, o sistema capitalista mundial penetrou a economia turca mais profundamente que em qualquer outro período da sua história.

O regime do AKP não só está isolado entre alguns sectores do povo, como também, com o surgimento dos efeitos da sua aventureira política externa regional e de dúvidas sobre a sustentabilidade das suas políticas económicas, o descontentamento entre os estratos burgueses também tem aumentado.

O súbito aparecimento deste movimento anti-regime na Turquia é o acontecimento mais importante no Médio Oriente. Este movimento pode destruir uma vez mais todos os cálculos feitos pelos imperialistas e pelos reaccionários regionais. A Casa Branca e a embaixada norte-americana na Turquia estão a seguir os acontecimentos de perto e mantêm-se em contacto directo com o primeiro-ministro turco e os outros partidos parlamentares do país.

A principal política do inimigo é marginalizar as massas ao máximo para que não tenham nenhuma voz na definição do caminho e na decisão dos objectivos deste movimento. O inimigo sabe que para o conseguir tem de impedir que os objectivos e as expectativas das massas vão além da democracia eleitoral e parlamentar, e canalizar este movimento no caminho da alternância entre partidos leais ao estado, como o Partido Popular Republicano (CHP) e os outros partidos parlamentares. As afirmações do primeiro-ministro, as declarações sobre política externa feitas pelos Estados Unidos e o discurso dos partidos parlamentares da Turquia são todos sobre a “democracia parlamentar”, as “urnas eleitorais”, a necessidade de negociações entre os partidos parlamentares e por aí adiante.

A comunicação social difunde as notícias do movimento com imagens e declarações em linha com esta política. Por exemplo, nas suas declarações, o primeiro-ministro enfatiza que “numa democracia, os protestos devem ser feitos no parlamento e através do voto”. O presidente da câmara de Istambul diz que este movimento demonstrou que temos de “consultar” as pessoas quando fazemos qualquer coisa. A comunicação social oficial basicamente relata os slogans e as bandeiras dos partidos parlamentares, enquanto as barricadas e a luta com a polícia, basicamente levadas a cabo por activistas de esquerda e partidos revolucionários anti-regime, com a participação das massas não organizadas, não têm quase nenhuma cobertura.

O Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) e o seu líder Abdullah Öcalan não apoiaram este movimento até 2 de Junho, apesar da manifestação de 1 de Junho na cidade de Amed (Diyarbakir, Curdistão) com as palavras de ordem “Comunicação social, porque se mantêm em silêncio?”

Nenhum dos partidos burgueses pode ignorar este movimento nem o seu futuro. Todos eles, incluído o partido do governo, estão a seguir uma política dupla em relação a isto: por um lado, contendo os objectivos, as expectativas e as reivindicações do movimento e impedindo-o de se transformar num movimento com o objectivo de derrubar o sistema e, por outro, usando-o como moeda de troca uns contra os outros por uma maior fatia de poder e para uma maior consolidação do estado.

Os estados da região estão a seguir de perto os acontecimentos na Turquia. O ministério dos negócios estrangeiros iraniano emitiu um comunicado em que exprime a esperança numa “resolução pacífica”. Não há dúvida de que a República Islâmica do Irão está contente por ver o governo turco arrastado para uma crise política. Mas, por outro lado, eles sabem que uma maior radicalização e propagação do movimento, sem um conteúdo islâmico mas com uma tendência laica e de esquerda, irá afectar sem dúvida as massas no Irão.

O regime islâmico do Egipto liderado por Mohammed Morsi está extremamente preocupado, dado que apresentou o governo do AKP como modelo e está preocupado com o destino do “Padrinho” do Islão moderado no Médio Oriente e com os efeitos que os desenvolvimentos na Turquia possam ter no futuro dos outros regimes da região.

A oposição reaccionária na Síria, envolvido numa intensa luta com o exército sírio e o Hezbollah do Líbano, tinha posto todas as suas esperanças na capacidade do regime turco para persuadir os exércitos da NATO e dos EUA a iniciarem uma intervenção militar na Síria para acabar com o regime de Assad. Agora, até Erdogan sabe que esta retórica é uma bolha explosiva, pelo menos até que possa restabelecer a estabilidade política em casa.

Há uma necessidade intensamente sentida de que o que começou no Médio Oriente como sendo a “Primavera Árabe” dê um grande passo na Turquia. Para que isso aconteça e afecte qualitativamente os movimentos de protesto de massas em todo o Médio Oriente e no mundo, é necessária uma crítica total do sistema dominante no Médio Oriente: a natureza dos estados e das formações políticas e sociais dominantes nestes países, incluindo a natureza da “democracia eleitoral”; a natureza das contradições entre o Islamismo e o imperialismo; e a importância da expansão do sistema patriarcal religioso e da opressão das mulheres através da integração da religião no estado na reprodução de formações de opressão e exploração dependentes do sistema capitalista mundial.

A seguinte pergunta deve ser colocada: porque é que a Praça Tahrir no Cairo se transformou numa praça onde as mulheres são violadas? Temos de perguntar: porque é que os sacrifícios das pessoas no Egipto e na Tunísia foram depositados nas contas dos partidos islamitas?

Os comunistas revolucionários na Turquia têm de apelar à solidariedade internacional com todas as nações oprimidas do Médio Oriente, e o ponto central desta declaração deve ser que as negociações de paz entre as burguesias turca e curda não levarão à libertação do povo curdo. Só podem levar à participação dos burgueses-feudais curdos no sistema dominante, o que só pode significar um inferno de opressão, patriarquia religiosa, intensificação da opressão das mulheres e pobreza para a maioria das massas.

Este movimento deveria prestar uma atenção particular a confrontar o regime nos principais pontos do seu programa: a destruição das forças revolucionárias através da sua atracção para o esgoto parlamentar; a transformação da Turquia num gendarme do imperialismo norte-americano e da União Europeia no Médio Oriente com slogans chauvinistas sobre a restauração do Império Otomano; a integração da religião no estado e a intensificação do sistema patriarcal e da misoginia dentro do quadro de uma maior abertura da Turquia à globalização capitalista. É impossível confrontar este regime sem debater estas questões.

A questão que este movimento não pode ignorar é o comunismo, a perspectiva e o programa comunistas. Levar esta perspectiva e este programa às pessoas neste movimento é um enorme desafio para os comunistas revolucionários, mas sem que propaguem com ousadia esta perspectiva e este programa, não é possível levar adiante corajosamente esta luta específica contra este regime.

A existência de vários partidos da burguesia neste movimento é uma fonte de ilusões e de rebaixamento dos objectivos, mas, por outro lado, esta situação pode ser usada para expor a natureza e o programa de outras forças de classe. A falta de atenção ao programa e às palavras de ordem de outros partidos com o pretexto de preservar a unidade só pode levar ao fortalecimento dos objectivos e dos programas desses partidos entre as massas populares.

Este movimento trouxe uma explosão de ar fresco à Turquia e a todo o Médio Oriente, mas também tem limitações políticas muito sérias. Através de pequenos e grandes passos tem de superar estas limitações, e através desses passos persistir e desenvolver-se. Temos de entender que as limitações, ainda que reais, são condicionais e relativas, e não absolutas. Estas limitações podem ser transformadas através de um empenho consciente. As tarefas dos comunistas revolucionários são as de empurrar constantemente estes limites e de fazer o seu melhor no maior grau possível para os transformar: através da agitação e da propaganda, de palavras de ordem, da radicalização das declarações gerais, das discussões de organização e debates à noite sobre a natureza do caminho parlamentar, a possibilidade de mudar radicalmente a sociedade, a situação no Médio Oriente e os deveres internacionalistas, a importância da luta contra o sistema patriarcal e a integração da religião no estado, expondo a natureza e as expectativas de “paz” entre o estado turco e o movimento curdo, e por aí adiante.

Através disto, podemos acelerar a situação e estar preparados para desenvolvimentos inesperados. Uma mudança da posição existente num movimento não pode ser só o resultado da intervenção de uma força de vanguarda, mas essa intervenção pode ser um factor determinante na alteração do quadro predominante no movimento. Esta intervenção, combinada com outros factores, pode afectar as perspectivas globais de um movimento e conduzir a uma mudança qualitativa. Mas é impossível prever como é que a soma destas perspectivas se irá desenvolver. Em geral, temos de seguir o que Lenine formulou: essa consciência comunista, a perspectiva e a metodologia comunistas, não podem desenvolver-se espontaneamente entre as massas.

Já se pode dizer que há dois caminhos para o movimento actual: ou afundar-se no pântano da estupidez parlamentar propagada pelo partido do governo e por outros partidos apoiados pelo estado e pela comunicação social internacional e turca, ou construir um movimento para mudar radicalmente a sociedade. Construir o segundo caminho é a tarefa que enfrentam os jovens de esquerda e comunistas na Turquia. Agora, a questão é: o que é que tem de ser feito para construir esse movimento? Como é que os comunistas podem participar no actual movimento sem irem atrás da sua espontaneidade e, desta forma, moldarem o futuro?