O seguinte comunicado do GMCR (Europa) foi distribuído em vários países da Europa por altura da tomada de posse de Donald Trump no início de janeiro de 2017.

Sobre a eleição de Trump, o perigo real do fascismo nos Estados Unidos e as implicações para uma deslocação para a direita na Europa

A movimentação para instalar Donald Trump e impor um regime fascista nos EUA coloca perigos sem precedentes para os povos do mundo e para o planeta. A promessa de Trump de “Tornar os Estados Unidos grandiosos de novo” é uma declaração de que todos os horrores que há muito tempo o imperialismo norte-americano tem vindo a infligir aos povos do mundo serão agora elevados a todo um novo nível. Trump defende a supremacia branca, ataca os muçulmanos, minimiza a brutalidade policial contra os negros, ameaça deportar milhões de imigrantes, avilta agressivamente as mulheres, defende a tortura, brande o uso de armas nucleares, chama farsa às alterações climáticas... Trump é um fascista que está a ser colocado à cabeça do estado imperialista mais poderoso da história mundial – e tem o dedo no gatilho nuclear.

Seria um erro sério subestimar o perigo colocado pela ascensão do regime de Trump. O imperialismo norte-americano é o centro dominante de um sistema global que tem sido responsável por incontáveis horrores – tem levado a cabo guerras infindáveis pelo império, tem apoiado regimes reacionários cruéis em todos os cantos do globo, tem espremido lucros e as vidas de centenas de milhões de pessoas em todo o mundo, tem saqueado os recursos do planeta e promovido valores reacionários em todo o mundo. Tudo isto tem sido feito sob governos tanto Democratas como Republicanos. Todas as principais forças políticas da classe dominante nos EUA têm responsabilidade por estes crimes.

Porém, Trump e a equipa que ele está a nomear representam uma manifestação extrema do imperialismo norte-americano: eles pretendem impor uma forma fascista de ditadura capitalista que irá incrementar todos os crimes do imperialismo para níveis nunca antes vistos. Tal como explica a declaração “Em nome da Humanidade, recusamo-nos a aceitar uns Estados Unidos fascistas”:

O fascismo é uma coisa muito séria. O fascismo fomenta e baseia-se num nacionalismo xenófobo, no racismo e na reinstituição agressiva de “valores tradicionais” opressores. O fascismo alimenta e encoraja a ameaça e o uso da violência para criar um movimento e chegar ao poder. O fascismo, uma vez no poder, elimina essencialmente os direitos democráticos tradicionais. O fascismo ataca, prende e executa os seus opositores e desencadeia violentos ataques de turbas contra as “minorias”. Na Alemanha nazi dos anos 1930 e 1940, com Hitler, o fascismo fez tudo isto. Eles encarceraram milhões de pessoas em campos de concentração e exterminaram milhões de judeus, Roma (ciganos) e outros “indesejáveis”. E Hitler fez quase tudo isto através de instituições estabelecidas e do “estado de direito”. É nesta direção que as coisas estão a ir. (www.revcom.us).

Se o regime de Trump consolidar o seu domínio das rédeas do estado imperialista norte-americano, as consequências para o mundo serão imensas. Não menor será o grande ímpeto que isto dará, e já está a dar, aos movimentos fascistas em geral. Marine Le Pen em França, Gert Wilders na Holanda, Orban na Hungria e os revivalistas nazis alemães da “Alternative für Deutschland” aceleraram a um passo mais apressado com as notícias da vitória de Trump. Ao mesmo tempo, os partidos reacionários “tradicionais” de Direita e de Esquerda esforçam-se para se manterem no poder.

Os velhos fantasmas estão a emergir das sombras para ameaçar as ruas de Berlim e das capitais da Europa...

Tal como Trump e o movimento que ele está a levar ao poder têm estado em gestação há várias décadas dentro das entranhas do imperialismo norte-americano, também há movimentos fascistas que têm vindo a fermentar na Europa. Mas até ao último par de anos eles espreitavam das margens da governação. Com o Brexit, e agora com Trump, eles estão a avançar impetuosamente para chegarem às rédeas do governo. Embora estes movimentos em diferentes países europeus tenham tons e configurações específicos – a ascensão de fascistas como a AfD na terra dos nazis assume inevitavelmente uma forma diferente da dos fascistas em França ou na Holanda – eles estão a assumir todas as variações de um único tema: todos eles querem substituir a forma de regime liberal-democrático burguês do pós-II Guerra Mundial por uma forma direitista de ditadura capitalista mais agressiva, xenofóbica e anti-imigrante que elimina os direitos democráticos tradicionais, com cada um deles a agitar a sua própria bandeira de jingoísmo nacionalista. Sintomático de tudo isto, são os esforços para reafirmar violentamente o sistema patriarcal e a subjugação das mulheres.

Estes desenvolvimentos refletem a profunda crise que os imperialistas ocidentais estão a enfrentar no sistema de governação deles e o estilhaçar da ideologia política unificadora da democracia burguesa que eles há muito usam para encobrir e justificar a sua exploração e o seu domínio de classe. Neste quadro, há poderosas movimentações para adotar uma forma extrema de regime que se baseia abertamente na força, na violência e numa afirmação mais agressiva dos seus próprios interesses nacionais reacionários.

Tentar tomar as rédeas da situação através do reavivar das forças social-democratas da Europa e de tomar por base manobras legais e parlamentares não irá resultar e não permite entender que foi o domínio destas forças e o modo como os partidos tradicionais da classe dominante, de direita e de esquerda, têm encabeçado o sistema imperialista há várias gerações que conduziram à situação que hoje enfrentamos. Os governos dos principais partidos como o Partido Socialista de François Hollande em França, a CDU de Angela Merkel na Alemanha e o Partido Trabalhista de Tony Blair e o Partido Conservador de David Cameron na Grã-Bretanha têm presidido nos respetivos países a crimes muito graves tanto em casa como no estrangeiro. Eles supervisionaram uma vaga sem precedentes da globalização imperialista, ao mesmo tempo que o capital expandia os seus tentáculos a cantos cada vez mais distantes do mundo; eles desencadearam guerras que estilhaçaram o Médio Oriente; destruíram as redes de segurança social do pós-guerra e aprofundaram a pobreza e a desigualdade nos seus países. Pôr a esperança ou contar com estas forças para parar a ameaça fascista e alimentar a ilusão de que a maré direitista pode ser domesticada através de uma ou outra eleição, irá desarmar e desorientar as pessoas face aos perigos reais que elas precisam de combater energicamente desde já… e irá conduzir, em última análise, à acomodação, a desculpas e por fim à colaboração com a mudança reacionária para a direita.

À estabilidade da ordem do pós-II Guerra Mundial sucedeu-se um período de grande agitação – económica, política e socialmente – em todo o mundo. Isto foi marcado por uma grande deslocação de pessoas e miséria em grande parte do mundo e preparou o terreno para a ascensão do fundamentalismo islâmico e está agora a fomentar a ascensão de movimentos fascistas na Europa e nos EUA.

Um dos pilares-chave do mundo do pós-guerra tem sido a União Europeia (e as suas precursoras), e esta está a ameaçar desmoronar-se. Até agora, os imperialistas na Europa têm defendido os seus interesses e gerido os seus conflitos principalmente através da UE. Porém, a estrutura e o projeto da UE têm sido colocados sob uma tremenda e crescente tensão ao longo do período mais recente. Estão a emergir poderosas forças e movimentos sociais que defendem que os interesses nacionais só podem ser servidos abandonando o quadro da UE, tal como aconteceu com o Brexit na Grã-Bretanha. O eixo franco-alemão do projeto europeu está a ser devorado de ambos os lados pelo surgimento de movimentos nacionalistas extremos. A eleição de Trump e o programa dele para reafirmar a hegemonia dos EUA irão intensificar tendências para promover ainda mais este programa nacionalista e intensificar a competição com os EUA e outras potências. Os movimentos fascistas são a extremidade de uma deslocação para a direita que também envolve a maioria das principais forças políticas europeias.

Aquilo que é necessário não são as impotentes fantasias de nos esforçarmos para fazer com que os principais partidos, e sobretudo os socialistas e social-democratas, controlem estes fascistas – isso iria mostrar ser não só fútil, mas pior, porque irá canalizar a resistência de volta para o mesmo quadro que os originou em primeiro lugar. Quando, depois das eleições, Obama, ao comentar a relação dele com Trump, disse que “Primeiro, somos americanos. Primeiro, somos patriotas”, ele disse uma verdade importante: ele e Trump colocam os interesses do imperialismo norte-americano acima dos interesses da humanidade. Vejam como Hillary Clinton respondeu ao slogan de Trump de “Tornar os Estados Unidos grandiosos de novo” com a versão dela, “Os Estados Unidos sempre foram grandiosos”. Não, os Estados Unidos nunca foram grandiosos – foram criados com base na escravidão, no genocídio e na guerra – e tornar os termos da luta contra Trump, ou contra os fascistas na Europa, numa competição pelo patriotismo imperialista está destinado a reforçar o pensamento reacionário que tem legitimado todos estes crimes, fomentado assim uma maior ascensão destes monstros.

Um elemento-chave da atual situação é o crescimento do fundamentalismo islâmico e o crescente confronto sangrento entre os imperialistas, por um lado, e os fundamentalistas islâmicos, por outro. É a exploração e a impiedosa opressão em grande parte do terceiro mundo e o fechar de portas ao progresso social que tem nutrido e intensificado movimentos que desafiam a dominação política e cultural ocidental, mas com uma perspetiva e um programa horrendos e reacionários que não oferecem nenhuma alternativa real à ordem mundial capitalista e imperialista. Este conflito sangrento e reacionário está a fomentar o crescimento do fascismo nos países imperialistas, e Trump e os fascistas europeus irão por seu lado alimentar também um maior crescimento dos fundamentalistas islâmicos.

Veja-se a forma como a Europa imperialista lidou com as devastações que ajudou a infligir no Médio Oriente, e no Iraque e na Síria em particular. A invasão do Iraque encabeçada pelos imperialistas norte-americanos em 2003 conduziu à intensificação de uma batalha entre os imperialistas ocidentais por um lado e várias forças fundamentalistas islâmicas por outro – os crimes de cada lado têm polarizado ainda mais a sociedade entre eles, minando qualquer campo intermédio e conduzindo a um frenesim reacionário de derramamento de sangue que destruiu a Síria: 500 mil sírios morreram na guerra e mais de metade da população de um país de 23 milhões de habitantes foi deslocada, com milhões de refugiados a desaguar na Turquia e na Jordânia e centenas de milhar a fugir através do Mediterrâneo para salvarem as suas vidas. E que fizeram os principais líderes da Europa? Colaboraram calejadamente com o turco Erdogan para incrementarem os muros que protegem a Europa Fortaleza das mesmas vítimas que a guerra deles criou, com mais de 4500 refugiados a afogarem-se no mar só este ano na sua busca cada vez mais desesperada por uma rota para a segurança – enquanto Merkel, Cameron, Hollande e os outros ficavam a ver como se fossem simplesmente espectadores inocentes. Também aqui pondo os interesses estreitos da nação imperialista acima dos da humanidade desesperada e, em última análise, alimentando nacionalistas fanáticos como a AfD, LePen e Farage.

A ideia de que o jingoísmo nacionalista dos fascistas pode ser contrariado com sucesso defendendo uma Europa progressista, como se ir do nacionalismo para o europeísmo de alguma maneira “alargasse” os horizontes, não é uma maneira de lidar com a realidade do que representa a Europa. A Europa é o local de nascimento da colonização do mundo e de tudo o que lhe está associado, incluindo o genocídio dos nativos americanos, o tráfico de escravos, a pilhagem de África, da América Latina e da Ásia e as duas guerras mundiais. Os horizontes da Europa continuam a ser os horizontes da dominação da maior parte da humanidade oprimida pelo velho continente, agora em conluio com os EUA. O que é urgentemente necessário é confrontar o mesquinho jingoísmo patético de “o meu povo primeiro” com o visionário e emancipador grito de guerra “O mundo inteiro está primeiro!”

As oportunidades que podem e devem ser agarradas

Esta intensificação da movimentação para o fascismo reflete uma grande contradição que está a despedaçar as sociedades ocidentais em geral, à medida que as normas legitimadoras que têm caracterizado a maneira como estas sociedades têm sido governadas há várias gerações são destruídas e novas normas, mais horrendas e mais reacionárias, são impostas por Trump e pelos semelhantes a ele. As pessoas nos EUA e em todo o mundo têm reagido a estes desenvolvimentos com uma profunda fúria e uma enorme preocupação: a revolta contra os resultados das eleições nos EUA não tem precedentes. Mas forças poderosas estão a trabalhar para normalizar a situação, incluindo os próprios líderes do Partido Democrata, com a conversa de trabalharmos com Trump onde pudermos e de nos opormos a ele onde não pudermos... normalizando esta movimentação para o fascismo com a lógica de que, afinal de contas, “ele ganhou as eleições”.

Mas muita gente, sobretudo aqui na Europa, pode recordar-se de outra força que chegou ao poder através de eleições: os nazis de Adolf Hitler. E se, em vez de uma aceitação ressentida devido à vitória eleitoral dele, um número muito maior de pessoas tivesse recebido a ascensão de Hitler com uma oposição intransigente, com uma recusa a cooperar com ele e com a equipa nazi dele na consolidação do controlo por parte deles do poder nos anos 1930? O que é necessário agora é uma rejeição da atual conciliação com Trump e a equipa dele, conciliação essa que está a ser pedida por demasiada gente, e das tentativas de normalização desta deslocação reacionária para o fascismo. Em tempos turbulentos como estes, quando as pessoas são puxadas para fora da rotina de tempos mais passivos pela ascensão destes grandes perigos, elas podem aprender rapidamente qual é a natureza do sistema por trás de tudo isto e a necessidade de uma forma radicalmente nova de organizar a sociedade, através da revolução.

Bob Avakian concebeu uma analogia para as formas como Hitler e os nazis atacaram a República de Weimar na Alemanha (o regime democrático-burguês, não fascista que precedeu os nazis) e destacou a resposta que era necessária:

A resposta não é tentar defender e manter a “República de Weimar” (a democracia burguesa – a “forma democrática” de ditadura capitalista) enquanto tal. Isso não oferece uma verdadeira solução, e certamente nenhuma que sirva os interesses das massas populares e da grande maioria da humanidade. Mas devemos reconhecer e não ficar cegos ao que significa quando estes fascistas põem a “República de Weimar” – por analogia, os liberais da classe dominante – no campo do inimigo e chegam mesmo a rotulá-los de traidores e a persegui-los devido a isso. A que é que isso está a preparar o terreno, quais são as implicações disso? A questão, e o nosso objetivo, uma vez mais, não é defender a República de Weimar – indo atrás do setor “liberal” da classe dominante imperialista e apoiando-o – mas reconhecer inteiramente, e opor-nos de uma maneira radicalmente diferente e para fins radicalmente diferentes, à gravidade destes ataques e ao que tudo isto representa. Em conversas e textos anteriores falei deste fenómeno de dissolução do que há algum tempo tem sido o “centro de coesão” da sociedade e do regime da burguesia nos EUA – e de como já estamos a ver manifestações disso. Salientei que tudo isto não irá ser, de maneira nenhuma, positivo a curto prazo, e deixado a si mesmo – e não é esse o papel dos comunistas, não vai de encontro às nossas responsabilidades, simplesmente ficar a ver e a celebrar toda a dissolução do atual centro de coesão e da forma do regime capitalista e pensar que isso vai significar que algo de positivo venha forçosamente a emergir disto e que de facto venha simplesmente a “cair no nosso colo”. Temos de assumir o extraordinário desafio da repolarização – uma repolarização para a revolução.

A “República de Weimar” precisa de ser substituída, e ultrapassada. A república burguesa – o regime do capitalismo e do imperialismo, na sua forma democrático-burguesa – é de facto um sistema repressivo de governo, enraizado em toda uma cadeia e um processo de exploração e opressão que trazem um sofrimento incalculável, e desnecessário, a milhões, e literalmente a milhares de milhões, de pessoas, em todo o mundo, incluindo dentro da própria república. Precisa de ser substituído e ultrapassado, mas não por uma forma ainda mais grotesca e mais abertamente assassina do mesmo sistema, mas por uma sociedade radicalmente nova, e um tipo radicalmente diferente de estado que abrirá caminho e levará finalmente à abolição de todas as formas de regime opressores e repressivos e de todas as relações de dominação e exploração em todo o mundo.

Temos de combater a irrupção de forças e tendências fascistas na Europa, bem como nos EUA. Ao mesmo tempo que estamos ombro a ombro na oposição à instalação de Trump, precisamos de destacar a fonte destes monstruosos desenvolvimentos – Trump, LePen, a AfD e os restantes fascistas, são um produto de um sistema, o capitalista-imperialista, e enquanto este sistema se mantiver instalado, eles e os reacionários como eles, qualquer que seja o dialeto deles, serão uma ameaça sempre presente. No decurso da entrada no centro desta tempestade, temos de ajudar um grande número de pessoas a aprenderem que o sistema que produz estes fascistas precisa de ser varrido e que é necessário e possível avançar para uma ordem totalmente nova e radicalmente diferente – uma sociedade revolucionária na via para a emancipação comunista da humanidade. Deste ponto de vista e com uma compreensão clara dos perigos que o regime de Trump representa para as pessoas nos EUA e no mundo inteiro, é urgentemente necessário um movimento de massas aqui na Europa e em todo o mundo para parar a movimentação para instalar este regime fascista nos EUA e a intensificação das ameaças na Europa.

Para obteres mais informações, contacta o Grupo do Manifesto Comunista Revolucionário: Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.