Relatório da ONU: O que aconteceu no “Mavi Marmara”

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 4 de Outubro de 2010, aworldtowinns.co.uk

Publicamos de seguida excertos do relatório de uma Missão mandatada pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU sobre os factos relativos à interceptação a 31 de Maio de 2010 por Israel de uma flotilha de navios que levava bens humanitários para Gaza (Relatório A/HRC/15/21), Mantivemos a numeração dos parágrafos do documento original e reproduzimos os parágrafos inteiros, embora tenhamos feito uma selecção desse documento de 56 páginas centrada no Mavi Marmara, o maior navio e no qual foram mortas nove pessoas. Os subtítulos são do relatório original. Para saber mais sobre este relatório e as reacções a ele, veja o artigo anexo.

Tentativa inicial de subir a bordo do Mavi Marmara a partir do mar

112. Barcos Zodiac israelitas fizeram uma primeira tentativa de subir a bordo do Mavi Marmara a partir do mar pouco antes das 0430 horas. Vários barcos Zodiac abordaram o navio pela popa, tanto vindos de bombordo como de estibordo. A abordagem foi apoiada por tiros de armas não letais sobre o navio, incluindo granadas de fumo e atordoamento, gás lacrimogéneo e projécteis de tinta. Nesta fase, também podem ter sido usadas balas de plástico: porém, apesar de algumas alegações de que dos barcos Zodiac também teriam sido disparadas balas reais, a Missão não pôde concluir que isso tenha acontecido. O fumo e o gás lacrimogéneo não foram efectivos devido à forte brisa marítima e mais tarde devido ao vento descendente vindo aos helicópteros.

113. As forças israelitas tentaram subir a bordo do navio fixando escadas de mão ao casco. Os passageiros envolveram-se em esforços para repelirem a tentativa de abordagem tentado usar as mangueiras de água do navio e atirando vários objectos aos barcos, entre os quais cadeiras, paus, uma caixa de pratos e outros objectos que estavam à mão. Esta tentativa inicial de subida a bordo do navio acabou por fracassar. É opinião da Missão que as forças israelitas deveriam ter reavaliado os seus planos quando se tornou óbvio que colocar os seus soldados a bordo do navio poderia causar vítimas civis.

Descida de soldados dos helicópteros sobre o Mavi Marmara

114. Só minutos depois dos soldados dos barcos Zodiac terem feito as tentativas iniciais falhadas de subir a bordo é que o primeiro helicóptero se aproximou do navio por volta das 0430 horas, pairando sobre a coberta superior. Nessa altura, estavam entre 10 e 20 passageiros na zona central da coberta superior, ainda que este número tenha aumentado quando outros passageiros souberam dos acontecimentos na coberta superior. As forças israelitas usaram granadas de fumo e atordoamento numa tentativa de abrirem uma zona para a descida dos soldados. A primeira corda que foi descida do helicóptero foi agarrada por passageiros e amarrada à coberta superior, tendo sido assim tornada ineficaz para o objectivo da descida dos soldados. Foi então descida uma segunda corda do helicóptero e o primeiro grupo de soldados desceu. A Missão não acha plausível que os soldados estivessem a agarrar as suas armas e a disparar à medida que desciam na corda. Contudo, concluiu que antes da descida dos soldados foram disparadas balas reais do helicóptero sobre a coberta superior.

115. Com as provas disponíveis é difícil delinear o curso exacto dos acontecimentos na coberta superior entre o momento da descida do primeiro soldado e as forças israelitas terem assegurado o controlo da coberta. Seguiu-se uma luta entre os passageiros e os primeiros soldados a descer para a coberta superior de que resultaram pelo menos dois soldados empurrados para a coberta da ponte em baixo, onde se envolveram em lutas com grupos de passageiros que lhes tentaram retirar as armas. Foi removido o colete do equipamento de pelo menos um soldado, quando ele foi empurrado pela amurada da coberta. Os passageiros retiraram várias armas aos soldados e atiraram-nas ao mar: uma pistola de 9 mm foi descarregada por um passageiro, um ex-marine norte-americano, à frente de testemunhas, e foi depois escondida noutra parte do navio, numa tentativa de preservar provas.

116. Vários passageiros da coberta superior lutaram com os soldados usando punhos, paus, barras metálicas e facas. Pelo menos um dos soldados foi apunhalado com uma faca ou outro objecto afiado. Testemunhas disseram à Missão que o seu objectivo era dominar e desarmar os soldados para que eles não pudessem fazer mal a ninguém. A Missão conclui que há provas de que pelo menos dois passageiros na coberta da ponte também usaram catapultas de mão para arremessarem pequenos projécteis contra os helicópteros. A Missão não encontrou nenhuma evidência que sugira que qualquer dos passageiros tenha usado armas de fogo ou que houvesse qualquer arma de fogo a bordo do navio. Apesar dos seus pedidos, a Missão não recebeu nenhum registo médico nem qualquer outra informação certificada das autoridades israelitas sobre qualquer dano infligido por armas de fogo aos soldados que participaram na incursão. Os médicos que examinaram os três soldados empurrados das cobertas abaixo não registaram nenhum ferimento de armas de fogo. Além disso, a Missão conclui que os relatos israelitas são tão inconsistentes e contraditórios quanto às provas de alegados ferimentos de armas de fogo em soldados israelitas que tem que os rejeitar.

A morte de nove passageiros e ferimentos em pelo menos 50 outros passageiros

117. Durante a operação para garantir o controlo da coberta superior, as forças israelitas descerem soldados de três helicópteros durante um período de quinze minutos. As forças israelitas usaram projécteis de tinta, balas de plástico e balas reais, disparadas por soldados no helicóptero e por soldados que já tinham descido para a coberta superior. A utilização de balas reais durante este período resultou em lesões fatais em quatro passageiros e em ferimentos em pelo menos dezanove outros, catorze dos quais com ferimentos de balas. Os pontos de fuga da coberta superior para a coberta da ponte eram estreitos e limitados e por isso foi muito difícil aos passageiros nessa zona evitarem ser atingidos pelas rajadas de fogo real. Pelo menos um dos mortos estava a usar uma câmara de vídeo e não estava envolvido na luta com os soldados. A maioria dos ferimentos dos tiros recebidos pelos passageiros foi no tronco superior, na cabeça, no tórax, no abdómen e nas costas. Dado o número relativamente pequeno de passageiros na coberta superior durante o incidente, a Missão é levada a concluir que a vasta maioria recebeu ferimentos causados pelos tiros.

118. Os soldados israelitas continuaram a disparar sobre passageiros que já estavam feridos, com balas reais, cargas de bastões maleáveis (beanbags, bolsas de feijão) e balas de plástico. A análise forense mostrou que dois dos passageiros mortos na coberta superior tinham ferimentos compatíveis com terem sido atingidos à queima-roupa quando já estavam no chão: Furkan Doğan foi atingido por uma bala no rosto e İbrahim Bilgen tinha uma lesão fatal causada por um bastão maleável (beanbag) disparado a tão pouca distância da sua cabeça que componentes como o enchimento lhe atravessaram o crânio e entraram no cérebro. Além disso, alguns dos feridos foram sujeitos a violência adicional, incluindo espancamentos com a coronha das armas, pontapés na cabeça, no tórax e nas costas e abusos verbais. Vários dos passageiros feridos foram algemados e depois abandonados durante algum tempo antes de serem arrastados para a parte da frente da coberta pelos braços ou pelas pernas.

119. Assim que as forças israelitas asseguraram o controlo da coberta superior, tomaram medidas para se deslocarem até a coberta da ponte em baixo, de forma a tomarem a ponte do navio e assim tomarem controlo do navio. Relacionados com esta operação, ocorreram uma série de incidentes com tiros, centrados na entrada de bombordo que dá acesso à escadaria principal da coberta da ponte. Esta entrada fica perto da escotilha e da escada que dão acesso da coberta superior à coberta da ponte.

120. Os soldados israelitas dispararam balas reais tanto da coberta superior para os passageiros na coberta da ponte em baixo como depois de terem descido para a coberta da ponte. Durante esta fase, foram mortos pelo menos quatro passageiros e ficaram feridos pelo menos nove (cinco com ferimentos de armas de fogo). Nenhum dos quatro passageiros que foram mortos, entre os quais um fotógrafo que no momento em que foi atingido estava a tirar fotografias e foi atingido por um soldado israelita posicionado na coberta superior mais acima, constituía qualquer ameaça às forças israelitas. Houve um número considerável de balas reais dos soldados israelitas na coberta superior e vários passageiros foram feridos ou mortos quando se tentavam refugiar atrás da porta ou estavam a ajudar outros a fazê-lo. Os passageiros feridos foram levados para um navio onde puderam receber algum tipo de tratamento médico dado por médicos e outras pessoas que estavam a bordo.

122. Um grupo de até vinte passageiros, alguns deles com paus e barras e envergando máscaras de gás, estava posicionado sobre ou à volta da escadaria no interior do navio. Um passageiro que estava logo atrás da porta foi atingido através da vigia partida da porta por um soldado que estava na coberta da ponte a alguns metros de distância do lado de fora.

123. Durante o tiroteio na coberta da ponte e à medida que se tornava evidente que um grande número de passageiros tinha ficado ferido, Bulent Yildirim, Presidente da IHH [a organização humanitária turca proprietária do navio] e um dos principais organizadores da flotilha, tirou a sua camisa branca que foi então usada como bandeira branca para indicar uma rendição. Isso não parece ter tido nenhum efeito e o fogo vivo continuou no navio.

124. As forças israelitas desceram para a coberta da ponte e deslocaram-se rapidamente para tomarem o quarto da ponte na parte da frente do navio. A entrada e as janelas do quarto da ponte ficaram sob fogo e o capitão do navio ordenou a paragem das máquinas do navio. Os soldados israelitas entraram no quarto da ponte pela porta e pela janela partida. A tripulação foi forçada a deitar-se no chão sob a ameaça de armas. O capitão permaneceu em pé, mas foi mantido sob a mira das armas.

O tiroteio na coberta da proa, a libertação dos soldados israelitas e o fim da operação

125. Durante a luta inicial na coberta superior, três soldados israelitas foram dominados e levados para dentro do navio. Embora alguns passageiros desejassem fazer mal aos soldados, outros trataram de assegurar que eles ficavam protegidos e em condições de receberem tratamento médico básico dos médicos a bordo. Dois dos soldados tinham ficado feridos no abdómen. Um dos soldados tinha um ferimento superficial no abdómen, causado por um objecto aguçado que penetrou o tecido subcutâneo. Segundo os médicos que os examinaram, nenhum dos três soldados tinha ferimentos de balas. Os três soldados estavam em estado de choque e tinham cortes, contusões e traumatismos de força entorpecedora.

126. À medida que se tornou evidente a seriedade dos incidentes nas cobertas exteriores, começou a aumentar a preocupação entre alguns dos organizadores da flotilha de que manter os soldados israelitas capturados poderia ter sérias implicações para a segurança de todos os passageiros a bordo. Foi decidido que os soldados deveriam ser libertados e eles foram levados para a proa da coberta inferior. Uma vez na coberta da proa, dois dos soldados saltaram para o mar e foram recolhidos por barcos israelitas. O terceiro soldado não saltou e foi rapidamente cercado por soldados israelitas que desceram da coberta superior.

127. Pelo menos quatro passageiros ficaram feridos na proa do navio, tanto antes como por volta da altura em que os soldados israelitas foram libertados. Pelo menos dois passageiros foram feridos com balas reais, enquanto outros tiveram lesões causadas por cargas de bastões maleáveis, entre os quais um médico que estava a tratar passageiros feridos.

128. As forças israelitas afirmaram que a fase activa da operação das forças israelitas tinha ficado concluída às 0517 horas, assim que o navio ficou sob o seu controlo e os três soldados foram libertados. Durante a operação de 45-50 minutos, foram mortos nove passageiros, mais de 24 passageiros ficaram com ferimentos graves causados por balas reais e um grande número de passageiros ficou com lesões graves causadas por balas de plástico, cargas de bastões maleáveis (beanbags) e por outros meios.

Mortes que ocorreram na Coberta Superior (telhado)

Furkan Doğan, um rapaz de 19 anos com dupla cidadania turca e norte-americana, estava na parte central da coberta superior a filmar com uma pequena câmara vídeo quando foi inicialmente atingido com fogo vivo. Aparentemente, ficou deitado na coberta num estado consciente, ou semi-consciente, durante algum tempo. No total, Furkan ficou com cinco ferimentos de balas, na cara, na cabeça, nas costas, na perna esquerda e no pé. As entradas dos ferimentos situavam-se todas na parte de trás do seu corpo, à excepção do ferimento na cara, à direita do seu nariz. Segundo a análise forense, uma marca à volta do ferimento na cara indicava que o tiro tinha sido disparado a curta distância, à queima-roupa. Além disso, a trajectória da bala, de baixo para cima, juntamente com uma raspagem vital no ombro esquerdo que pode ser consistente com o ponto de saída da bala, é compatível com o tiro ter sido recebido quando ele estava deitado de costas no chão. As outras feridas não resultaram de disparos de contacto, de contacto próximo nem de curta distância, mas para além disso não é possível determinar a distância exacta do disparo. Os ferimentos na perna e no pé foram provavelmente feitos numa posição levantada.

İbrahim Bilgen, um cidadão turco de 60 anos de Siirt na Turquia, estava na coberta superior e foi um dos primeiros passageiros a ser atingido. Ficou com um ferimento de bala no tórax, cuja trajectória vinha de cima e não a curta distância. Tinha dois outros ferimentos de bala no lado direito das costas e na nádega direita, ambas de trás para a frente. Esses ferimentos não lhe terão causado a morte imediata, mas ele demorado pouco tempo a sangrar até à morte, na ausência de cuidados médicos. As provas forenses mostram que ele foi atingido de lado na cabeça com uma rajada de bastões maleáveis a tão curta distância que toda uma bolsa de feijão (beanbag) e o seu enchimento penetraram o crânio e alojaram-se no cérebro. Ele tinha uma outra contusão no flanco direito consistente com outro ferimento de beanbag. Os ferimentos são consistentes com o defunto ter sido inicialmente atingido por soldados a bordo do helicóptero acima e a outra ferida ter sido feita na cabeça quando já estava deitado no chão, ferido.

Fahri Yaldiz, um cidadão turco de 42 anos de Adiyaman, ficou com cinco feridas de balas, uma no tórax, uma na perna esquerda e três na perna direita. A ferida no tórax foi causada por uma bala que entrou perto do mamilo esquerdo e atingiu o coração e os pulmões antes de sair pelo ombro. Estas lesões terão causado uma morte rápida.

Segundo o relatório de patologia, Ali Heyder Bengi, um cidadão turco de 38 anos de Diyarbakir, ficou com seis feridas de bala (uma no tórax, uma no abdómen, uma no braço direito, uma na coxa direita e duas na mão esquerda). Uma bala alojou-se na zona do tórax. Nenhum dos ferimentos terá sido imediatamente fatal, mas as lesões no fígado causaram uma hemorragia que terá sido fatal por não ter sido estancada. Há alguns testemunhos que sugerem que os soldados israelitas atingiram o defunto nas costas e no tórax à queima-roupa, quando ele estava deitado na coberta em consequência dos ferimentos de bala iniciais.

Mortes que ocorreram na Coberta da Ponte, a bombordo

Cevdet Kiliçlar, um cidadão turco de 38 anos de Istambul, estava no Mavi Marmara, na sua qualidade de fotógrafo contratado pela IHH. No momento em que foi atingido, ele estava de pé na coberta da ponte a bombordo do navio, perto da porta que conduz à escadaria principal, a tentar fotografar os soldados israelitas na coberta superior. Segundo os relatórios de patologia, foi atingido por uma única bala na testa, entre os olhos. A bala seguiu uma trajectória horizontal que cruzou o centro do cérebro, da frente para trás. Terá tido morte imediata.

Cengiz Akyuz, de 41 anos e de Hatay, e Cengiz Songur, de 46 anos e de Izmir, ambos cidadãos turcos, foram feridos na coberta da ponte em sequência próxima, por fogo vivo vindo de cima. Eles tinham estado abrigados e foram atingidos quando tentavam entrar pela porta que leva à escadaria. Cengiz Akyuz recebeu um tiro na cabeça e é provável que tenha morrido imediatamente.

O relatório de patologia mostra quatro ferimentos: no pescoço, na cara, no tórax e na coxa. Cengiz Songur foi atingido por uma única bala no centro do tórax superior abaixo do pescoço, disparado de um ângulo elevado, que se alojou na cavidade torácica direita, ferindo o coração e a aorta. Os médicos dentro do navio fizeram esforços inglórios para o ressuscitarem com massagens ao coração.

Çetin Topçuoğlu, um cidadão turco de 54 anos de Adana, estava a ajudar a levar os passageiros feridos para dentro do navio para serem tratados. Também ele foi atingido perto da porta da coberta da ponte. Não morreu imediatamente e a sua mulher, que também estava a bordo do navio, estava com ele quando ele morreu. Ele foi atingido por três balas. Uma das balas entrou por cima nos tecidos moles no lado direito da parte de trás da cabeça, saiu pelo pescoço e depois reentrou no tórax. Uma outra bala entrou na nádega esquerda e alojou-se na pélvis direita. A terceira entrou na virilha direita e saiu pela parte inferior das costas. Há indícios de que a vítima estava numa posição agachada ou dobrada quando foi feito o ferimento.

Maus tratos aos passageiros no aeroporto e durante o repatriamento

202. Talvez os mais chocantes testemunhos fornecidos à Missão, depois dos relacionados com a violência no Mavi Marmara, tenham sido os relatos consistentes de vários incidentes de violência extrema e não provocada, perpetrados por agentes israelitas à paisana contra alguns passageiros durante os procedimentos dentro do terminal do Aeroporto Internacional Ben Gurion no dia da deportação. Esses relatos são tão consistentes e claros que indicam não serem questionáveis. Um número intimidatório de soldados e polícias armados estavam presentes dentro do edifício do terminal. Alguns passageiros disseram que esses agentes estavam “muito agressivos”. Nesta fase, todos os passageiros já tinham sido sujeitos a múltiplas revistas e estavam sob total controlo dos israelitas. A maioria dos passageiros continuava a recusar-se a assinar os documentos de deportação e alguns estavam decididos a pôr em causa a legalidade do processo, insistindo numa audiência em tribunal que confirmasse a deportação. Nenhuma da violência descrita parece ter sido justificada.

203. Alguns passageiros na zona de verificação dos passaportes viram um passageiro mais velho a ser tratado rudemente após ter recebido o que pareceu ser um espancamento. Quando outros passageiros, entre os quais um irlandês e um turco, protestaram contra esse tratamento, foram atacados por soldados com bastões. Durante o ataque, 30 passageiros foram espancados até caírem, pontapeados e esmurrados num ataque prolongado dos soldados. Um passageiro irlandês foi visto a ser particularmente brutalmente espancado na cabeça e mantido numa posição de asfixia próxima da sufocação. Ele identificou os seus atacantes como sendo agentes policiais. Foi levado para uma cela de detenção.

204. Um passageiro turco envolvido na luta disse que ele mais tarde tinha sido levado por soldados, algemado com algemas metálicas, puxado pelas algemas, levado para uma salinha e espancado e pontapeado por mais cinco soldados enquanto os outros estavam do lado de fora a proteger o local. Neste caso, a polícia interveio para acabar com a violência.

205. Várias mulheres foram empurradas sucessivamente por soldados, e uma delas foi espancada com os punhos. Elas também foram vítimas de escárnio sexual.

206. Num incidente separado, um passageiro foi fisicamente atacado por cerca de dezassete agentes quando se recusou a assinar o papel de deportação, foi pontapeado na cabeça e ameaçado sob a mira de armas. Vários passageiros tinham decidido resistir à deportação para terem oportunidade de provar a sua inocência num tribunal israelita. Isso foi considerado uma provocação pelos israelitas.

Bens dos passageiros confiscados pelas autoridades israelitas

240. Entre os artigos confiscados e não devolvidos pelas autoridades israelitas está uma grande quantidade de registos vídeo e fotográficos que foram gravados em meios electrónicos ou outros por passageiros, entre os quais muitos jornalistas profissionais, a bordo dos navios da flotilha. Isto inclui um grande número de registos fotográficos e vídeo da agressão israelita e da interceptação do Mavi Marmara e dos outros navios. As autoridades israelitas disponibilizaram entretanto uma quantidade muito limitada desse material para acesso público, numa forma editada, mas a vasta maioria permanece sob controlo privado das autoridades israelitas.

241. A Missão conclui que isto representa uma tentativa deliberada das autoridades israelitas de suprimirem ou destruírem provas e outra informação relacionada com os acontecimentos de 31 de Maio no Mavi Marmara e nos outros navios da flotilha.