Os espectáculos de Richard Pryor... ou porque os bófias são bófias

Por Bob Avakian

O seguinte texto foi traduzido da edição online n.º 366, datada de 22 de Dezembro de 2014, do jornal Revolution/Revolución (revcom.us), órgão do Partido Comunista Revolucionário, EUA. As notas entre parênteses rectos são da responsabilidade da PV. A tradução para português não permite reflectir toda a riqueza da linguagem de Richard Pryor. Pryor foi um famoso comediante, escritor e crítico social negro norte-americano, considerado pela Comedy Central o maior artista de stand-up de todos os tempos. Ficou conhecido pela sua abordagem frontal de temas actuais como o racismo e recebeu inúmeros prémios, incluindo um Emmy e vários Grammy.


Este texto foi inicialmente publicado há mais de 30 anos como artigo de Bob Avakian, e foi depois incluído no livro dele, Reflections, Sketches & Provocations [Reflexões, Esboços e Provocações]. O texto refere o “RW” – o jornal Revolutionary Worker/Obrero Revolucionario que foi reintitulado Revolution/Revolución. Estamos agora a republicá-lo porque permanece muito relevante – de facto, mais pertinente e importante que nunca – porque fala sobre o assassinato, pela polícia, de negros e outras pessoas oprimidas, porque é que isto continua a acontecer e o que pode acabar finalmente com isto.

O seguinte artigo é um excerto de “As mentiras de Hill Street Blues, os espectáculos de Richard Pryor e a verdadeira questão”, de Bob Avakian, Presidente do PCR [Partido Comunista Revolucionário, EUA]. O texto completo deste ensaio, escrito em 1983, está no livro Reflections, Sketches & Provocations, de Bob Avakian.


Recentemente, eu estava a ler relatos de agressões policiais contra negros e de negros a lutar contra a polícia em Memphis e Miami. Isto fez-me lembrar uma história que me foi contada há algum tempo. Um polícia novato estava a conduzir o seu carro da polícia com o seu parceiro veterano quando chega uma informação de que nas redondezas havia um negro com uma arma. Quando o carro deles chegou a fazer barulho na esquina, um jovem negro apareceu de repente a correr por uma ruela – rumo a um beco sem saída. “Atinge-o!”, gritou o polícia mais velho, “Anda, atinge-o – é gratuito!”

“É gratuito!” Pensem nisto por um segundo. “É gratuito!” Por outras palavras, aqui está uma oportunidade para um bófia suar e salivar com a antecipação – uma oportunidade para “matar um nigger” com a cobertura já fornecida de que foi relatado que um negro – um negro, qualquer negro – estava na zona com uma arma. Isto é uma oportunidade demasiado boa para deixar passar: “Anda, atinge-o – é gratuito!”

Bem, neste caso, o novato não estava preparado para isso – talvez fosse um desses raros casos que entrou numa força policial acreditando de facto na mentira do “servir e proteger” – e esse negro em particular não morreu nesse dia. Mas uma das coisas mais reveladoras sobre todo este incidente foi a sua consequência: O polícia novato teve de se demitir. Se ele não estava preparado e disposto – se não tinha a atitude adequada para fazer aquilo que o seu parceiro veterano lhe estava a pedir, que surge naturalmente aos “agentes da paz” experientes e que qualquer bófia no lugar dele e no seu perfeito juízo de bófia faria – então não havia lugar para ele na força policial. Era ele, o novato que não tinha aprendido, e que ao que parece não conseguiu aprender, que estava em causa – era ele que era o excluído e que sentiu que se tinha de demitir...

Bófias são bófias [porcos, em inglês]. Claro que isto é uma imagem, um símbolo – no sentido mais literal, eles são seres humanos, mas são seres humanos com mentalidade de assassino, sancionada, disciplinada, solta pela classe dominante da sociedade para manterem na linha os oprimidos, através do terror sempre que necessário e como “linha de fundo”, como eles gostam de dizer. Terror contra os oprimidos é mesmo uma recompensa especial para “levarem a cabo o perigoso e ingrato dever” de serem a “fina linha azul” entre “a civilização de um lado e a anarquia e a ausência de lei do outro”. Pensem uma vez mais nisto: O terror contra os oprimidos não é apenas parte do trabalho, também é uma recompensa. Este é um dos mais profundos significados da história desde o início: “Anda, atinge-o – é gratuito!”...

Mas talvez alguns liberais (de “esquerda” ou de “direita”) irão contrapor que estas histórias que eu relatei, no fim de contas são apenas histórias e mesmo que aceitemos que são histórias verdadeiras, ainda assim são apenas alguns casos – os famosos “incidentes isolados”, talvez. Bem, qualquer pessoa que realmente ainda pense assim, ou que o diga, tem de responder a uma pergunta fundamental sobre o seguinte sketch de Richard Pryor:

Os polícias põem uma enorme dor sobre o teu rabo, meu, sabes. Eles realmente degradam-te. Os brancos não acreditam nesta merda, não acreditam que os polícias degradam; – “Ah, vá lá, essas agressões, essas pessoas estavam a resistir à prisão. Estou farto dessa história da perseguição dos agentes da polícia.” Porque a polícia vive no teu bairro, vês, e tu conhece-los como Agente Timpson. “Olá Agente Timpson, vais ao bowling hoje à noite? Sim, oh, que grande sorte tens, ha, ha, ha”. Os niggers* não os conhecem assim. Estão a ver, os brancos recebem uma multa, encostam, “Olá, sr. agente, sim, fico contente por ter ajudado, aqui vamos nós”. Um nigger tem de começar por dizer “ESTOU A METER A MÃO NO BOLSO PARA PROCURAR A MINHA CARTA DE CONDUÇÃO – porque não quero ser o resultado da porra de nenhum acidente!”

A polícia degrada-te. Não sei, sabes, muitas vezes interrogas-te porque é que um nigger não fica completamente louco. Não, isso não acontece. Tu recompões-te, trabalhas toda a semana, certo, depois vestes-te – talvez digamos que ele ganha $125 por semana, recebe $80 se tiver sorte, certo, e sai, põe-se bonito, começa a conduzir com a sua miúda, sai para ir a um clube, e a polícia encosta-o: “Sai do carro, houve um assalto – um nigger parecido contigo. Ok, põe as mãos no ar, tira as tuas calças, afasta as nádegas!” Agora, qual é o nigger que se sente em condições para se divertir depois disto? “Não, vamos para casa, baby”. Vais para casa e bates nos filhos e outras merdas – vais levar essa merda para cima de alguém.

de That Nigger's* Crazy [Esse Nigger* é Louco], 1974

A questão é esta: Porque é que, nos pontos cruciais deste sketch, a audiência de Pryor rebenta num riso tenso e conhecedor, juntamente com um aplauso prolongado? Será por alguma outra razão a não ser o facto de Pryor realmente ter captado e concentrado – com humor, mais alto que vida como deve ser a arte, mas ao mesmo tempo a verdade de pedra, nada mais que a verdade – uma situação que é típica para as massas negras nos EUA? Algo que, se não lhes aconteceu directamente (e as hipóteses são muito grandes de que aconteceu), pode acontecer-lhes amanhã, ou no dia seguinte, e já aconteceu a um familiar ou a um amigo. Para qualquer pessoa que queira defender a polícia, não dizer nada ou torná-los mais aceitáveis, mostrando-os como apenas seres humanos comuns, etc., etc., ad nauseam; e mesmo qualquer pessoa que queira levantar dúvidas piedosas e pequenas emendas sobre chamá-los o que eles são, sem reservas nem desculpa; não podem dar a volta à seguinte questão: têm de a enfrentar directamente. E não me digam que as audiências de Pryor não as representam correctamente: A resposta será sempre a mesma, vinda de qualquer audiência que inclua um número significativo de massas negras, ou de outras massas oprimidas (como, de facto, é o caso das audiências dos espectáculos ao vivo de Pryor).

Um facto pertinente aqui, tirado directamente da “vida real”. Li num RW recente a notícia do anúncio do Procurador Distrital de Los Angeles de que – uma vez mais – não serão feitas acusações contra os dois bófias que espancaram e estrangularam até à morte um negro de 28 anos, Larry Morris, sem qualquer justificação, mesmo segundo as autoridades. O artigo do RW continua, denunciando que “Isto é apenas a mais recente das mais de 200 `investigações' de assassinatos policiais [ou seja, assassinatos de pessoas pela polícia] desde o início da `Operação Rollout' do Procurador Distrital. Este programa tem até agora endossado em todos casos o direito da polícia a matar”. E depois de tudo isto, continuamos condenados a ouvir da parte de algumas pessoas que isto só acontece em Los Angeles, onde a polícia é conhecida por ser particularmente brutal, etc., etc. Isto realmente não deveria ter de merecer resposta, mas tem, pelo que deixem-me responder a isto regressando novamente a um sketch de Richard Pryor, este do mesmo espectáculo, em Washington, D.C. em 1978, tal como o citado no início deste artigo:

A polícia em L.A., meu, eles arranjaram um aparelho de sufocação que usam nos motherfuckers. Eles fazem isso aqui, eles estrangulam-vos até à morte? (Vozes na audiência, muitas vozes na audiência: “Yeah!”) Isso é uma merda misteriosa. Porque eu não sabia que uma multa de estacionamento dava pena de morte.

Mas para as massas negras desta “grande terra de liberdade e justiça para todos” pode dar – e tem dado para, pelo menos, centenas de pessoas todos os anos. Claro, este tipo de liberdade e justiça não está reservado só para os negros nos EUA, embora eles sejam seus “beneficiários” especiais. Também ameaça e envolve milhões de pessoas das massas de outras nacionalidades oprimidas, imigrantes (os chamados “legais”, mas também os chamados “ilegais”) e em geral todos os que não têm riqueza e portanto não têm poder, incluindo muitos brancos, de quem o Agente Timpson dificilmente também é amigo.

Em suma, a força armada do estado burguês existe com a finalidade de reprimir, pela força e pelas armas, o proletariado e todos os que saiam da linha e desafiem este “grande modo de vida” baseado no roubo e no assassinato, não só dentro dos próprios EUA como em todo o mundo. E esta é, simplesmente, a razão por que os bófias são bófias, e sempre serão bófias – até que os sistemas que precisam desses bófias sejam abolidos da face da terra. Uma dura verdade – mas uma verdade libertadora.

* Este material é reproduzido aqui tal como foi representado na altura por Richard Pryor, incluindo o uso da palavra “nigger”; fazemo-lo por uma questão de precisão e não por qualquer desrespeito para com o sentimento dele, após uma viagem a África, de que já não deveria usar a palavra “nigger” por ser desumanizadora.