Irão: Sobre as próximas eleições

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 5 de Junho de 2013, aworldtowinns.co.uk

O texto que se segue é um comunicado da Organização de Mulheres 8 de Março (Irão-Afeganistão).

O voto das mulheres: Derrubar o regime da República Islâmica no Irão!
A escolha das mulheres: Por um mundo sem opressão nem exploração!

Uma vez mais, o regime antimulheres da República Islâmica do Irão está a preparar uma pretensa eleição presidencial. Através de uma campanha de mentiras, o regime pretende atrair as pessoas às urnas eleitorais, legitimar o seu domínio e eleger um novo operador para o seu aparelho de opressão! Todas as facções do Regime Islâmico, bem como os líderes dos estados imperialistas, concordam e estão cautelosamente à espera de uma participação tranquila das massas populares nas actuais eleições, tal como estão conscientes de que o ardente ódio do povo pode incendiar-se facilmente e destruir o seu sistema de opressão e exploração.

Uma vez mais, o poder dominante está a depositar as suas esperanças nas eleições. Embora muitas ilusões sobre a participação das massas populares nas eleições tenham sido perdidas devido aos acontecimentos que se seguiram à insurreição popular de há quatro anos nas eleições anteriores, as eleições continuam a ser a melhor ferramenta do capitalismo para obter a “legitimidade popular” de que necessita. O objectivo das eleições em regimes religiosos repressivos como o Irão, bem como em países democráticos burgueses como os países imperialistas, é encobrir os antagonismos de classe e levar as pessoas a acreditarem que a única forma de poderem ter algo a dizer sobre o seu próprio destino, a única participação política que lhes está aberta, é a de se envolverem em eleições orquestradas pelo estado (seja em processos de pretensas eleições democráticas e legais, seja em processos ilegais e forjadas), onde o máximo que as pessoas realmente podem fazer é apenas passarem pelos rituais democráticos da “sociedade civil”.

A pergunta que deve ser feita é: Porque é que eleger o “menor dos males” irá alguma vez satisfazer os interesses de classe dos pobres e oprimidos do mundo? Será que as pessoas nalgum ponto do mundo alguma vez tiveram uma verdadeira escolha? Terão as mulheres egípcias, depois de todos os seus sacrifícios na Praça Tahrir para derrubarem Mubarak, escolhido serem depois violadas? Será que as mulheres e o resto do povo do Egipto escolheram Morsi? Terá sido uma escolha das mulheres iranianas, afegãs e paquistanesas serem apedrejadas até à morte por se terem apaixonado? Será que os trabalhadores do Bangladesh escolheram ser os mais baratos do mundo ou que milhares deles fossem queimados ou esmagados até à morte sob o entulho de fábricas desmoronadas? Terão os trabalhadores da China, Taiwan, México e por aí adiante escolhido cometer suicídio devido às tremendas pressões nas fábricas de suor do capitalismo? Será que as mulheres da Índia escolheram ser enterradas vivas ou vendidas por quase nada, ou alugarem os seus úteros? Terão as mulheres do Brasil e da Índia escolhido ser violadas em grupo em autocarros? Será que o povo do Mali escolheu ter bombas francesas a chover sobre as suas cabeças? Terão as pessoas no Iraque e no Afeganistão escolhido serem mortas por bombas norte-americanas? Será que as pessoas da Síria escolheram ser feitas em pedaços por armas ocidentais e pelos fundamentalistas islâmicos? Será que as mulheres dos Estados Unidos escolheram ser mortas devido à quase abolição do aborto? Terão as mulheres da Europa Oriental, Filipinas, etc., escolhido serem escravas sexuais para estarem nos bordéis da Europa? Será que os povos de África escolheram que o seu habitat fosse um local de despejo dos desperdícios industriais e nucleares do mundo? Assim, o que é que vale realmente o direito que as pretensas eleições nos dão, a nós, povos oprimidos? Em que é que isso resultou para nós em termos de menos miséria, guerra, pobreza, sofrimento, inferioridade, opressão e exploração?

Estas eleições estão a ter lugar quando a opressão, a exploração e a subjugação e privação dos direitos básicos das mulheres são um dos principais pilares de há muito do regime antimulheres da República Islâmica, ao longo dos seus 34 anos de existência, e quando para preservarem este pilar trémulo nas actuais condições críticas eles cada vez mais se baseiam na intensificação da opressão e do sistema patriarcal. Para levarem a cabo este plano, eles estão a usar leis antimulheres, a aumentar a pressão das forças de segurança e do exército e mesmo a criar novas leis com esse objectivo. Embora o Regime Islâmico do Irão tenha o privilégio de ser o primeiro país neste planeta que organizou uma força militar para controlar os corpos das mulheres, achou que isto não era suficiente. O regime islâmico também aumentou a pressão para impor códigos islâmicos de vestuário obrigatório às mulheres, está a usar a segregação de género nas universidades e nas instituições de ensino, está a introduzir novas leis para apertar o controlo sobre as mulheres solteiras com menos de 40 anos, através da santificação do casamento e da família pelas mais altas autoridades religiosas e pela comunicação social, e a lançar uma campanha casa-a-casa para promover mais crianças nas famílias, etc. Tudo isso está a ser feito de forma a expandir e intensificar a violência contra as mulheres e exercer um controlo mais apertado sobre esta poderosa força social rebelde e desafiadora e mantê-las longe do campo de batalha. O regime islâmico está consciente de que perdeu a sua legitimidade no seio do povo mas, ao mesmo tempo, o regime pretende unir e fortalecer ainda mais o sector tradicional e recuado da sociedade através da intensificação das relações patriarcais na sociedade.

Olhando para a situação das mulheres no Médio Oriente nas últimas décadas, do Irão ao Iraque, Afeganistão, Egipto, Líbia, etc., pode ver-se claramente como as potências imperialistas têm desempenhado um papel através da intervenção directa ou indirecta, militar ou não militar, estabelecendo e fortalecendo os governos religiosos da região – e nós, as mulheres, fomos as primeiras vítimas do estabelecimento destes estados islâmicos e antimulheres. Por isso, não temos nenhuma dúvida de que os nossos direitos não podem ser assegurados através de favores dos governos fundamentalistas islâmicos nem através dos seus canais civis, ou seja, as “eleições”, nem através da dependência de senhores da guerra imperialistas, esperando que os seus parlamentos reaccionários e grupos lobistas nos irão fazer um favor. Não há nenhum papel para nós na determinação dos nossos destinos e na criação de uma mudança séria e fundamental na situação das mulheres na sociedade com base em relações patriarcais e masculino-chauvinistas, porque nós não temos absolutamente nenhum interesse em salvaguardar este sistema podre.

Nós merecemos uma sociedade onde as pessoas têm direito a viver em dignidade, direito a comer, trabalhar e uma saúde física e moral melhor, onde as pessoas têm direito a ser felizes, uma sociedade onde ninguém passe fome, onde ninguém tenha de vender os órgãos do seu corpo para viverem e onde nenhuma mulher tenha de vender o seu corpo devido à pobreza nem a abortar porque o seu feto é feminino, onde nenhuma mulher trema porque tem medo de ser violada e nenhuma família tenha de vender as suas filhas apenas para sobreviver, onde nenhuma mulher seja apedrejada até à morte porque se apaixonou, e onde nenhuma religião, estado ou indivíduo possa controlar o corpo de uma mulher, uma sociedade onde nenhuma mulher seja forçada a casar contra a sua vontade ou a mandar os seus filhos para a guerra em nome do orgulho nacional, e onde nenhuma mulher seja humilhada, controlada e morta em nome da honra, uma sociedade onde nenhuma mulher experimente a violência em nenhum aspecto da sua vida diária e onde toda a gente tenha direito a participar genuinamente na determinação do seu destino.

Nós só conseguiremos lutar pela concretização dessa sociedade com uma consciência revolucionária e através de uma organização revolucionária independente. Nós queremos uma sociedade em que as pessoas não vivam para terem o direito a votar mas vivam e lutem pelo direito a decidirem o seu caminho e o seu futuro, uma sociedade que a humanidade mereça, uma sociedade onde a emancipação das mulheres seja uma prioridade. Sim, nós queremos libertarmo-nos da opressão e da subjugação de género, da opressão e da exploração.

Nós também sabemos bem que o primeiro passo na construção dessa sociedade é uma luta persistente e intransigente pelo derrube revolucionário do regime da República Islâmica do Irão, e isto não será obtido através das urnas eleitorais. Nem é suficiente apenas não participar ou boicotar as eleições ou adoptar uma atitude negativa. Todo o aparelho de votações e eleições do estado deve ser esmagado. Sim, nós, as mulheres, não temos de decidir o destino do regime islâmico indo às urnas eleitorais, mas sim nas ruas com a nossa luta para derrubarmos este regime!