Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 28 de Setembro de 2015, aworldtowinns.co.uk

O seguinte texto é do Grupo do Manifesto Comunista Revolucionário (Europa). Um folheto baseado neste artigo, preparado para distribuição em massa pelo GMCR, está disponível aqui em formato PDF.

Crise migratória:
A humanidade precisa de uma revolução comunista!

Para que as ondas do Mar Mediterrâneo e as rotas perigosas não traguem as massas miseráveis, oprimidas e afectadas pela guerra, para que os migrantes que sobreviveram ao caminho não sejam acolhidos por bastões policiais, arame farpado, prisões e campos de migrantes, para que milhares e milhares de mulheres imigrantes não se tornem vítimas de redes internacionais de escravatura sexual, para que as casas, os empregos, a existência e o futuro das pessoas não sejam queimados pelo fogo das guerras imperialistas, nacionais e religiosas, o sistema capitalista tem de ser destruído, na sua totalidade, com todas as suas exploradoras relações de produção e opressoras relações sociais, com todas as suas velhas e reaccionárias instituições e formas de pensar. Para limparmos a face da terra de toda esta escuridão e lixo não há nenhum outro caminho a não ser uma revolução social vigorosa. É apenas a partir dos escombros deste mundo que pode ser construído um novo mundo, com a participação de milhares de milhões de mulheres e homens trabalhadores e oprimidos. Um novo mundo onde as pessoas não são forçadas a desafiar a fúria dos mares e o fogo dos desertos para satisfazerem as suas necessidades mentais e materiais.

(Adaptado do comunicado de 29 de Agosto de 2015 do Partido Comunista do Irão [Marxista-Leninista-Maoista])

 

Uma grande crise está a fazer estremecer a Europa, o próprio local de nascimento do capitalismo e do imperialismo, à medida que dezenas de milhares de refugiados a ela afluem vindos do Médio Oriente, de África e de outros lugares onde o próprio funcionamento do sistema imperialista mundial tornou intolerável a vida. Os resultados directos das injustiças, das espirais de guerras e invasões, da exploração e das feridas abertas pelo colonialismo, das cada vez mais obscenas desigualdades e esperanças destruídas de tantos milhões de pessoas estão a aparecer à própria soleira da porta da Europa. A ponta de um iceberg de lágrimas de sofrimento e raiva, habitualmente escondido da vista da sociedade europeia educada, está a emergir e, ao fazê-lo, está a fazer estremecer seriamente a política e as instituições da actual ordem, e mesmo a abalar muita da sua legitimidade.

Não é que a magnitude da tragédia humana, cujo epicentro está agora na Síria, fosse desconhecida. Quatro milhões de pessoas foram forçados a fugir da Síria e outros sete milhões foram deslocados dentro do seu próprio país – números assombrosos, e ainda mais quando se tem em conta que a população do país é de cerca de 20 milhões. Milhões de pessoas estão a ser apinhados em acampamentos, a ser cinicamente manipulados pelas autoridades turcas ou amontoados na empobrecida Jordânia, e um milhão mais estão no minúsculo Líbano, que nunca recuperou totalmente de anos de guerra e conflito. Milhões de pessoas foram violentamente deslocados no Congo, no Mali e no Afeganistão. Mesmo muitas das pessoas que têm beneficiado de terem uma educação universitária ou que têm uma posição ligeiramente melhor na vida em países como a Tunísia e o Paquistão estão a perder a esperança de manterem algo semelhante a uma normalidade.

Os actuais horrores do mundo têm a principal origem e fonte combustiva no sistema de exploração capitalista. Tudo isto representa não apenas o brutal legado de crimes passados como o colonialismo e o comércio de escravos, independentemente de quão profundas e frescas possam ser estas feridas. A vertiginosa penetração do capitalismo durante as últimas décadas sob a bandeira da globalização intensificou ainda mais as gritantes desigualdades no mundo e rompeu ainda mais o tecido social existente sem oferecer uma alternativa viável e desejável. Mas hoje, graças à televisão e à Internet, este crescimento e esta cruel desigualdade é ostentada na cara das pessoas, mesmo nas aldeias mais distantes, ao mesmo tempo que se proclama de mil formas a suposta superioridade da civilização ocidental.

Nem este “capitalismo a esteróides” tem feito alguma coisa para acabar ou suavizar outros horrores que se estão a embrulhar no manto da tradição e das crenças supersticiosas. Muitos dos mais importantes líderes do Ocidente são eles próprios promotores de disparates anticientíficos e/ou não têm nenhuma hesitação em se aliarem e apoiarem as forças mais retrógradas e reaccionárias, como os governantes da Arábia Saudita. Além disso, o próprio processo de agitarem os campos para aumentarem ainda mais a exploração capitalista produz novos grupos de pessoas amargas e desorientadas susceptíveis a outras formas de ideologia reaccionária, entre as quais o fundamentalismo islâmico, bem como os seus próprios fascistas caseiros na Europa.

Mesmo um olhar mais superficial ao Médio Oriente durante o último período mostra que o Ocidente não trouxe o Iluminismo, mas apenas ajudou a agravar as condições para uma obscuridade ainda mais negra. O funcionamento da penetração capitalista moderna deu lugar a uma perversa reacção fundamentalista religiosa, enquanto as pessoas sofrem à medida que estas duas forças colidem cada vez mais num sangrento antagonismo, ou se conluiam quando o acham conveniente. Cada nova guerra ou intervenção política, grande ou pequena, não só criou novos refugiados, como também dilatou as fileiras dos jihadistas. Mesmo o desenvolvimento económico que houve, ocorreu sob condições que estão a destruir rapidamente os preciosos recursos do planeta e a criar ainda mais miséria e deslocações.

Não, a crise na Europa não foi causada pela súbita tomada de consciência da profundidade do terror e desespero das pessoas, mas pela inevitável realidade de que será impossível murar para sempre a Europa do sempre crescente mar de miséria e de tempestades violentas que a cercam. Portanto, as autoridades da Europa, os partidos políticos, as diferentes instituições já não podem fazer orelhas moucas e estão todas a ser forçadas a tomar uma posição. Durante uma semana ou duas, a Alemanha foi elogiada pela sua “consciência” e “compaixão”, antes de a reintrodução dos controlos fronteiriços e a controvérsia sobre a suspensão do acordo de Schengen terem relembrado a toda a gente a realidade subjacente à Europa fortaleza.

No meio desta hipocrisia, está a emergir uma virulenta e crescente corrente fascista que exige a mobilização total da sociedade contra o que descreve serem hordas estrangeiras e não-cristãs a pontapear. Embora a sociedade oficial esteja claramente dividida entre a reacção e uma pior reacção, também há milhões de pessoas que sentem repulsa por tudo isto e querem acolher os refugiados, que proclamam uma humanidade comum e sentem algum tipo de entrelaçar de interesses e destinos. Mas, na sua maioria, este sentimento tem sido limitado e abafado pela incapacidade em sequer imaginar uma verdadeira solução para o sistema que está a destruir tanto do mundo. É por isso que é possível que pessoas que deveriam saber fazer melhor suspendam a sua descrença e ponham as suas esperanças em pessoas como Angela Merkel ou em instituições como o Partido Trabalhista britânico.

A verdade é que é impossível que um pequeno punhado de países ricos continue a beneficiar e a impor o atraso e a pobreza em grande parte do mundo sem ter de enfrentar as consequências dessa dominação. Nenhuma Europa que se baseie nos alicerces do capitalismo pode escapar ao destino e à necessidade de ser uma “Europa fortaleza” que é protegida e armada contra a humanidade que tem pilhado. Esta realidade é tão verdadeira para Hollande, Merkel ou Jeremy Corbyn, a nova face do Partido Trabalhista britânico, como o é para o abertamente cruel Victor Orban da Hungria ou para os muitos partidos neofascistas à espera nos bastidores da Europa Ocidental. Eles estão a usar a actual crise para intensificarem os seus apelos demagógicos e a oferecerem-se para resolver a hipocrisia dos líderes e instituições europeias através de um apelo aberto ao racismo e ao chauvinismo e da rejeição do próprio lema dos capitalistas, “liberté, égalité, fraternité”.

A habitual premissa inquestionável da permanência da ordem e dos valores dominantes na Europa está a erodir-se. Porque é que algumas pessoas têm direito a uma almofada contra os extremos mais agudos da exploração, enquanto outras têm apenas “direito” a uma rápida deportação? Os princípios guia e as normas do Ocidente ficam a descoberto como sendo a protecção dos privilégios e das desigualdades à custa da grande maioria da humanidade. O discurso que legitima a actual ordem, a dominação do planeta pelo capitalismo, está a perder a sua habitual atracção em muitas pessoas que estão agora a declarar o seu apoio aos migrantes: “Eles estão aqui porque nós estivemos (e estamos) lá” ou “Abram as fronteiras para nós podermos respirar”. Estas fissuras iniciais na ideologia e na justificação da ordem capitalista precisam de ser alargadas até uma rejeição total. As pessoas precisam de ser claramente ganhas para verem a necessidade e a possibilidade de um sistema socioeconómico radicalmente diferente, uma ordem política diferente, uma cultura diferente e uma moral e valores emancipadores que estejam de acordo com as mais elevadas aspirações e o verdadeiro potencial das pessoas.

As pessoas precisam de ficar indignadas, de exprimir a sua humanidade comum, de lutar contra a crueldade e a hipocrisia dos líderes da Europa. Nós precisamos de uma revolução, e nada merece o nome de revolução se não tiver como motor central lidar e por fim superar as contradições entre um punhado de países ricos e as centenas de milhões de pessoas que têm sofrido às mãos deles. Qualquer revolução na Europa tem de ter uma perspectiva internacionalista, e não uma perspectiva “europeia”.

O poder político em cada estado europeu baseia-se e protege todo um sistema socioeconómico de exploração cujos tentáculos chegam a todo o mundo. A globalização só tornou esta exploração ainda mais omnipresente, mais brutal e mais disruptiva do actual tecido social. Todos os governos destes estados são forçados a impor e a facilitar este processo. Mesmo o patético Tsipras da Grécia está agora a explicar como é que estas amargas realidades não podem ser evitadas.

A crença na possibilidade de uma Europa acolhedora e inclusiva, e ainda assim imperialista, é pior que apenas uma ilusão. Esconde a realidade actual e passada do que a democracia capitalista ocidental e o seu sistema de valores perpetuam no mundo; ela não pode ser implementada, independentemente de quem for eleito; e é incapaz de enfrentar os ataques reaccionários ou as ululantes forças fascistas ou ainda os islamitas que pretendem oferecer uma moral e uma ordem social alternativas em oposição à “decadência e miséria oferecida pelo Ocidente”. Na realidade, a guerra no Médio Oriente está a expandir-se; cada vez mais refugiados irão tomar medidas ainda mais desesperadas para escaparem aos horrores de todo o tipo que apenas se irão intensificar; e as mulheres, metade da humanidade, irão continuar a enfrentar velhas e novas formas de opressão e degradação. Uma obscena desigualdade, uma virtual escravatura no comércio sexual ou em fábricas de suor, vastas populações condenadas à doença e à crueldade, crianças e jovens cujo futuro lhes é roubado – o capitalismo precisa de tudo isto para prosperar.

Milhões de pessoas na Europa têm ficado comovidas e enfurecidas com o arame farpado nas fronteiras, as deportações sob a mira de armas, os esquálidos campos de refugiados e as ameaças de algo pior. Isto é um desenvolvimento muito importante e há muito necessário que pode e deve ser transformado numa luta intransigente para derrotar a resposta reaccionária e dar umas verdadeiras boas-vindas e solidariedade às nossas irmãs e irmãos que chegam à Europa, bem como às muitas pessoas mais que estão aprisionadas em condições infernais noutros países. Através deste processo, as pessoas necessitam de enfrentar o que pode e precisa de ser feito para derrubar este sistema e construir um tipo de sociedade completamente diferente, incluindo o facto de que isto só pode ser criado por uma revolução comunista.

Superar os horrores do capitalismo e do imperialismo é um empreendimento que já foi antes levado a cabo. De facto, coisas extraordinárias e inspiradoras foram conseguidas nas revoluções socialistas do século XX, na União Soviética e ainda mais com a revolução chinesa. Estas revoluções acabaram por ser derrotadas por uma nova classe capitalista de exploradores nesses países. Em resultado disso, os capitalistas de todo o mundo têm declarado triunfalmente a imutabilidade do seu sistema e a futilidade de qualquer esforço para uma verdadeira transformação social. A actual crise dos refugiados é mais uma evidência e uma recordação de que o mundo necessita de uma ordem social completamente e radicalmente diferente, sem exploração nem opressão, uma ordem social baseada na cooperação colectiva consciente de toda a humanidade e na gestão colectiva e judiciosa dos recursos e dos habitats do mundo para benefício de todas as pessoas da Terra e para protecção do planeta. Os comunistas revolucionários de hoje têm uma compreensão mais profunda, redefinida e mais científica tanto do que a sociedade requer como dos complexos processos necessários para se alcançar esta transformação histórica. Bob Avakian desenvolveu uma nova síntese do comunismo com base numa profunda aprendizagem dos grandes feitos, bem como das significativas insuficiências, dos anteriores esforços para fazer a revolução proletária, incorporando ao mesmo tempo o conhecimento recolhido de outros campos da actividade humana.

A crise da imigração revela profundamente as condições da humanidade hoje e a necessidade de uma profunda mudança revolucionária. Vislumbres de uma humanidade que pede uma genuína emancipação podem ser vistos tanto na determinação dos refugiados em não se deixarem dissuadir, como nas boas-vindas que muitas pessoas lhes estão a dar. A tormenta política está a fazer com que os inimigos do povo e os guardiães da velha ordem se atirem às gargantas uns dos outros e a criar aberturas para se poder apresentar algo de realmente novo. Mas para confrontarem as complexidades da crise política que se está a desenvolver em toda a Europa, para conseguirem resistir às investidas reaccionárias que provavelmente aí vêm, para poderem construir sobre a agitação positiva e os sentimentos que estão a emergir mas que também estão em perigo de serem sufocados uma vez mais pela hipocrisia e as manipulações cínicas da classe dominante, as pessoas precisam de uma compreensão e uma perspectiva rigorosas e científicas que expliquem correctamente o mundo e mostrem o que podemos fazer em relação a isto.

A actual crise está cheia de perigos reais e sérios, não só para os refugiados mas também para toda a gente. Mas estas mesmas condições explosivas também trazem consigo oportunidades reais para se começar a esculpir um tipo diferente de futuro. Que não mais definhe sobre as promessas não cumpridas de uma democracia social europeia cada vez mais falida! Em vez disso, nós precisamos de olhar para além dos horizontes do actual sistema e de começar a construir o tipo de movimento que lute não só para derrotar a investida reaccionária mas que também possa conduzir à única verdadeira solução, a revolução comunista.