Publicado originalmente no n.º 469, de 12 de dezembro de 2016, e atualizado a de 6 de janeiro de 2017 na edição online do jornal Revolution/Revolución, voz do Partido Comunista Revolucionário, EUA (revcom.us).

Trump, a CIA e a controvérsia da pirataria informática:
Alguns pontos de orientação

Atualização a 06/01/2017: À medida que se aproxima a data da tomada de posse de Donald Trump, continua a causar agitação a tempestade política sobre as alegadas descobertas da CIA de que a Rússia infiltrou computadores dos partidos Democrata e Republicano e trabalhou para favorecer a eleição de Donald Trump. O que significa isto? O que significa para as pessoas que acham terrível ou intolerável a perspetiva de um governo de Trump? O seguinte artigo, originalmente publicado a 12 de dezembro, contém uma importante análise sobre o que está a acontecer com a controvérsia da pirataria informática [“hacking”] e sobre que interesses estão em jogo. Republicamo-lo agora porque continua a ser muito pertinente.

Uma grande tempestade política rebentou devido às alegadas descobertas da CIA de que a Rússia não só infiltrou computadores dos comité nacionais dos partidos Democrata e Republicano, como de facto trabalhou para favorecer a eleição de Donald Trump através de fugas seletivas de informações que visaram sobretudo Hillary Clinton e a campanha dela. Trump publicou uma mensagem no Twitter e os porta-vozes dele ridicularizaram as alegações como não tendo fundamento. Eles referiram as fabricações da CIA antes da invasão norte-americana do Iraque em 2003 de que os iraquianos tinham “armas de destruição em massa” (nenhuma dessas armas foi alguma vez encontrada). Eles disseram que as acusações eram um ardil concebido para retirar legitimidade à eleição de Trump. Ao mesmo tempo, alguns proeminentes senadores republicanos e antigos altos responsáveis dos serviços de informações das fileiras republicanas romperam publicamente com Trump, pedindo mais investigações e audições. Outros, entre os quais importantes democratas alinhados com a campanha de Clinton, estão a apoiar um apelo para que as descobertas da CIA sejam disponibilizadas aos eleitores, incluindo o Colégio Eleitoral, para que eles possam avaliar o alcance dessa alegada interferência russa e das suas ligações à campanha de Trump, e determinar se “Trump está apto a servir como Presidente”, colocando em questão a legitimidade dos resultados eleitorais.

O que está a acontecer? E que interesses estão por trás disto?

A um nível, não podemos determinar definitivamente a verdade destas acusações específicas. É verdade que houve fugas de emails prejudiciais à campanha de Hillary Clinton; é verdade que as potências imperialistas levam a cabo uma feroz ciberguerra (invasão das redes informáticas uns dos outros para recolherem informações) de umas contra as outras; mas além de nenhuma prova real ter sido produzida e de nenhum dos participantes chave – o mais notório dos quais, Julian Assange da Wikileaks, a qual divulgou muitos dos emails do Comité Nacional Democrata – têm disputado estas alegações.

Por outro lado, há algumas coisas que podem ser ditas.

Primeiro, os presidentes norte-americanos normalmente passam uma grande parte do tempo deles quando estão prestes a chegar ao governo a serem informados pela CIA das ameaças percebidas aos interesses imperialistas; não há precedentes de um futuro presidente lançar um ataque à CIA. Por outro lado, as agências de informações normalmente “ajustam-se” para servirem a maneira como o futuro presidente vê os interesses estratégicos (ou seja, imperialistas) norte-americanos. Por isso, os ataques de Trump à CIA são altamente incomuns, para dizer isto suavemente. Além disso: os partidos políticos dos futuros presidentes normalmente cerram fileiras à volta desse presidente; contudo, neste momento, republicanos de topo como os senadores John McCain e Lindsey Graham estão a entrar em conflito com Trump sobre se deve realizar audições sobre estas alegações, ou se deve simplesmente ignorá-las.

Estas discussões públicas apontam para conflitos subjacentes ainda mais agudos. Até agora, Democratas e Republicanos tiveram sobretudo uma linha dura contra as tentativas da Rússia de afirmar os seus interesses imperialistas em diferentes campos, como na Síria e na Ucrânia, mesmo que em simultâneo por vezes trabalhassem com ela. McCain e outros, ao defenderem as audições, têm repetidamente denunciado Putin, o dirigente russo, como “carniceiro” e “rufião”. No momento em que escrevemos, Trump parece estar a tender para uma direção diferente, incluindo ao escolher como conselheiros pessoas com ligações ao regime de Putin, por exemplo a nomeação por Trump como Secretário de Estado de Rex Tillerson, o dirigente da ExxonMobil. Tillerson é aparentemente contra as sanções impostas pelos EUA à Rússia a seguir à anexação por esta da Crimeia à Ucrânia. Michael Flynn, o conselheiro de segurança nacional nomeado por Trump, também teve ligações à Rússia.

Algumas destas diferenças estão ligadas a diferentes abordagens e respostas a um conjunto de contradições difíceis e intratáveis enfrentadas pela classe dominante norte-americana – tanto a nível internacional como no interior dos próprios Estados Unidos. Grande parte do atual conflito dentro dos centros da classe capitalista-imperialista sobre como abordar e lidar com a ascensão do fundamentalismo islâmico, incluindo movimentos reacionários baseados nessa ideologia, como o ISIS – centrado sobretudo no Iraque e na Síria – ou os talibãs no Afeganistão. Trump parece favorecer um alinhamento diferente e mais próximo com a Rússia para lidar com esses movimentos, mesmo que em simultâneo estejam envolvidos numa intensa rivalidade pela dominação destas regiões.

Bob Avakian salientou o seguinte ponto em relação a este fenómeno:

O que vemos em contenda aqui, com a jihad por um lado e o McMundo/McCruzada por outro, são estratos historicamente obsoletos da humanidade colonizada e oprimida contra estratos dominantes e historicamente obsoletos do sistema imperialista. Estes dois polos reacionários reforçam-se um ao outro, mesmo que ao mesmo tempo se oponham um ao outro. Apoiar um ou outro destes “obsoletos”, acabará por fortalecer ambos.

Ainda que esta seja uma formulação muito importante e crucial para compreender muita da dinâmica que faz mover as coisas no mundo neste período, ao mesmo tempo temos de ser claros sobre qual destes estratos “historicamente obsoletos” tem causado mais danos e representa a maior ameaça à humanidade: são os “estratos dominantes e historicamente obsoletos do sistema imperialista”, e em particular os imperialistas norte-americanos.

Bob Avakian, O BÁsico 1:28

Este confronto entre os dois obsoletos – com os EUA a desempenharem, de longe, o papel mais agressivo e assassino – tem sido um desastre para os habitantes do mundo, com a dinâmica a intensificar-se ainda mais na sequência da Primavera Árabe.[1] A guerra que os EUA desencadearam em 2003 contra o Iraque causou uma indescritível carnificina, tendo-se convertido num significativo revés para os interesses imperiais norte-americanos. Nem Bush nem Obama conseguiram fundamentalmente solidificar a dominação norte-americana sobre o Médio Oriente. Nalguns aspectos o controlo deles foi de facto abalado e algumas fraquezas estratégicas das forças armadas norte-americanas foram reveladas e mesmo exacerbadas. Este foi um importante ponto de ataque de Trump tanto contra Obama como, devemos notar, também contra George W. Bush.

Para sermos claros: ambos os lados desta disputa estão a lutar PELA dominação norte-americana da região (como parte de dominar o globo) e ambos estão dispostos a derramar tanto sangue dos povos dessa região quanto necessário para essa dominação. Mas dentro dessa unidade reacionária, há uma grande luta e há possíveis divisões dentro do campo imperialista, precisamente porque eles têm enfrentado dificuldades na perseguição desses interesses. Isto é nitidamente manifesto nas abordagens à guerra civil na Síria e à situação no Iraque, e ao acordo nuclear de Obama com o Irão.

Segundo, é muito significativo que isto esteja relacionado com as questões da legitimidade destas eleições. Mas isto é complexo. Para as massas populares, a ilegitimidade de Trump centra-se na postura extremamente reacionária dele em relação às pessoas aqui e no mundo inteiro e, mais que tudo, no programa fascista que ele pretende impor e que já está a pôr em prática, ainda antes de tomar posse. Este programa não será nada menos que catastrófico para as pessoas e por isso é necessário que Trump seja impedido, através de uma gigantesca luta política que envolva milhões de pessoas, de consolidar o seu governo. Também é ilegítimo porque a ascensão de Trump a Presidente-eleito, apesar de ter perdido o voto popular, baseia-se num Colégio Eleitoral que é um produto e legado da escravatura e da supremacia branca e das suas permanentes manifestações. (Ver “O Colégio Eleitoral – um legado da escravatura e uma expressão viva da opressão – não pode ser usado para legitimar esta equipa de fascistas”.)

Ao mesmo tempo, para os setores dos imperialistas que se opõem a Trump, as preocupações deles centram-se tanto nas significativas diferenças sobre que estratégia melhor irá promover os interesses do Império Norte-Americano e sobre se Trump está “apto a ser comandante-em-chefe” – isto é, terá ele a experiência e o “temperamento” adequados para levar a cabo a sangue frio o que é necessário a quem assume o mais elevado cargo imperialista? Isto tem surgido sobretudo na arena internacional. Ao mesmo tempo, muitas figuras da classe dominante, concentradas no Partido Democrata, têm diferenças com Trump também em torno de como ele irá governar “em casa”; estas diferenças não são insignificantes mas não se sobrepõem à unidade entre os políticos da classe dominante quanto à necessidade de levar a cabo esse domínio SOBRE o povo. É por isso que, quanto ao essencial, importantes Democratas como Obama têm defendido que se dê a Trump uma oportunidade e têm trabalhado com ele, ao mesmo tempo que esperam vir a “influenciá-lo”. O conflito sobre a avaliação da CIA faz parte dessa luta para “influenciar” Trump por parte de outras fações da classe dominante.

Terceiro, enfrentado esta situação, será muito importante que as pessoas NÃO sejam apanhadas a fixar as suas esperanças num ou noutro representante ou setor dos imperialistas. Se se permitir que os imperialistas determinem os termos e os parâmetros da luta, e se as massas populares permitirem que a sua atividade se limite a serem dirigidas por um ou outro dos campos imperialistas para lutarem em torno do que ELES consideram ser importante, isso só vai, e só pode, terminar na continuação da dominação imperialista.

Aqui iremos utilizar o artigo “A verdade sobre a conspiração de direita... E por que Clinton e os Democratas não são a resposta”; embora escrito há quase 20 anos, o princípio subjacente aplica-se muito à situação que agora enfrentamos. Bill Clinton, o então presidente, enfrentou um ataque de políticos republicanos fascistas cristãos que formaram a ponta da lança de toda uma ofensiva daquilo que na altura foi chamado “a política da pobreza, do castigo e do sistema patriarcal”, um ataque fundamentalmente dirigido contra as massas populares, mas que também envolvia conflitos entre diferentes setores dos imperialistas e que assumiu a forma de um movimento para acusar Clinton. Ainda que as coisas tenham mudado, algumas das mesmas questões, e algumas das mesmas forças, estão hoje em campo.

Eis o que Bob Avakian escreveu:

É extremamente importante voltar atrás da situação imediata e dos termos em que as coisas nos são apresentadas, e perguntar: Como é que chegámos a esta situação em que as escolhas, o enquadramento e os limites que é suposto aceitarmos são marcados num dos polos por fascistas descarados e no outro polo por alguém [isto refere-se a Bill Clinton] que, como até um colunista da imprensa de grande dimensão o descreve, é o Presidente Democrata mais conservador desde Truman, que encabeça um governo democrata que tem servido de instrumento agressivo e efetivo numa ofensiva reacionária multifacetada contra as massas de base e contra setores mais vastos do povo? Onde é que estaremos, em pouco tempo, e como será o futuro, se as pessoas, sobretudo aquelas que veem a necessidade de se oporem a esta ofensiva reacionária, forem mesmo assim convencidas a confinar os seus objetivos políticos e atividade dentro da lógica e da dinâmica que nos trouxe para a atual situação? E, mais importante, como é que saímos desta situação? A resposta é que deve e só pode ser feito através da mobilização de vastas fileiras do povo, unindo pessoas de muitos diferentes estratos e setores, para construir uma resistência determinada a todo este programa reacionário e para transformar todos os termos da contenda e da luta políticas, todo o “terreno político” – uma resistência que não se limite e que não dependa das próprias estruturas, instituições e processos políticos que são os meios através dos quais esta ofensiva reacionária está a ser levada a cabo e a ser dada “legitimidade”.

Com esse tipo de “resistência determinada a todo o programa reacionário” vinda de baixo, as lutas entre as diferentes forças da classe dominante podem assumir uma grande importância. A proposta que está agora a circular de um mês de resistência massiva para impedir a consolidação do fascismo apresenta urgentemente um quadro dessa resistência, e discute-a e aos seus possíveis efeitos:

Imaginem se as pessoas, às dezenas de milhões, encherem as ruas, declarando poderosamente que este regime é ilegítimo e exigindo que não seja permitido governar! Todo o panorama político seria dramaticamente transformado, todas as fações dentro da estrutura estabelecida do poder seriam forçadas a responder – e tudo isto poderia muito bem conduzir a uma situação em que este regime fascista seja de facto impedido de governar. Isto não é nenhum sonho ocioso, mas algo que pode ser tornado realidade se todos aqueles que odeiam o que este regime fascista representa traduzirem a sua indignação numa determinação firme e numa massiva mobilização para criar as condições que tornem isto possível.

Isto pode ser feito – isto é necessário e possível precisamente porque Trump NÃO é o normal; ele representa a imposição de uma forma fascista de ditadura capitalista, e milhões de pessoas estão justamente revoltadas com isto – com o que ele declarou como sendo as suas intenções e com o que ele já fez ainda antes de ocupar o cargo. Mas não através de alinharem atrás de um programa e de uma liderança que localiza qualquer possível ilegitimidade de Trump na incapacidade dele em “defender” de uma maneira suficientemente consistente os interesses imperialistas contra as outras potências imperialistas.

O ponto final é este: os revolucionários, ao levarem a cabo esta luta, precisam de apresentar de uma maneira convincente a saída de toda esta loucura. Através do www.revcom.us e da agitação falada, as pessoas precisam de conhecer o plano para uma sociedade completamente diferente em que a política da sociedade não seja dominada por forças imperialistas que lutam sobre como melhor dominar as massas, mas em que se lidere as massas populares para levarem a cabo a luta pela transformação do mundo para acabar com a exploração e a opressão, e, sim, em que se as lidere para levarem a cabo uma vigorosa luta sobre como fazer isto; este plano existe na Constituição Para a Nova República Socialista na América do Norte, escrita por Bob Avakian e adotada pelo Comité Central do Partido Comunista Revolucionário, EUA. Mais, os revolucionários, ao levarem a cabo esta luta para parar o regime de Trump e Pence, devem apresentar a estratégia que poderá derrotar de facto estes imperialistas e a liderança que temos para fazê-lo: Bob Avakian – um tipo de líder completamente diferente, com uma orientação para libertar e soltar as massas, e um método e uma abordagem que as pode capacitar a transformarem, de uma maneira cada vez mais consciente, o mundo e a elas próprias – e à vanguarda que ele lidera.

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[1]  Iniciada em dezembro de 2010 e prolongando-se por 10 meses, a “Primavera Árabe” foi uma poderosa série de insurreições que sacudiram as nações do Médio Oriente e Norte de África. No final de fevereiro de 2012, tinham sido afastados do poder os tiranos da Tunísia, do Egito, da Líbia e do Iémen com grandes insurreições em 14 países diferentes.