“Sejam fortes, camaradas” – a última carta do corredor da morte, de um professor aos seus colegas

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 17 de Maio de 2010, aworldtowinns.co.uk

O texto que se segue é a tradução para português da versão em inglês da última carta da prisão do professor e preso político Farzad Kamangar, dirigida aos seus colegas professores. Assinada como Shiavosh J, surgiu no sítio internet Persian2English – Breaking the Language Barrier on Human Rights [Do Persa para o Inglês – Quebrando a Barreira da Língua nos Direitos Humanos] (persian2english.com), onde também estão disponíveis traduções desta carta para holandês, francês e italiano. As notas do tradutor entre parênteses baseiam-se nas de Siavosh J. A versão original foi publicada pela Agência Noticiosa de Activistas de Direitos Humanos.

Sejam fortes, camaradas

Era uma vez uma mãe peixe que pôs 10 mil ovos. Só sobreviveu um peixinho negro. Passou a viver num pequeno ribeiro com a mãe.

Um dia, o peixinho disse à mãe: “Quero ir para longe daqui”. A mãe perguntou-lhe: “Para onde?”. O peixinho respondeu: “Quero ir ver onde é que o ribeiro acaba.” [“O Peixinho Negro” é o título de uma pequena história para crianças escrita em 1967 pelo professor dissidente Samad Behrangi. O livro esteve proibido durante o regime do Xá. Conta as aventuras de um peixinho que desafia as regras da sua comunidade para embarcar numa jornada para descobrir o mar. No caminho, combate corajosamente os seus inimigos. O conto é considerado um clássico da literatura iraniana de resistência.]

Olá companheiros de cela. Olá companheiros de dor!

Conheço-vos bem: vocês são os professores, os vizinhos das estrelas luminosas de Khavaran, colegas das dezenas de pessoas cujas redacções foram anexadas aos seus casos legais como prova, professores de alunos cujo único crime foi terem pensamentos humanitários. Conheço-vos bem: vocês são os colegas de Samad e Ali Khan. Vocês também se lembram de mim, certo? [Khavaran é o cemitério a leste de Teerão onde foram executados muitos dissidentes políticos durante os anos 80 e onde foram enterrados em valas comuns sem qualquer marca.]

Sou eu, aquele que está encarcerado na prisão de Evin.

Sou eu, o aluno sossegado que se senta lá atrás nos bancos partidos da escola e que deseja ver o mar estando numa aldeia distante no Curdistão. Sou eu, aquele que, tal como vocês, disse os contos de Samad aos seus alunos; mas no coração das Montanhas de Shahoo [no Curdistão].

Sou eu, aquele que gosta de assumir o papel do peixinho negro.

Sou eu, o vosso camarada no corredor da morte.

Agora, os vales e montanhas estão atrás dele e o rio atravessa um campo plano. Vindos do lado esquerdo e direito, outros rios juntaram-se-lhe e o rio está agora mais cheio de água. O peixinho desfruta da abundância de água [...] Ele queria chegar ao fim do rio. E conseguiu nadar tão longe quanto queria sem colidir com nada.

De repente, descobriu um grande grupo de peixes. Eram 10 mil e um deles disse ao peixinho negro: “Bem-vindo ao mar, camarada!”

Caros companheiros encarcerados! É possível sentarmo-nos atrás da mesma mesa que Samad, olharmos para os olhos das crianças desta terra e continuarmos calados?

É possível ser-se professor e não se mostrar o caminho para o mar tomado pelo peixinho do interior? Que diferença faz que eles venham de Aras [um rio junto ao Azerbaijão, no noroeste do Irão], de Karoon [um rio do Khuzestão, no sudoeste do Irão], de Sirvan [um rio do Curdistão] ou de Sarbaz Rood [um rio da região de Sistan e do Baluchistão]? Que diferença faz, quando o mar é um destino mútuo, ficarmos unidos como um só? O sol é o nosso guia. Deixemos que a prisão seja a nossa recompensa, não há problema!

Será possível carregar-se o pesado fardo de se ser professor e responsável por se propagar as sementes do conhecimento e continuar-se calado? Será possível ver-se os inchaços nas gargantas dos alunos e observar os seus rostos magros e malnutridos e continuar-se quieto?

Será possível estar-se no ano da não justiça e da não equidade e não se ensinar o E da Esperança e o I da Igualdade, mesmo que esses ensinamentos nos façam cair na prisão de Evin ou resultar na nossa morte?

Eu não me consigo imaginar ser professor na terra de Samad, Khan Ali e Ezzati e não me juntar à eternidade do Aras. [Um rio no noroeste do Irão, na fronteira entre o Irão e o Azerbaijão. Samad afogou-se nesse rio no verão de 1968. Algumas pessoas consideram suspeitas a circunstância da sua morte e culpam os agentes do regime do Xá pela sua morte.] Não me consigo imaginar a testemunhar a dor e a pobreza das pessoas desta terra sem darmos os nossos corações ao rio e ao mar, para rugir e inundar.

Eu sei que um dia, este caminho agreste e irregular será pavimentado para os professores e que o sofrimento que vocês suportaram será uma insígnia de honra para que todos possam ver que um professor é um professor, mesmo que o caminho dele ou dela esteja bloqueado pelo processo de selecção, pela prisão e pela execução. [O processo de selecção, ou Gozinesh, em que os professores e outros funcionários públicos são vetados com base nas suas perspectivas ideológicas, políticas e religiosas.] É o peixinho negro e não a garça-real que dá honra ao professor.

Os peixinhos nadaram calmamente para o mar e pensaram: Enfrentar a morte não me é difícil, nem isso é lamentável.

De repente, a garça-real desceu e apanhou o peixinho.

A avó peixe acabou a sua história e disse aos seus 12000 filhos e netos que era hora de irem para a cama. 11999 peixinhos disseram boa noite e foram para a cama. A avó também foi dormir. Um peixinho vermelho não conseguiu dormir. Esse peixe estava a pensar profundamente.

Um professor no corredor da morte, prisão de Evin

Farzad Kamangar

Abril de 2010

A explicação de Farzad Kamangar para o título da sua carta:

Há oito anos, a avó de um dos meus alunos, Yassin, da aldeia de Marab, fez-me ouvir a gravação da história do professor Mamoosta Ghootabkhaneh. Depois disse-me: “Eu sei que o seu destino, tal como o do professor que escreveu e gravou este poema, é a execução; mas seja forte, camarada.” A avó disse-me estas palavras ao mesmo tempo que fumava o seu cigarro e fitava as montanhas.