Reportagem sobre um massacre governamental de povos tribais na Índia:

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 23 de Julho de 2012, aworldtowinns.co.uk

A 28 de Junho, 23 adivasis (membros de povos tribais) foram mortos no estado indiano de Chhattisgarh, onde o governo indiano está a levar a cabo aquela que chama de Operação Caçada Verde, uma campanha iniciada em Setembro de 2009 para perseguir, torturar e assassinar membros e dirigentes do Partido Comunista da Índia (Maoista) e os seus apoiantes. O governo indiano alega que só matou maoistas, mas ao mesmo tempo também declarou que todos os que ajudem os maoistas serão tratados como maoistas e mortos, gerando um enorme clamor de protesto. Segundo jornalistas da BBC e do jornal The Hindu e muitas testemunhas, os aldeões estavam a participar numa reunião para discutir a próxima festa da semente que se realiza todos os anos na véspera do início das monções. Essa reunião fazia parte de um processo de decisão colectiva sobre a utilização e distribuição das terras entre os camponeses. À noite, a horas tardias, foram cercados por forças de segurança que abriram fogo sobre os participantes, muitos deles vindos de aldeias vizinhas. As vítimas do ataque também foram retalhadas com objectos afiados. As jovens foram perseguidas pelos campos e espancadas, as suas roupas foram rasgadas e elas foram ameaçadas de violação.

Publicamos de seguida excertos de um artigo que apareceu originalmente em countercurrents.org e em sanhati.com, da autoria de Kamal K. M., um realizador de cinema baseado em Mumbai [antiga Bombaim] que integrou a equipa de investigação dos factos que visitou as aldeias onde ocorreu o massacre.

Por Kamal K. M.

Dandakaranya é uma extensa floresta indiana que atravessa os estados de Chhattisgarh, Orissa, Maharashtra e Andhra Pradesh. Grosseiramente traduzida do sânscrito, a palavra significa “Selva da Punição”.

Quando se entra na aldeia de Kottaguda, situada no distrito de Bijapur no Chhattisgarh, a primeira impressão é de serenidade. Os vestígios das pilhagens feitas pela Salwa Judum há alguns anos ainda permanecem como uma cicatriz cauterizada. As casas resistiram manifestamente a esses actos de agressão.

Não se conseguia ver nenhum vestígio do massacre, passados dez dias.

Éramos um grupo de trinta pessoas de diferentes partes de Índia, gente de diversas profissões e percursos académicos. No grupo havia algumas pessoas que tinham estado em missões similares de investigação dos factos, tais como o promotor Tharakam, Prasanth Haldar, V. S. Krishna, o promotor Raghunath, C. Chandrasekhar, R. Shiva Shankar e Ashish Gupta. Alguns deles eram membros oficiais de diversas organizações de direitos humanos sob o guarda-chuva da Coordenadora de Organizações de Direitos Democráticos (CDRO na sigla em inglês). Nós, advogados, professores, funcionários públicos, estudantes, ex-activistas sindicais e jornalistas profissionais estávamos unidos por um único anseio: revelar a verdade sobre o que de facto ocorreu na noite de 28 de Junho.

Quando entrámos na aldeia havia nela um ar solene. Os únicos humanos que aí vimos foram alguns membros fortemente armados das forças paramilitares no meio dos arbustos, que podiam ser das forças CoBRA [uma unidade militar de elite] ou da CRPF [Força de Reserva Central da Polícia].

Os homens armados evitaram o nosso olhar. Não podiam olhar para nós devido à sombra do acto traiçoeiro de dias antes que pairava enormemente sobre deles.

Eram 8 horas da noite de 28 de Junho, na aldeia de Kottaguda, Distrito de Bijpapur, no Chhattisgarh.

Estava a decorrer uma reunião para discutir a próxima festa da semente Beeja Pondum. Era uma noite húmida de monção. Algumas pessoas de outras aldeias, como Sarkeguda e Rajpenta, também estavam a participar na reunião. Algumas crianças vagueavam a brincar em redor. Às 10 horas da noite, a força de Naja e CRPF cercou a aldeia e começou a disparar indiscriminadamente e sem qualquer aviso.

O primeiro ataque veio de oeste, e matou de imediato três adivasis. A isto seguiram-se rapidamente disparos vindos das outras três direcções. Os aldeões aterrorizados começaram a correr; alguns tentando encontrar abrigo, outros correram para as respectivas aldeias. Contudo, as balas continuaram a chover durante mais 30 minutos. Então, como que para confirmar os mortos, as forças da CRPF dispararam duas armas de clarão que iluminaram a área. Passearam calmamente pelo local e recolheram os cadáveres que lá estavam.

A comunicação social nacional noticiou convenientemente o incidente de acordo com a versão do governo. Mas de manhã começou lentamente a emergir que os mortos eram na realidade aldeões. Tinha sido de facto um massacre. Era claro que as vítimas eram aldeões tribais que foram mortos aleatoriamente. Alguns jornais e canais de televisão corrigiram o erro e relataram a verdade. Outros ainda não admitiram o seu erro.

Depois dessas notícias não houve nenhuma reacção a nível nacional. Os governos do estado e central indicaram que o massacre tinha sido de facto um recontro com maoistas, relegando assim a culpa para as vítimas. Um dia depois, o Sr. Chidambaram exprimiu pesar pelo massacre que tinha ocorrido num estado governado pelo partido BJP. A culpa foi assim passada de um lado para o outro. Poder-se-ia pensar que ele, enquanto Ministro do Interior, poderia ter ido à aldeia e exprimido o seu pesar de uma forma mais palpável.

Os membros dos povos tribais desta zona há muito tempo que sofrem muita violência às mãos de vários agressores. Os senhores feudais, no seu apetite pelo poder, aterrorizavam as aldeias com violações e pilhagens. Sendo uma cintura tribal, o governo pós-industrialização também tem ignorado o bem-estar dos povos locais. Como reacção a essa injustiça, os maoistas emergiram enquanto revolucionários para libertarem o povo dessa agressão.

Desde Junho de 2005 que o governo de Chhattisgarh tem encorajado um movimento criminoso de vigilantes chamado Salwa Judum que pôs tribais contra tribais, uma lição de dividir para reinar aprendida do Raj [a administração colonial britânica]. Alguns adivasis do ex-distrito unificado de Dantewada receberam do governo do estado de Chhattisgarh armas e apoio para o treino. Eles andaram num frenesim a aterrorizar os tribais apontados como sendo a base de apoio dos maoistas. Mais de 600 aldeias foram incendiadas, mais de cem adivasis foram mortos e houve muita violência sexual. Milhares de adivasis foram forçados a mudar-se para campos cercados, e provavelmente mais de 70 000 tribais fugiram para o estado vizinho de Andhra Pradesh, que tem uma fronteira bastante longa com o Dantewada.

Os maoistas agruparam-se vindos de diferentes pontos do Andhra Pradesh e começaram a trabalhar com as pessoas das aldeias, protegendo-as dos intrusos e organizando as técnicas de agricultura deles, dando poder às mulheres, e ensinando-os a usar roupas. Em geral, os tribais das florestas de Dantewada sentiam-se seguros com os maoistas.

O que ocorreu nessa terrível noite de 28 de Junho não foi nada mais que uma reunião de rotina na aldeia para discutir vários assuntos da comunidade. Ninguém estava a conspirar contra o Governo indiano, como insinua o nosso Ministro do Interior, o Sr. Chidambaram. Abandonados pela ONGs e pelas organizações empresariais de caridade como “zonas infestadas de maoistas”, os povos tribais de Dantewada tinham pouca esperança na melhoria da sua situação. Contudo, esses trinta minutos mergulharam-nos num profundo silêncio de dor, um silêncio que eles ainda estão a tentar ultrapassar.

À medida que a nossa equipa de investigação dos factos entrava no campo aberto entre as aldeias de Sarkeguda e Kottaguda, podíamos ouvir um canto triste. As mulheres da aldeia estavam reunidas à volta de uma casa. As primeiras mulheres que nos viram começaram a chorar, como se tivessem visto alguns parentes distantes vindos para trazer condolências.

As pessoas da aldeia começaram a reunir-se à nossa volta. Homens, mulheres e crianças, cada um tinha uma história para contar, cada um estava desesperado por ser ouvido. Mães que tinham perdido os seus filhos choravam inconsoladamente. As viúvas e as crianças olhavam desesperadamente. Vários familiares mostravam-nos fotos dos seus defuntos entes queridos e usavam-nas como insígnias de coragem. Muitos nem sequer tinham esse tipo de relíquias para exibir.

Seis dos mortos eram menores, e entre eles estava uma menina de 12 anos, Kaka Saraswati, filha de K. Rama. Ela foi atingida quando fugia para a casa dela em Kottaguda. Dos outros cinco menores, dois, Kaka Rahul (16) e Madkam Ramvilas (16), andavam na 10ª classe numa escola em Basaguda. Viviam num albergue em Basaguda e estavam de visita a casa durante as férias de verão.

Várias vítimas mostraram-nos os seus ferimentos e as balas que tinham penetrado o corpo delas. A zona à volta também foi afectada. Várias das balas disparadas aleatoriamente sobre os aldeões Foram encontradas alojadas em árvores vizinhas.

Um touro que por ali vagueava também ficou ferido. Aparentemente, nessa noite também foram mortos vários outros animais. Este touro em particular tinha uma bala alojada na perna. Não conseguia baixar a pata por causa da profunda dor que sentia. O esforço de resistência dele para se equilibrar em três pernas significava muito para as pessoas que cuidavam dele. A minha pergunta sobre ajuda veterinária ao touro ferido foi encarada como superficial. Não havia sequer um médico para cuidar das pessoas feridas aqui nestas aldeias distantes.

À medida que cada uma das pessoas ia falando, começámos a juntar as peças do mosaico dos factos do incidente. Na manhã do dia 29, a CRPF matou a sua última vítima, quando um aldeão saía de casa para inspeccionar o silêncio no exterior. Depois, os homens da CRPF arrastaram duas mulheres para os campos vizinhos e rasgaram-lhes as roupas. Três outras mulheres também foram abusadas, espancadas e ameaçadas de violação, tudo isso sem nenhuma finalidade.

Na realidade, ignorando as normas padrão, os homens da CRPF não só levaram os corpos como também recolheram a terra ensanguentada que estava por baixo dos corpos. Segundo o superintendente da polícia de Bijapur, uma equipa de médicos fez uma autópsia formal na esquadra da polícia de Basaguda e está a ser preparado um relatório. Isto é absurdo, dado que as autópsias têm de ser feitas em hospitais adequadamente equipados para esse procedimento e não numa esquadra da polícia. É significativo que os aldeões sejam unânimes em dizer que não foi feita nenhuma autópsia, um facto confirmado por vários jornalistas que não viram nenhuma das marcas conhecidas que ficam visíveis num corpo após um procedimento de autópsia.

A CRPF diz agora que sete dos falecidos, Madkam Suresh, Madkam Nagesh, Madvi Ayatu, Kaka Sammayya, Korsa Bijje, Madkam Dilip e Irpa Narayana, eram maoistas e que havia vários casos de séria violência registados contra eles em várias esquadras da polícia em todo o Estado de Chhattisgarh.

O massacre foi de facto arbitrário. É surpreendendo que a CRPF encontre agora alguma validação disso. Se o que eles dizem for levado a sério, fica então claro que é claramente uma morte extrajudicial.

Dez dias depois do massacre, o governo tomou a sua primeira medida. Chegou um camião carregado de compensações, acompanhadas por R. A. Kuruvanshi, o Magistrado Sub-Divisional dos Impostos de Bhoopalapatnam. Arroz, daal, roupas, utensílios, foi este o valor dado às dezassetes vidas. Os aldeões recusaram-no em voz alta. A ira deles foi gritada, mas com dignidade. Não insultaram, nem praguejaram. Não incendiaram o camião, um epítome do insulto que lhes fez o Governo.

Se nós somos maoistas, então porque é que vocês nos trazem este arroz? Porque é que vocês nos fizeram isto?

O agente tributário ouviu estupefacto. Não tinha nenhuma resposta real a apresentar às pessoas em sofrimento. Voltou para trás com um calafrio na alma. Toda a gente assistiu em silêncio à medida que o camião regressava pelo caminho da selva.

No passado recente, os recontros entre maoistas e membros das forças policiais e especiais só têm atraído a atenção quando são estes últimos que ficam feridos ou mortos. Em 2010, o primeiro-ministro pediu um relatório do Ministro do Interior sobre o incidente de 6 de Abril de 2010, em que 74 tropas da CRPF foram mortalmente atingidos pelos maoistas perto de Chintalar, no que é agora o distrito de Sukma. O massacre de aldeões tribais em Kottaguda não teve direito nenhuma resposta desse tipo. É conveniente acreditar na versão oficial de que o massacre foi um recontro entre maoistas e forças do Estado, e que os aldeões foram usados como escudo humano.

A Comissão Nacional de Direitos Humanos nem sequer considerou visitar as aldeias com uma equipa oficial de investigação dos factos e desenterrar a verdade sobre o que tinha ocorrido nessa noite. Pediu um relatório ao Director-Geral da CRPF, 12 dias após o incidente. Podemos imaginar que tipo de relatório será elaborado.

O Governo da Violência é o único demónio que está sempre presente nestas florestas de Dandakaranya.