A seguinte série de artigos está a ser publicada no jornal Revolution/Revolución, voz do Partido Comunista Revolucionário, EUA, revcom.us. Até agora foram publicados artigos nas edições n.os 513, 514, 515 e 517, de 16, 23 e 30 de outubro e 13 de novembro de 2017, em inglês e em castelhano.

Repor a verdade sobre o comunismo e a revolução socialista

Refutação das mentiras mais disseminadas contra o comunismo

Introdução à nova série Repor a Verdade

As revoluções em Paris em 1871, na Rússia em 1917 (até meados da década de 1950) e na China em 1949 (até 1976), foram todas grandes avanços históricos. Centenas de milhões de pessoas levantaram-se e ganharam uma valiosa experiência sobre o que seria necessário fazer para se chegar a um mundo sem exploração, sem opressão, sem violentos confrontos destrutivos entre seres humanos, sem imposição da ignorância e da superstição. Mas estas primeiras tentativas de emancipar a humanidade foram derrotadas.

E são os vencedores – os imperialistas – que estão a escrever a história. Os opressores propagam infindáveis mentiras sobre o que os “condenados da terra” estavam a tentar fazer, que forças brutais se alinharam contra estas tentativas heroicas e por que houve limitações e mesmo erros secundários na teoria e na prática delas.

Bob Avakian (BA) não só tem vindo a defender estas experiências pioneiras como mostrou uma maneira de verdadeiramente as entendermos, mas, ainda mais importante, desenvolveu um novo comunismo baseado numa visão muito mais profunda e mais científica do que envolve emancipar TODA a humanidade. O novo comunismo de BA é uma rutura e um salto para além do anterior entendimento da revolução comunista e “representa e encarna a resolução qualitativa de uma contradição crítica que tem existido no comunismo e no seu desenvolvimento até este momento, entre o seu método e abordagem fundamentalmente científicos e os aspectos do comunismo que têm ido contra isto.” (Da 1.ª das 6 Resoluções do Comité Central do Partido Comunista Revolucionário, EUA, 1 de janeiro de 2016).

Além da necessidade de divulgar os sucessos positivos do socialismo e das revoluções comunistas e de criticar estas anteriores revoluções pelo prisma da nova síntese – como fazer melhor da próxima vez –, há uma necessidade real de refutar corajosamente a torrente de mentiras, calúnias, distorções e falsas representações desta história que têm reduzido as aspirações sobre como o mundo deveria e poderia ser radicalmente diferente e calado a respetiva discussão. As mentiras servem para reforçar a atual situação apodrecida e a sua visão conformista de que o melhor que podemos fazer é ajustar ou reduzir a miséria existente na atual ordem mundial capitalista. Esta série visa responder às mentiras mais disseminadas sobre a revolução comunista.

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MENTIRA N.º 1: A natureza humana mina e invalida os objetivos do comunismo, por mais nobres que sejam os seus princípios ou por mais sinceras que sejam as intenções dos seus defensores

Esta é provavelmente a “evidência” mais popular e mais aceite contra o comunismo. Mas é inteiramente anticientífica e serve unicamente o statu quo. Bob Avakian (BA) tem destacado a análise de Marx de que toda a história humana tem sido de contínua transformação da “natureza humana”. As sociedades mudam e a consciência das pessoas muda. E as noções dominantes sobre o que é a “natureza humana” – tal como elas são projetadas e instiladas pela superstrutura (ou seja, as instituições, a cultura, os valores, as ideias, etc.) de qualquer sociedade – mudam.

As pessoas, a sociedade e a consciência mudam

Um sistema económico socialista – porque está organizado em torno das necessidades sociais em vez do lucro privado – fomenta, reforça e torna possíveis novas formas coletivas e cooperativas de as pessoas poderem interagir. Na imagem, comunas populares organizam uma cozinha coletiva na China em 1959.

O que torna os seres humanos únicos entre todas as espécies neste planeta é o que é designado como a nossa “plasticidade”. Em vez de nascerem “programados” e de só serem capazes de repetir continuamente os mesmos padrões de comportamento, os seres humanos nascem com um imenso potencial de se mudarem e se adaptarem constantemente a novas circunstâncias e de aprenderem coisas novas ao longo das vidas deles – sobretudo através de mudarem essas circunstâncias e de interagirem com outras pessoas. BA salienta que os seres humanos têm “a capacidade de responder às coisas de uma grande variedade de maneiras e a capacidade de mudar a maneira como veem e como respondem às coisas quando muda a sua situação e quando se mudam a si mesmo em relação dialética com isto.”

A cooperação tem sido absolutamente necessária para o desenvolvimento da sociedade humana. Por exemplo, nas sociedades primitivas de caçadores e recoletores, antes do surgimento das classes, os seres humanos não poderiam ter existido um só dia sem cooperarem para se resguardarem das ameaças da natureza, desde os animais selvagens aos perigos do clima e do habitat, etc. E isto é verdade para a maior parte da história da humanidade. Não haveria sobrevivência humana sem várias formas de cooperação. Por exemplo, os bebés humanos requerem a ajuda e os cuidados de outros seres humanos. Não é possível fazer funcionar um jardim-escola ou um jardim infantil sem várias formas de cooperação. As sociedades modernas não poderiam sobreviver sem as complexas redes de produção interligada que requerem que as pessoas de facto trabalhem juntas a nível mundial. Portanto, as pessoas são plenamente capazes de cooperar e de organizar sociedades em torno dessa cooperação. Mas, atualmente, toda esta cooperação existe no quadro da propriedade privada e da luta competitiva no sistema do capitalismo-imperialismo.

O capitalismo e a lógica de “ser o número um”

O capitalismo está organizado em torno da propriedade e competição privadas e da acumulação privada de riqueza. Mas nem sempre foi assim – mas é-o nesta época (i.e., neste período da história) e esta realidade económica do capitalismo invade todos os aspectos da existência humana – as relações sociais, as instituições e os valores.

Dado que este sistema está organizado em torno da acumulação competitiva de riqueza com base na exploração e na opressão, mede e recompensa de acordo com padrões que fomentam essa exploração. Por isso, os valores da competição, da cobiça, do individualismo e de “ser o número um” são constantemente promovidos e reforçados até que pareçam “naturais”.

Parem e pensem quão ridícula é esta lógica. Na realidade, os seres humanos são capazes de um vasto leque e variedade de comportamentos, como a violação, o assassinato e o genocídio... mas também a compaixão, o sacrifício pelo bem de todos e o altruísmo (i.e., ajudar abnegadamente os outros mesmo perante riscos pessoais). Portanto, vocês dizem que o socialismo vai contra a “natureza humana”. Então, para que é que têm leis e regulamentos contra o homicídio e a violação na sociedade capitalista? Não estarão a legislar contra a “natureza humana”?

E há a realidade da produção socializada, o facto de a humanidade mundial ser mais dependente que nunca dos esforços objetivamente interligados de milhões de seres humanos. Os bens, os serviços, as infraestruturas, a ciência, a medicina e a tecnologia do mundo de hoje, tudo isto depende da cooperação. Tudo isto se destaca especialmente em tempos de desastres naturais como durante os terremotos e os furacões. Nunca a noção de “self-made individual” [“indivíduo que se fez sozinho”] foi mais absurda e no entanto mais amplamente abraçada.

Como a revolução na China mudou radicalmente a “natureza humana” para melhor

Para tornar isto mais concreto: Podemos olhar para a China como uma espécie de laboratório “socio-histórico” de como a “natureza humana” pode ser radicalmente mudada para melhor... mas também retroceder para pior.

Em 1949, a revolução chinesa chegou ao poder. Mao Zedong liderou centenas de milhões de pessoas a se porem de pé e a porem fim a séculos de exploração, pobreza devastadora e desespero. Antes da revolução, os camponeses nas zonas rurais viviam sob o domínio de cruéis proprietários rurais. Durante os tempos de fome e os anos difíceis, muitos deles tinham de comer folhas e cascas de árvores, e mesmo de vender os próprios filhos, para pagarem os juros das dívidas. Também nas cidades havia uma horrenda luta pela sobrevivência – com as pessoas a lutar desesperadamente pelo seu sustento e atiradas umas contra as outras numa sociedade em que os recursos eram controlados por uma minoria exploradora.

A revolução socialista na China entre 1949 e 1976 mudou tudo isso. Tornou possível o desenvolvimento de uma economia ao serviço das necessidades das pessoas. Os recursos foram usados em benefício da sociedade e do avanço da revolução mundial. As novas instituições sociais e a cultura revolucionária promoveram a cooperação e o trabalho para tornar melhor a humanidade. As pessoas passaram a medir as vidas delas e a avaliar as ações das outras pela lente de “servir o povo”. Não que isto tenha sido perfeito ou ocorrido sem problemas. Mas um novo etos ganhou raízes. As pessoas mudaram... e estavam a mudar-se a si mesmas.

Mas, em 1976, novas forças capitalistas organizaram uma contrarrevolução e subiram ao poder. Elas restauraram as velhas relações económicas do capitalismo de “comer ou ser comido”. Promoveram o lema “ficar rico é glorioso”. Esta é a China de hoje. As pessoas competem por empregos, moradias e tudo o resto... com o isco de algumas delas “passarem à frente”. As pessoas, e os valores dominantes, mudaram novamente... de regresso ao velho “eu contra todos” e “cada um por si”. Não porque uma “imutável natureza humana” se tenha voltado a afirmar – mas porque a sociedade regressou ao capitalismo!

Um sistema económico socialista – porque está organizado em torno das necessidades sociais em vez do lucro privado – fomenta, reforça e torna possíveis novas formas coletivas e cooperativas de as pessoas poderem interagir. E a sociedade socialista promove os valores da cooperação e maximiza a capacidade das pessoas de contribuírem para uma sociedade libertadora e para a emancipação da humanidade. Uma sociedade socialista pode desenvolver o potencial da produção socializada rumo à criação de uma sociedade livre da exploração e da miséria.

Fontes:

De palestras, entrevistas e textos de Bob Avakian:

Outras fontes essenciais:

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MENTIRA N.º 2. Como o socialismo-comunismo vai contra a natureza humana, recorre à violência do estado e aos assassinatos em massa para impor os seus ideais

A mentira sobre Estaline e a fome de 1932-1933 na Ucrânia

Uma importante linha de ataque à revolução socialista na União Soviética entre 1917 e 1956 diz respeito à fome que ocorreu na Ucrânia em 1932-1933. Os historiadores anticomunistas, os nacionalistas ucranianos e a comunicação social ocidental em geral acusam José Estaline, que liderou a União Soviética entre 1927 e 1953, de ter causado deliberadamente a fome ao povo da Ucrânia.

A acusação de que Estaline quis punir e exterminar um grande número de camponeses ucranianos negando-lhes cereais é uma mentira. Houve uma terrível escassez de alimentos na Ucrânia e noutras regiões da União Soviética. E muitas pessoas morreram. Mas essa escassez foi causada principalmente por um declínio da produção de cereais causado sobretudo por razões climatéricas e outros fatores naturais. Porém, a escassez de alimentos foi pior devido a erros na política governamental.

Os factos reais sobre a situação, e uma análise da política agrícola soviética sob Estaline, são explicados no sítio internet Repor a Verdade, no artigo de investigação (em inglês): “The Famine of 1933 in the Soviet Union: What Really Happened, Why it was NOT an 'Intentional Famine.'” [“A fome de 1933 na União Soviética: O que realmente aconteceu e por que não foi uma ‘fome intencional’”].

Uma importante linha de ataque contra o comunismo – e uma das maiores mentiras sobre o comunismo – é a de os estados comunistas, nomeadamente a antiga União Soviética e a China maoista (1949-1976), perseguiram e mataram milhões e milhões de pessoas. Toda uma indústria de livros e artigos anticomunistas despeja um número de mortos desconcertante e horrendo. Estas alegações são interminavelmente repetidas... e depois apresentadas como factos estabelecidos e indiscutíveis. Tudo isto tem como finalidade convencer as pessoas de que o comunismo pode ter ideais nobres... mas termina num pesadelo.

Por que mentem sobre o comunismo...
e quem está a mentir

Há uma razão fundamental para o sistema capitalista-imperialista propagar massivamente todo o tipo de mentiras e deturpações sobre o comunismo. Porque o comunismo se opõe totalmente à exploração, à opressão e às desigualdades selvagens em que o sistema capitalista se baseia e em que prospera, e que expande e aprofunda no mundo inteiro.

Além disso: esta mensagem sobre os “horrores do comunismo” vem do sistema económico-social mais horrendo da história humana. Um sistema cujo leite materno foi o tráfico transatlântico de escravos, que arrancou milhões sobre milhões de pessoas de África e as escravizou no “Novo Mundo” das Américas para produzirem a riqueza vital para o desenvolvimento do capitalismo mundial – sofrendo durante muitas gerações um constante e indescritível terror e brutalidade. Esta narrativa do “comunismo como desenfreada violência de estado” vem de um sistema que tem funcionado através de uma horrenda e sistemática violência de estado – incluindo duas guerras mundiais no século XX, as quais provocaram mais de 100 milhões de mortes.

1.º Ponto: As revoluções comunistas salvaram e enriqueceram vidas... e o imperialismo organizou-se para estrangular estas revoluções

Em relação à acusação de massiva perda de vidas sob o comunismo, a verdade é que estas revoluções salvaram vidas.

A vitoriosa Revolução de Outubro de 1917 na Rússia retirou de imediato a Rússia da I Guerra Mundial – na qual milhões de pessoas comuns se envolveram numa matança mútua para benefício dos interesses dos imperialistas, entre os quais o czar (o monarca autocrata da Rússia), que governava usando a polícia secreta, as prisões e a vigilância. A revolução bolchevique (na Rússia, os comunistas revolucionários eram conhecidos como “bolcheviques”), com o seu programa de “terra, pão e paz”, liderou as pessoas a mudarem a horrível situação da sociedade – a brutal pobreza e perseguição dos operários nas cidades, o peso esmagador da tradição, a imposição da ignorância e as superstições que pesavam sobre a maioria do campesinato. A humanidade e a libertação de setores amargamente oprimidos, como as mulheres e as nacionalidades minoritárias, foram colocadas à frente e no centro da sociedade – através de medidas como o acesso ao aborto legal e seguro, os direitos sociopolíticos plenos, a ilegalização e as campanhas contra a violência patriarcal (como os espancamentos de esposas) e o fim da violência justicialista (por exemplo, os pogrom – a perseguição e os massacres contra os judeus que eram comuns na antiga Rússia).

Mas uma revolução não ocorre num vazio. Assim que a revolução russa chegou ao poder, os imperialistas mobilizaram-se contra ela – armando e apoiando as forças contrarrevolucionárias na Rússia, o que levou à brutal guerra civil de 1918-20 que resultou em massivas mortes e doenças e num quase colapso económico. E os imperialistas nunca desistiram, com a Alemanha a invadir a União Soviética em 1941, o que resultou na perda de mais de 25 milhões de vidas soviéticas.

Antes da revolução de 1949, a China era uma sociedade assolada por fomes nos campos e com uma desesperada pobreza e privações também nas cidades; em Xangai, eram recolhidos das ruas 25 mil cadáveres por ano. Era um país com 500 milhões de habitantes e apenas 12 mil médicos treinados em medicina moderna. O assassinato de meninas recém-nascidas era generalizado, bem como a prática de forçar as mulheres a fazerem casamentos arranjados. A revolução comunista liderada por Mao Zedong acabou com estes e inúmeros outros pesadelos. “As mulheres têm metade do céu” tornou-se na orientação da sociedade e lutava-se pela participação plena delas na sociedade.

De 1949 a 1976, período em que a China foi socialista, a esperança de vida subiu de 32 para 65 anos. Os recursos eram desenvolvidos e canalizados para servir a grande maioria da população. Foi criado um sistema de cuidados universais de saúde, o mais igualitário do mundo, com a participação ativa das massas populares. Amartya Sen, um economista galardoado com o Prémio Nobel, calculou que se a Índia capitalista tivesse tido o mesmo sistema de cuidados de saúde que a China tinha no tempo de Mao, na Índia teriam morrido menos quatro milhões de pessoas por ano. Isto significa perto de 100 milhões de mortes desnecessárias na Índia entre 1947 e 1979.

2.º Ponto: Os escravos têm direito a se revoltarem

Bob Avakian fornece um ponto básico de orientação no ensaio dele “Uma questão claramente colocada: NAT TURNER OU THOMAS JEFFERSON?”:

Uma rebelião de escravos ou um proprietário de escravos? Apoiar os oprimidos que se erguem contra o sistema opressor e procuram um caminho radicalmente diferente, mesmo que com alguns erros e excessos – ou apoiar os opressores e os líderes e guardiães de uma obsoleta ordem opressora que pode falar em “direitos inalienáveis” mas que abate uma brutalidade gratuita e um terror muito real sobre as massas populares para impor e perpetuar o seu sistema de opressão?

Sim, nas revoluções russa e chinesa houve morte e destruição – e houve excessos, alguns deles mesmo funestos. Mas tudo isto ocorreu num contexto de luta dos oprimidos e explorados para se libertarem e criarem as primeiras sociedades socialistas do mundo... ao mesmo tempo que enfrentavam ameaças internas e externas, e tinham muito pouca experiência anterior de onde retirarem lições.

Mas nós não estamos na mesma situação. Com o novo comunismo desenvolvido por Bob Avakian, há um enquadramento científico para compreendermos os grandes feitos e os erros dessas revoluções... e um enquadramento científico para irmos mais longe e fazermos melhor numa nova etapa de uma revolução comunista ainda mais emancipadora.

3.º Ponto: “A história feita por contagem de cadáveres” não é científica

Suponham que vos diziam que morreram 650 mil pessoas durante a Guerra da Secessão de 1861-65 nos EUA (o equivalente a 7,5 milhões de mortes na atual população norte-americana). Um número inacreditavelmente elevado – e verdadeiro. E que depois vos diziam: Abraham Lincoln foi um “assassino em massa” por ter presidido obstinadamente ao massacre de centenas de milhares de pessoas. Isto não seria uma afirmação científica. A contagem de cadáveres não nos diz quais foram as causas e os objetivos em contenda na Guerra da Secessão – a razão por que estavam eles a combater –, nem que a escravatura era a questão central.

O mesmo se passa com as revoluções russa e chinesa. Não se pode começar com “contagens de cadáveres”. E não se pode começar “a meio do filme” – como as batalhas da Guerra da Secessão. Quais foram as condições socioeconómicas e políticas das revoluções russa e chinesa, as ameaças e invasões imperialistas reais, as contrarrevoluções e as guerras civis, os desastres naturais épicos e as sociedades opressoras e exploradoras que originaram essas revoluções e os milhões de pessoas que literalmente clamavam pela emancipação? E como é que a liderança revolucionária respondeu aos desafios e obstáculos e que erros foram cometidos ao lidarem com estes desafios?

Para se chegar ao que é objetivamente verdade é necessária uma análise histórica de todos os ângulos, incluindo as forças em confronto.

4.º Ponto: Os imperialistas são uns mentirosos de calibre mundial. Mentem sistematicamente sobre episódios específicos da história do comunismo

Quando os EUA escalaram massivamente a guerra no Vietname em 1964, inventaram uma mentira sobre um ataque a um navio de guerra norte-americano. Essa mentira foi repetida pela comunicação social para justificar uma guerra que acabou por matar três milhões de vietnamitas. Quando os EUA invadiram o Iraque em 2003, inventaram a mentira de que o Iraque tinha armas de destruição em massa, para justificarem a guerra – e centenas de milhares de pessoas morreram e milhões de pessoas foram deslocadas.

Em relação ao comunismo, o método burguês é deturpar e distorcer acontecimentos e movimentos específicos da história do comunismo – em especial aqueles que envolveram uma grande agitação e grandes convulsões, e uma grande luta e transformação. Como a coletivização da agricultura na Rússia em finais dos anos 1920 ou a Revolução Cultural na China entre 1966 e 1976. Os reais objetivos desses movimentos são distorcidos e então põem em marcha a máquina da “contagem de mortos” – inflacionando os números ao serviço de uma narrativa oficial de suposta “indiferença do comunismo pela vida humana”.

Um exemplo disto é o Grande Salto em Frente que ocorreu na China socialista em 1958-1960. Num artigo posterior desta “Refutação” falaremos mais sobre o caráter tremendamente libertador desse movimento e dessa luta para estabelecer a segurança alimentar, para revolucionar a vida económica e social nos campos da China e para eliminar as desigualdades, incluindo as milenares barreiras patriarcais que as mulheres enfrentavam.

Tudo isto é ignorado e o que é apregoado pelos grandes meios de comunicação e pelos ideólogos do sistema capitalista é que, durante o Grande Salto em Frente, 65 milhões de pessoas morreram à fome porque o líder revolucionário Mao Zedong estava muito obstinado em manter as radicais políticas económicas e sociais dele. A narrativa continua dizendo que isto resultou numa fome – e que, dado que Mao não se preocupava com a vida humana, morreram dezenas de milhões de pessoas. Isto é uma mentira total e escandalosa.

Qual é a verdade? Em 1959-1960, houve uma penúria de alimentos e mortes causadas pela fome. Mas isto foi causado principalmente por condições climatéricas sem precedentes – uma seca e inundações terríveis, desastres naturais que eram comuns na história da China. Em resposta, o governo socialista tomou medidas de auxílio contra a fome e mobilizou recursos para lidar com o desastre e satisfazer as necessidades das pessoas. A acusação de que morreram 65 milhões de pessoas baseia-se em dados não fiáveis e em manipulações estatísticas com a finalidade de atacar o socialismo na China entre 1949 e 1976. Podes saber mais sobre esta e outras maneiras de inflacionar os “números de mortos” no sítio internet da Repor a Verdade (em inglês). Mas só porque uma coisa é amplamente repetida e muito acreditada pelas pessoas não se transforma em verdade.

5.º Ponto: Como se atrevem os capitalistas a apontar os dedos deles a escorrer sangue

Uma vez mais: a realidade histórica é que nenhum sistema tem sido tão bárbaro como o capitalismo – não só no número de mortes desnecessárias e continuadas e no sofrimento humano, mas também no esmagamento do espírito humano. O capitalismo governa através da lógica inerente e fundamental da competição desapiedada e da expansão movida pelo lucro. O capitalismo baseia-se na apropriação privada por um punhado de pessoas do que é produzido pelos esforços interligados de centenas de milhões de pessoas em todo o mundo numa produção socializada. Opera na base da mais cruel exploração e opressão.

O capitalismo em todo o mundo provocou a exterminação e a escravização de populações indígenas e aborígenes. E que dizer da expansão colonial e de guerras coloniais como a conquista do Congo pela Bélgica que reduziu a população em 10 milhões, ou dos quatro milhões ou mais de pessoas mortas nas recentes guerras civis no Congo alimentadas pela apropriação imperial de recursos?

O “triunfo” e manutenção do controlo imperialista ocidental na Ásia, em África e na América Central e do Sul “requereu” conquistas militares, invasões, golpes de estado, esquadrões da morte e guerras com drones. “Requereu” o assassinato de três milhões de pessoas durante a Guerra da Coreia... armas químicas e biológicas no Vietname... a chacina de entre 500 mil e um milhão de comunistas e simpatizantes na Indonésia em 1965.

E depois há as inúmeras mortes “rotineiras” causadas por este sistema: as mulheres que morrem por falta de acesso a abortos seguros; as 16 mil crianças, sobretudo nos países pobres do Terceiro Mundo, que morrem todos os dias de doenças evitáveis e desnutrição. E agora enfrentamos, com Trump, o perigo real e crescente de uma guerra nuclear contra a Coreia do Norte que poderá escalar para uma devastação global.

Mas é-nos apregoada a mentira de que este é o melhor e o único de todos os mundos possíveis.

Fontes:

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MENTIRA N.º 3: A Revolução de Outubro de 1917 na Rússia foi um “golpe de estado” organizado por Lenine e pelo Partido Bolchevique comunista. Eles estavam sedentos de poder e agarraram o poder para eles próprios.

Mulher no Uzbequistão antes da revolução usando um véu, símbolo da opressão.

Jovem mulher uzbeque depois da libertação, nos anos 1930. (Foto: Langston Hughes)

Um importante foco da transformação socialista na União Soviética foi a libertação da mulher. Um ponto alto: no Dia Internacional da Mulher em 1927, o Partido Comunista lançou um movimento para eliminar as tradições profundamente arraigadas e brutalmente opressivas impostas às mulheres nas repúblicas soviéticas da Ásia Central, incluindo a do casamento de meninas com homens idosos e a de os homens terem múltiplas esposas. No Uzbequistão, no Tajiquistão e no Azerbaijão, as mulheres foram apoiadas pelo estado revolucionário para abandonarem as pesadas roupas feitas de algodão e crina de cavalo que as cobriam dos pés à cabeça e que as mulheres e as meninas muçulmanas com mais de 9 ou 10 anos eram forçadas a usar na presença de homens que não fossem membros da família.

No 100.º aniversário da Revolução Russa de outubro de 1917, uma avalanche de artigos em revistas e jornais repetiu até à exaustão a mentira de que Lenine e o partido de vanguarda que ele liderava, conhecidos como os bolcheviques, eram manipuladores: agiram para eles próprios e avançarem através de mentiras.

Os factos: A Revolução Russa foi uma revolução anticapitalista e socialista que envolveu a luta determinada, heroica e abnegada de milhões de oprimidos e explorados em conjunto com intelectuais, jovens e outras pessoas. Nos meses que antecederam outubro, a sociedade foi sacudida por massivos protestos e greves, motins em larga escala e deserções em massa do exército, ocupações de terras por camponeses famintos e batalhas campais entre operários e forças governamentais. Em outubro, a velha ordem foi derrubada por uma insurreição de massas. Foi estabelecido um novo poder político de estado que representava os interesses dos anteriormente oprimidos e explorados e da grande maioria da sociedade.

Os factos: O que tornou possível a vitória de outubro de 1917... o que permitiu à revolução no poder derrotar as forças da contrarrevolução e os patrocinadores imperialistas delas na guerra civil de 1918-20 que se lhe seguiu... e o que foi decisivo para a construção da primeira sociedade da história moderna livre da exploração e da opressão, foi uma liderança visionária, de base científica. Essa liderança comunista, o partido bolchevique dirigido por V. I. Lenine, guiou e libertou milhões de elementos das massas para conscientemente fazerem nascer um mundo novo e emancipador.

Este é o crime e o exemplo pelos quais os imperialistas e os ideólogos deles responsabilizam Lenine. É por isto que eles detestam, denunciam e distorcem a liderança de Lenine... Porque ele estava a liderar as massas a porem fim ao capitalismo-imperialismo e a todos os seus horrores e a toda a exploração e opressão. É por isto que os artigos de opinião deles proclamam: “nunca mais”.

I. Milhões de pessoas juntaram-se a Lenine e aos bolcheviques para fazerem uma revolução política e social

A verdade é que a revolução russa foi a coisa mais longínqua de um golpe de estado manipulador.

Durante séculos, a Rússia foi uma sociedade fortemente dividida entre os que tudo tinham e os que nada tinham. Os capitalistas ricos e os grandes proprietários rurais dependiam do regime desumano do czarismo (uma forma de monarquia) apoiado pela Igreja Ortodoxa Russa que mantinha a velha ordem através do terror policial, da negação de direitos e de uma violência caceteira do tipo KKK.

Em 1917, a participação da Rússia czarista na I Guerra Mundial já tinha tido num saldo horrendo: sete milhões de mortos e feridos. Os mortos provinham principalmente das fileiras dos camponeses sem terra e dos operários semi-esfomeados das fábricas urbanas. Em fevereiro, face à massiva luta das massas, o Czar foi forçado a “abdicar” (renunciar). Um novo governo “reformista burguês” subiu ao poder fazendo todos os tipos de promessas. Mas não fez nada para resolver os problemas básicos do povo – e continuou a participar na matança da I Guerra Mundial.

Sob a liderança de Lenine, os bolcheviques levantaram as exigências de “paz, pão e terra” – para que acabasse a guerra com a Alemanha, impedisse a morte pela fome e expulsasse os grandes proprietários e redistribuísse as terras pelos camponeses pobres. Eles eram a única força política preparada e determinada a liderar os oprimidos na sociedade russa a agirem para concretizar essas exigências. Os outros grandes partidos e forças organizadas na Rússia (incluindo os de “esquerda”) estavam a trabalhar para reformarem, para introduzirem mudanças internas num sistema explorador, opressor e decrépito – e apoiavam a participação da Rússia na I Guerra Mundial.

Três falsas acusações anticomunistas

Dizem-nos...

» Que Lenine e os bolcheviques eram “manipuladores”. A verdade é que o programa bolchevique e a sua visão de um mundo novo e melhor tiveram um amplo e profundo eco numa sociedade em crise, em convulsão e à procura de uma direção. O programa deles exprimia as necessidades urgentemente sentidas por milhões de pessoas que sofriam a miséria e o desespero da velha ordem. E os bolcheviques, correndo o risco de perderem apoio a curto prazo, foram contra as correntes reacionárias populares – por exemplo, o patriotismo da I Guerra Mundial de que “devermos ganhar a guerra”, o qual varria a Rússia. Eles ergueram-se e desafiaram os preconceitos antissemitas (antijudaicos) profundamente entrincheirados.

» Que Lenine e os bolcheviques eram “mestres da mentira”. A verdade é que os bolcheviques tinham estado a elevar a consciência dos oprimidos, levando às massas um entendimento científico para que elas pudessem compreender a raiz do seu sofrimento e a impossibilidade de reformar o sistema – e para que agissem conscientemente em prol dos seus próprios interesses revolucionários. E em 1917, numa situação de crescente radicalização e descontentamento, os bolcheviques estavam a treinar as pessoas a verem para além das manobras e mentiras de um governo opressor e a inadequação de todos os outros programas e agendas políticas.

Ao contrário de enganar as pessoas e esconder os seus pontos de vista, toda a abordagem de Lenine foi de que os bolcheviques deviam liderar através de darem a milhões de pessoas a capacidade de uma compreensão consciente dos meios, métodos e metas da revolução comunista. Para isto, os bolcheviques basearam-se num jornal diário impresso e distribuído às dezenas de milhares por toda a Rússia (através de canais legais e clandestinos), com o objetivo de prepararem as mentes e organizarem as forças para a tomada e o exercício do poder de estado.

» Que eram uma “clique isolada”. Os bolcheviques tinham força de base, bem como organização nos comités de fábrica e nas forças armadas. Estas organizações eram chamadas sovietes – assembleias representativas ilegais e antigovernamentais dos operários, dos soldados e dos camponeses na contenda pelo poder. À medida que a crise revolucionária amadurecia, a questão que Lenine colocou foi se o poder iria levar ao derrube e à derrota da velha ordem social e económica e ao estabelecimento do domínio de um sistema económico, político e social novo E emancipador.

Lenine liderou decisivamente os bolcheviques a assumirem uma responsabilidade e uma liderança revolucionárias em 1917. Bob Avakian demarca o quão momentoso isto foi e é para todos os que almejam a libertação:

O argumento de Lenine em Que Fazer? – de que quanto mais altamente organizado e centralizado for o partido, quanto mais for uma verdadeira organização de vanguarda de revolucionários, maior será o papel e a iniciativa das massas na luta revolucionária – foi poderosamente demonstrado na própria Revolução Russa e tem-o sido em todas as revoluções proletárias. Em lado nenhum foi feita uma revolução sem um partido assim e em lado nenhum a ausência de um partido assim contribuiu para a libertação da iniciativa das massas dos oprimidos em luta revolucionária consciente. (O BÁsico 6:1)

II. É um disparate completo dizer que Lenine e os bolcheviques agarraram e consolidaram o poder para eles próprios

Vejamos para que foi Imediatamente usado o novo poder soviético: o novo governo revolucionário promulgou dois decretos históricos. Um foi para cumprir a exigência das massas de retirada da Rússia da injusta guerra mundial imperialista e de declaração da paz sem conquista de países nem anexação de territórios. O outro foi para autorizar o campesinato amargamente oprimido a tomar as terras do Czar e as propriedades rurais dos aristocratas ricos e da Igreja Ortodoxa Russa (que possuía e controlava enormes extensões de terras).

Os imperialistas não aceitaram nada disto – e tentaram estrangular a revolução na sua infância. Mas mesmo enquanto lutava desesperadamente pela sua própria sobrevivência, a União Soviética levou a cabo uma revolução social que envolveu crucialmente a criação da igualdade entre os povos e trabalhar para eliminar o papel subordinado das mulheres na sociedade.

Por exemplo, a revolução aboliu a prática do casamento sancionado pela igreja e a autoridade institucionalizada do homem em casa. O aborto foi legalizado mais de 50 anos antes do caso Roe vs. Wade nos EUA. Os costumes patriarcais foram desafiados nas repúblicas da Ásia Central onde predominavam as opressoras leis islâmicas, como os casamentos arranjados e o uso forçado de hijabs ou niqabs (que cobrem os rostos das mulheres). Nunca antes toda uma sociedade se tinha proposto eliminar a opressão das mulheres... Nunca antes a igualdade de género e os papéis tradicionais dos sexos se tinham tornado num foco social tão importante. Há muito para estudar e para aprender com as muitas coisas que mudaram, com as muitas coisas que foram inspiradoras e com as debilidades na compreensão e na pratica.

A revolução bolchevique criou o primeiro estado multinacional do mundo baseado na igualdade de nacionalidades. Às nacionalidades minoritárias foi concedido o direito ao ensino nos idiomas maternos delas em todas as escolas. O estado soviético dedicou consideráveis recursos à produção em massa de livros, revistas e jornais nas regiões minoritárias. Foram publicados livros em mais de 40 idiomas não-russos. Foram feitas campanhas contra o chauvinismo grã-russo (semelhante ao racismo branco).

Portanto, uma vez mais... Lenine e os bolcheviques estavam a agir para eles próprios?

A propósito, que estava a acontecer nos EUA nessa altura? A segregação racial era a lei; os casamentos inter-raciais eram proibidos em mais de 30 estados; a violência do KKK e os linchamentos eram epidémicos no Sul dos EUA; o Supremo Tribunal tinha decidido que os imigrantes podiam ser esterilizados à força.

III. Uma reflexão final. Os imperialistas não têm direito a falar em golpes de estado e em sede pelo poder... a menos que se estejam a ver ao espelho

Por falar em golpes de estado e em “manipulação cínica” do poder para derrubar regimes e instalar ou manter cliques. Bem, os imperialistas norte-americanos escreveram o manual disso. Eles organizaram dezenas de golpes de estado em todo o planeta desde 1953 – trabalhando com os meios de comunicação, com campanhas de destabilização económica, com forças paramilitares e oficiais militares de alta patente. Fizeram-no no Irão, na Guatemala, na Indonésia, no Chile, na Líbia (e a lista não pára). Fizeram-no com um efeito assassino em massa. Aconselhamos os leitores a ler a série Crime Ianque em revcom.us (em inglês e em castelhano) e o livro de William Blum, Killing Hope: U.S. Military and CIA Interventions Since World War II [Assassinando a esperança: Intervenções das forças armadas norte-americanas e da CIA desde a II Guerra Mundial].

Leituras recomendadas:

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MENTIRA N.º 4: O comunismo é uma forma de totalitarismo. Adolf Hitler e José Estaline procuraram impor uma dominação total sobre a sociedade – através de uma repressão que invadiu todos os aspectos da sociedade e da vida individual e de uma ideologia manipuladora das mentes.

A teoria do “totalitarismo” equipara o comunismo ao fascismo... a ditadura do proletariado a um regime fascista... e Estaline a Hitler. Isto é uma grotesca distorção da realidade. A União Soviética quando era socialista (de 1917 a meados dos anos 1950) e a Alemanha nazi (1932-45) foram o oposto em todos os aspectos chave: nos seus alicerces económicos; estruturas políticas e sociais; metas e perspetivas da liderança; ideologias-guia; nas maneiras concretas como essas sociedades funcionavam... e na experiência vivida pelos indivíduos que constituíam essas sociedades.

A teoria do totalitarismo trafica mentiras e distorções grosseiras dos métodos e metas, e da verdadeira história e experiência, da revolução comunista. Separa a Alemanha nazi das suas bases capitalistas. E idolatra pateticamente aos pés do imperialismo liberal-democrata como sendo o mais alto e o mais longe para onde a sociedade humana pode e deve ir – embelezando os seus crimes monstruosos e desumanidade e a selvagem exploração das centenas de milhões de pessoas que estão no fundo deste sistema.

O mais influente trabalho “erudito” que propõe a teoria do “totalitarismo” é As Origens do Totalitarismo, de Hannah Arendt. A poderosa crítica de Arendt feita por Bob Avakian em Democracia: Será que não podemos fazer melhor que Isso? fornece um entendimento essencial da razão por que essa teoria é anticientífica e do programa que ela serve.

O principal alvo da teoria do “totalitarismo” é de facto o comunismo. E a principal função ideológica dessa teoria é distorcer e demonizar a revolução comunista e reconciliar as pessoas com este mundo de horrores.

Confronto com a realidade n.º 1 – As diferentes origens e os diferentes sistemas de governo de classe da União Soviética e da Alemanha nazi

* A União Soviética socialista foi o resultado de uma revolução de massas, como consequência das horrendas mortes e da destruição da I Guerra Mundial e de uma sociedade altamente opressiva e repressiva contra a qual milhões de pessoas se revoltaram. A Revolução de outubro de 1917, liderada pelo Partido Bolchevique (comunista), derrubou a velha classe e elites capitalistas-imperialistas dominantes; e a guerra civil que se lhe seguiu em 1918-20 estilhaçou o que restava do poder político-militar delas. A revolução criou novas estruturas de governação – a ditadura do proletariado – que deram poder aos que antes eram oprimidos e explorados, em aliança com a grande maioria da sociedade, para que assumissem uma cada vez maior responsabilidade no funcionamento da sociedade. E o novo sistema socialista desencadeou uma transformação e um fermento sociocultural radical.

* Hitler e a visão nazi de uma Alemanha imperial ressurgente, vingativa e “racialmente pura” emergiram da derrota alemã na I Guerra Mundial em 1918. Hitler construiu uma base social de massas racista e reacionária ao longo dos anos 1920. O programa dele acabou por conquistar o apoio de vários setores da classe dominante capitalista-imperialista tradicional alemã. O regime nazi foi erguido sobre as fundações do capitalismo desenvolvido industrial-financeiro alemão E Hitler uniu as elites económico-militares reinantes atrás de um projeto para fazer da Alemanha a maior e mais dominante potência imperial do mundo. O regime fascista despojou as pessoas dos mínimos direitos, criando várias categorias de indesejáveis e levando a cabo uma selvagem perseguição e controlo – avançando primeiro contra os comunistas!

Confronto com a realidade n.º 2 – Dois sistemas económicos absolutamente diferentes

* A revolução na União Soviética conduziu à primeira economia socialista planificada da história. Ao contrário do capitalismo, ela operava de acordo com o princípio de produzir para as necessidades sociais, não tinha o lucro ao comando – trabalhava para as necessidades materiais e culturais das pessoas e para trazer os operários e os camponeses para posições de responsabilidade. Os recursos eram alocados de uma maneira consciente e planificada para desenvolver uma economia para todos. O sistema económico soviético não se movia, nem tentava, para se expandir e explorar a nível global, nem para colonizar povos e regiões. A nova União Soviética reconheceu o direito à autodeterminação e ajudou e apoiou as lutas dos povos colonizadas e dominados pelo imperialismo.

* A economia alemã sob Hitler manteve e impôs o sistema capitalista de propriedade, controlo e exploração do trabalho assalariado – e foi transformada numa economia militarizada predatória. O estado imperialista alemão procurou ganhar o controlo dos recursos e do trabalho de vastas extensões da Europa e de fora dela: através de anexações, da guerra e da pilhagem.

Confronto com a realidade n.º 3 – Emancipar a humanidade vs. reforçar as grilhetas da opressão

A. A mulher na sociedade soviética e na sociedade nazi

* O programa nazi em relação às mulheres era o da subordinação total. Os nazis empurraram as mulheres para fora da força de trabalho e procuraram transformá-la em complacentes procriadoras e mães para a pátria. “Cozinha, filhos, igreja” era o lema deles. O “papel padrão” projetado pelos nazis na propaganda do estado, no sistema de ensino e na cultura era o do macho “ariano”: o patriarca e guerreiro racial.

* A revolução soviética defendeu a libertação da mulher. Nos anos 1920 e inícios dos anos 1930, a sociedade soviética estava a desafiar os papéis de género tradicionais e os costumes que escravizam as mulheres, incluindo a lei da Xariá. O aborto foi legalizado e tornado amplamente disponível – tal como o direito a se divorciarem. Nunca antes uma sociedade tinha feito da eliminação da opressão da mulher um tão grande foco. As mulheres juntaram-se à força de trabalho em números que foram os maiores da história – com a disponibilização de infantários e instalações para cuidados infantis. Foram feitos grandes esforços para melhorar os serviços pós-natais para as nacionalidades minoritárias.

Em meados dos anos 1930, porém, o governo sentiu a necessidade de estabilizar a sociedade quando aumentou a ameaça de guerra. Algumas medidas sociais radicais foram invertidas e o aborto foi proibido. Isto foi um retrocesso funesto, embora as mulheres tivessem continuado a representar um papel importante na vida política, económica e cultural.

B. Pureza racial vs. igualdade multinacional e multiétnica

* Os nazis tinham como objetivo estabelecer a dominação duma pretensa “raça superior” alemã sobre a Europa e o Leste. Só os alemães “racialmente ajustados” eram considerados adequados para se reproduzirem. A política social nazi visava eliminar os alemães “inferiores” (os doentes mentais e os incapacitados no seu desenvolvimento, os homossexuais e os “antissociais”) através da esterilização e da negação de cuidados médicos. E o estado racial nazi, na sua fase final, embarcou num programa de extermínio genocida dos judeus na Alemanha e na Europa, juntamente com outros grupos étnicos e nacionais. Hitler propagandeou uma imaginária conspiração do bolchevismo-comunismo e do povo judeu, e tentou levar a cabo a eliminação de ambos.

* A União Soviética socialista foi o primeiro estado multinacional do mundo baseado na igualdade. Valorizou e promoveu a diversidade étnica. Desencadeou campanhas contra o “chauvinismo grã-russo”. Criou regiões autónomas onde as nacionalidades minoritárias que anteriormente estavam proibidas de usar os seus próprios idiomas nas escolas e na vida política oficial passaram a poder fazê-lo – e passou a promover uma liderança local, nativa. As culturas minoritárias floresceram. Os cientistas e os professores soviéticos trabalhavam para destruir o mito de que havia raças “atrasadas” e raças “superiores”. Em nenhum outro lugar no mundo isto estava a acontecer – e muito menos nos EUA, onde a segregação e a supremacia branca eram lei e os linchamentos de negros eram galopantes; e onde os judeus estavam sujeitos a discriminação.

A União Soviética pôs fim à perseguição aos judeus. E, ouça Sr. Totalitário, a União Soviética foi o único país na II Guerra Mundial que procurou ativamente salvar as vidas de um grande número de judeus. Na Europa Oriental, por onde o Exército Vermelho andou na II Guerra Mundial, os judeus foram protegidos; por onde o exército nazi andou, os judeus enfrentavam o genocídio. Facto: 200 mil judeus polacos escaparam ao Holocausto alemão quando passaram a ficar sob o controlo da União Soviética em 1940.

Confronto com a realidade n.º 4: Não havia “campos da morte” na União Soviética

Em 1936-38, à medida que crescia a ameaça de um massivo ataque imperialista à União Soviética, o estado socialista lançou operações policiais para impedir a contrarrevolução. O objetivo destas campanhas tornou-se demasiado amplo, houve direitos que foram violados e muitas pessoas inocentes foram presas e executadas. (Temos mais a dizer sobre as razões e lições num artigo separado sobre Estaline.) Mas na União Soviética não havia campos da “morte” ou de “exterminação”. A alegação de que “milhões” de pessoas foram executadas por Estaline é puro mito. Nenhum grupo étnico foi alvo de eliminação. E nenhuma nacionalidade foi escolhida para encarceramento em massa (como acontece aos afro-americanos nos EUA de hoje).

Confronto com a realidade n.º 5: Quem de facto representou o papel decisivo na derrota de Hitler?

Um problema bastante evidente com a teoria do totalitarismo de equiparar Hitler a Estaline é que ela não pode explicar realmente o facto de a União Soviética socialista e a Alemanha nazi capitalista-imperialista terem estado envolvidos num antagonismo de morte. A Alemanha invadiu a União Soviética em 1941, numa guerra de conquista e destruição a uma escala nunca antes vista na história humana – com Hitler a deixar claro às tropas dele que elas deveriam descartar todos os princípios de humanidade para fazerem uma guerra de aniquilação total. A União Soviética sofreu o impacto da máquina de guerra nazi. E, sob a liderança de Estaline, o Exército Vermelho soviético e o povo soviético não só repeliram corajosamente essa arremetida como desempenharam o papel decisivo na derrota de Hitler na II Guerra Mundial – à custa de cerca de 26 milhões de vidas soviéticas, entre as quais 11 milhões de soldados.

Confronto com a realidade n.º 6: Duas diferentes maneiras de pensar

O comunismo é uma ciência. É internacionalista. Requer uma investigação racional-científica e uma compreensão da realidade. Visa transformar a realidade para criar um mundo livre da exploração e de toda a opressão – com base no potencial real para forjar um mundo assim e na luta consciente da humanidade oprimida e de todos os que aspiram a um mundo assim. Pelo contrário...

O ponto de vista nazi baseava-se em conceitos de “sangue e território” alemães, na pureza racial, na supremacia masculina, no ódio e desprezo ao pensamento crítico e num irracionalismo total.

Para concluir...

A teoria do totalitarismo é intelectualmente oca e empiricamente pobre. É um lixo influente que causa grandes danos. A acusação de “totalitarismo” erguida contra o comunismo – de que o comunismo é um “ideal utópico transformado em loucura” – é um elemento crítico do arsenal ideológico burguês que declara: Mantenham-se longe da revolução comunista, não aspirem a um mundo radicalmente diferente e melhor, não tentem mudar os valores e a maneira de pensar das pessoas para melhor. Isso só fará com que as coisas fiquem angustiantemente pior. Viva a atual situação.

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