Porque é que as mulheres fazem abortos tardios?

Do jornal Revolutionary Worker/Obrero Revolucionario (revcom.usn.º 906, 11 de Maio de 1997.

Nem sempre os problemas nos fetos surgem antes do fim do segundo trimestre, período em que a amniocentese dá informações que podem permitir às mulheres a interrupção de gravidezes desastrosas. Às vezes, durante a gravidez, as mulheres desenvolvem diabetes ou outras doenças que lhes ameaçam a vida e a gravidez tem que ser interrompida, mesmo que elas queiram ter a criança. Algumas mulheres que enfrentaram este tipo de situações testemunharam corajosamente perante o Congresso norte-americano e manifestaram-se contra a lei dita do “aborto de nascimento parcial”.

Uma das mulheres que testemunharam no Congresso contra essa proibição foi Tammy Watts que tinha feito um “d&e intacto” em 1995. Ela estava grávida de 28 semanas do seu primeiro filho quando se descobriu que o feto tinha problemas fatais devido a uma desordem genética, incluindo graves danos cerebrais, ausência de cavidades no coração e um fígado e rins enormes e não funcionais. Os médicos disseram-lhe a ela e ao marido que a sua saúde estaria em perigo se continuasse a gravidez, sobretudo se o feto morresse no útero. Dezenas de histórias de outras mulheres foram contadas ao Congresso, incluindo de mulheres católicas praticantes, enfermeiras diplomadas e republicanas - todas indignadas por o Congresso poder vir a proibir esse procedimento de que elas tinham tido uma inesperada necessidade.

Mas a maior parte das mulheres que precisam de abortos tardios, incluindo as que precisam de procedimentos como o “d&e intacto”, nunca tinham sido convidadas a falar sobre isso, nem mesmo pelo movimento pela liberdade de escolha. Eram mulheres que só souberam que estavam grávidas quando já estavam de três ou quatro meses, seja porque eram muito novas, seja por estarem perto da menopausa, seja porque tinham outros problemas de saúde que disfarçavam a gravidez, seja porque lhes faltava o conhecimento negado pelas interdições à educação sexual e à informação aos jovens sobre controlo de natalidade. (Um estudo recente feito em Dayton, no estado do Ohio, mostrou que, numa clínica local, 80% das mulheres que abortavam durante o segundo trimestre eram jovens.) Pode muito bem ser que sejam jovens a passar por um mau bocado por terem que lidar com uma gravidez não desejada - e com toda a pressão social sobre elas. Algumas delas estarão paralisadas por terem que tomar uma decisão para a qual não estão preparadas ou por não saberem lutar contra as leis de notificação parental ou de consentimento (que, sob uma ou outra forma, existem em 38 estados norte-americanos), sobretudo se o homem envolvido na gravidez for um familiar. Ou serão mulheres pobres ou rurais e não terão os cerca de 400 dólares necessários para pagarem um aborto antecipado. O sistema de saúde [Medicaid] só paga abortos em 15 estados norte-americanos. Agora, a maioria dos estados também tem períodos de espera de 24 ou 48 horas, concebidos pelo movimento antiaborto para colocarem mais uma barreira ao aborto.

Os actuais ataques ao aborto criaram uma situação em que mais mulheres terminam por ter que abortar depois do primeiro trimestre. Por isso, é duplamente cruel que as mesmas forças por trás desses ataques estejam agora a tentar proibir as mulheres de acederem aos procedimentos de que necessitam para fazerem esses abortos tardios.