Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 2 de Fevereiro de 2009, aworldtowinns.co.uk

Publicamos de seguida excertos de um artigo da edição de Janeiro-Março de 2009 (n.º 4) da People’s Truth [A Verdade do Povo], uma publicação maoista indiana que surgiu após a interdição da People’s March [Marcha do Povo] (http://www.bannedthought.net/India/PeoplesTruth/PeoplesTruth04.pdf).

Os ataques de Mumbai – Causas e solução

Nós choramos, não pela morte dos responsáveis corruptos e fascistas da polícia, mas pelos cidadãos inocentes de Mumbai [antiga Bombaim] intencionalmente mortos no ataque de 26 de Novembro. Não choramos os Tatas e os Oberois [donos dos hotéis atacados] e os outros figurões indianos e estrangeiros mas sim os empregados inocentes e os profissionais apanhados no fogo cruzado entre os militantes islâmicos e o Estado indiano. A tomada de vidas inocentes não porá fim ao terror dos criminosos norte-americanos e dos seus comparsas indianos que visa o povo em geral e os muçulmanos em particular. O objectivo de qualquer movimento justo devem ser os próprios autores do mal e os seus apoiantes políticos e financeiros.

A 26 de Novembro de 2008, militantes islâmicos, aparentemente do Paquistão e da POK [a Caxemira ocupada pelo Paquistão], lançaram um sofisticado ataque em vários lugares de Mumbai, matando um número estimado de 250 pessoas e ferindo mais de 500, várias das quais estrangeiras. O principal foco do ataque foram os dois maiores hotéis de luxo de Mumbai, o Taj e o Oberoi, e o centro israelita Nariman House. Eles também dispararam aleatoriamente sobre as pessoas na estação de comboios Victoria Terminal e também no vizinho hospital de Cama. Perto da estação do Metro (a um quilómetro da Victoria Terminal) atingiram e mataram o chefe Karkare da ATS (Brigada Antiterrorista), o ACP Ashok Kamte e o “especialista em encontros” Salaskar. Durante a batalha no Taj, foi morto um major e Havildar da NSG [Guarda de Segurança Nacional]. Há relatos de, no total, pelo menos 16 homens da polícia/NSG mortos. Segundo as notícias, nove dos militantes foram mortos e um foi preso com ferimentos.

A 27 de Novembro, enquanto decorriam os combates armados, um vespertino de língua hindi de Nova Deli (o Sandhya Times) noticiou que um dos militantes entrincheirados no Oberoi tinha telefonado para um canal de televisão e, falando em hindi, transmitido as seguintes exigências: 1) Deixem de incomodar (tang) os muçulmanos da Índia; 2) Actuem segundo o que nos perturbou a destruição do Babri Masjid [uma mesquita em Ayodhya demolida em 1992 por uma turba de chauvinistas hindus organizada pelo Partido Bharatiya Janata (BJP) – a mesquita nunca foi reconstruída e ninguém foi castigado]; 3) Libertem todos os mujahideen [combatentes fundamentalistas islâmicos] que estão nas prisões indianas; e 4) Só depois de eles serem libertados é que nós libertaremos os reféns retidos no hotel. Mas, em vez de negociarem com os atacantes, o governo indiano e os seus conselheiros norte-americanos e britânicos desencadearam um ataque em massa que resultou numa batalha de três dias e em enormes perdas de vidas. Além disso, essas exigências nunca [foram] divulgadas e [foram] conscientemente suprimidas, e toda a gente foi levada a crer que eles não tinham feito nenhuma exigência. O que foi levado ao público pela comunicação social foi apenas a versão oficial que tem inúmeras falhas – mesmo o número de mortos divulgado tem variado permanentemente...

Os factos reais por trás deste incidente provavelmente nunca verão a luz do dia, mas o governo utilizá-lo-á para impor ainda mais a fobia e o aumento do terror fascista no país. Mas a questão é, porque é que estes militantes islâmicos adoptaram uma forma tão desesperada de combater as suas batalhas?

Internacionalmente, isto foi o resultado dos brutais ataques dos EUA ao Iraque e ao Afeganistão, das ameaças ao Irão e dos ataques aos muçulmanos em todos os cantos do globo. Muitos dos mujahideen foram de facto treinados pelos próprios EUA, durante os anos da sua contenda com a URSS. Faltando-lhes uma ideologia científica e tendo apenas a limitada ideologia do fundamentalismo islâmico, muitos desses grupos reagem apenas a um sentimento de injustiça e vingança sem uma clara perspectiva militar. Matar pessoas aleatoriamente é, na realidade, contraprodutivo e só ajuda o aparelho de estado a criar uma psicose de medo para introduzir as suas próprias leis e actos de terror.

Na Índia, os governantes, incitados pelos seus amos imperialistas, criaram uma histeria contra os muçulmanos, numa tentativa consciente dividir as massas do país. Não são só o BJP e a sua panóplia fascista que recorrem a essa psicose Hindutva [chauvinista hindu], mas todos os partidos políticos o fazem, de uma forma ou de outra. Os muçulmanos têm sido massacrados, mas nunca nenhum fascista hindu foi preso, excepto alguns bodes expiatórios insignificantes. A ATS de Mumbai tem um horrível historial de humilhação, tortura e assédio dos muçulmanos da cidade. Desde 1992, quando foi formada, e a intervalos regulares, tem invadido os bastis [bairros] muçulmanos e prendido centenas de jovens muçulmanos, espancando, torturando e deles extraindo confissões. Centenas deles têm sido falsamente acusados e encarcerados em prisões. Nenhum muçulmano está seguro às mãos dessas forças. E depois há o factor Caxemira, que é virtualmente uma nação sob ocupação das forças indianas. Nós acabámos de testemunhar os horrores lançados sobre o povo de Caxemira e a fúria que daí resultou.

No Paquistão, a situação é altamente complexa depois da demissão do regime de Musharraf. Na estratégia geopolítica dos EUA, o Paquistão é um factor importante no Afeganistão e contra os talibãs. Um sector dos ISI [os poderosos Inter-Serviços de Informações] e do exército continua a ter sentimentos pró-talibãs e islâmicos, enquanto os principais sectores se curvam perante os planos dos EUA. Os acontecimentos de Mumbai parecem ter sido obra de elementos da região da POK e podem ter sido forças não-estatais com um elevado nível de treino dos muito secretos ISI ou de pessoal militar ou pode ter sido um sector dos próprios ISI. A primeira hipótese é a mais provável.

Desde esse acontecimento, as classes dominantes dos dois países desencadearam uma histeria de guerra e utilizaram em seu proveito os acontecimentos para desviarem as pessoas dos sérios problemas dos dois países. Na sequência do colapso financeiro mundial, a economia do Paquistão entrou virtualmente em bancarrota, criando muito sofrimento económico às massas. Além disso, a elite dominante nas forças armadas tem necessidade de ditar uma política nesse país para desviar a atenção dos seus “fracassos” na frente leste. Também a Índia precisa de desviar a atenção dos horripilantes efeitos que já se sentem da crise económica mundial, bem como do recente desmascaramento do envolvimento dos fascistas Hindutva em actos terroristas.

Além disso, a comunidade muçulmana da Índia está altamente infiltrada pelos serviços secretos indianos, e muitas vezes jovens inocentes são incitados a lançar bombas entre as pessoas (sobretudo pobres) para permitir que o Estado desencadeie a sua histeria e recorra a maiores actos terroristas. Também aqui, em vez de se juntarem às genuínas forças democráticas e revolucionárias do país, alguns deles voltam-se para o fundamentalismo islâmico. Claro que muitos são empurrados nessa direcção devido à falta de uma oposição consistente dessas forças à brigada Hindutva e a uma abordagem suave, de facto, de casta superior Hindutva por parte de muitos pretensos democratas e mesmo revolucionários.

Embora esses ataques aleatórios não sirvam nenhum verdadeiro propósito e muitos inocentes tenham sido mortos, a única solução para o problema é a concessão de Azadi [liberdade – independência em relação aos dois ocupantes, a Índia e o Paquistão] ao povo de Caxemira, o fim dos ataques a muçulmanos inocentes no país, a eliminação das redes fascistas hindus e o fim da cumplicidade com os criminosos norte-americanos. Assim que forem dados esses passos, estes actos acabarão imediatamente. Os civis inocentes não deveriam ser alvo dessas batalhas. Mas, para os fundamentalistas islâmicos e para os EUA ou o Estado indiano, isso não os preocupa. Para os fundamentalistas islâmicos, todos os não-muçulmanos são tratados como inimigos, pelo que matam aleatoriamente; para as forças estatais, a morte de civis são meros “danos colaterais” e muito justificados. Foi com esta abordagem que, no mais recente ataque, os islamitas mataram inocentes e o governo indiano nem sequer tentou negociar e deixou que todos os reféns fossem mortos.

Ironicamente, numa reunião de oficiais superiores da polícia e responsáveis do Ministério do Interior, realizada apenas dois dias antes deste ataque, o primeiro-ministro discorreu eloquentemente sobre como os naxalitas [maoistas] são a principal ameaça à segurança interna do país, embora ele soubesse muito bem que todos estes atentados bombistas em lugares públicos e todos estes ataques nunca fizeram parte dos planos dos maoistas. Ele continuou a sua diatribe contra os naxalitas, cujo único programa é lutar pelas massas miseráveis do país. O primeiro-ministro e o seu bando têm que perceber que onde não há influência naxalita, há toda a probabilidade de rebentar espontaneamente uma violência anárquica devido às políticas da classe dominante para marginalizar vastos sectores do nosso povo. Isto inclui não só os muçulmanos mas também os dalits [os chamados “intocáveis”], os trabalhadores não organizados e as vastas massas de camponeses.

Depois deste ataque, o maior perigo veio das agências imperialistas que chegaram em hordas e dos responsáveis superiores norte-americanos que desceram sobre os dois países como abutres. A entrada na Índia dos serviços norte-americanos, britânicos e israelitas de informações recebeu legitimidade como reacção ao ataque e não é vista como uma ameaça à soberania do país. Os responsáveis superiores norte-americanos não podem arriscar actualmente uma outra guerra nesta região, quando estão atolados no Afeganistão. A deslocação de forças paquistanesas para a fronteira ocidental iria requerer transferir tropas do leste, aliviando desta forma a pressão sobre os talibãs, o que teria um impacto nas operações militares dos EUA nessa região.

Além disso, com estes ataques, o governo obterá uma maior legitimidade para introduzir leis draconianas e os fascistas Hindutva recuperarão alguma da legitimidade que estavam a perder com a revelação de que membros do Sangh Parivar [um agrupamento de partidos fundamentalistas hindus, que inclui o BJP] estavam envolvidos em actos terroristas.

As procissões de velas por todo o país envolveram um sector da população que exige que sejam impostas leis mais restritas e que assim se crie a atmosfera para uma legislação draconiana. Como disse o jornalista Pankaj Pachuri (The Hindu, 6 de Dezembro), “Há um preço a pagar pelo que um país e o seu povo têm feito, uma força de polícia completamente corrupta, um sistema de justiça criminal que quase se desmoronou, nenhuma medida tomada contra os amotinadores como em Guzarate 2002 [um conhecido massacre antimuçulmano em que turbas hindus mataram provavelmente vários milhares de pessoas, encabeçado pelo partido governamental do estado de Guzarate, o BJP], nenhuma medida tomada depois da demolição do Babri Masjid há 16 anos, etc. Não se consegue fazer parar grupos de pessoas que tomam a lei nas suas próprias mãos e recorrem ao terrorismo quando o domínio da lei não consegue reparar os graves males feitos a milhares de vítimas”. E o conhecido advogado Prashant Bhushan acautela contra as tentativas de transformar a Índia num estado policial. “Não há nenhum estado em que as medidas de segurança sejam mais duras que em Israel; contudo está constantemente infestado pela insegurança. A segurança está em resolver os agravos e os problemas das pessoas, não em arranjar armas.”

Na Índia, o ataque às minorias, muçulmanas ou cristãs, faz parte das políticas fascistas para desviar as pessoas, o que é particularmente necessário num momento de tão grande crise económica. E, à medida que a crise se aprofunda, o que é inevitável, esses ataques de distracção apenas tenderão a aumentar, combinados com ataques desumanos às massas em luta. A única verdadeira solução contra isso é que as massas em luta, incluindo as minorias e castas oprimidas, se unam numa luta comum contra o inimigo e não o recurso a estes actos de violência aleatórios e contraprodutivos. É essencial que se distinga claramente os inimigos dos amigos, sem o que nenhuma batalha pode ser ganha, independentemente de quão justa seja a causa.