Os preparativos norte-americanos para atacar a Síria e o discurso de Obama

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 2 de Setembro de 2013, aworldtowinns.co.uk

O texto que se segue são excertos de dois artigos que apareceram no Revolution/Revolución, jornal do Partido Comunista Revolucionário, EUA. O primeiro, publicado a 27 de Agosto de 2013, intitula-se “De um ataque norte-americano à Síria só pode resultar maior sofrimento e horror”. O segundo, assinado por Larry Everest, intitula-se “O discurso de Obama sobre a Síria: Mentiras para justificar uma guerras imoral”.

Há um crescente perigo de um ataque militar directo dos EUA à Síria – que está a ser apresentado como “ataque cirúrgico” – usando aviões e/ou mísseis de cruzeiro. O Secretário norte-americano da “Defesa” Hagel anunciou que as forças armadas norte-americanas estão “prontas a ir” se forem mandadas atacar a Síria.

Estes ataques devem receber a oposição de um protesto político decidido e de uma compreensão clarividente sobre como eles tornarão a situação pior. É essencial que as pessoas compreendam o que está por trás das movimentações norte-americanas e não sejam enganadas para uma cumplicidade passiva com um ataque norte-americano à Síria que tornaria a situação muito pior para o povo sírio e o mundo.

Os governantes dos EUA vêem as atrocidades e os crimes de guerra – verdadeiros ou inventados – através de uma lente distorcida e alterada de “Como é que isto funciona a nosso favor”. Bombardear hospitais, como Israel fez no massacre de 2008-9 em Gaza é ignorado. Afrontas aos direitos humanos, fabricadas e falsas, como os falsos testemunhos no Congresso norte-americano de que as tropas iraquianas tinham desligado incubadoras, matando bebés no Kuwait, foram forjadas e depois invocadas para justificar todo o tipo de crimes dos EUA. A farsa das incubadoras foi invocada para justificar a primeira invasão norte-americana do Iraque, a “Operação Tempestade no Deserto” que matou 100 mil iraquianos e criou um grande sofrimento a milhões de pessoas, incluindo os bebés que morreram em consequência dos cortes nos cuidados de saúde que resultaram das sanções norte-americanas que se seguiram a essa guerra.

Por isso, ninguém deve acreditar nas afirmações dos responsáveis norte-americanos. Além disso, os EUA parecem estar a mobilizar-se para atacarem mesmo antes da actual investigação da ONU.

Mas isto não quer dizer que o governo sírio não possa de facto ter desencadeado um ataque químico. Há dois anos, no contexto das insurreições em todo o mundo árabe, um conjunto de forças na Síria saiu à rua em protesto contra o regime de Bashar al-Assad. O regime respondeu aos protestos e insurreições com uma mistura entre abertura política às forças da oposição e repressão violenta.

A situação foi agarrada pelos imperialistas norte-americanos e seus aliados para avançarem na substituição de Assad por um regime alinhado e complacente com os seus interesses na região, e em particular de oposição à influência iraniana. O resultado foi uma guerra civil que devastou o país, com ambos os lados – o regime de Assad e o conjunto variado de forças jihadistas e pró-ocidentais – a não oferecerem senão opressão ao povo da Síria.

Segundo as agências de direitos humano, ambos os lados do conflito – incluindo as forças que os EUA estão a tentar agrupar e moldar num novo regime – têm levado a cabo sequestros, tortura e assassinatos sumários dos seus oponentes e de civis. Dezenas de milhares de pessoas na Síria morreram e centenas de milhares foram deslocadas, com muitas a viver em condições desesperadas em campos de refugiados, ou pior.

Assim, é bastante possível que o regime de Assad tenha lançado um ataque com gás tóxico como forma de pressão, juntamente com os avanços militares que tem feito na luta contra a oposição. Se realmente se provar que o regime de Assad o fez, e se a escala de horror estiver perto do que está a ser divulgado – e isso é possível – isto é realmente um crime horrendo.

Mas mesmo que seja esse o caso, os ataques militares norte-americanos contra a Síria seriam eles próprios um crime sobre outro crime. Não visariam acabar com o terrível sofrimento na Síria, nem teriam esse impacto.

A intervenção dos EUA na Síria (e em todos os outros lugares) não é motivada pelos direitos humanos. Os governantes dos EUA nunca foram, e não serão agora, motivados por um desejo de agir contra as atrocidades nem de “impedir genocídios”. Neste momento, eles estão a dar a sua melhor aprovação passiva à tortura e ao massacre de opositores pelos regimes pró-EUA do Egipto e do Barém.

Nem os EUA avançam para uma situação que todos compreendem ser cheia de riscos (para eles) porque “Os nossos presidentes não gostam senão de atirar alguns mísseis de cruzeiro para outros países, em combinação com alguns bombardeamentos preventivos, porque é muito mais fácil que uma verdadeira competência de estadista”. Nem porque “Se nós apertarmos o gatilho na Síria, alguém irá ser generosamente recompensado”. (Ver “A guerra na Síria: Vinte Libras de Estupidez num Saco de Dez Libras”, de William Rivers Pitt, Truthout, 27 de Agosto de 2013.)

Como se as guerras sem-fim, a opressão, a dor e a morte que os EUA levaram a todos os cantos do planeta – com base nas quais “ascenderam” a única superpotência do mundo – tivessem sido causadas por políticos que foram demasiado preguiçosos para serem “estadistas” ou por políticos corrompidos pela indústria das armas. Este tipo de “análise” deixa as pessoas totalmente na escuridão sobre o que está por trás das movimentações dos EUA para atacar a Síria e impossibilitadas de verem ou agirem no interesse dos povos do mundo.

O Médio Oriente é uma região crucial para todo o mundo – económica e geopoliticamente – e os EUA têm-no dominado desde a II Guerra Mundial. Tudo o que fizeram e continuam a fazer baseia-se em manterem e aprofundarem esse domínio. Neste momento, a região está numa tremenda convulsão – os velhos arranjos que “mantiveram as coisas em conjunto” (para os imperialistas e os seus carniceiros locais) têm ficado sob uma crescente tensão e, nalguns casos, começaram a desintegrar-se, e há uma enorme disputa por parte de todo o tipo de forças. Isto inclui rivais como os russos, que apoiam Assad; imperialistas “amigos” como os franceses que apoiam os rebeldes; todo o tipo de carniceiros locais; e outros. E, dolorosamente, não há nenhuma força progressista coerente a actuar no meio desta mistura.

É um derramamento de sangue que, neste momento, é motivado por uma disputa reaccionária por influência. Nisto, parece cada vez mais visível que os cálculos dos EUA são de que têm de projectar a sua força nesta situação para não perderem credibilidade. Ao mesmo tempo, há indícios de que os EUA, ou algumas pessoas dentro da classe dominante, estão a alegar que, tal como disse um analista da classe dominante, Edward N. Luttwak: “Na Síria, a América perde se qualquer dos lados ganhar”. Luttwak escreveu:

“Na realidade, será desastroso se o regime do Presidente Bashar al-Assad emergir vitorioso depois de eliminar completamente a rebelião e restabelecer o seu controle sobre todo o país. O dinheiro iraniano, as armas e as operações e tropas do Hezbollah tornar-se-iam factores chave na luta, e o triunfo do Sr. Assad afirmaria dramaticamente o poder e o prestígio do Irão xiita e do Hezbollah, o seu representante no Líbano – colocando uma ameaça directa tanto aos estados árabes sunitas como a Israel.”

“Mas uma vitória rebelde também seria extremamente perigosa para os Estados Unidos e para muitos dos seus aliados na Europa e no Médio Oriente. Isto porque os grupos extremistas, alguns identificados com a Al Qaeda, se tornaram na força de combate mais efectiva na Síria. Se esses grupos rebeldes conseguirem ganhar, quase certamente tentariam formar um governo hostil aos Estados Unidos. Além disso, Israel não pode esperar tranquilidade na sua fronteira norte se os jihadistas vierem a triunfar na Síria”. (New York Times, 23 de Agosto de 2013).

Nesta situação, os EUA podem estar a inspirar-se no livro sangrento que usaram na Guerra Irão-Iraque. Nessa guerra, os EUA tentaram que ambos os lados se devastassem um ao outro, e o resultado foi um milhão de mortes.

Muitas pessoas vêem isto como uma situação em que “se deve fazer alguma coisa”. Mesmo as pessoas que têm algum sentimento de que os EUA são motivados por tudo menos motivos humanitários irão alegar que pelo menos uma intervenção norte-americana irá parar de imediato o horror.

Mas a realidade não funciona assim. É importante – de facto é decisivo – compreender a natureza de um ataque norte-americano à Síria, e o que o estará a determinar. Seria um ataque motivado pelas necessidades da intenção da superpotência capitalista-imperialista global de manter o seu domínio do planeta. Como é que alguma acção com base nisto irá contribuir para qualquer coisa de positivo num pesadelo humanitário na Síria?

Um ataque dos EUA à Síria irá empurrar as coisas para uma direcção pior. Por si só, irá trazer morte e sofrimento. E irá polarizar ainda mais as circunstâncias das coisas, através das quais o regime reaccionário de Assad pode apresentar-se como estando a resistir ao imperialismo, em que o Irão e as forças que ele influencia podem também responder, e em que todo um conjunto de forças reaccionárias, incluindo Israel, poderão aumentar o seu envolvimento na guerra na Síria ou desencadear outros ataques noutros lugares da região. Qualquer ataque dos EUA à Síria levará à intensificação de toda a terrível espiral no país e na região.

E a situação será toda ainda pior na medida em que as pessoas aceitem a lógica de “Quem é que se preocupa com o que está por trás disto, uma intervenção não pode ser uma coisa má neste momento”. Aqui, pode-se retirar uma dolorosa lição crucial dos recentes eventos no Egipto: muitas pessoas apoiaram a actuação do exército contra a Irmandade Muçulmana devido à repressão da Irmandade, sem analisarem PORQUE É QUE o exército estava a agir assim. Depois, quando as consequências desse apoio se tornaram claras, incluindo a liberdade política que isto deu ao exército para levar a cabo massacres e tentar pregar uma versão ainda mais restrita do Mubarakismo, as forças da oposição e as pessoas em geral viram-se ou impossibilitadas de agir efectivamente ou foram tão longe ideologicamente que agora estão nas mãos do exército, tanto ideológica como politicamente.

A única forma de algo positivo emergir na Síria é as pessoas se oporem – activamente – aos dois lados deste conflito. E, para as pessoas nos EUA, que têm trazido tanta miséria ao planeta, o desafio é oporem-se ao “nosso próprio” império.

Os EUA não trouxeram senão mais exploração, destruição ambiental, empobrecimento e opressão a todo o Médio Oriente. Qualquer ataque militar dos EUA à Síria, independentemente do pretexto, deve receber a nossa oposição com um firme protesto político nos EUA. E, na medida em que ele ocorra, pode contribuir para a criação de um caminho que fuja de todo o terrível conjunto de “escolhas” com que se confronta o povo na Síria e fora dela e para desenvolver todo um outro caminho – uma verdadeira alternativa revolucionária.

O discurso de Obama

Obama alegou que já tinha decidido atacar a Síria, e que tinha autoridade para o fazer, “Mas tendo tomado a minha decisão como comandante supremo com base no que estou convencido serem os interesses da nossa segurança nacional, também estou consciente de que sou o presidente da democracia constitucional mais antiga do mundo. Há muito tempo que acredito que o nosso poder está baseado não só no nosso poderio militar, mas também no nosso exemplo como governo do povo, pelo povo e para o povo. E foi por isso que tomei uma segunda decisão: procurarei autorização para o uso da força junto dos representantes do povo americano no Congresso.”

Mas a própria conversa dúplice de Obama, as suas próprias palavras expõem a mentira do “pelo povo e para o povo”. Ele diz abertamente que seria melhor para os planos dele se passasse pela charada da democracia para atrair as pessoas: “Contudo, embora eu acredite ter autoridade para levar a cabo esta acção militar sem uma autorização específica do Congresso, eu sei que o país será mais forte se nós tomarmos este caminho, e as nossas acções serão ainda mais efectivas”. Por outras palavras, este adiamento tem a ver com fortalecer a mão do exército norte-americano contra a Síria e outros rivais globais.

O que está a acontecer aqui é um exercício em democracia – mas é um exercício em democracia capitalista-imperialista, a qual é essencialmente a ditadura da classe dominante imperialista. A equipa de Obama sentiu ter a liberdade, mas também a necessidade, dado o generalizado cinismo público sobre mais um caso de evidência de “entrada forçada”, de mais uma aventura militar norte-americana e de preocupações não resolvidas na classe dominante sobre onde levaria um ataque à Síria, de pronunciar este discurso e iniciar este processo que ele está a pedir, juntamente com uma necessidade de apelar a uma audiência internacional e de meter os aliados na linha e lidar com um complexo alinhamento internacional de forças.

Mas isto não é o governo a solicitar as opiniões das pessoas e a escutá-las. São os governantes imperialistas a fixar as condições e o quadro da discussão, insistindo em que as pessoas limitem o seu pensamento a isso – para construírem o apoio e a aceitação públicas dos crimes que eles já decidiram levar a cabo.

Nada disto é bom. Isto NÃO tem nada a ver com aceitar contribuições públicas para as movimentações estratégicas do imperialismo norte-americano – tem a ver com RECRUTAR o público para as condições fixadas pela classe dominante. Tem a ver com VENDER não só este ataque, mas todo um enquadramento distorcido e de pernas para o ar.

A ÚLTIMA coisa que as pessoas devem fazer neste momento é dar um suspiro de alívio. Pelo contrário, este é o momento a AGARRAR para organizar protestos e reuniões e para fazer avançar uma força visível dentro dos EUA que rejeite todo o enquadramento e programa do discurso de Obama.