O seguinte artigo foi publicado na edição n.º 249, datada de 6 de Novembro de 2011, do jornal Revolution/Revolución, órgão do Partido Comunista Revolucionário, EUA, revcom.us. A tradução é da responsabilidade da Página Vermelha.

“Onde estão o Mao ou o Lenine da Primavera Árabe?”

Assim titulava a primeira página da New York Times Sunday Review, chamando a atenção para um recente artigo de Robert Worth intitulado “Os Intelectuais Árabes Que Não Rugiram”. A “Primavera Árabe” (as várias insurreições dos últimos 10 meses nos países do Médio Oriente e do Norte de África), nas palavras de Worth, “não produziu nenhum projecto político ou económico claro, nem nenhum porta-bandeira intelectual do tipo que moldou quase todas as revoluções modernas desde 1776. Nessas revoltas, houve pensadores ou ideólogos – desde Thomas Paine a Lenine e Mao e Vaclav Havel – que ajudaram a criar uma visão unificadora ou que se tornaram em símbolos das aspirações populares”. Aquilo a que Worth chama de “característica da ausência de líderes” destas sublevações “tornou-se num problema. Os organizadores de dentro e fora do país estão agora a lutar por moldar um conjunto de objectivos políticos partilhados e a coerência intelectual e a liderança estão a ser cada vez mais vistos como importantes nesse processo.”

Embora haja pontos a objectar no artigo dele, Worth pôs o dedo numa questão crucial: que tipo de liderança é necessário para lidar de facto com os problemas agonizadores e para perceber as elevadas aspirações que impeliram as massas a se levantarem tão corajosamente em Janeiro deste ano.

É neste contexto que surgem os nomes de Lenine e Mao. Lenine na Rússia em 1917 e depois Mao na China lideraram revoluções que abordaram os problemas mais profundos da sociedade. Eles aplicaram e desenvolveram ainda mais a teoria – o comunismo científico, inicialmente desenvolvido por Karl Marx – que revela a fonte da exploração e da miséria na sociedade e que mostra como tudo isso pode ser fundamentalmente ultrapassado e posteriormente eliminado. Lenine e Mao construíram e dirigiram partidos que, numa primeira fase, lideraram as massas na concretização dessas revoluções, contra hipóteses muito reduzidas; e que, depois, estabeleceram novas estruturas que começaram a abolir as relações e as instituições de exploração e opressão e a dar uma expressão viva à possibilidade inicialmente descoberta por Marx: a de um amanhecer novo e emancipador para a humanidade. (A propósito disso, neste aspecto, eles deram um salto mais adiante e mais distante dos outros com quem estão amontoados no texto de Worth – Thomas Paine, um dirigente da Revolução norte-americana cujo principal objectivo era transferir o domínio da classe capitalista britânica sobre as colónias para o domínio dos capitalistas nativos e os donos de escravos, abrindo caminho ao estabelecimento dos Estados Unidos como novo império capitalista; e Vaclav Havel, o dissidente checo que subiu ao poder após as revoltas de 1989 que apenas visaram substituir os sistemas da Europa de Leste, que só eram socialistas no nome, por outros mais abertamente capitalistas.)

De facto, apesar de toda a conversa sobre “não terem líderes”, há uma liderança que está a ser dada a essas sublevações no Médio Oriente e no Norte de África. A questão é: uma liderança para fazer o quê? Todo o tipo de forças tem todo o tipo de programas – e mais adiante Worth descreve algumas das formas como isso está a resultar. Mas nenhuma dessas forças tem uma perspectiva ou um programa capazes de lidar e resolver – ou sequer de identificar correctamente – a maioria das questões fundamentais que essas sociedades enfrentam. Nenhuma dessas forças pode liderar as massas para satisfazerem os seus interesses mais fundamentais e as suas aspirações mais elevadas.

Bob Avakian pôs a questão da seguinte forma:

É delas [as massas] o grito de “liberdade”, e a luta deve ser levada em frente até que seja conseguida uma verdadeira liberdade – a libertação do domínio dos imperialistas e dos seus lacaios locais e parceiros menores, a libertação de todas as formas de opressão e exploração. A libertação tanto das forças obsoletas que querem escravizar as mulheres, e as massas em geral, numa escuridão e numa opressão medieval – e das forças obsoletas que querem escravizar as massas em nome da “democracia”, (...) da “liberdade” (...) e da exploração capitalista-imperialista propagandeadas como “progresso”. (“Egypt 2011: Millions Have Heroically Stood Up... The Future Remains To Be Written” [“Egipto 2011: Milhões de pessoas ergueram-se heroicamente... O futuro continua por escrever”], no Revolution/Revolución n.º 224)

E então, resumindo o que de facto aconteceu quando Lenine e o partido bolchevique (comunista) de facto lideraram as massas numa luta até ao fim para se libertarem do velho sistema e para o substituírem “por um que realmente encarne e dê vida à liberdade e aos interesses mais fundamentais do povo, esforçando-se por abolir todas as formas de opressão e exploração”, Avakian continuava, dizendo:

Quando as pessoas em massa, aos milhões, finalmente se libertarem dos constrangimentos que as impedem de se revoltarem contra os seus opressores e atormentadores, então o facto de a sua luta e sacrifício heróicos realmente conduzirem ou não a uma mudança, rumo à abolição de toda a exploração e opressão, isso depende de haver ou não uma liderança, uma liderança comunista, que tenha a necessária compreensão e método científico e que, com base nisso, possa desenvolver a necessária abordagem estratégica e a influência e os laços organizados entre um crescente número de pessoas para liderar a insurreição popular, ao longo de todas as voltas e reviravoltas, com o objectivo de uma verdadeira transformação revolucionária da sociedade, em conformidade com os interesses fundamentais do povo. [ibid.]

Esta é a questão mais acutilante: existirá uma liderança que possa dirigir o povo a efectuar uma mudança verdadeiramente fundamental... ou apenas haverá uma mudança que, embora aparentemente dramática à superfície, mantêm intactas as bases opressoras da sociedade? Esta questão continua sem resposta. O enquadramento para definir o curso para uma verdadeira libertação existe – está, de uma forma concentrada, no Manifesto do PCR dos EUA, Comunismo: O Início de uma Nova Etapa, para ser erguido e esgrimido por aqueles que assumirem o desafio colocado pelas actuais encruzilhadas (e a que dá expressão o autor da manchete do New York Times). Tal como disse Avakian ao terminar a declaração dele sobre o Egipto:

A todos os que verdadeiramente querem ver desenvolvida a heróica luta das massas oprimidas, com a necessária liderança, na direcção de uma verdadeira transformação revolucionária da sociedade e de uma genuína libertação: envolvam-se e assumam o ponto de vista emancipador e os objectivos do comunismo e o desafio de lhe dar uma expressão organizada e uma crescente influência e presença entre as massas em luta. [ibid.]