O que É o fascismo, seguido de uma cronologia atualizada da ascensão de Hitler ao poder

Dois artigos, um do n.º 468, de 5 de dezembro de 2016, e outro do n.º 465, de 14 de novembro de 2016, do jornal Revolution/Revolución, voz do Partido Comunista Revolucionário, EUA (revcom.us).

 

O que É o fascismo?

5 de dezembro de 2016

 

O fascismo é o exercício de uma ditadura aberta pela classe burguesa (capitalista-imperialista), que governa através do uso do terror aberto e da violência, esmagando o que é suposto serem direitos civis e legais e usando o poder do estado e mobilizando grupos organizados de capangas fanáticos, para cometer atrocidades contra as massas populares, em particular contra os grupos de pessoas que identifica como “inimigos”, “indesejáveis” ou “perigos para a sociedade”.

Ao mesmo tempo – e isto pode ser visto através do estudo dos exemplos da Alemanha nazi e da Itália de Mussolini –, embora provavelmente venha a agir rapidamente para impor certas medidas repressivas de consolidação do seu regime, também é provável que um regime fascista implemente o seu programa global ao longo de uma série de etapas e mesmo que tente, em diferentes momentos, sossegar as pessoas, ou certos grupos de pessoas, de que elas irão escapar aos horrores – se elas alinharem tranquilamente e não protestarem nem resistirem enquanto outras estão a ser aterrorizadas e são alvo de repressão, deportação, “conversão”, prisão ou execução.

 

Uma linha do tempo com lições para hoje:

A ascensão de Hitler ao poder

14 de dezembro de 2016

 

Em 1933, Adolph Hitler tornou-se chanceler da Alemanha. Esse evento deu início a alguns dos maiores horrores do século XX. Eis algo que a maioria das pessoas não sabe, ou se o sabe, demasiadas não querem saber das suas implicações: Hitler e os nazis chegaram ao poder através dos canais estabelecidos da democracia e das eleições. A seguinte linha do tempo descreve os eventos chave da ascensão de Hitler ao poder.

* * *

1919

No rescaldo da esmagadora derrota da Alemanha na I Guerra Mundial, o país entra numa generalizada crise económica, política e moral. Uma tentativa de revolução comunista é submersa em sangue. Ao mesmo tempo, é dada às organizações fascistas uma grande margem para se organizarem.

1921. Adolph Hitler torna-se líder do Partido alemão dos Trabalhadores Nacional-Socialistas (os nazis). Ele combina apelos patrióticos populistas à classe média arruinada com um programa que apela à subjugação violenta dos países vizinhos a leste. Ele usa e agita um ódio e medo ignorante e violento dos judeus. Ele pede a revogação da cidadania dos judeus. Na pessoa e no programa dele, Hitler promove e simboliza um revivalismo beligerante e sem remorsos do nacionalismo alemão. Grande parte da comunicação social da classe dominante alemã, e grande parte da sociedade, ignora-o como palhaço.

1923

A República de Weimar é a forma democrática através da qual os capitalistas-imperialistas alemães governam a Alemanha. Hitler lidera 2000 fascistas armados na cidade de Munique, numa tentativa de derrubar a república. O objetivo dele é estabelecer um regime fascista sem qualquer fingimento de liberdades civis ou eleições. A tentativa de golpe de estado é um fracasso mas serve como grito de reunião para os fascistas em toda a Alemanha.

1924

Os 24 dias do julgamento de Hitler por traição tornam-se num manifesto muito publicitado do programa fascista dele. Ele denuncia a República de Weimar como “traidores” cuja fraqueza trouxe humilhação e derrota na guerra. Hitler é condenado por traição mas cumpre menos de um ano de prisão. Na prisão, Hitler escreve o infame livro dele, Mein Kampf (A Minha Luta). O livro reafirma teorias racistas adaptadas daquelas que eram amplamente promovidas nessa altura nos Estados Unidos. Articula um programa de genocídio contra os judeus, uma guerra à maneira de pensar e aos valores cosmopolitas (tolerantes e iluminados) e um regime absoluto através do terror sem disfarces. Apela ao restabelecimento do poderio alemão através da invasão e conquista de territórios a leste. Não há agora nenhuma base para ninguém alegar ignorância do programa de Hitler.

1925

Saindo da prisão com uma audiência nacional e um apoio mais poderoso de vários setores da classe dominante alemã, Hitler e os apoiantes dele decidem que a melhor maneira de atingirem os objetivos deles é por meios legais e eleições. Ao mesmo tempo, os “camisas castanhas” nazis – bandos armados de terroristas fascistas – aumentam a violência contra os opositores a Hitler, em especial os radicais e os comunistas.

1928

O partido de Hitler obtém apenas 2,6 por cento dos votos nas eleições nacionais.

1929

A crise económica global é despoletada pelo crash do mercado bolsista norte-americano. A crise devasta a economia alemã. Os nazis ganham um maior apoio e são vistos como a melhor opção por cada vez mais setores da classe dominante alemã.

1930

O partido de Hitler obtém 18,3 por cento dos votos nas eleições para o Reichstag (o parlamento alemão).

1931

Hitler e os nazis entram no parlamento e formam coligações com os partidos reacionários mais estabelecidos. Funcionários nazis são eleitos ou nomeados em regiões chave da Alemanha.

1932

Hitler fica num forte segundo lugar nas eleições presidenciais. Ao mesmo tempo, quase um terço dos votos vai para os comunistas ou para os social-democratas que se opõem a Hitler. Os nazis designam o grande movimento comunista da Alemanha como alvo dos seus ataques mais violentos. Ferozes confrontos nas ruas crescem entre fascistas e comunistas.

Janeiro de 1933

Os confrontos entre nazis e comunistas são invocados pelos nazis para exigirem “lei e ordem” e o fim das liberdades civis. As milícias e os capangas paramilitares nazis são formalmente integrados nas forças policiais oficiais como “polícia auxiliar”. Na quinta eleição em cinco turbulentos anos, os nazis obtém 44 por cento dos votos. Não é uma maioria absoluta mas é uma maioria – um maior número de votos que qualquer outro partido. Hitler é nomeado chanceler pelo Presidente alemão Hindenburg. O governo de Hitler é constituído por um terço de nazis que controlam as forças de repressão e o ministério da propaganda. O resto do governo é constituído por figuras conservadoras e reacionárias do sistema tradicional – antigos monárquicos e representantes dos novos capitalistas, entre os quais um mogul da comunicação social. Os programas deles coincidem em muitos pontos com o de Hitler, embora no essencial não partilhem a fixação dele em exterminar os judeus. Eles fornecem ligações críticas e dão legitimidade ao regime.

Fevereiro de 1933

O edifício do Reichstag é incendiado. Os historiadores em geral têm concluído que os nazis planearam o incêndio e que o levaram a cabo para atingirem os seus próprios objetivos. As culpas são atribuídas a uma conspiração comunista. Uma gigantesca guerra de propaganda incrementa a histeria anticomunista. As milícias nazis e a polícia oficial atacam os comunistas.

Março de 1933

Apesar do terror e da intimidação, milhões de pessoas continuam a votar nos comunistas nas eleições nacionais. As dezenas de comunistas que estão no Reichstag são encarceradas ou passam à clandestinidade. O Reichstag passa uma lei que dá a Hitler o poder absoluto por quatro anos. Os restantes partidos políticos são proibidos. O sistema prisional alemão não consegue acomodar as dezenas de milhares de opositores ao regime presos por Hitler – esmagadoramente comunistas. O primeiro dos que virão a ser muitos campos de concentração é instalado para os deter. Mais tarde, milhões de judeus e outras pessoas serão transportadas para o que virão a ser os campos da morte.

1934

Os nazis declaram que são o partido que pode unificar o país, impor a lei e ordem e restabelecer os valores tradicionais. Os sindicatos são abolidos e substituídos por organizações laborais nazis. Os rivais de Hitler no governo são presos e mortos. Após a morte do Presidente Hindenburg, Hitler assume a posição de presidente da Alemanha, para além de chanceler.

Nos 11 anos seguintes, seis milhões de judeus, membros do povo Roma (“ciganos”), homossexuais, pessoas com deficiências, comunistas e dissidentes são presos e levados para campos de morte na Alemanha e na Europa ocupada pelos alemães. Com Hitler, o imperialismo alemão inicia guerras com os imperialistas rivais (França, Grã-Bretanha e EUA) e invade e ocupa a Europa de Leste, escraviza e sacrifica povos considerados “inferiores”. A Alemanha invade a (então) socialista União Soviética, resultando na morte de cerca de 27 milhões de pessoas na União Soviética. A derrota da Alemanha nessa invasão foi o acontecimento mais definidor que levou à derrota e ao colapso do regime nazi.

* * *

A História não avança repetindo-se, e o futuro não está escrito. Mas a História fornece lições e seria muito pouco sensato, para dizer o mínimo, utilizar o conforto do facto de que, neste momento, nos Estados Unidos, o Presidente-eleito Donald Trump encabeça uma vasta e contraditória aliança de forças de direita. No início, Hitler governou como parte de uma vasta coligação de forças. Além disso, à medida que Trump avançar com a repressão de alguns dos grupos que ele escolheu com alvo, seria muito sensato aprender com a lição de Martin Niemöller, o clérigo alemão que, depois da guerra, fez a famosa declaração seguinte:

Primeiro, levaram os comunistas, e eu não disse nada porque não era comunista.

Depois, levaram os judeus, e eu não disse nada porque não era judeu.

Depois, levaram os sindicalistas, e eu não disse nada porque não era sindicalista.

Depois, levaram os católicos, e eu não disse nada porque era protestante.

Depois, levaram-me a mim, e nessa altura já não havia ninguém para falar.

 


Recursos / Referências / Material de base:

The Rise and Fall of the Third Reich—A History of Nazi Germany [A Ascensão e Queda do Terceiro Reich – Uma História da Alemanha Nazi], William L. Shirer (1960)

Why Did the Heavens Not Darken? The “Final Solution” in History [Por Que os Céus Não Escureceram? A “Solução Final” na História], Arno J. Mayer (1989)

Martin Niemoller and the Lessons for this Moment” / “Martin Niemoller y las lecciones para este momento ”, Toby O'Ryan, Revolution/Revolución/www.revcom.us (20 de outubro de 2005)

Revolution Responds To Question on Nature of Holocaust” / “Revolución responde a una pregunta sobre la naturaleza del Holocausto”, Revolution/Revolución/www.revcom.us (31 de outubro e 21 de novembro de 2010, respetivamente)